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domingo, 4 de janeiro de 2015

Como (não) ser uma pessoa melhor?

Sempre acreditei na possibilidade de ser uma pessoa melhor do que as outras gerações. Pensava que isso seria possível, porque a minha geração viu acontecimentos impressionantes na História. Acreditei que era possível, porque eu li mais livros do que a minha vó, vi mais peças de teatro do que meu bisavô e assisti mais filmes do que minha mãe. 

Sempre acreditei que era possível melhorar o mundo, porque não seria possível cometer os mesmos erros que foram feitos no passado. Eu, por uma questão de tempo e espaço, já estava numa grande vantagem. Todos falavam isso para mim. Todos gritavam o meu nome, me prometendo um belo futuro.  Era o meu troféu, meu destino antes de nascer. A minha geração estava destinada ao gozo supremo, já que todas as batalhas já foram vencidas. 

O que temos? Uma pilha de antidepressivos e alguns jovens suicidas antes de completar trinta anos. Nos deram algumas centenas de frases de autoajuda. Algumas frases de efeito nos autdoors, isso é o mais próximo de poesia que poderíamos chegar nessa geração, (já que ninguém mais gosta de ler essas bobagens artísticas). 


Sempre pensei que poderia escrever o próximo Crime e Castigo. Eu e mais centenas de jovens, tão egoístas e mimados, como aprendemos a ser. Andamos nas esquinas dessa cidade e, para respirar um pouco de ar, precisamos aprender a fumar, para conversar despreocupadamente, precisamos aprender a beber, para sermos fortes, precisamos aprender a cheirar e etc, etc, etc. Aprendemos a nos drogar, porque é impossível viver sem as nossas verdadeiras musas, sem sexo, sem gênero, sem interesses, sem identidade, apenas um gole, um trago, uma carreira e só. Vai ficar tudo bem. 


Os meus melhores amigos sempre diziam essa estúpida frase: "vai ficar tudo bem". Eu como acreditava nos anjos e nos demônios, tinha fé nessa frase da mesma forma que Candinho acreditava no Pangloss sem piscar os olhos, sem sentir indignação e sem questionar. Crer é isso, é não questionar. Essa frase é mais repetida do que comercial de bebidas alcoólicas; as pessoas tentam nos convencer que ela é verdadeira, honesta e mágica.


"Vai ficar tudo bem". Quando Candinho ouviu essa frase, logo aconteceu o terremoto mais famoso de Londres. "Vai ficar tudo bem", de repente, as torres gêmeas são destruídas. "Vai ficar tudo bem", então, massacre de bebês palestinos. "Vai ficar tudo bem", greves, manifestações, medos incontornáveis, mortes, suicídios, greves, manifestações. "Vai ficar tudo bem, temos um partido de esquerda no poder". 


Quando Candinho ouviu essa estúpida frase, ele perdeu uma bunda, foi parar na inquisição, quase morreu. Imagino que a nossa geração seja uma espécie de Candinho que acredita numa promessa bela e maravilhosa; ela nos feita vintes anos atrás e algumas vezes somos capazes de matar por ela. Como alguns homens são capazes de matar por amor. A única morte legítima é a faca de um amante numa mulher amada. Aposto que o amante sempre diz: "vai ficar tudo bem, não vai doer nada, a faca só vai entrar um pouco, é só a cabecinha. Eu te amo!". É assassinato, mas quem se importa, foi por amor. 

Eu que imaginava que, para ser uma pessoa melhor, tinha que estudar, duvidar e ter mais conhecimento do que as outras gerações. Eu que imaginava que, para ser uma pessoa melhor, tinha que ser capaz de matar por amor. Imaginava que precisava ter bondade, ter sede e ter gentileza. Ao contrário, precisava era ser má, muito cruel, precisava ser capaz de ser cínica, precisava mentir, odiar e criar laços de indiferença. Para ser uma pessoa "melhor", eu tinha que ser o que não me ensinaram, precisava ter coragem de falar outra frase: " não vai ficar tudo bem". 

"Não vai ficar tudo bem, não está tudo bem, vai demorar anos, séculos, a nossa tão esperada eternidade, para um dia ficar tudo bem. Somos cruéis demais para ficar tudo bem. Nunca vai ficar tudo bem. Está tudo horrível!". 

sábado, 27 de dezembro de 2014

Criança

nunca gostei mesmo da forma que os adultos tratam as crianças. Ao contrário, sempre achei muito bonito como os poetas falam das crianças, como é um mundo a ser descoberto. Uma criança não possui forma, pode ser qualquer um, é algo maravilhoso. Hitler já foi uma criança, Einstein também. Acho que nunca gostei desse tratamento dos adultos, porque acho insuportável alguma pessoa ignorar a outra. 

Já viram o que os adultos discutem? Nada demais, crianças, eles morrem de medo do escuro; alguns homens adultos discutem calorosamente qual é a bunda mais bonita entre as empregadas, essa é a discussão mais profunda desses adultos. Porém, vocês enfrentam dragões, monstros no armário e espíritos malignos! Vocês sentem o terrível  gosto do inferno sobre as cabeças e vivem num mundo construído pela estupidez dos adultos. O Mal é real, isso é efeito da maldade e da ignorância que eles fazem com vocês. 

"Ah que saudade da aurora dos oito anos!" O idiota que escreveu isso, era um péssimo poeta e é uma pessoa que não entendeu as atrocidades do tempo. Crianças não caem na lábia dos adultos, eles não sabem o que fazem. Deus é uma criança; eles não admitem isso, preferem acreditar que é um velhote sem humor, sentado na cadeira, olhando o absurdo que é a raça humana.

Os adultos, (alguns, nem todos), já se esqueceram o que é enfrentar dragões cotidianamente, ficaram apáticos e insensíveis. Virem adultos, crianças, mas não esqueçam de enfrentar os seus dragões! Eu compreendo vocês, eu, pelos menos, acho que compreendo. Já faz anos que vou para uma festa de família e não brinco entre as crianças, fico entre os adultos e me sinto tão estúpida do que eles. Já faz anos que não concordo o que é um adulto nesse mundo de ignorância. Por isso, prefiro acreditar na infância de Deus e nos duendes para controlar o absurdo que é o nosso tempo. 

Por ora, prefiro permanecer criança entre a ignorância dos adultos! 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Telefone

- alô! Alô? Tem alguém aí no outro lado da linha? Eu só queria conversar com você. Como vai você? Pergunte pra mim também. Ok. Ok. Eu vou imaginar que tem alguém do outro lado da linha perguntando isto: "Olá, como vai você?". Vou até fazer uma outra voz: "Oi, pequena, como vai você? Me conte o seu dia"

 Ei voz invisível, aconteceu tanta coisa hoje. Cheguei em casa e coloquei aquela canção do Roberto, sabe, lembrando do tipo célebre que Ana C. descreveu num certo poema disperso. Esquecida, destemida, penso que, dessa vez, o fim é definitivo.  Ó voz invisível, já fiz de tudo para esquecer essa pessoa.

Aprendi inglês, dancei Ragatanga, desenhei, toquei "Hey Jude" no violão, fiz uma viagem para Peru, perambulei asfaltos. Aí, fui dramática, chorei demais, pensei numa cena para fazer esse tipo célebre voltar pra mim. Hoje, vou me suicidar com pílulas anticoncepcionais, deitar em cima da privada e cantar: "por isso eu sou vingativa! Vingativa! Vingativa! Vigantivaaa".

Não tem como se apaixonar e emburrecer pouco?

Pera aí! Não desligue, voz invisível, porra, eu só quero conversar com alguém, (mesmo que esse alguém não exista), não me deixe falando com o teto. Eu já disse que eu te amo. Eu te amo. Nunca falei isso pra ninguém. Nem pro tipo célebre eu disse essa frase, ao contrário, eu disse que odiava ele. Era mentira; eu nem sentia ódio e nem amor o que eu tinha era muito tesão. Pior que levar pé na bunda apaixonada, é levar pé na bunda com calcinha molhada. Fiquei puta! Puta mermo! Sabe o que fiz? Na-da. Só comi uma caixa de chocolate inteira e fui pra casa assistir Faustão. Deprimente, né!

ei, voz invisível, mas a história de suicídio é verdade, vou me matar com essa caixa de anticoncepcional e é pra já! Tô começando agora. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, dez. 30 pílulas na minha boca, vou engolir tudo com vinho barato, vou morrer assim. Aí, meus harmoniosinhos, todos revoltados querendo briga. Não adianta pedir as suas coisas de volta, não adianta, meu querido, eu estou indignada com a sua ausência. Olha só, minha cartela de anticoncepcional vazia! Eu só estou esperando o efeito da morte, tchau vida!

Não tem mesmo como se apaixonar sem se emburrecer

Você não me entende que sou essa bolha de tesão e sentimentos, eu sou essa coisa toda confusa. Você não entende, pera aí, voz invisível, não vai embora, não me deixa sozinha, eu detesto ficar sozinha, eu não sei o que fazer. Eu não consegui me matar. Poxa, a culpa é sua! Ei, eu não consigo te esquecer, me emburreço tanto.


sábado, 8 de novembro de 2014

Motel de gatos

Eu tinha voltado muito tarde em casa, nunca tinha percebido a frequência dos gatos no telhado vizinho, que eu podia vê-lo através da janela. Minha gata Amélie é uma vira-lata, com olhos verdes, com seus maravilhosos 5 anos, preta e branca, ela gosta muito de passear, mas volta sempre. Amélie vive uma vida boa de sofá, comida e sofá. Amélie é um cachorro disfarçado de gato, é muito manhosa, gosta de ser o centro das conversas, é vaidosa e dorminhoca. 

Há um gato preto na rua que sempre paquerou Amélie, ele já é bem conhecido. Em termos humanos, podemos dizer que ele é o canalha da rua, já transou com gatas, já transou com gatos. É um desses animais que prestam serviço público, oferecem prazeres, não pertence a ninguém, é da rua. Ele geme igual a um humano, tanto que, várias vezes, foi confundido com um humano. 

Minha mãe, esses dias, perguntou para mim:

- seu namorado estava aqui?
- namorado? Mãe, não namoro ninguém
- mas, eu escutei gemidos, você não anda trazendo homens pro seu quarto?
- claro que não, mãe (rindo) 

Eu tinha voltado muito tarde em casa, mas a orgia começara às 16h, nenhum humano foi convidado. Então, ouvi gemidos, eram gatos. Aí, eu percebo que o telhado vizinho, na realidade, era um disfarçado motel de gatos, por isso, a frequência era tão alta. Era duas horas da manhã, eu morrendo de sono, não sabia exatamente o que fazer. O som de gemidos era ensurdecedor. 

O que eu senti foi inveja da festa dos felinos. A ponto de querer ser chamada para diversão, eu fiquei embaixo das almofadas, tentando contar elefantinhos azuis. De repente, a Amélie pulou em cima de mim, estava fugindo. O gato preto (o canalha da rua) olhou para nós duas, com uma mistura de ódio e desejo, eu fiquei sem entender o acontecimento. Amélie ficou escondida sob meus pés, o gato preto foi embora, a minha gatinha olhou dissimuladamente para mim, como se pedisse desculpa pela noite que passou fora. Eu fui tomar água, ela me seguiu até a cozinha. 

Tomando água. Ouvi: MI.... AU.... AU... AU.. MI.. AU... AU.. Os gatos gozavam, eu não consegui dormir. Amélie, despreocupada, foi dormir no sofá. Eu sentei ao lado da minha gata, pensando: " a vida sexual desses gatos está mais divertida que a minha, viu". Mi... auu... auuu.. auuu.. Mi.. au... au..Amélie dormiu como um anjinho, eu engoli goles d'água, pensando: "essa gatinha saí à noite, se diverte, depois volta aqui e dorme no sofá como se não tivesse acontecido nada. Eita vida boa! Eu queria dormir assim". 

Resultado: quando o humano não dorme, os gatos fazem a festa. 

Dor de cabeça

Nunca imaginei que ia ficar na cama, porque eu comi besteiras durante a semana. Descobri a palavra azia, foi uma surpresa ruim. A escritora mexicana Ángeles Mastretta foi quem definiu a vida feita de surpresas. É uma maneira diferente de enxergar o mundo e os acontecimentos, mudou a minha perspectiva da vida, (as dores de cabeça também mudaram). 

Me ligaram hoje à tarde, disseram: 

- você foi convidada pra um casamento
- ah sim, obrigado - eu respondi

Eu senti uma enxaqueca, vinda de lugar nenhum. Provavelmente, a análise da vida podia explicar o surgimento desse sintoma. Uma dor de cabeça não pode ser apenas uma dor de cabeça, fiquei pensando nas atitudes alimentares, amorosas, familiares e amizades.  Chegando à conclusão de que eu, definitivamente, não sou a melhor pessoa para escrever sobre a vida. 

Essa conclusão, eu já sentira alguns anos atrás. A minha incapacidade de escritora define esse jeito desajeitado de viver, as pessoas que eu conheci, outras pessoas que eu deixei. Na realidade, eu só gostava mesmo de conhecer pessoas novas, ouvir o que elas tinham a dizer, aprender coisas novas e etc. De repente, comecei a sentir repulsa, me pareceu que a vida estava muito rotineira. Todo o mundo deseja ser Bukowski. 

Senti dor de cabeça, passei dois dias acamada, desejando não sentir a mesma dor de novo. A única coisa que me passou pela cabeça, além dos arrependimentos, das surpresas de raciocínios e a impossibilidade de ler poesia. Foi o óbvio! Lavei os meus cabelos curtos com shampoo cheiroso, vesti roupas limpas, escovei os dentes. Diante da cama, prestes a dormir, o óbvio foi tão intenso: "minha nossa senhora dos duendes malignos, por que há tantos adjetivos e advérbios nos meus textos? Esses duendes são uns pentelhinhos, colocam vírgulas onde não devem, escrevem palavras desnecessárias e lotam o seu texto com advérbios".  

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

A Máquina de Lavar Roupas

Na série de televisão, que passou entre os anos 1980 e 1990, chamada Anos Incríveis, (The Wonder Years), teve reprises depois na TV Cultura, eu cheguei a assistir, quando eu tinha 12 anos, ter assistido esse seriado é uma das coisas que mais me orgulha de existir. Houve muitas coisas marcantes: uma delas a música With a little help of my friends, interpretada por Jonh Cocker. A outra coisa marcante foi um dos episódios. 

O episódio do velho carro do pai de Kevin. Era um carro que estava na família há anos, pertencia a família como um membro, era um objeto individuado com uma história singular. Se eu não me engano, (estou falando de memória, não vou ser tão fiel aos acontecimentos),  era um carro amarelo, não muito atraente, mas já tinha passado por quase todos os acontecimentos importantes da família. Até que o pai de Kevin decide vender o automóvel, a família estava sem dinheiro. 

O seriado era narrado em primeira pessoa. O narrador era o Kevin adulto, contando as suas experiências da infância, puberdade, adolescência e juventude. Me recordo, nesse episódio do carro, que eu chorei muito, quando o carro foi vendido. Foi um dos primeiros episódios que eu vi, mas fui enfeitiçada imediatamente. Kevin é uma criança nessa fase do seriado, ele conta que a despedida do carro foi o mesmo que se despedir de alguém da família. A família ficara reunida, ao lado de um e de outro, como se aquela fosse a oportunidade de todos lembrarem o que significou todos os anos juntos. O carro era quem reunia todos da família, quando o automóvel foi vendido, uma parte de todos também foi embora. Kevin envelheceu um pouquinho nesse episódio. 

Hoje, recordei desse episódio, porque acabou de acontecer algo importante na nossa família. Quando eu cheguei em casa, minha mãe disse:

- filha, aconteceu uma coisa séria!
- eu fiz alguma coisa? ( pensando nas culpas acumuladas no cartório) 
- a sua irmã morreu
- irmã?
- a máquina de lavar roupa 
- sério, mãe?

Ficamos silenciosas. A máquina de lavar roupas tem 23 anos, entre nós duas, há um ano de diferença que nos separa. Ela é o objeto mais antigo da nossa casa, já possui uma existência externa. Quando minha mãe casou com meu pai, a primeira coisa que comprou foi essa máquina de lavar roupa. Aí, meu irmão nasceu, depois eu nasci, depois tivemos cachorros, fizemos uma grande mudança nas nossas vidas, saímos de Santo Amaro e nos mudamos para Santana. A máquina de lavar roupas sempre esteve no nosso lado, nunca nos abandonou. A nossa história morreu um pouquinho hoje. 

- e aí, o que você vai fazer mãe?
- vou tentar levar ela pro médico?
- se acha que tem chance de cura 
- espero que sim, já estamos sem água, agora ficar sem máquina de lavar roupa não dá

Ficamos tristes. Relembrei imediatamente da cena do carro de Anos Incríveis. Hoje, eu envelheci alguns anos. 

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Beijo na boca

O assunto desta crônica é uma entrevista da atriz Drica Moraes, (ela interpreta uma vilã na novela Império), no programa Irritando Fernanda Young. O programa era uma espécie de Talk Show ao lado de umas esquetes de humor. O objetivo principal era irritar a Fernanda Young, é um desses programas que o entrevistador se revela mais do que o entrevistado. Entretanto, os entrevistados entram na brincadeira de estar nesse programa e é possível ouvir informações interessantes dos convidados. 
Só peguei um trecho da entrevista, está aqui embaixo: 


Nessa entrevista, Drica Moraes fala sobre os relacionamentos amorosos, ela diz que é muito importante ficar sozinha no relacionamento, mas é muito difícil. Acertar essa dose de amar alguém sem precisar submeter é difícil. A distância que é preciso ter para amar uma pessoa. Qual é a distância do amor? Esses é um dos trechos mais bonitos da entrevista, é possível escrever uma poesia.  

A trivialidade principal, que deu origem essa irrelevante crônica, é o assunto que surgiu por causa do quadro Paca, Pouco e Pica. Fernanda Young pergunta para Drica Moraes, se ela se incomoda Paca, Pouco ou Picas com beijos na boca em público. A atriz responde que não, ela adora beijo na boca, "é de parar!". 

Inspirada nesse percepção da realidade, eu pensei sobre beijos na boca. Se eu me incomodava com eles? Percebi que, na realidade, quando olho um casal, hetero ou homossexual, eu sinto inveja de estar naquela situação. Não é exatamente uma questão de parar na rua para olhar beijos na boca, (mesmo havendo cenas de demonstrações públicas bem bonitas mesmo!). O que acontece comigo é sentir inveja mesmo. 

A origem etimológica da palavra inveja é latina, in e videre, significa não ver. Leandro Karnal discute o pecado da inveja como um pecado envergonhado, é um pecado que não sentimos orgulho de sentir, pois, quando há inveja, também existe uma sensação de fracasso enrustido, ou seja, de vazio que não foi preenchido. O Outro mostra não o que é, mas o que não é. Esse choque com essa figura que se opõe, revela a vergonha, ou seja, o que nós não somos diante de Outro, é o melhor modo de percepção e de autoconhecimento. 

O beijo na boca em público é maior sensação de inveja que eu sinto na minha vida. Esses dias, eu fui para faculdade, ia assistir à aula noite. Encontrei três casais distintos, agarrando-se pelos cantos. O primeiro casal era um casal hetero, eles estavam bem tranquilos, não eram beijos furiosos, mas senti inveja da tranquilidade de ver os olhares entre. O segundo casal era gay, dois homens, estavam beijando suavemente a testa do outro, depois, o homem mais alto deu um beijo silencioso como uma despedida, o outro homem parecia muito triste. O terceiro casal era gay, duas mulheres, encontrei nos corredores da faculdade, estavam próximos da biblioteca, deram-se beijos quentes, uma apertava a outra furiosamente. 

Olhei todos os casais no meu caminho, senti remorso imediatamente. Beijo na boca é motivo de inveja pública, por isso, ora é reprimido, ora é liberado, desde que seja um beijo comportado e civilizado. Um beijo que aparenta pessoas de bem. 

Beijos assim são a maior violência ao amor. Tenho dito. 

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Aos meus fumantes queridos

Minha relação com cigarro é passiva. Convivo a maior parte do tempo com fumantes, quando eu sinto que não há cheiro de cigarro do meu lado, eu acho que está faltando alguma coisa no cenário. Nascida em São Paulo, posso dizer que respiro fumaça, é antinatural (ao meu corpo inclusive!) não ver e não sentir alguma massa sólida no ar. A fumaça em São Paulo é palpável. 

Tudo começou quando minha mãe era fumante, ela parou de fumar, quando eu completei seis anos. Desde então, nunca mais senti cheiro de cigarro em casa. Minha mãe nunca mais acendeu um cigarro. (A não ser, quando eu via figuras inesquecíveis, essas imagens masculinas que marcaram a presença da minha casa, eram fumantes). Quando eu era criança, olhava a minha mãe fazendo bolinhas com a fumaça que saía da boca. Imaginava na minha cabeça que aquilo era uma espécie de bolinhas de espuma para adultos. A imagem da minha mãe agachada e fumando silenciosamente na beira do tanque foi muito marcante na minha infância. 

Quando cresci, namorei com dois fumantes. Homens marcantes que falavam muito pouco, quando eles fumavam, parecia que eram o modo deles marcarem presença na minha vida. O silêncio era melhor maneira, que nós tínhamos (eu e esses namorados), de comunicação. A fumaça sempre acompanhou esse diálogo mudo. 

Ao mesmo tempo, houve uma política mais agressiva de impedir fumantes no espaço público, a fumaça tornou-se incômoda para todos. Imagens assustadoras de mortes prematuras de bebês, impotência sexual masculina, mortes e mais mortes etc. Essa publicidade negativa do cigarro teve o efeito esperado, a minha geração de jovens diminuiu drasticamente o número de fumantes. Eu mesmo, nascida num ambiente excessivo de informação, fui muito afetada, entendi que a variável mais importante para essas doenças era o cigarro.

(o que é mesmo! Poréns...) 

Meus melhores amigos são fumantes e muitos dizem: eu posso até ficar sem sexo, mas não fico sem cigarro. A relação, que eles têm com a fumaça, é até religiosa. Acho curioso que, diante de tanta violência, mesmo depois de tanta publicidade negativa, ainda existir um discurso poético para imagem da fumaça que sai da boca dos fumantes. Tenho impressão que, mesmo os escritores que não são fumantes, são apaixonados por essa imagem do fumante desajustado. O cigarro é o símbolo da resistência da poesia. 

Dizem que a boca fala o que o coração está cheio. Do ponto de vista do fumante, a fumaça é religiosa, é cheia de palavras, tranquiliza a sensação de mal estar no mundo. Diante de tantos vícios, o vício do cigarro me parece tão pequeno. Quando eu estou sozinha, não sinto cheiro de cigarro (ou mesmo de maconha), não consigo me sentir em casa, sinto saudades. 




quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Realidades absurdas: " de onde as pessoas tiram essas coisas?"

1) Estamos vivendo numa Ditadura Gay

comentário pessoal:  Entendo a Ditadura Gay como um controle para impedir o aumento de heterossexuais na população, esse controle é feito pelo Estado. A Polícia Militar, um dos braços ideológicos de violência do Estado, usa um uniforme rosa com minissaia, bate na residência dos civis e os obriga caminhar até porões ou espaços ilegítimos para fazer tortura. A tortura é obrigar os civis cantar "I want be free" ou "I will survive", para depois, os civis sofrerem violência sexual. Homens são obrigados a dar o cú. Mulheres são obrigadas a "brincar de DJ". 


2) O Brasil está vivendo em um estado feminista

comentário pessoal: essa frase é ambígua. Podem oferecer dois sentidos diferentes. Estado e estado são palavras homônimas, possuem a mesma forma, mas são palavras diferentes. Estado (com letra maiúscula) significa uma das divisões de uma República Federativa, constituída por uma nação e que faz parte - segundo a nossa Constituição Civil - da União; Substantivo Masculino. A palavra estado se refere a outra coisa, estado é derivado do verbo estar, diz respeito a um comportamento biológico, espiritual ou mental de uma pessoa. 

Na minha opinião, o estado feminista é um efeito produzido por drogas, ainda pouco relatadas na sociedade (a droga ilícita chama-se FÊMEN ou Bouno Sense), que consiste alterar o comportamento ideológico das pessoas de um comportamento heteronormativo e machista para uma noção ideológica feminista e que defende o fim do sexismo, o combate a uma sociedade patriarcal e heteronormativa. Essas drogas não possuem preço acessível para maioria da população, por isso, não se encontra ainda nas farmácias populares. 

3) As feministas são assassinas, porque elas defendem o aborto

comentário pessoal: Essa frase é uma afirmação extraordinária, portanto, exige uma evidência extraordinária. Há, pelo menos, três implícitos nessa frase:

1) implícito n.1: o aborto é um crime comparável ao homícidio
2) implícito n.2: as feministas já fizeram um aborto 
3) implícito n.3: as feministas são naturalmente abortistas

Independentemente, das posições em relação a esse tema, não é plausível fazer uma afirmação assim. Quando se diz que as feministas são assassinas, o pressuposto é que elas já fizeram o crime do aborto, por isso, elas defendem tanto. É fácil comprovar a fragilidade dessa afirmação, eu mesmo sou a quebra dessa hipótese. Sou feminista e nunca fiz aborto. O fato de existir feministas, isso não significa que a simples existência delas é o sinal de vários abortos feitos no Brasil. As feministas não acordam abortando; não ficam com gripe e resolvem fazer um aborto; não transam para fazer um aborto; não sonham para produzir abortos na realidade. As feministas não têm esse poder. Sendo assim seria muito simples fazer um aborto, bastava apenas se tornar feminista. Simples assim. Não precisa de tanto trabalho e nem passar por um procedimento invasivo e violento. 




sábado, 27 de setembro de 2014

Deus e a falta de humor no cristianismo

Ano passado, fiz uma declaração inocente para minha mãe a respeito de Deus. Falei o que eu pensava e no que, sinceramente, acreditava:

- o único Deus que eu acredito. É num Deus como uma criança pentelha que fica brincando, inocentemente, com a via láctea e com o planeta Terra. Nos colocando em situações absurdas, já que, para esse Deus, a inocência é a sua maior característica. Ele mesmo não sabe o que é bem e o que é mal.  Eu prefiro acreditar que Deus é uma criança pentelha do que acreditar num Deus, pai, autoritário, sem senso de humor e incapaz de dar uma risada. 

Ao dizer isso, eu dei gargalhadas sinceras. Minha mãe respondeu como se eu tivesse feito uma grande heresia:

- para de fazer isso!

- por que? É melhor um Deus palhaço? Os palhaços são muito tristes, mamãe. Prefiro acreditar num Deus criança, pentelhinho, distraído e estabanado

- filha, para de fazer essas piada, 

- mas, eu não estou fazendo piadas

- não se deve brincar com Deus

- por que?

- não se faz piadas com Deus 


Imediatamente, me lembrei dessa imagem sobre a ideia de não se brincar com Deus (fonte: http://www.umsabadoqualquer.com/?s=com+deus+n%C3%A3o+se+brinca ):



domingo, 21 de setembro de 2014

O riso e o humor

Esse é um tema espinhoso também, mas absolutamente interessante. Vamos conversar sobre humor?Sim. Vamos.

Eu fiz uma oficina de teatro na minha puberdade. Nessa oficina, tive uma professora marcante e ela sempre costumava dizer: 

- " eu não gosto de comédia" 

Nós, jovens ignorantes e apaixonados estudantes, respondíamos:

- "mas, por quê?" (Como algum ser humano no mundo pode não gostar de comédia? Isso é, realmente, possível). 

Ela, firmemente, respondia:

- "Não é todo o mundo que sabe fazer direito, porque a comédia é uma das coisas mais difíceis de fazer. Na maioria das vezes, os esteriótipos do mundo são sempre usados como muleta. Bom, não gosto, prefiro ver drama". 

Podíamos dizer que essa minha professora de teatro era de outro planeta. (Afinal, ela é uma solene aquariana). E, por muito tempo, sempre tive essa pulguinha na minha cabeça, era verdade que nem todos sabiam fazer humor? Comédia é o gênero mais difícil de trabalhar? Ela falou com tanta sinceridade e honestidade que preferia drama, que, para mim, me parecia inconcebível existir alguém assim. Provavelmente, eu não faria muito sucesso na escola, convidando meus amiguinhos para assistir Hamlet, de um grupo de teatro da Lutânia, no Centro Cultural de São Paulo. Os meus amiguinhos do colégio fariam a mesma expressão de espanto, que eu fiz, quando descobri que havia alguém no mundo que preferia drama a comédia.  

Stand- up e etc 

Eu não conheço na minha idade, na classe média paulistana,  alguém que nunca assistiu um show de stand-up. Mas, conheço muitas pessoas, na classe média, que nunca assistiu uma peça de teatro, mesmo tendo todas as condições para ver um espetáculo. Na maioria das vezes, eu escuto: "ah, eu prefiro ver cinema. Ou, até gosto de teatro, mas prefiro ver as peças engraçadas. Ou, teatro é muito caro assistir". 

O que é um show de stand-up? Para mim, durante algum tempo, era uma pessoa estúpida fazendo comentários de rosto limpo sobre coisas que qualquer um poderia fazer. A sensação era, mais ou menos assim, imagina uma reunião familiar e um tio, que todo o mundo gosta, mas ele (esse tio) vive fazendo comentários machistas e racistas na mesa do jantar. Piadas sexistas, comentários esdrúxulos sobre o mensalão, o bolsa-família e etc. O que se faz nessas situações? Muitas vezes, rimos para não perder a cordialidade entre os parentes e pedimos para os nossos duendes da guarda adiar o horário para ir embora. 

O riso, que soltamos, não é verdadeiro. É um riso para manter as aparências, é uma cordialidade detestável entre os parentes. É muito semelhante, por exemplo, quando estamos entre meninos. Sempre convivi mais com meninos do que com meninas, (aliás, acho que é mais fácil conviver com homens). As brincadeiras de criança dos meninos bagunceiros evoluem para conversas descompromissadas da mesa do bar, não tenha dúvidas, mesmo o homem mais esclarecido vai soltar uma piada desnecessária. Entre as meninas, isso também acontece, fazer piadas desnecessárias a respeito da sexualidade dos homens, são piadas ruins que servem para manter a ordem e as aparências. Qual é o riso comum na maioria das vezes nessas situações? É o riso, que eu chamo, de pena. 

A maioria da plateia, nesses shows de stand-up, quando riem. Alguns soltam o riso verdadeiro, porque acreditam nesses esteriótipos dados que nos foram oferecidos. Outros riem para manter as aparências e por cordialidade. É até engraçado, alguns moralistas dizem que o que falta no Brasil é respeito. Na minha opinião, ao ver as plateias atuais, acho que respeito existe demais. Dá vontade de ver o que se pregava antigamente sobre os teatros gregos. Ver o público levantando, não aplaudindo e etc. Não, somente, aos shows de stand-ups, como outros espetáculos de teatro e cinema.

Mudei minha opinião sobre os stand-ups, quando conheci um ateu chamado George Carlin e uma artista argentina, que faz piadas sobre a homossexualidade e a heterossexualidade, as drogas e etc. O George Carlin está aqui:  (https://www.youtube.com/watch?v=qzMZulL52Bk) . E a comediante Argentina é possível encontrar no documentário do Pedro Arante " O riso dos outros", está aqui: https: (//www.youtube.com/watch?v=uVyKY_qgd54). 

A escolha: passar a mão na bunda do mendigo ou não?



Eu procurei uma imagem, que me chamou mais atenção, no documentário " O riso dos outros" ( https://www.youtube.com/watch?v=uVyKY_qgd54 ), de Pedro Arantes. Não encontrei nenhuma. Por isso, resolvi desenhar. Por que escolhi essa imagem acima? Por causa do depoimento de Antonio Prata, escritor, eu decidi que essa, talvez, fosse a melhor imagem do que é humor. O depoimento é este: "Quando você ofende uma pessoa que não pode ser ofendido, esse humor é grande. É passar a mão na bunda do guarda. Essa é uma piada que eu acho ofensiva pro guarda, mas o guarda tem uma arma e um cassetete, é engraçado porque você tá se arriscando. Passar a mão na bunda de um mendigo... ". 

Me surpreendi vendo esse documentário. Não sabia que diversos artistas, que fizeram Comédia MTV, também eram artistas de Stand-up. Paulinho Serra é uma figura, que sempre achei muito engraçada no comédia MTV, (https://www.youtube.com/watch?v=SVgMhFlfXnE ) , e outros comediantes também, que passaram no documentário. Esses artistas do Comédia MTV, me parecem, que, assim como Rafinha Bastos, também confundiram as coisas. E, para justificar a ignorância, respondem cinicamente: " é só uma piada". 

Voltando para o depoimento de Antonio Prata. O que significa passar a mão na bunda? Significa desrespeitar alguém. Charles Chaplin desrespeitava a autoridade, quando passava a mão na bunda de um guarda. É como se dissesse: "olha, você não me pega, você, seu bobão, não vai conseguir me matar, ao contrário, eu vou enganar você. Lero Lero lero!" É o mesmo que ri da tirania, do desrespeito, da violência policial e etc. É uma ofensa grande. Ele foge da possibilidade de morrer pelas mãos do Estado. E o contrário. O que é passar a mão na bunda de um mendigo? Também é desrespeitar alguém. Nesse caso, é desrespeitar alguém que não tem dinheiro sequer para comprar um pedaço de pão. É atingir alguém que, muitas vezes, não vai conseguir devolver a ofensa. É desrespeitar um sujeito que não tem uma arma, não tem poder de fogo e, sem dúvida, não vai atacar de volta.

Danilo Gentili, no documentário, faz uma piada sobre os mudos. Quando ele tenta justificar a piada, piora mais a sua atitude do que se não tentasse explicar. Segundo esse humorista, quando essa piada foi apresentada, não houve nenhuma reação violenta, havia somente uma pessoa muda na plateia que viu a piada, mas não ouviu. A piada do mudo era a seguinte: Gentili perguntava para plateia: "Por que um mudo tenta falar?". Depois, reiterava: "eu nunca vi um cego, tentando ver. Mas, o mudo sempre tenta falar". Após isso, Danilo Gentili imitava, que nem um retardado, a maneira como um deficiente auditivo tenta se expressar em público. Ele prefere passar a mão na bunda dos mendigos, afinal, por não ter uma arma de fogo, esse humorista não corre nenhum perigo de morte.

No Dragon Ball Z, um desenho animado que passava na TV Globinho, acontecia um procedimento muito interessante com os heróis. Depois que Gohan ou Goku levavam muita porrada, ficavam cansados e cuspiam sangue. A raiva deles também aumentava. Essa força produzia uma elevação no seu QI. Aì, eles ficavam mais fortes, violentos e intensos na luta. É uma metáfora, que é meio infantil, da reação dessas minorias historicamente oprimidas,  (mulheres, negros, deficientes e etc), com relação algumas piadas desses artistas. Esses grupos políticos já levaram muita porrada, ouviram uma outra porrada em forma de piada, então, decidiram entrar na luta. Aì, ganharam os processos judiciais.

Quando há uma decisão em fazer comédia. A primeira pergunta que precisa responder é: "eu vou passar a mão na bunda do guarda ou vou passar a mão na bunda do mendigo?". Essa pergunta pode definir toda a orientação do seu trabalho.

A crueldade e o humor 


Certa vez, eu ouvi de alguém que o humor é cruel. A bunda da piada é sempre feia. Não é possível fazer piada se existe esperança, fé ou otimismo. A origem da piada é a falta de fé, o acaso e o pessimismo. Quando eu penso em humor, necessariamente, me vem a figura do Coringa, personagem do Batman (quero ainda escrever somente sobre ele). No quadrinho, de Alan Moore, " A piada mortal", Coringa era um palhaço, que não conseguia fazer a plateia rir, não conseguia sustentar sua família. Por isso, entrou para criminalidade. Muitas vezes, como diz o Coringa, " é por conta de um dia", que nos transformamos para vida inteira.

É o gênero mais difícil de trabalhar, mas ele pode afetar as pessoas da maneira mais imprópria. Um gênero traiçoeiro. E, talvez, seja o melhor gênero para estimular o pensamento matemático, para humilhar a lógica, para humilhar as autoridades, para rir dos sanguessugas da miséria humana, para humilhar a arrogância humana. A comédia possui esse dom, talvez, nem seja um dom tão nobre. Entretanto, é o que ela tem e o que pode nos oferecer.

Não vou dizer que prefiro comédia a drama. Mas, sou inclinada a dizer que, muitas vezes, tenho mais prazer de ler personagens com senso de humor exaltado a personagens com tendências suicidas por conta de suas crises morais ou éticas. Rir é o pior remédio, mas é o mais divertido sem dúvida.

Choremos.


sábado, 20 de setembro de 2014

Vamos contar uma história de racismo

Eu não gosto de falar desse tema. Não é pela razão de que é um assunto muito polêmico e espinhoso. Não é isso. Temas polêmicos precisam e devem ser discutidos por pessoas que se interessam minimamente por estudos nas humanas e pela dignidade humana, (sem dúvida, também pelos artistas que, na minha opinião, pode se dar ao capricho de não precisar ter todas as fontes científicas e referências eruditas a respeito de tudo. O que eu quero dizer com isso.Um artista não necessariamente será um bom artista, porque ele é comunista, feminista, ateu ou gay. Ele vai ser bom artista se fizer uma boa arte. Simples assim. Mas, deixemos isso para outro assunto). 

Eu não gosto desse assunto, simplesmente, porque eu não sou a vítima direta do racismo e - digamos, usando uma expressão coloquial do português, - "eu não manjo dos paranauê teórico, entendeu?". Então, decidi escrever sobre esse assunto através de uma crônica. Afinal, elas (as crônicas) não necessariamente precisam ter um formato rígido, e não preciso me esforçar muito para checar informações, procurar referências e etc. Posso apenas contar uma história pessoal e comentar minhas impressões dela que eu tenho a respeito. 

O que me incomoda mais do preconceito, não é somente a violência física. Obviamente, ter a consciência da morte de milhares de negros em periferias e lugares marginais é bastante perturbador. Mas, sejamos sinceros, sem hipocrisia, por mais perturbador que isso seja, eu durmo tranquilamente à noite. Eu acordo, pego ônibus, escuto minha rádio F.M. no meu celular, vou para faculdade, escuto os professores doutores me jogarem teorias e livros goela abaixo e vivo muito bem. Obrigada. Nada acontece, para mim ao menos, já que não nasci com a cor negra estampada na minha pele. O que eu tenho é sangue negro, mas não tenho cor, por incrível que isso pareça, a cor negra é um traço de distinção social altamente relevante. 

Eu estudei em escolas públicas minha vida inteira. Estudei em três colégios diferentes, todos foram escolas estaduais. Sempre achei natural que as meninas negras fossem humilhadas pelos meninos bagunceiros, afinal, cabelo cacheado é feio. Essas verdades foram se apresentado prontas para mim. Não houve sequer nenhuma contestação de que, talvez, a ideia de cabelo cacheado ser feio fosse uma invenção social. Eu estudava em um colégio estadual chamado Frontino Guimarães, tinha uma menina na minha sala, que agora não vou recordar o nome dela, que era dentuça, tinha cabelos cacheados que sempre os deixava preso e era negra. Ela tinha um apelido "carinhoso" na sala de aula, os meninos bagunceiros chamavam essa menina negra de Dengue. Aliás, os meninos bagunceiros tinham a mania irritante de humilhar essa menina e outras meninas, aparentemente, isso sempre foi visto com muita naturalidade. Afinal, são somente meninos, eles podem fazer piadas com as meninas. É só brincadeira de criança. 

Passou alguns anos. Eu fui uma exceção dentre vários colegas que estudaram comigo, consegui entrar numa universidade pública. É difícil de explicar para as pessoas o que significa entrar numa universidade pública. Depois de alguns anos fazendo faculdade, percebe-se que essa realização é uma besteira total, que a sociedade seria melhor governada por golfinhos. Entretanto, quando eu estudava em uma escola estadual, quando não estava fazendo uma graduação, a entrada em uma universidade pública era uma espécie de paraíso. Achava mesmo que todas as minhas angústias seriam resolvidas imediatamente, encontrando pessoas estranhas como eu e, finalmente, tendo a possibilidade de ter voz. (Isso pode acontecer no paraíso, mas não acontece em uma universidade pública brasileira). 

A literatura tem uma influência profunda na imaginação das pessoas, nas ideias e, às vezes, nos costumes e nos hábitos das pessoas. O Brasil é um país que não tem uma tradição de grandes leitores, na escravidão, os leitores pertenciam as classe sociais mais privilegiadas. No livro " A formação da literatura brasileira", Antonio Candido explica que o leitor-modelo mais presente na formação do que hoje conhecemos como literatura, era, na sua grande maioria, mulheres brancas e homens brancos, eruditos e pequenos Brás Cubas. Homens que poderiam olhar no andar de cima, diante dos meros mortais, sentar sobre as costas de um negro e dá risadas debochadas sobre a natureza humana. Não pense que isso é pouco. 

Nas escolas estaduais, não se ensina filosofia direito, sociologia direito e muito menos ciência direito. Não pense que isso pouco.  Há pouco tempo, não havia, se eu não me engano, nem sociologia nas escolas, eu não tive sociologia na escola. E tive uma filosofia fragmentada, pouco trabalhada, pouco estudada. (Tive um excelente professor de filosofia, Márcio Palharini, mas, eram duas aulas,  de cinquenta minutos, e muitos de nós com dificuldade enormes de leitura e indisciplinados. Mesmo um excelente professor, como ele é, teria muita dificuldade em ensinar bem sua disciplina diante de um cenário desses).  Ciência, enfim, isso é uma piada. É melhor não comentar sobre esse assunto. Estudar numa escola pública ensina: 1) você não tem chance de entrar numa universidade pública; 2) você não tem chance de melhorar em matemática; 3) você não tem chance de ser alguém na vida; 4) você não tem chance de melhorar em redação; 5) você não tem chance. 

Você não tem chance 

Isso é um mantra. Os professores repetem isso o tempo inteiro, o crescimento da autoconfiança negativa é acompanhado com as palavras. Você não tem chance. Você não tem chance. Você não tem chance. Ao lado de algumas violências escolares comuns, a dose de apoio, por parte da instituição pública, é bastante negativa também. A conclusão é bem simples. A maioria dos alunos da rede pública estadual tem uma autoconfiança abaixo de zero, bastante difícil de ser reconstruída. Por isso, repito, é muito difícil explicar para as pessoas a sensação de entrar numa universidade pública. Depois de ouvir centenas de vezes, você não tem chance. Você não tem chance. 

Agora, vamos para história de racismo. As ideias ficam arraigadas na nossa imaginação. Não é mesmo? Quando entrei na faculdade, eu me senti muito feliz. Uma sensação única. Conheci diversos autores. E um dos autores que mais me marcou, era um homem chamado Milton Santos. Até então, eu só tinha ouvido falar, superficialmente, a respeito das ideias dele, mas não tinha visto nenhuma foto dele. 

Como sempre fui uma pessoa curiosa. Resolvi procurar no mundo mágico do Yotube alguma entrevista dele. Boom! A surpresa. Milton Santos é um negro? Como?  Eu fiquei surpreendida, não conhecia o autor mesmo. Fiquei surpresa com a possibilidade de um homem tão culto e erudito ser um homem negro. De repente, eu entendi. O mantra "você não tem chance" é mais internalizado na sociedade do que eu imaginava. 

O lado bom disso: eu, realmente, comecei a desconfiar das imagens prontas que eu sempre aprendi 
O lado ruim disso: o racismo é aprendido como algo natural, há muito nele em mim que não conheço. 

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Por que os comedores de morango são assassinos


Os morangos me enojam

Eu não estou interessada em aceitar a possibilidade de existir outras pessoas que sentem o gosto de morango diferente de mim. Na realidade, o meu pressuposto é acreditar que o sentimento de nojo é verdadeiro. Devo entender, inclusive, como uma lei no universo. Pessoas que gostam de morango são naturalmente nojentas, libertinas e assassinas. 

O morango é uma fruta vermelha, mole, rasteira. Só há uma espécie de morango no planeta. Não existem outras espécies catalogadas, mesmo os pesquisadores falando que existem outras espécies. Eu não procuro, porque sou muito preguiçosa para pesquisar que gênero pertence esse fruto. Aliás, isso é um pseudo-fruto, podemos fazer um paralelo com tomate, por exemplo. Na bíblia, a Eva quando comeu o fruto do pecado, na realidade, ela comeu o morango. Não há nenhuma indicação de que a Eva comeu uma maçã. Poderia muito bem ser o morango, afinal essa fruta vermelha incita a sexualidade nas pessoas, por consequência, também é uma das determinantes da violência. Os afrodisíacos, como morango e frutos do mar, são alimentos que suscitam no cérebro possíveis surtos. Obviamente, todos os comedores de morangos estão suscetíveis a serem libertinos e assassinos por natureza. 

"Não esquecer por enquanto é tempo de morangos" (Clarice Lispector) 

Em primeiro lugar, não conheço essa mulher. Clarice Lispector não é uma escritora de autoajuda? Enfim, não importa. Essa frase está equivocada. Não estamos em tempo de morangos. O tempo é uma instância sem cheio e nem cor. E, como moramos em São Paulo, o tempo ganha alguma solidez. O nosso tempo é de trânsito. O cheiro é de óleo queimado, o ar tem a solidez de um concreto. Não faz o menor sentido dizer que o tempo é de morangos. Eu falo isso, porque eu não sou capaz de entender uma metáfora, tive uma péssima professora de literatura na escola. 

E se o tempo fosse de morangos, todos estariam suscetíveis a fazer sexo o tempo inteiro e produzir vitamina C. Aliás, eu não creio que os morangos produzem muita vitamina C, um fruto tão nojento quanto esse, não pode produzir boas vitaminas. Eu acredito que os cientistas criaram essa informação para vender mais morangos, porque, obviamente, a ciência está completamente associada ao pensamento de mercado. Elas servem aos moranguistas, aos tomatistas e todas essas criaturas nojentas que dizem que o nosso tempo é de morangos. Mas, não é verdade, o nosso tempo é de enlatados e McDonalds. 


os comedores de morangos são assassinos 

Eu não sou uma comedora de morango. A minha visão de mundo é a mais importante. A maneira como eu apreendo o mundo e o modo como não faço nenhum esforço para entender outros pontos de vistas.  Esses são os únicos pressupostos que realmente interessam. Se eu falo que o gosto de morango é de esgoto e barata, todos precisam imediatamente sentir o mesmo gosto. (Mesmo que eu nunca tenha passado necessariamente pela experiência de comer baratas ou experimentar a água do esgoto). 

Os comedores de morangos são assassinos, matam bactérias e as vitaminas C, que são necessárias no nosso planeta. Eles matam inocentes. Por isso, para resolver a questão da morte de bactérias e de vitaminas C, eu proponho matar todos os comedores de morangos, inclusive aqueles que foram obrigados a comer morangos, porque os pais disseram que comer frutas são importantes para o crescimento e o desenvolvimento natural. Essas pessoas que foram forçadas a comer morangos, precisam também morrer, porque foram corrompidas pela moral de minorias, como os moranguistas e os tomatistas. Esses grupos políticos, que insistem apresentar uma visão de mundo diferente da minha, na realidade, eles pagam cientistas para dizer que o morango e o tomate são frutas. E não são. São nojentas, são pseudo-frutas. 

o fruto não nasce morango, se torna morango

Essa frase que os moranguistas insistem em dizer é ridícula. Se o fruto não nasce fruto, ele nasce o quê? Ele nasce fruto e vai se tornando um peixe. Essas minorias não têm nenhuma coerência, precisam estudar português, não sabem escrever direito. Não sabem ler. Não sabem nada. Eu sei de tudo. 

a obrigação de comer frutas 

A sociedade nos obriga a comer frutas, porque é um alimento fundamental para nos fornecer vitaminas e energia. Mesmo entendendo a importância desse alimento natural, não consigo acreditar que o morango é uma fruta. Acho que, mesmo assim, o pseudo-fruto pode ter vitaminas C, mas incita a violência e a libertinagem, portanto, os comedores de morango assassinam os nutrientes e as bactérias, que produzem energia. Os moranguistas injetam essa quantidade de vitaminas C nesse pequeno fruto, porque eles são ricos e pagam cientistas para fazerem esses experimentos com os morangos. Não mudo a minha opinião, eles são assassinos, por isso, vamos deixar que eles morram. 

Aos que são obrigados a comer morango, mesmo não gostando de morango, também merecem que sejam submetidos à pena de morte. Não importa, eles foram corrompidos pela moral dos moranguistas. Eles são fracos, provocaram a fome e terminaram se alimentando desse pseudo-fruto nojento e horroroso. Por isso, matamos também aqueles que comem morangos, porque sentem fome.  

Morte aos comedores de morango já! 


quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Listas de coisas impossíveis

Quando Alice entra no mundo avesso dos espelhos. Ela encontra a Rainha Branca, que explica sobre a ordem do tempo e a sua prática matinal de imaginar seis coisas impossíveis no café da manhã. Por que estou falando isso? Costumo fazer essa prática, acho muito interessante o que a imaginação pode nos revelar. 

Fazer uma lista de compras do mês no supermercado. Faz parte das atividades banais do nosso dia a dia. Não consideramos isso algo incomum. Todo o mundo já escreveu:

1) comprar ovos
2) comprar pacotes de suco tang
3) comprar filé de frango
4) três pãezinhos 
5) bananas 
6) absorventes 
7) 4 tomates 
6) alfaces 
7) arroz 
8) feijão 
9) café 

Aí, fazemos a lista, somamos o valor do produto e vemos quanto que podemos gastar no mês. É uma ótima prática econômica caseira, sabemos, dessa maneira, o que pode sobrar e gastar com outras perfumarias (roupas, livros, revistas e etc). E o que não podemos gastar. (Na maioria das vezes, o dinheiro não sobra muito, fazer o quê, né. Mas, não custa tentar). É uma ilusão acreditar que as listas, um dos gêneros mais objetivos, é um caminho correto e normativo para acontecer exatamente o que se planejou. 

Quando vamos ao supermercado. Mesmo tendo colocado oito itens, tendemos facilmente aos desvios. Compramos um chocolate, um bolo de laranja (para beliscar no meio do ócio), refrigerante e etc. Os desvios não são colocados nas listas, porque são os números decimais, não damos muito importância. Mas, eles existem. ( Não acreditamos em bruxas, duendes e espíritos, mas que eles existem, existem). As listas servem para nos fornecer um mundo concreto e ideal, por isso, nunca as respeitamos totalmente. 

"com certeza não tem muita prática, disse a Rainha, quando eu era da sua idade, sempre praticava meia hora por dia. Ora, algumas vezes cheguei a acreditar em até seis coisas impossíveis antes do café da manhã" (p. 147). 

Resolvi testar essa prática. Imaginar antes do café da manhã, pelo menos, seis coisas impossíveis. Descobri que a mente pode se divertir muito com essa prática. Afinal, listas de supermercado e listas de coisas a se fazer no ano vão minando a nossa capacidade de criar universos surreais. Faz parte da literatura a capacidade de ensinar a nossa imaginação que o impossível pode não ser tão intocável. Enquanto, outras ciências nos ensinam uma maneira de enxergar a realidade, a literatura nos ensina a utopia. Palavra grega que significa lugar nenhum.  

Façam o exercício em casa. Imaginem como a rainha branca seis coisas impossíveis. Alimentem as fantasias na cabeça de vocês. Aqui está alguma das minhas listas:

- voar sentada em um dragão
- encontrar um cachorro mago
- as baratas dominarem o mundo
- extraterrestres escrevendo poesia
-beber cerveja com as bruxas de Macabeth
- gatos anarquistas fazendo a revolução e confundindo a cabeça de crianças 
( lista do dia 6 de agosto de 2014)


- um dinossauro apresentando o programa do faustão 
- suicídio em massa de computadores
- uma bicicleta voadora que faz kamekamerra 
- um dragão fazendo stand-up
- golfinhos dominando a galáxia 
- Flores que xingam e são sisudas
(lista do dia 21 de agosto de 2014) 


Fonte:

CARROL, Lewis. Alice: Aventuras de Alice no país das maravilhas & Através do espelho e o que Alice encontrou lá. Tradução de Maria Luiza X. A. Borges. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2010.