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sábado, 19 de julho de 2014

Cópia de Ana C.: para explicar uma reminiscência

ei, querido amigo, que eu tenho tanta intimidade, e não vejo desde quando eu prometi que ia conhecer seus filhos, me desculpe o meu desleixo. Vida de paulistano é intensa e vaga, sabe qualé que é. O Gabriel, seu filho mais velho, já deve ter sete anos. Ele também é leonino, não é? Está chegando o meu aniversário, vou fazer vinte e cinco, já estou sonhando com meus trinta. Essa idade (os trinta), pra mim, na minha infância, era uma utopia distante. As crianças possuem uma limitação para enxergar o tempo, não veem que o tempo pode alargar mais as nossas experiências concretas. Os pequenos humanos vivem em um mundo curto e efêmero, sem expectativas futuras imediatas ou duradouras. Não imagino que elas sejam mais felizes por conta disso, eu mesmo – ó meu querido amigo! – fui uma criança muito triste.
quero contar as novidades e estou fugindo do assunto. Você está rindo? Não tenho dúvidas que está dando gargalhadas. Estou errada? Pois então... Estava eu, sentada na poltrona 35, voltava pra Sampa. Ao sentir o clima seco e a chuvinha suave, (irritante e contínua), sobre minha janela, percebi que a cidade de São Paulo estava próxima. Essas intuições, depois de repetidas tantas vezes, se tornam costumes e hábitos de recepção da cidade, que concebe uma massa de pessoas esquecidas e anônimas dentro de um ônibus quase todos os dias. Acostumada com a multidão, senti que dividia o espaço com uma solidão coletiva, eu estava imersa entre homens e mulheres, sozinhos. “Estamos chegando em São Paulo”, pensei.
senti o cheiro forte de menta no ar. Sonolenta, cochilei em cima de uma mulher com pernas desnudas e camiseta verde, ela também estava cansada, por isso, não reclamou da minha cabeça repousada em seu ombro. Era um sono, mais ou menos vigilante, ora acordava, ora sonhava pequenos fragmentos do que eu vivi no Rio. Fiquei na casa do Bruno, por uns tempos, conversamos sobre literatura e as manifestações duras que estavam acontecendo no Brasil. Logo, em seguida, conheci um colombiano que estava muito animado em conhecer o nosso país, estava achando o Rio lindo e achava as mulheres cariocas muito liberais. Eu disse a ele que não gostava de futebol, entretanto, eu gostava mais do Maradona do que Pelé. Ele riu, comemos batata frita e tomamos duas garrafas de cerveja. O cinema foi pro beleléu, a turma queria mesmo era bater papo. Eu dava risada e decidi que ia passar à noite na casa de Joana.
lembra de Joana? Aquela amiga minha da escola que ficou muito bonita. Ela tem mania inglesa, gosta de chá, quando eu acordei, ao invés, do nosso tradicional café, tomei chá de maçã com bolachas e queijo. Joana pensava em mudar de vez pro Rio de Janeiro, ela se tornou carioca de coração, largou o Corinthians, seu time de infância, pra torcer pro Flamengo, não reconhecia sequer seu sotaque. Era uma outra pessoa! Estávamos felizes. Afinal, somos jovens comuns, sorrimos gratuitamente e, de vez em quando, nos entregamos às ilusões. Fomos beber, era tardezinha, estávamos de férias, conversamos, rimos, contamos piadas. Joana estava um pouco angustiada, pois, daqui algumas semanas, ela voltaria pra São Paulo. Eu brinquei: “sair do Rio pra voltar pra Sampa, isso, minha querida, é carma, é castigo!”. Ela riu concordando, havia tristeza no riso. Cinco minutos depois, eu deixei as minhas chaves cair, abaixei e apanhei-as.
aí, eu vi. Era ele, (esse mesmo, meu amigo, quem você está pensando), o último lugar que eu imaginava encontrá-lo era no Rio, estava lá, belo, audacioso, como se o tempo não estivesse passado pra ele. Era um homem comum pros outros, mas pra mim, era aquele homem. O tipo célebre! Que eu não via há sete anos. Não direi obviedades aqui, meu amigo, baste imaginar um prédio caindo em sua cabeça e, nesse instante, o medo não aparece, porque não há tempo, você só consegue respirar ofegante e enfrentar o risco da morte. Eu o vi, ele também. Me cumprimentou, eu também, tivemos algumas conversas estranhas, ele me perguntou como estava minha mãe, eu respondi que estava bem. Enfim, demos beijos na bochecha e, cada um, foi pro seu canto, escoltados por seus amigos. Desencontrando nossos olhares, voltamos pros nossos rumos.
senti o cheiro de menta no ar. O ar intoxicando minhas narinas, avisando que o aroma não era mais de mar, o cheiro de asfalto substituía. A realidade paulistana me lembrou da minha vida intensa e vaga, quando acordei do meu sono vigilante, era uma pessoa comum que desencontrava com outros olhares anônimos e vagos. O tipo célebre não me perturbava mais. 

quinta-feira, 22 de maio de 2014

A última palavra de Julieta

1 parte: A Canção de Julieta

Eu sou pequenininha como uma larva
                    no meio da rua crava
                   o meu coração

                pequenos joguetes da paixão
                 evaporam
                 (rotineiros)
                Sombras de ciúmes e caos
                doce duo
               (derradeiros)
                Sobram suspiros mútuo

                eu sou pequenininha como uma larva
                no meio da esquina crava
                o meu coração sobre uma pedra de cristal
               borrado de sangue e medo
           
             um desenredo colossal 
             marca todas as histórias de amor
             crimes severos perpetuam mitos
              grandes histórias de amor são belos homicídios

             eu sou pequenininha como uma larva,
             cantada por trás de lindas palavras,
             no meio do papel crava
             minha alma
             cruel e dissimulada
            profunda e mortal


2 parte: Uma carta ao Romeu

Aos berros, Romeu diz: Julieta! Julieta!
Eu respondo: não grites, Romeu!
Romeu diz: por você, eu te dou meu coração, o céu e todas as estrelas
Eu digo: não precisa de tanto, não desejo nem estrelas e nem violetas
Romeu diz: essa paixão me violenta, quero a ti e serei teu. Prometo à lua
Eu digo: Não faça isso, não prometa à lua. Se prometer a mim sobre o teu amor, faça essa promessa por ti, quem eu acredito e sou adoradora.  Não faças promessas à lua, ela é de natureza inconstante e muda de fases; ora cheia, ora meia, ora inteira. Não quero acreditar que esse amor que sente por mim, sofre a inconstância da lua. Jure, meu Romeu, jure por ti e eu vou acreditar
Romeu jurou simplesmente.

Eu sou pequenininha como uma larva
Sepultada no meio da madrugada
Crava o meu coração
Com um veneno doce de todas as palavras
Malditas e eternas
Toda a paixão
é um anúncio de morte

Uma palavra como um corte
Arranca um pedaço
Rasga o aço
Floreia o mórbido
Romeu e Julieta
Flertam com a morte

Eu sou pequenininha como uma larva
No meio do tempo crava
outras palavras:  

“Romeu, por ti, eu amei a liberdade
E só, por isso, eu te amarei por resto de toda a eternidade
O teu amor era inconstante como a lua
Mas, a liberdade é dura e lascívia,
como venenosas larvas,
alinhando as tuas veias pálidas
jovens e estúpidas.
Romeu, por ti, eu amei a ideia de estar livre das caixinhas
Mas, morri uma jovem bela e estúpida
Ainda bem que não morri virgem e amarga
Romeu, por ti, eu amei uma vida nova
Menos cínica, menos hipócrita
Tu és um tolo herói, morreste por falta de pensamento
Por contentamento, apenas por isso,
A nossa história de amor foi a única que teve um final feliz.”

Com carinho e doçura,

Tua, sempre tua, eterna e jovem, Julieta

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Confissões de uma mulher feia

À todas as mulheres do mundo

Caminhamos pelas ruas, comemos cachorro quente com coca-cola. Somos gordas ou magras, temos um sorriso banguela, um rosto desarmônico e não somos mulheres sedutoras. Nunca nos fizeram uma bossa nova, nunca nos dedicaram uma poesia, não ganhamos nenhum concurso de beleza. Somos as rejeitadas. No máximo, satisfazemos sexualmente os maridos, noivos e namorados, quando as boas e belas mulheres não estão olhando. Somos as migalhas, o pequeno vestígio do bolo de chocolate.
Caminhamos pelas ruas, somos seres invisíveis. Mas, ainda assim, somos notadas. No consultório do ginecologista, as nossas vaginas são, impessoalmente, acariciadas sem intimidade ou carinho. Sentimos, então, o peso de não sermos belas, quando não podemos ter intimidade com as divas ou com os bons partidos. Os homens nos tornam piadas, somos motivos de riso em bares e em banheiros masculinos.
Você não sabe de mim, faço parte desse grupo de mulheres. Você não vai me chamar de diva, não vai ver o meu rosto na tela do cinema. Eu estava na esquina mais próxima do apartamento, onde você mora. Deitada sobre o asfalto, meu corpo seminu foi esfaqueado duas vezes, depois que um homem robusto, muito bonito, me estuprou.
Caminhamos pelas ruas, não percebemos que, ao nosso lado, existem pessoas. Eu era uma pessoa, mesmo sendo uma mulher feia. Fui estuprada, porque eu era uma mulher, andando no meio da noite, sozinha, não usando roupas decentes. Eu achava que ninguém iria perceber o meu corpo, mas o estuprador percebeu. Não posso nem dizer que me senti humilhada novamente, porque você vai dizer: “você devia ficar feliz! Afinal, nunca vi uma mulher bonita reclamar que foi estuprada. É só mulher feia”.
Você vai dizer isso, mas nunca me notou, porque eu era invisível, não era uma mulher que você convidaria para jantar. Agora, não existo mais. Não sou mais uma presença desconfortável à sala de estar. Mas, você vai repetir: “você devia ficar feliz! Afinal, um homem apareceu na sua vida e te notou”. Não foi um homem que me notou, foi um estuprador que me matou.
Caminhamos, invisíveis, pelas ruas. Somos mortas no asfalto todos os dias. Não pense que é uma realidade morna, não pense que é menos por que foi com uma mulher feia. Você não me conhece, não me trate como um animal. Os meus sofrimentos são verdadeiros, eu fui humilhada, porque eu existia. Ninguém vai recordar que, um dia, uma mulher feia morreu no asfalto esfaqueada por um homem bonito; depois do estupro, ela agonizou e bufou sangue.  Mesmo assim, você vai dizer: “você devia ficar feliz! Nunca vi mulher bonita dizer que foi estuprada”. Eu não posso mais ficar feliz ou triste, porque eu não existo mais. Não sou que escrevo essas confissões, não posso mais ter sentimentos, não posso discursar por mim. Mataram-me, porque eu fui uma mulher andando sobre o asfalto. O estuprador não sabia que eu era uma mulher feia, ele me estuprou, porque eu era uma mulher no lugar errado e no momento errado. Mataram-me e, agora, não sou mais uma mulher concreta, eu não existo mais. Do dia para noite, me tornei uma mulher morta sobre o asfalto. Você não notou de novo, porque eu era uma mulher feia.


quarta-feira, 19 de março de 2014

Decepção de escritora

-ele me olhou ontem
- e aí?
- eu fiquei paralisada, não sabia o que dizer. Você sabe que não sou boa em esconder sensações, fiquei sem voz
- ele falou com você?
- não. Eu falei com ele. Me aproximei, disse o meu nome e peguei o número de telefone dele. E depois, depois, bem depois, sabe, de várias tentativas, nós nos encontramos.
-e, aí, o que aconteceu? Vocês ficaram?
- ele olhou pra mim e me disse: “você é uma moça muito aristotélica”. Eu fiquei muda, meus olhos endureceram. Foram palavras duras, entende. Saí, de repente, da mesa e disse: “eu não sou aristotélica”. Ele repetiu de novo a frase: “você é muito aristotélica!”. Eu me senti ofendida por ele
- você foi embora?
- óbvio que eu fui. Não vou sair com um cara que diz pra mim que sou uma moça aristotélica. Perdi o interesse,  foi assim que eu me desapaixonei por ele
- não se viram mais?

- nunca. Espero nunca mais ver ele. Onde já se viu? Me ofender assim! 

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Etiquetas sobre amor

À Nathália Ferraz

“O anjo da morte, que em certas lendas se chama Samael e do qual se conta que o próprio Moisés teve de o afrontar, é a linguagem. O anjo anuncia-nos a morte – e que outra coisa faz a linguagem? - , mas é precisamente esse anúncio que torna a morte tão difícil para nós. Desde tempos imemoriais, desde que tem história, a humanidade luta com o anjo para lhe arrancar o segredo que ele se limita a anunciar. Mas das suas mãos pueris apenas se pode arrancar aquele anúncio que, de resto, ele nos viera fazer. O anjo não tem culpa disso, e só quem compreende a inocência da linguagem entende o verdadeiro sentido desse anúncio e pode, eventualmente, aprender a morrer.”
(Agamben. Ideia da morte)

Foi na segunda-feira. As duas jovens escritoras sentaram e conversaram sobre os casos de amor. Era quase meia-noite, elas estavam sobre a grama e enxergaram a lua, nenhuma das duas sabiam sobre os segredos da existência, mas elas não eram proibidas de pensar e realizar conversas banais sobre esse assunto.
- não acredito nisso, ná – disse Lóri
- não acredita em grandes destinos e em grandes amores. Não acredita? Não acredita que uma pessoa pode reverberar a sua vida de cabeça pra baixo e fazer do seu coração, um grande trapezista
- eu até acredito! Só não acredito que uma pessoa só muda a minha vida. Eu acredito que muitas pessoas mudam minha vida. Sei lá. Bom, e também, Ná, você acredita nisso?
- acredito em amor, Lóri, - disse Ná – acredito demais. Acredito em coisas bonitas; sabe, quero uma pessoa. Não é uma loucura?
- querer uma pessoa?
- pois é. Não se bastar sozinha
- sei lá. Sei lá. Algumas ausências são mais presentes. Algumas presenças são miúdas; quase não é percebida. Mas, você devia ter se acostumado com a solidão, porque, você escreve tão bem
- se a escrita tivesse junto anticorpos pra saudades (rindo). Mas você disse bem. Como será possível?
- o quê?
- algumas pessoas nos afetam mais que outras
- sei lá. Deve ser a força de alguns encontros
As duas riram.
- Lóri, eu namorei um rapaz que só falava mentiras. O cara já tinha feito de tudo, mas era lorota, sabe, segundo ele, até puto ele já foi. É por isso que eu reconheço mentira de longe, gente que não escuta você, joga experiência na sua cara, não deixa você terminar a frase, sabe?
- sei! Desconsidera a experiência do outro
- isso!Isso! Bom, mas ele foi o primeiro cara que eu transei. E foi até bom, mas ele era um idiota
- (risos)
- você ri. Ele chegava pra mim, sem fôlego, parece que tinha corrido umas trezentas maratonas. Na frente da igreja, me beijava e me dizia: essas velha que não paga serviço. Eu ficava com aquela cara de interrogação. Ele falava: eu sou garoto de programa, acabei de chupar uma velha e ela não me pagou o serviço
- Nossa! Mas era tudo lorota?
- Tudo, Lóri, mas aprendi a diferençar, né, o que é mentira do que é verdade. Aqui na faculdade tem muitas pessoas assim
- (risos)
- e foi com ele que aprendi tudo sobre sexo
- Eu tenho uma amiga que fala que a minha vida amorosa é muito badalada. E tenho outro amigo que diz o contrário. Ele fala pra mim assim: “a sua vida sexual é muito badalada, a sua vida amorosa anda bem abatida”.  Não sirvo pra namoros não
- ah tadinha! Vou colocar você no colo (risos)
- mas, sobre sexo, eu aprendi tudo com um professor meu. Ele foi o meu professor de violão, acabei toda encantadinha, tinha dezessete anos e ele me pegou pela mão
- que que aconteceu?
-o de sempre. Devios, curvas e outros amores. Ele casou, a gente ainda se encontrava e era maravilhoso. Claro que era! O que é proibido sempre aumenta o fogo
- tipo assim, Tristão e Isolda
- tipo isso, quando eram dois adúlteros. Amor gostoso só funciona na bagunça; ele é meio pervertido e caga regras. Esse foi o problema, cagou regras demais, bagunçou a minha vida
-(risos) quantas posições estranhas do Kama Sutra emocional você fez, Lóri?
-Só não acho que foi todas, porque, você sabe, você sabe. Eu interrompi o amor e, às vezes, dói
- Amor interrompido é mania de escritor. A gente se acostuma com a tempestade, Lóri
- acho que é pra tirar o tédio, a gente inventa aventuras
- mas a gente podia fazer diferente hoje, falar de um assunto mais leve, sabe
- como assim?
- a gente podia fugir das etiquetas amorosas. E sair do lugar comum dos escritores jovens que fazem grandes e longos devaneios sobre fossas e pessoas que saíram pela porta dos fundos e deixou a gente aqui pra contar as histórias
- o que a gente podia conversar?
- Não sei, fala de você, Lóri, fala sobre os seus escritos, fala de alguma coisa boa, tava gostando de você falando. Eu falo demais
-ah! Sei lá
- você está bem?
- estou sim, hoje sim. Você tá bem?
- não sei, eu descobri um negócio. Menina, eu tava lá conversando com uma menina e descobri, Lóri, eu descobri que eu não posso, sabe, não tenho vida pra queimar
- como assim?
- eu descobri que eu vou morrer
- (risos)
- é sério! Morreu o meu avô e a moça que me viu crescer que morava na frente da minha casa. Fiquei apavorada, não conseguia dormir. Menina, eu colocava a mão no peito pra sentir se o meu coração batia. Falei pra minha mãe, ela fez essa mesma reação
- (risos) você quer que eu conte uma coisa que eu me envergonho também?
- por favor!
- eu quando achei que estava grávida, porque transei sem camisinha, fiz o meu primeiro teste de gravidez errado. Sabe o que eu fiz pra abortar o bebê. Eu plantava bananeira no meu quarto pro sangue subir na minha cabeça
- (risos) você não sentiu  remorso não? Eu dei soquinhos na minha barriga pro bebê sair, socava e não tinha nada lá dentro
- menina, fiz isso também, plantava bananeira, dava soquinhos na barriga e, depois, chorava e chorava
As duas riram.
- eu descobri que eu vou morrer, Lóri, eu preciso fazer alguma coisa na minha vida
- tá em conflito né. Eu sei lá, tenho vontade de morrer jovem, às vezes, tenho preguiça de viver. Eu acordo, tomo café da manhã, escovo dentes, é muito raro, sabe. É muito raro acontecer um encontro
- sei lá, eu prefiro ficar cansada de viver do que morrer. Lóri, o meu Deus é de amor, não faz sentido, entendeu. Nada faz sentido, a experiência que eu tive com ele foi só de amor, a morte pra mim é um anúncio esquisito. Ela não faz sentido, entende, nada faz sentido sabe
- deixa eu ver (coloca a mão no peito). Seu coração ainda está batendo, agora, nesse momento, você está viva
As duas riram.
- (Ná joga o cigarro longe) O que eu faço?
- eu não sei. Eu não tenho medo da minha morte, às vezes, eu desejo ela. Tenho mais medo da morte que toca as pessoas que eu amo. Isso, eu morro de medo. É igual aquele caso, sabe, do nosso amigo que se matou com vinte anos. Menina, aquilo me machucou fundo. O menino tinha a minha idade
- é sim. Não posso ficar falando essas coisas pra todo mundo. Posso falar isso pra você, porque você tem uns parafusos a menos
- (risos)
- você tem, né, Lóri – Ná riu – eu também tenho, tenho uns cinco parafusos a menos
 Continuaram com olhos na lua, não encontraram respostas. Ná respirou fundo, não entendendo nada. Lóri coçou a cabeça, não entendendo nada. As duas riram. O riso, nesse momento, era a única maneira que as duas tinham de fugir das etiquetas existenciais, ambas não entendiam o que falavam, por isso, se comunicavam assim. Essa experiência ultrapassava qualquer modo de entendimento e, nesse momento, a falta de compreensão do mundo formava um acontecimento que só traduzia na sensação de vazio. Elas estavam alegres, porque não entendiam.


sábado, 26 de outubro de 2013

O fotógrafo feiticeiro

Ele era um jovem fotógrafo, trabalhava em festas de casamento para conseguir algum dinheiro fora do orçamento normal. Marcos tinha apenas vinte e dois anos de idade, quando conheceu aquela pessoa que mudaria a sua vida. Ela se chamava Anita.
Marcos fotografou o rosto dessa mulher no casamento. Anita era a noiva. Ele enquadrou a figura comum do casal feliz e fez um retrato banal que representa uma felicidade matrimonial. Entretanto, ele enxergou os olhos enturvados e finos de Anita, sentiu, na superfície da pele, um leve tremor. Nenhuma fotografia que ele produziu nesse casamento, traduziu essa sensação breve e encantadora que Marcos sentiu no minuto que cruzou os seus olhos com os olhos da noiva. Ele sentiu um tremor curto que agitou os pelos do braço.
Duas semanas depois. Marcos terminou o álbum de fotografias, fez um telefonema e informou à Anita que o trabalho já estava pronto. Anita, então, estava diante da porta, esperando o chamado de Marcos. Alguns demorados três minutos que pareceram séculos na cabeça de Anita, ela esperou e esperou até que, finalmente, foi atendida pelo fotógrafo anônimo.
- você me ligou, me disse que o álbum já estava pronto. Eu vim buscar – disse Anita
- Ele está – Marcos fez uma pausa longa. Anita sentiu um leve desconforto.
- E, então, - disse Anita, - não vai buscar?
- Aaah sim! Eu vou
Marcos foi procurar o álbum. Anita ficou sozinha na sala. Enquanto ele procurava as fotografias do casamento, Anita pensava: “eu podia ter namorado esse carinha aí; bonitinho ele é”. Marcos também pensava: “que mulher linda! Que mulher jeitosinha! Que gostosa! Que gostosa”.
- está aqui! – disse Marcos
- aah! Obrigada – disse Anita, esperou o turno do silêncio e reiterou para diminuir o desconforto – você tirou fotos bonitas
- é! É sim! É o meu trabalho!
Anita foi embora rapidamente. Três dias seguintes, ela voltou e falou as mesmas coisas. Os dois só discutiram banalidades, o clima ainda continuava tenso e cheio de subentendidos.
-aah! Você tirou fotos bonitas!
- é o meu trabalho!
Anita foi embora. Marcos ficou suspenso. A sala era bagunçada, tinha uma mesa no canto esquerdo que estava preenchida com trabalhos antigos, fotos velhas e papéis em branco. O tapete branco, que recebia os clientes, ficava entre a mesa e uma planta falsa, era o único espaço vazio naquele ambiente. Marcos, às vezes, dormia lá com suas fotografias favoritas. Dessa vez, ele foi embora e foi dormir na sua casa.
Anita demorou quatro anos para reencontrar Marcos. Ele olhava fotografias, estava obcecado com as imagens de Anita que fotografou no casamento. Ela, em silêncio, estava suspensa e imóvel diante da porta entreaberta. Marcos percebeu a presença feminina, espionando seus gestos, enxergou-a e foi recebê-la.
Eles, novamente, se repetiram. Conversaram banalidades:
- aah! Você tirou fotos bonitas!
- é o meu trabalho!
Anita foi embora. Passaram dois anos. Marcos ficou ainda mais apaixonado pela imagem da noiva de olhos pretos e criou um feitiço. Toda a vez que cantasse uma valsa, a imagem de Anita lhe daria um beijo na boca. Assim, começou uma nova rotina.
Na terça-feira, a valsa foi cantada.
- eu te amo
- eu te amo
Um beijo longo. Na quarta-feira, a valsa foi cantada.
- eu te amo
- eu te amo
Um beijo longo. Na sexta-feira, a valsa foi cantada.
- eu te amo
- eu te amo
No sábado, no domingo, na quinta-feira, todos os dias da semana, essa cena se repetia frequentemente. Marcos ficava mais apaixonado, encantado e alegre com essa mulher. Quando trabalhava, não parecia mais o mesmo homem, o amor alegrava a sua rotina. A imagem de Anita, toda à noite, saía do retrato e dava longos beijos na boca, ele esquecia o mundo. Sempre adormecia. Na quarta-feira, ele adormeceu sereno e relaxado em cima do retrato da bela noiva.
Anita abandonou o seu primeiro marido, tinha viajado para Argentina, Espanha, Paraguai e Califórnia, tinha encontrado outros amores, tinha perdido contato com muitos amigos no Brasil, tinha se transformado em outra pessoa. No entanto, ela não tinha se esquecido de Marcos. Ela foi procurar esse homem. Estava lá. Anita estava concreta, outra vez, parada diante da porta vendo um homem adormecido.
Ela estava pronta, estava disposta para fazer a sua vida acontecer. Anita iria revelar o seu divórcio com o primeiro marido, as suas mudanças internas e externas e, finalmente, aquele amor calado que escondeu por muitos anos. Essa mulher estava pronta para concretizar as palavras ensaiadas por anos, que foram sufocadas nos últimos encontros com Marcos para não demonstrar nenhuma emoção ou atração, afinal era uma mulher casada.
Ele acordou, olhou a fotografia com doçura e, depois, viu o rosto concreto de Anita. Mudou radicalmente a expressão do rosto. Marcos era um homem perplexo.
- você?
- oi – Anita disse – desculpa, eu te acordei?
- É você mesmo. – (pausa) – Mas, você está com outro rosto
- já passou um tempinho depois que eu me separei
- quando você se separou?
- um ano
- faz um pouco mais de cinco anos que não nos vemos. Você cortou o cabelo? Está com outros olhos
- que olhos?
- Não sei. Seus olhos estão mais atentos
- e os seus, mais cansados
Ele sorriu devagar.
- acho que que é porque eu acordei agora - (uma fotografia estava grudada na boca, ele se livrou dela e colocou sobre a mesa) – veja só! Dormi no trabalho de novo
- estava dormindo com minha foto?
Marcos não disse nada. Anita pegou a fotografia. Ambos não sabiam o que fazer com os olhos.
- você sentiu minha falta?
- De você? Não sei. Eu senti saudades dessa daqui
- troca as noites que você anda passando com essas fotografias com uma noite comigo, uma mulher de verdade?
Ele não respondeu. As coisas reagiram sozinhas. Aconteceu um longo beijo. Ela passou à noite com esse fotógrafo. Marcos viveu uma noite com essa mulher, sentiu a concretude daquele corpo e, por um momento, questionou a realidade daquela situação. O fotógrafo desejou a solidão, havia algo nos seus feitiços que protegia contra esses sentimentos. Quando ele estava com a imagem da noiva, não tinha medo de ficar sozinho, acostumara-se com a vida solitária e com o beijo de uma mulher falsa. Estranhava o beijo de uma mulher verdadeira.
- o que você sente?
- eu? – disse Marcos – eu? Eeeu, eu, acho que, acho que é misturado
- é coisa boa?
- também é
- é coisa ruim?
- é sim. Eu sinto medo, meu amor, medo
O casal ficou imóvel. Não continuaram com a conversa, fizeram amor de novo no chão.
***
- você imaginou?
- não tinha passado na minha cabeça
- eu preciso te dizer uma coisa. Eu me separei do meu marido, porque não suportei viver uma relação mentirosa. Eu pensei várias vezes dizer que queria você, mas, sei lá, tinha medo de ser rejeitada. Deixei várias vezes o momento passar, então, pra te esquecer, eu viajei, conheci duas ou três pessoas diferentes
- você teve outros namorados?
- tive mais uns dois
- hã! – ele engoliu seco – você gostou?
- gostei – Anita fugiu dos olhares de Marcos -, mas não era isso. Eu queria estar aqui. Agora, eu sei, vai parecer meio ridículo, eu queria estar aqui, queria estar com você
Ele ficou sem jeito com seus olhos.
- eu não sei, -- ele respirou fundo --, também tive uma outra mulher na minha vida
Ela diminuiu o fôlego, fixou o olhar no rosto de Marcos.
- ela também foi importante na minha vida quando você partiu. Foi uma mulher que me fez ser uma pessoa diferente. Agora, eu não sei o que fazer
- você vai deixar ela?
- não sei
- vai me deixar?
- não sei
- o que vai fazer?
- Anita, eu me apaixonei por sua imagem no casamento. Fiquei obcecado por sua espessura do rosto, por sua pele e por seus olhos. Você tinha olhos inocentes e até toscos. Agora não! Você tem olhos atentos. Mas, eu me apaixonei por sua imagem de noiva, eu fiquei encantado por ela, eu dormia com o seu retrato todos os dias
Anita engoliu o ar seco.
- Anita, não sei se estou sendo claro, se você está me entendendo. Eu fiquei muito apaixonado por você no seu casamento. O seu noivo não percebia a raridade de figura que você era e que você não é mais
- mas, eu não entendo. Marcos, as pessoas mudam, você também mudou. Não entendo onde você quer chegar com isso?
- eu fiz um feitiço. Quando você sumiu, eu fiz um feitiço pra te esquecer
- que feitiço você fez?
Ele mostrou a fotografia que dormia todo dia e cantou uma valsa. A imagem da noiva apareceu e dançou a valsa. Anita observou aquela aparição, estava paralisada. A ilusão da mulher parecia mais real que ela própria, uma mulher concreta, presente e impregnada de tempo, memória e emoções. A noiva riu e disse:
- eu te amo
Marcos não respondeu. A noiva insistiu.
- eu te amo
Anita também disse um pouco apavorada, quase esbaforida e sem fôlego, sem certeza, se era o momento certo para repetir aquelas palavras que aquela mulher falsa repetira tão facilmente para Marcos:
- eu te amo
Marcos ficou em dúvida, sentiu vontade de beijar as duas mulheres, sentiu vontade de retribuir o amor para as duas figuras, sentiu desejo por ambas. Ele não sabia como reagir, não sabia o que fazer com o corpo. Anita reagiu:
- você não vai falar nada
A noiva repetiu:
- eu te amo
Marcos coçou a cabeça. Anita disse:
- você vai ficar aí. Que realidade você quer?
A noiva repetiu:
- eu te amo
Marcos disse:
- eu quero as duas
Anita ficou sem saber o que fazer com o corpo. Ela, sem pensar uma frase de efeito, agiu no impulso, vestiu uma camisola, saiu pela rua na madrugada, caiu em duas latas de lixo. Marcos ficou desolado, pensou em correr atrás dela, mas foi impedido pelo beijo boca que recebeu da mulher falsa. Quando o fotógrafo desceu as escadas, a chuva molhando as esquinas, ele viu um corpo estendido no chão, era um corpo de mulher. Anita tinha sido atropelada.
No dia seguinte, Marcos rasgou as fotografias do álbum de casamento de Anita. Adormeceu. Quando ele acordou, estava diante da porta um casal do último casamento que ele tinha trabalhado.
- viemos buscar o álbum de fotografias.  – disse o marido, - Eu sou o Daniel, eu que falei com você pelo telefone
- ah sim – respondeu Marcos, - mas você disse que ia trazer a sua esposa junto
- ah claro! Ela está vindo – a esposa entra pela porta da frente. Ela estava deslumbrante. Marcos sente um estremecimento nos braços. Daniel diz – olha lá! Essa daqui é minha esposa. Esse é o fotógrafo, ele se chama Marcos, amor. Ela se chama Anita
- prazer! – disse Anita
- prazer!  - disse Marcos
- as suas fotografias são bonitas
- ah! Sim! Sim! É o meu trabalho

Conversaram banalidades. O casal foi embora. Marcos ficou suspenso e solitário diante da porta, enquanto tragava o seu último cigarro. 

domingo, 25 de agosto de 2013

Ensaios sobre Amor: O estranho desaparecimento do Belo

Ele não conhecia nenhuma garota, saia de casa sempre às seis horas da tarde e dormia exatamente às dez da noite. Certo dia, ele conheceu Alessandro, era um mulherengo, dormia com muitas garotas e, sabe-se lá por que motivo, esse rapaz gostou do tímido Gabriel. Eles se conheceram em um sábado, exatamente umas seis e três da tarde.
- o que você está fazendo?
- nada. Caminhando
No dia seguinte.
- o que você está fazendo?
- nada. Caminhando
Na semana seguinte, Alessandro paquerava uma menina bonita, mas quando viu o mesmo rapaz atravessar a rua, agiu da mesma forma e até se esqueceu da mulher que estava ao seu lado.
- o que você está fazendo?
- nada. Só caminhando

Alessandro ficou ensimesmado. Porém, não sabia como fazer a aproximação com o tímido Gabriel, a curiosidade foi abatendo o seu íntimo, queria conhecer a história desse rapaz. Até onde Alessandro observava, Gabriel lhe parecia mais jovem que ele e muito distraído, não parecia ter muito jeito com as coisas, andava desengonçado, mas chamava atenção por todos que estavam na mesma rua.
De repente, Gabriel parou de andar e viu uma moça exuberante atravessar o caminho, era uma mulher que tinha cabelos longos, peitos fartos e usava minissaia. Alessandro percebeu que o olhar do rapaz tímido mudou radicalmente, permaneceu sentado para observar qual seria o próximo passo dele. Nada aconteceu, Gabriel viu a mulher passar e, no olhar, tinha uma expressão de tristeza, parecia que o horizonte estava mais longe que aparentava, os limites tendiam ao infinito. Ele se sentou sobre o chão.
- o que você está fazendo? – perguntou Alessandro
- olhando a Beleza que passa – respondeu Gabriel
- e por que não vai atrás dessa mulher?
- porque prefiro sentar aqui
- o que tem aqui?
- tem você – Gabriel mostrou os dentes timidamente
Alessandro riu, tinha esquecido que sentia atração por mulheres. Olharam-se muitas horas, perderam algumas noções de espaço e esqueceu que era quarta-feira.

Na semana seguinte, Alessandro sentou no mesmo lugar que o Gabriel. Esperou, mas ele não apareceu. Andou até o lugar que tinha passado a mulher bonita, mas não encontrou o tímido rapaz. Perguntou para uma senhora com roupa rosa, ela respondeu: “não vi nenhum menino assim”. Ele procurou por todos os lugares, perguntou para moça que paquerava na última quarta-feira, essa menina respondeu: “que menino? Você não estava sozinho?”.
Alessandro ficou com dúvida, se, de fato, ele tinha conhecido aquele rapaz tímido. Se não era uma espécie de ilusão criada na cabeça. Perguntou para o moço que vendia sorvete: “ licença, você viu um rapaz tímido, usando roupa azul e com um bigodinho discreto, ele falava esquisito e tinha sotaque que não era de São Paulo?” O homem respondeu: “não vi ninguém assim”. Alessandro parou subidamente no meio do caminho, voltou ao lugar que tinha sentado antes. Olhou para o céu, então, lembrou-se que tinha o telefone do Gabriel.
Fez o telefonema, a senhora que atendeu disse: “esse rapaz não mora aqui não”. Alessandro tossiu e empalideceu. Ele se lembrou das palavras do tímido Gabriel: “estou olhando a Beleza que passa”, pensou no sorriso bobo dele, sentiu saudades. O que tinha acontecido com aquele rapaz? Passaram duas horas, Alessandro não entendia. Não conseguiu encontrar evidências para solucionar o misterioso desaparecimento do rapaz tímido.
Quando ele atravessou a rua para ir à sua casa, encontrou uma pulseira. Gabriel tinha sido atropelado por um caminhão. Estava uma grande confusão em volta dele, Alessandro se lembrou da última frase que Gabriel tinha falado: “estou olhando a beleza que passa”. Ele, um homem alto, cabelos pretos e olhos confusos, olhou a morte de perto e pensou: “estou olhando a beleza morrer”.

No IML, um corpo de baixa estatura, com um bigodinho discreto e olhos sonhadores estava esquecido. Duas semanas depois ninguém foi procurar por esse corpo. Alessandro perguntou por Gabriel, a moça de vinte anos que atendeu, disse que tinha um corpo que podia ter essas características lá. Alessandro mentiu, disse que era irmão e que queria procurar o corpo, pois havia sumido por duas semanas. 
- é esse daqui – A moça mostrou o último corpo
Ele olhou, respirou fundo e pensou: “estou olhando a beleza morta”.
- é sim – tentou engolir o choro.
- quando tempo ele está aqui?
- duas semanas


Na quarta-feira, Alessandro paquerou uma garota. Dormiu com essa menina, olhou os olhos da garota e só conseguia lembrar a frase do tímido Gabriel: “estou olhando a beleza que passa”. Marcela que tinha uma vitalidade no olhar, percebeu que Alessandro estava distante e perguntou:

- o que você tem?
- eu não esqueço
- você não esquece alguém?
- sim – Alessandro respirou profundamente -, era alguém que tinha um sorriso muito bonito
- o que aconteceu?
- sumiu – Alessandro virou de lado e olhou para menina, ele tinha olhos confusos -,  Má, será que eu criei uma imagem na minha cabeça? Será que a gente inventa imagens de beleza?
- que que você tá querendo dizer?
- acho que me apaixonei por uma imagem, mas não tenho certeza se ela existe, não sei se aquele rapaz que eu vi na rua, foi fruto na minha imaginação, se foi sonho ou se foi delírio. Agora, agora, agora. Ele sumiu
- por que você não correu atrás?
- aí que está – suspiro longo – eu fui atrás dele em todos os lugares, eu liguei para casa dele. Foi uma senhora com uma voz horrorosa e brava que me atendeu e me disse: ‘não tem ninguém com esse nome que mora aqui’. De repente, voltando para casa, eu encontrei uma pulseira, Má, essa pulseira aqui – ele mostra o seu pulso – você vê! Essa pulseira é real, eu estou usando ela
- então, esse menino existiu
- será? Má, eu encontrei ele morto em uma calçada, ele apareceu como uma faísca e com tanta vitalidade e tanta energia, sumiu com pressa e hoje, agora, eu aqui, não consigo esquecer, não sei se isso foi produção minha, se fui eu quem produziu ele, não sei se ele já estava morto ou se não era para encostar naquela pessoa?
- Lê, parece que você não está falando coisa com coisa
- Má, – acariciou os cabelos dela – você acha que é possível a gente vivenciar coisas e não ter certeza sobre as suas próprias vivências?
- como assim?
- Má, eu procurei esse rapaz por tudo que é canto, eu menti pra encontrar esse rapaz, eu fui na puta que pariu, quando eu encontrei, ele estava morto. Mas, no IML, esse rapaz estava morto já fazia duas semanas, será que ele tinha morrido atropelado mesmo? Será que eu inventei esse rapaz? Será, Má, que eu estou inventando tudo isso pra te contar essas coisas?
- Lê, você tá meio aflito, não é
- Má, será que eu inventei – ele para subitamente, parece que ele não tem coragem de dizer -, será que as coisas que eu senti perto desse rapaz foram mentiras? Será que eu inventei tudo isso?

Passaram cinco anos, Alessandro casou com Maurício, um rapaz menos bonito que Gabriel, mais extrovertido, mais normal. Alessandro reencontrou a Marcela, ela perguntou:

- como você está?
- eu estou bem – respirou – mas, ainda não esqueço, Má
- o que você não esquece?

- Má, eu não esqueço a beleza que eu vi morrer