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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O reencontro

Há meses, eu não retornava para cidade de São Paulo. O sentimento de rotina me tomou o rosto, a partir do momento, que eu pus os pés nas calçadas brutas dessa cidade. As pessoas apressadas caminhando entediadas, expressando um rosto insosso, como se tivessem vivido tudo que há no mundo. Depois da morte de Mariana, não via mais sentido continuar morando perto de lembranças.
Estava separado da minha mulher, dois ou três meses que eu não visitava minhas duas filhas. Como o meu pai também, não tinha talento para paternidade, entrei no primeiro beco que encontrei, sentei numa escada e vi os rostos entediados de todos na rua. Lembrei-me imediatamente de Mariana, ela atentava-se demais para a expressão nula e branca que as pessoas faziam quando caminhavam. Ela sempre dizia: “se fosse para imitar os rostos das pessoas quando estão no metrô, eu não ia saber fazer. Eles não têm expressão, eles olham e não querem ser olhados”. Eu ri de repente; ela dizia que a melhor maneira de esconder dos olhos atentos das pessoas era olhando-as de volta. Era esse o paradoxo: “você olha e se exibi gratuitamente para não ser visto. Só tem uma maneira de enfrentar o medo, enfrentando”. 
Meus olhos atentavam-se. De repente, percebendo cada detalhe dos movimentos, cada expressão vazia no olhar, os vestígios de humanidade perdendo-se no espaço, os imprevistos fugindo do controle. Ao observar tudo isso, eu entendi a beleza que eu não via numa cidade. Senti que tudo era um exuberante quadro de arte, uma espécie de balé, um estupendo e belo mau gosto, organizado em caos. No fundo, uma música imprecisa tocava no ar, era um som expressivo e denso.
Segui a música. Quando eu me aproximei, percebi que era um homem da minha idade que tocava uma flauta. Fiquei em silêncio, ouvindo uma música incomum tocada por uma pessoa desconhecida. Ele parou subitamente e me disse:
- nos conhecemos de algum lugar?
- não, nunca te vi na minha vida – eu respondi
- como é seu nome?
- Daniel, como é o seu?
- Joaquim
 Nós permanecemos calados, eu sentei ao lado dele. Não fiz mais perguntas, ele também não me fez mais perguntas. Eu fiquei tocado por aquela música estranha, não pude esconder as minhas lágrimas.
- qual é o nome dessa música?
- se chama “cinza”
- essa música tem história?
- tem sim, por que?
- porque, uma vez, uma amiga disse pra mim que todas as coisas no mundo têm memórias. É tudo uma questão de saber perguntar, é tudo uma questão de saber ouvir
Joaquim riu e respondeu:
- eu andava no bosque, estava perdido. Eu era o menino mais perdido no mundo. De repente, eu ouvi uma música, uma linda música. Eu era músico quando criança, sempre me expressei por sons. Quando eu segui essa música, me deparei com três ruas; nessa encruzilhada, tinha um velho cabeludo, muito bêbado, ele me olhou e eu, curioso, sentei para ouvir a música dele. O velho cabeludo disse que tinha feito pacto com diabo pra ser violeiro, tocava muito bem, nunca tinha visto alguém tocar tão bem na minha vida, quando eu perguntei de quem era aquela música que ele tava tocando. Ele tinha me dito: “essa música é de ninguém e o nome dela é cinza”.
- você nunca mais viu o velho?
- nunca mais. Mas, desde então, eu resolvi imitar aqueles sons. Eu larguei o violão, porque entrei em crise e decidi criar composições que eu chamo de “sentinelas cinzas”.  Eu toco pro ar, minhas canções são anônimas.

Eu fiquei silencioso, senti uma cumplicidade com esse flautista, parecia que a gente era grandes amigos. Não sei se ele me contou uma história verdadeira, mas também não me interessa. Algumas mentiras valem mais que algumas verdades falsas, eu senti alegria e dormi com menos culpa. Reencontrei algum conforto no meio da cidade. Não acredito que vivi infeliz a vida inteira, não acredito que tenho direito a felicidade eterna. Mas, ontem, conversando com esse rapaz flautista, tive a certeza que não estava certo e pude dormi com muitos desconforto engolindo meu cobertor. Nunca mais tive bons sonhos, mas tive uma recompensa. Tive alegria. 

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Romance interrompido

Estavam os dois distraídos, sentaram em cadeiras opostas. Mariana estava profunda e escreveu com os dois polegares um sms ao Joaquim dizendo: “vi aquele filme que você me indicou Fallen Angels, fiquei impressionada como você me conhece mesmo. O filme é excelente!”. Daniel estava perdido, era um homem banal e impreciso, mandou um sms para noiva Priscila: “eu te amo, mas preciso descansar. Depois eu passo na sua casa e juro que teremos um tempo pra nós dois”.
Ela olhou para frente, ele olhou para trás. Os dois olhares perdidos se cruzaram e, rapidamente, se identificaram. Mariana estremeceu, reconheceu o rosto de Daniel. Não usava mais cabelos longos, tinha pelos no rosto e parecia olhar as coisas com menos certeza que antes. Sentiu vontade de virar uma formiga e sair de fininho por entre as mesas, ela permaneceu intacta e os olhos atentos focaram na miragem de Daniel. Era apenas Daniel, uma memória ambulante dos seus primeiros desastres; um homem banal vendo uma mulher banal.
- como vai? – Daniel perguntou
- eu vou bem – Mariana respondeu
Ficaram séculos em silêncio.
- fiquei sabendo da morte do seu pai – ela disse
- pois é, - ele respondeu, - foi uma notícia estúpida no meio da tarde. Já recebeu uma notícia estúpida no meio da tarde?
- não, eu nunca recebi notícias estúpidas
- você tá ótima, tá linda! – ele elogiou confuso
- você também!
- você não quer sentar aqui do meu lado?
- eu acho que não vou ter tempo, vou encontrar uns amigos. Mas foi um prazer te rever, depois, a gente marca alguma coisa. A gente conversa sobre as coisas, a gente fala sobre tudo que nos aconteceu
- tem certeza?
- tenho sim, tchau
- até!
- até mais!
Mariana não tinha nenhum amigo para rever. Caminhou até o parque, sentou e teve uma lembrança, lembrou-se de um velho. Ele -- (o velho do banco) -- disse que ela, um dia, receberia uma notícia estúpida e debochou dela, quando tinha falado que queria ser escritora. Não lembrava o rosto do velho do banco, só conseguia relembrar o tom de voz rouco e as mãos debilitadas do homem. Era um velho sozinho, precisava conversar com qualquer um, ela era uma alma disposta a ouvir. Mariana ouviu o velho do banco.
Daniel reativou a memória da infância, lembrou-se de Mariana.  Eles não eram mais amigos. Daniel -- (o moço confuso) -- não conhecia mais os livros favoritos dela, não sabia mais os interesses que ela guardava como futuro. O que será que tinha acontecido com Mariana? Esse moço confuso despreocupou-se, estava autocentrado demais com suas angústias. Era uma ilha de emoções fortes. Caminhando até o parque, viu Mariana perplexa e sentou ao lado dela.
- você está aqui? – disse Daniel
- era pra eu ter fugido – respondeu Mariana
- não fugiu?
- Daniel, você para mim era um mito
- o meu pai pra mim era um monstro
- isso tem alguma relação?
- acho que sim. Acho que os monstros e os mitos são mais parecidos do que a gente imagina. Ou não. – Daniel riu.
- eu sempre achei de péssimo gosto os heróis
- você é uma garota estranha, Mari – Daniel sorriu
- sempre achei. Não ri de mim. Eu sempre achei de péssimo gosto os heróis, eu tenho uma teoria. Uma teoria que criei vendo Kill Bill
- pode contar
- o herói aristotélico é caracterizado por realizar algo que ofende os deuses. Ele realiza o que chamamos de Hybris, eu acho, pelo menos, eu lembro assim. Então, Daniel, o raciocínio é o seguinte
- você pretende chegar em algum lugar com isso?
- pretendo; me escuta. Beatriz Kido cumpre a sua vingança, não é mesmo? Mas todos os heróis precisam de consciência.  Toda a consciência dos heróis trágicos é firmada na virtude. O que caracteriza o surgimento da Hybris é um ato de ignorância ou um ato de arrogância diante dos deuses ou do seu próprio destino. Algo que passa da medida; um desequilíbrio.
- os heróis montam uma tradição? – disse Daniel
- montam sim.  Mas um herói, para Tarantino, é o equivalente a um assassino. Me recordo sempre de uma música do Tom Zé, uma pergunta que aparece: “com quantas mortes no peito se faz uma tradição?”. Um herói e um assassino é a mesma coia. Por isso que eu sempre falo pro Jô; Joaquim é o meu melhor amigo, ele é um louco, mas ele é meu amigo; eu sempre falo pra ele que se densa a vida também com lacunas
- bom, é de péssimo gosto mesmo um herói. Eles matam muito gente em nome de uma tradição
- os assassinos também, entende? No caso do filme Kill Bill, Kido mata o Bill. Os heróis precisam de alter ego, não é mesmo? O Peter Park é o alter ego do Homem Aranha.  O alter ego do Bruce é o Batman. O alter ego do Clark Kent é o Superman. O alter ego de Clarience, do filme True Romance do Tarantino, é o Elvis Presley. Bom, eu te pergunto. Quem é o alter ego da Kido do Kill Bill?
- eu não sei
- bom, ela é uma heroína, ela segue uma tradição e tem todas as características de uma heroína. Mas, falta um alter ego, não é mesmo?
- bom, não faço a mínima ideia  do alter ego dela
- o Bill
- o Bill?
- isso, o filme é uma saga lunática para matar Bill. Mas é o Bill que ensina como matar ele próprio. Ou seja, você entende, que a grande sacada é essa! O filme Kill Bill é um assassinato do alter ego do herói
- O que isso tem a ver comigo?
- eu sempre achei de péssimo gosto os heróis, mas como eu não sou uma pessoa coerente. Eu sempre criei heróis, sempre cultivei mitos e sempre desejei que eles falassem o que eu devia fazer. Você é o Daniel, não é um homem qualquer, eu sempre fui apaixonada por você
- por mim?
- sim. Você é um homem feio, mas sempre me atraiu. Mas você também me chutou, não é mesmo?
- chutei sim
- você ficou na minha cabeça, acho que você sempre vai ficar. Eu sempre coloquei você em um patamar maior que eu. E te vendo de novo, eu não sei o que fazer, acho que ainda coloco você como um herói
- você me acha um arrogante, não?
- eu falo demais
- e fala pra mim que ainda é apaixonada por mim
- não por você
- não por mim?
- não! Eu sou apaixonada pela lembrança que eu tinha da gente
- mas a gente não é mais a gente de antes, Má
Mariana olhou Daniel. Ambos estavam perdidos. Mariana percebeu que não poderia retomar nenhum vínculo com esse rapaz, sentiu inconformada e abraçou Daniel como se ele morresse. Despediu-se e foi para casa.
Passaram dez anos. Daniel iria casar com outra mulher e seria pai. Caminhou até a antiga casa que eram dos pais de Mariana, estava ansioso para reencontrá-la, quando perguntou:
- onde está Mariana?
- você não ficou sabendo, Daniel?
- o que?
- ela foi atropelada quando voltava do trabalho, ela sempre andou distraída com as coisas
- quando que foi isso?
- já faz dois meses

Daniel sentou-se no mesmo banco que reencontrou Mariana. Sentiu que algo tinha sido perdido para sempre. Casou duas semanas depois, nunca mais procurou vestígios concretos de sua velha desconhecida. Mariana era uma presença minguante, bagunçava seus medos e lhe deu uma noção de efemeridade das coisas. Daniel sentiu medo de perder as coisas preciosas, sentiu vontade de ligar para todos os seus amigos, ficou perplexo. Ele se sentiu como um homem banal e teve medo da solidão. Esse moço confuso nunca se recuperou, quando voltou para casa, foi assaltado andando na rua e dormiu numa cama como um homem banal. Acordou como um homem banal, casou-se como um homem banal, teve filhos como homem banal, divorciou-se como um homem banal.  E anônimo, entristeceu como uma figura impossível. 

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Conversas imprecisas

Paramos no primeiro bar que encontramos no caminho. Eu e Mariana não tínhamos lugar secreto; caminhar e caminhar pelas ruas era a nossa maneira de nos escondermos do mundo. Não nos conhecíamos desde a infância, ela era uma garota banal. Eu também sou apenas um cara banal. Ela estava mais calada do que de costume, eu estava com fome e sentei na primeira mesa que encontrei. Mariana tinha olhos esguios, castanhos fortes. Às vezes, os olhos castanhos de Mariana traíam suas intenções e revelavam suas angústias com profundidade. Era uma garota encantadora, traidora dela mesma, ambígua e um tanto carente.
Mesmo assim, eu gostava dela. Me apaixonei perdidamente por todas as mulheres que já foram minhas amigas. De todas, a única que consolidei uma relação densa e singular foi com Mariana. Sentiria saudades dela, se acaso acontecesse alguma coisa que fizesse a gente se desencontrar, eu confesso que sentiria saudades de Mariana. Mas, as coisas não duram para sempre. Seria ingênuo, eu acreditar que teria Mariana sempre ao meu lado. Enquanto, ela estiver aqui, me sinto bem, Mariana sempre foi uma boa amiga para quem eu revelo assuntos tristes e angustiosos.
A nossa relação sempre foi marcada por grandes desencontros. Ela podia ficar sem falar comigo dois, três até cinco anos. Mariana não me procurava, não me ligava para perguntar como eu estava. Eu não a procurava, não sentia interesse de saber quem ela namorava ou fugia (Mariana passava mais tempo fugindo de relacionamentos amorosos). A gente, às vezes, passava meses sem conversar, quando nos encontrávamos era sempre para trocar informações banais sobre filmes, literatura, quadrinhos e dúvidas que acontecia com as nossas vidas. Ela sempre me dizia que eu tinha talento para encontrar mulheres problemáticas. Mariana não me exigia; em troca, eu também não a exigia.
- eu uso você pra não ficar sozinha e carente; e você me usa nos seus filmes, combinado, Joaquim? – dizia Mariana sorridente
Eu balançava a cabeça concordando, sempre quando ela me dizia essa frase, ríamos porque a gente sabia que havia algo verdadeiro nela. Mesmo assim, nos mantínhamos. Hoje, essa minha amiga inquieta estava muito calada, não era costumeiro esse comportamento de silêncio.  (Isso merece uma digressão: há três silêncios em Mariana: o primeiro é o silêncio do Daniel, quando ele passa, Mariana o admira, vendo a sua maneira de falar. É o silêncio de ver uma coisa que sabe que não é vista. O segundo é o silêncio inquieto de Mariana, os olhos castanhos divergem no ar, ela afunda em pensamentos contrários e perde-se para sempre. O último silêncio é esse de hoje, um silêncio oco, essa espécie de comportamento não é comum, é estranho).  Não era do feitio dela um silêncio tão profundo. Os olhos de Mariana corriam soltos pela sala, ela respirava grave, pentelhando os horizontes imensuráveis. Ela era, de fato, uma mulher bonita, mas demorou muito para perceber isso. A autocrítica dela era furiosa, às vezes, equivocada.
- que está acontecendo?
- muita coisa, não sei por onde começar
A minha comida tinha chegado, Mariana só pedira coca-cola. Eu pedi um hambúrguer com batatas fritas. Esse é um momento crucial, estava com fome, mas sempre media os meus atos. Havia dois momentos importantes para realizar o ato da alimentação; primeiramente, separava os tomates, -- (eu não gosto de tomates), -- deixando-lhes ao canto do prato; depois, eu mastigava as beiradas do hambúrguer, comia lentamente, concentrando-me no gosto, o recheio vinha aos poucos como uma surpresa; por último, tomava o guaraná e comia as batatas fritas. Mariana encarava meus atos, esperou a “dêxa” como uma atriz, esperando um momento acabar e iniciar outro novo acontecimento, Mariana preparou-se e disse:
- eu nunca tive métodos pra comer
- você não discute comigo sobre os canudinhos – eu provoquei
- eu não acho que isso é necessário, eu não ligo pra canudinhos
- bom, a Isa acha importante discutir comigo sobre isso. – dei a última mordida no hambúrguer e disse - Você não vai falar o que está acontecendo?
- vou – ela pausou um momento – , você cortou as unhas, jô?
- cortei, olha só, - eu mostrei minhas mãos – essa era minha novidade. Parei de tocar violão
- sério! Por que?
- disse pra você no telefone, eu entrei em crise, Má, eu não quero mais tocar instrumentos de cordas. As trastes! São as trastes que atrapalham os semitons.  A afinação é muito ruim!
Mariana riu, mas não era um riso de deboche. Ela podia ser tudo, mas nunca julgava ninguém, gostava de histórias estranhas e pessoas desconhecidas. Penso que ela gostava de coisas assim para escrever suas literaturas inacabáveis, a vida era como um laboratório artístico aos olhos de minha amiga inquieta. Acredito que viramos amigos por causa desse interesse estranho em comum, queríamos densar as nossas vidas, como ela gostava de dizer. Eu, na verdade, dizia simplesmente que o objetivo da minha vida era me divertir.
- reencontrei com Anita – Mariana olhou-me grave, - me decepcionei com ela. É tão estranho, você passar o resto de sua vida, querendo rever alguém. E ver se essa pessoa resolve todos os seus problemas. Mas não, ela não vai resolver nada. Ela é uma garota previsível; sonhos toscos e vontades comuns, sabe. Eu fiquei decepcionada com ela, esperava mais dela, esperava mais
- você espera demais, Má! Sabe, eu sei que vou mudar de assunto, depois você continua o raciocínio. Mas eu conheço e sei coisas sobre música, mas quando eu tento tocar na flauta, eu não consigo realizar. Eu me sinto um merda.
- tá aprendendo tocar flauta? Ah é! Você me contou no telefone? Como anda os estudos?
- agora, tô tendo tempo pra estudar, mas quando eu sei o que eu quero com a música e não consigo realizar. Eu acho tão frustrante. É tão frustrante!
- reencontros são tão desconfortantes – disse Mariana
- nem sempre, alguns são cômicos. Revi um colega da escola, ele estava correndo afoito e me disse, olhando pra mim, meio perdido. Pegou na minha mão, Má, e me disse: “eu vou ser pai”. Repetiu de novo, ainda mais afoito e perdido: “eu vou ser pai”
- ficou sabendo que aconteceu com Mau?
- ele sumiu, né! A última vez que vi ele foi no mês passado, ele passou na sua casa, né?
- passou, estava estranho. Ficou pálido quando eu disse que estava saindo com uma pessoa
- você ainda está saindo com Daniel ainda?
- ele também sumiu, falamos por telefone. Nunca mais soube notícias dele. Eu não sei, Jô, eu devia fazer alguma coisa, mas eu não sei o que fazer, estou muito perdida e um pouco cansada de tudo isso
- viver é boring, tentar encontrar um sentido oculto nas nossas ações, conhecer pessoas, criar vínculos. É tão cansativo! Mas eu não sei, a gente não tem muita opção
- que opção a gente tem? – perguntou-me curiosa
- a única é nos manter indo –  eu respondi impreciso
- já falei pra você da minha teoria sobre a Vani dos Normais 
- não me contou não
-  Joaquim, a Vani é uma mulher gostosa, sexy e tesuda, mas a aparência dela não condiz com a essência dela. Ela é uma mulher frustrada, porque ela se comporta como uma Beyoncé, mas não tem peitos e nem bunda, por isso, que a gente ri dela. Porque ela não é concretamente quem ela diz ser
- faz sentido – eu ri – ela é Beyoncé com corpo de Vani
- isso! Por exemplo, no filme Os normais 2 , não tem uma cena que ela está com vestido vermelho, atravessando o corredor do hospital, sensualizando total pra todos os médicos. A música de fundo é Me deixas louca na voz de Elis Regina. Você lembra dessa cena?
- lembro sim
- eu cheguei nessa teoria por causa dessa cena. Vani é uma heroína gostosa na essência, mas isso não é coerente com a aparência. Por isso, a gente ri dela. Vani é uma gostosa frustrada. Na verdade, a gente ri por causa dessa frustração. Eu adoro a Vani.
- bom, eu te disse – eu encarei os olhos da Mariana, - eu te disse que a gente só gosta de gente estranha
- não me coloca no meio do jogo, você que arruma mulheres problemáticas, você tem antena pra isso, Joaquim
- e você precisa se apaixonar, - ela encarou-me e eu reiterei o raciocínio -, eu não gosto, quando eu me sinto apaixonado e você não. Me sinto bêbado e sinto que você tá rindo de mim
Mariana não me respondeu, olhou-me confusa e disse:
- estou escrevendo novos contos
- sobre o que?
- sobre os desajustados, acho que vai ser os piores contos da minha vida
- você é engraçada, Mariana, quando você terminar, me dê, eu quero ler
- tudo bem, eu dou sim
Quando eu saí daquele bar, passei dois anos sem rever Mariana. Não sei como ela ficou. Eu estou triste, fiquei sozinho esses tempos. Estava apaixonado, mas levei um pé na bunda, Mariana conversou comigo ao telefone mês passado.
- que aconteceu? – perguntou Mariana
- Cândida sumiu, me deu um pé na bunda
- que aconteceu?
- eu não sei, acho que ela ficou com medo, sei lá, ela não me deu satisfação. Só sumiu, não atende nenhuma ligação minha
- Cândida era aquela menina que tinha síndrome do pânico, não gostava de sair de casa e era muda
- era ela sim, era uma menina tão linda, você ia gostar dela, Má. Ela sumiu
- todo mundo decepciona alguém, é normal que isso aconteça. Não é assim que você fala, talvez, ela seja uma pessoa que pode valer a pena sentir saudades
- eu falo sim, mas eu, agora, nesse momento, eu tô um pouco puto com ela, eu sei que vai passar. Mas ainda estou puto com ela

Essa foi o último diálogo que tive com minha amiga. Em todo caso, Mariana não era um reencontro desconfortante, era uma presença carinhosa que sempre me agradou. Eu não reencontrei Cândida, sinto saudades da presença silenciosa dela, foi uma pessoa que valeu a pena sentir saudades. Cândida foi uma lacuna. Mariana me disse que amores interrompidos são sempre furiosos e que a gente é preenchido também por lacunas. Entrei no último bar que conversamos, estava sozinho, comi um lanche. Não reencontrei ninguém. No bar, usando minha metodologia para comer um lanche, vi uma cena emocionante na minha frente, um homem abraçando outro homem, eram dois íntimos que não se viam por causa do curso do tempo. Pensei: “os reencontros em São Paulo são imprevisíveis”. 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

O Diário

Mariana sabia muito pouco sobre filosofia, literatura e política. Cada dia mais, ela tinha uma sensação que ficava mais perdida, afundada em livros e informações jornalísticas expostas na internet. A jovem estudante de filosofia, interessada por assuntos difíceis e por alemães, rabiscava palavras, duas ou três, para escrever no final de cada página do diário, como um sinal de fracasso, que não entendia o mundo, não entendia a arte, não entendia ela mesma. Ela fracassava na sua ambição de interpretar os passos dessa sociedade que fazia parte como mais uma anônima.
Atenta e delicada, Mariana fixava os olhos na folha de papel e assoprava o lápis, este objeto fazia um movimento de vai e vem. O lápis indo e vindo, indo e vindo, até cair no chão. (Lembrete: os sons miúdos aumentam de tamanho, quando há uma pessoa atenta para ouvir). Ela caminhou até a janela e viu uma lua soberba, brilhando, no céu vazio e sem estrelas de São Paulo. O vento acariciava seus pensamentos, eles, pouco a pouco, adormeciam.
Com tantos piolhos existenciais, restaram apenas uma reflexão. A lua estava minguante. Mariana acreditava que essa era a lua das bruxas; ela criava um pensamento, uma ilusão que pudesse acreditar. Tempos atrás, a jovem estudante tinha perdido a crença com as religiões para sempre. Por isso, sentiu necessidade de criar algo que fugisse de sua imaginação terrena, alimentando o seu lado infantil, adornando suas fantasias impossíveis. A lua era a sua maior invenção.
Mariana escreveu: “ (...) a lua minguante é a verdadeira lua das bruxas, é a lua dos intervalos. É a lua que está entre a fase nova e a fase cheia. São nos intervalos que a gente se transforma, é no limiar que as coisas, pouco a pouco, viram.  O devir. Aliás, palavras bonitas essas, né: 'devir, etéreo'; um dia um rapaz que namorei me disse que a palavra que combinava comigo era o verbo flanar,  (quando Felipe falou isso, eu achei de uma delicadeza!...); lendo um romance encontrei a palavra irremissível misturada com as frases, foi como encontrar um amor, apaixonei-me imediatamente. Não sei nem se estou escrevendo coisa com coisa, acho que não, provavelmente não, estou escrevendo palavras desconexas e inventando fatos. Eu estou assim, por exemplo, minguante”.
Dois minutos, em desassossego, ela olhou inconformada para própria caligrafia, olhando a janela, engolindo o lápis na boca; questionou-se sobre o futuro e, nesse momento, o presente se distraiu e virou um passado inconsistente. Pensou: “o que vou escrever? O que vou escrever?”. Sentiu vontade de jogar o diário no lixo, sentiu-se enojada com todas essas palavras. Era uma mulher infantil e impotente, só sabia tagarelar e tagarelar sobre as coisas que não conhecia. Quando criança, um tio, bagunçando seus longos cabelos cacheados, disse a ela: “você tem uma cara de menina mentirosa”. Mariana riu, afinal, o seu tio bêbado que paquerava meninas de dez anos e ensinava como beijar na boca, estava certo. Era uma menina mentirosa, hoje, era uma mulher mentirosa. Às vezes, mentia tanto que acreditava nas próprias coisas que contava, como se fossem histórias reais, sentiam elas como verdadeiras e vividas com toda a intensidade que enfurecia seu peito. Mariana densava a sua vida com enredos inexistentes.
Pensou e falou baixinho como se conversasse com espíritos: “o que eu vou escrever?”          
- você podia escrever sobre a vida misteriosa das baratas. – Mariana sentiu um cheiro de cigarro, não virou-se, imediatamente, para enxergar quem era, esperou a voz feminina terminar o raciocínio - Apesar que -- (a voz feminina hesitou) --as baratas já estão ficando fora de moda. Escreve sobre as galinhas, escreve sobre elas fugindo assustadas para não virarem comida na janta. Escreve como as galinhas conquistaram a falsa liberdade
- já fizeram um conto sobre isso
- já fizeram?
- sim, o nome é “Uma galinha”
- escreva sobre o ovo, então, - Mariana virou-se devagar e enxergou a mulher que falava com língua presa; sentiu nervoso e, assustada, a jovem estudante ficou em silêncio. A escritora, fumando, continuou o raciocínio, falava como uma estrangeira – sabe, menina, eu nunca consegui entender o ovo. Uma vez, eu escrevi um conto sobre o ovo. Juro! É o meu maior mistério, é o único conto que eu não entendo
- eu li – gaguejava – eu li –  Mariana gaguejava e tentava esconder o nervosismo do impacto – eu li eu li eu li
- você leu? – Clarice (a escritora de língua presa) perguntou.
- eu li esse conto na adolescência, foi o primeiro conto que eu li seu, foi esse conto que me atraiu pro seu mundo. Eu fui seduzida pelas palavras, pareceu feitiço, sei lá, bruxaria
Clarice riu. Ela tragava um cigarro, sentou-se na cadeira de balanço e viu a folha rabiscada com algumas palavras.
- você quer ser escritora?
- acho que eu quero
- achar não é o mesmo que ter certeza, – Clarice fumou -  você sabe que eu nunca quis ser escritora. Eu sempre fui amadora. Amo escrever, quando eu não escrevo é porque estou morta
- uma vez eu falei essa frase pro meu primo, Clarice... Posso te chamar assim?
- pode
- eu falei isso pro meu primo. Sabe. Sobre esse negócio de ser amador, sabe, ele riu da minha cara. Disse que não há só amor nessa palavra, também há a palavra dor. Ele disse pra mim que eu era uma garota engraçada, porque não rimava amor com dor, mas gostava da palavra amador por conta dessa interpretação etimológica
Clarice tinha mudado a expressão do rosto, não ria, mas também não ficou nervosa com a observação. A escritora colocou os óculos, fumou.
- seu primo tem senso de humor. Mas não sei por que as pessoas riem com coisas que não são engraçadas? Amor e dor não são coisas engraçadas. Você, menina, sabe das consequências disso tudo?
- disso o que?
- quando você tinha 16 anos, menina, um velho falou pra você que literatura não se faz com bons sentimentos. Você, sem dúvida, pensou sobre essa frase, não? Você tem um péssimo gosto de pensar sobre as coisas, sabia. E tem outro gosto terrível, nada elegante da sua parte, você faz perguntas demais
- eu tenho medo. Clarice, eu acho que sou covarde. Você sempre teve uma ironia trágica nos seus textos, principalmente, A hora da estrela, aquele livro é foda. Desculpa o palavrão. Mas, enfim, sei lá, Clarice, você sabia usar o que tinha, eu acho que eu não sei, eu acho que eu sou uma covarde. Sou muito covarde, uma impostora, talvez
- você tem tempo pra aprender a densar seus defeitos. Menina, você tem noção das consequências da frase do velho?
- literatura não se faz com boas intenções?
- isso!Você sabe o que tá falando ou fala isso da boca pra fora?
Mariana calou-se, ela fixou os olhos no movimento dos braços, era outro vai-vem. O braço ia e voltava; toda volta, Clarice tragava saboreando a fumaça. Os olhos da escritora eram mais penetrantes de perto. A jovem estudante ficou paralisada e hipnotizada com a visão de mulher que assombrou a sua vida inteira.
- você não sabe, né? Eu também não sabia quando eu tinha a sua idade? Quantos anos você tem?
- 20 anos
- escrevi Perto do coração selvagem, era uma menina jovem que sentia demais como você. Fiquei pasma comigo, quando eu escrevi A cidade sitiada, esse livro, por resto de minha vida, eu serei agradecida por ele
- mesmo você não sabendo das consequências de tudo, você escreveu?
- escrevi, - Clarice mexeu os dedos, levantou-se, caminhou até a janela, - aaah! A lua minguante. Isso é lua de bruxa, sabe quanto tempo a gente demora pra aprender magia, menina?
- não
- o resto de nossas vidas, a gente morre por conta de feitiços
- você foi covarde também, Clarice
- Isso é uma acusação, anda querendo me contrariar, menina?
- por que você não fez nada?
- Eu fui impotente
- você foi covarde, devia ter, sei lá, continuado, devia sei lá, ter escrito sobre Hélio Pellegrino, sobre tortura, sobre violência e sobre as coisas que afetavam o mundo na sua época. Por que você não escreveu coisas que tinha sangue? Por que você preferiu escrever histórias de donas de casas e epifanias cotidianas? Às vezes, eu me sinto tão perdida, às vezes, eu acho que dou razão demais pros outros. As coisas que falam sobre você, te chamavam de alienada
- nunca escrevi livros pros outros
- o que você fazia? Por que você escrevia assim?
- porque era o que tinha. Porque a gente não escreve pra mudar o mundo. Eu sei, menina, eu sei que você tem sede de vingança, eu sei que você tem fome por outras possibilidades. A vida não tem nada de original. Eu sei, sei mesmo que sente desejo por surpresa, originalidade. Eu sei de tudo isso. Mas, você precisa entender,
- você fugiu, Clarice?
- eu estava como você, perplexa com o mundo. Eu era uma mulher impotente, triste e transtornada. Eu não entendia o que estava acontecendo, era minha santidade, menina, não entender era o que preservava minha humanidade diante das coisas. Não entender é tão vasto que ultrapassa qualquer entendimento
- você não sabe como as coisas estão hoje. Como tudo está uma bagunça, como as coisas estão ambíguas, como é difícil entender o mundo, as pessoas e a via láctea. Eu não sei o que fazer. Eu fico perplexa
- então, - Clarice encarou os olhos inquietos da jovem escritora -, menina, a gente não vai alterar nada por conta desses textos. Não vai alterar nada.
- isso não é conformismo, Clarice?
- não acreditem nas almas boas que usam as minhas frases, no entanto eu nunca tive a ambição de ser a bússola
- então, por que a gente faz isso?
- a gente escreve pra desabrochar, menina, pra desabrochar pra vida
As mãos da Clarice flutuavam no ar. Mariana observava, hipnotizada, os movimentos dos braços da escritora, escutava como uma apaixonada o som da língua presa (que parecia uma voz de uma mulher estrangeira) daquela soberba e elegante estrangeira do próprio país. Clarice desapareceu no minuto que Mariana piscou os dois olhos. A jovem estudante tinha mania de perder o instante presente para sempre, o tempo presente furtava-se e ela não sabia voltar. As coisas não eram mais as mesmas. Olhando a lua minguante, Mariana começou a falar em voz alta:
- eu escrevo pra me desabrochar, mas é possível desabrochar no mundo de entranhas abertas, feridas não cicatrizadas e rostos banhado a sangue? Posso te ouvir, me perguntando; você não quer ser parecida comigo? Eu respondo que não. Não acho que quero ser parecida com alguém, não acho que quero ser inimitável sozinha. Quero desabrochar, desabrochar pro mundo
Mariana colocou a caneta na boca e continuo o raciocínio:

- mas, sempre, à noite, as bruxas se encontram e fazem os teus feitiços. Sempre anoitecendo.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Os pobres

Maurício era um rapaz comum, frequentava reuniões do movimento estudantil e era adepto dos ideias do comunismo. Ele estudava economia, mas estava em crise em relação a sua profissão. Era um homem sozinho, só tinha uma vó esquizofrênica como parente viva. Naquele dia, ele tinha visitado Mariana, gostava dela para falar besteiras e despreocupar-se com as decisões futuras. Ela era uma mulher sensível, tinha uma capacidade de tranquilizá-lo quando precisava. Maurício abraçava o corpo miúdo de sua amiga e sempre dizia: “você sempre diz o que é preciso ouvir na hora que é preciso dizer. Acho que é um dom que você tem”.
Entretanto, Maurício foi até a casa de sua amiga. Apertou a campainha, chamou o nome dela e Mariana não estava em casa. Ele se sentiu abandonado, caminhou perdido pelas ruas e percebeu que a cidade tinha mudado muito depois desses três anos. A casa das flores vermelhas, que existia na infância dele, tinha sido demolida uns cinco meses atrás para construir um prédio da empresa Delta. Pensou: “Lucros imobiliários! Lucros imobiliários!”. Maurício, (Mau como era chamado por Joaquim e Mariana), se sentia enforcado por muita angústia e era um dia, mais do que os outros dias, que ele precisava muito conversar com Mariana. Caminhou, então, hoje seria um dia que teria que suportar a companhia da própria sombra. Há meses, não se suportava como humano.
- me dê uma dose de conhaque com mel
- é só isso – disse o dono do bar
- só isso – respondeu Maurício
Um miserável, sedento e imundo, sentava ao lado do jovem estudante. Era um homem porco, limpava o nariz com a manga da camisa, banhava-se com álcool. Brincava com canivete, trocando o instrumento de uma mão para outra, uma mão para outra, uma mão e outra mão. Assim, em movimentos repetitivos, ritmos rápidos, lentos, o homem mais desgraçado do bar brincava com a arma como uma criança brinca com fogo, sorrindo. Maurício fingiu não se importar com o cheiro do miserável, estava autocentrado em suas angústias, sentia saudades do riso de Mariana. Onde será que ela estava agora? Perguntou-se.
- é mulher – disse o desgraçado
- oi?
- um homem com esses olhos sofre e – ele cuspiu no chão – e quando sofre assim é dor de corno ou morte de mãe
- minha mãe morreu já faz algum tempo já
- então, é mulher mesmo, garoto?
- não, é uma amiga, sinto saudades dela, só isso
- é casada?
- não
- namora um amigo seu?
- não
- é feia?
- não. É uma das minhas melhores amigas!
- são as piores – o miserável sorriu como um velho sedento de ódio – as amigas são aquelas que mais machucam o coração
- não estou assim por causa de Mariana – Maurício falou rápido, tentado desviar do diálogo. Bebeu o resto do conhaque com um gole só.
- isso menino! Isso menino! Você faz o que da vida?
- sou estudante
- e estuda o que?
- economia
- então você é rico? Tem como me emprestar dinheiro pra pagar mais bebidas pra eu e você. Pera! Pera, garoto, fica aqui. Me escuta. Eu sei que você não quer me escutar, ninguém quer me escutar. Você sequer está disposto começar uma conversa comigo? Eu te imploro, senta aqui, não vai embora. Pague mais duas bebidas, converse um pouco comigo
Maurício sentou-se ao lado do homem, como se senta perto de um filhote que está perto da morte e o único sentimento urgente é a pena. O jovem estudante sentiu muito pena do miserável, pensou que conversar com esse velho, talvez, fosse um ato de generosidade. Pediu mais bebidas.
- você sente pena de mim? – um sorriso malicioso apareceu no rosto do miserável – pode falar. Você sente pena de mim? Diz pra mim, só responda sim ou não. Sente pena de mim?
-  sim
- eu sou um homem pobre, garoto. Não, eu não sou só um homem pobre. Eu sou um homem miserável. Você já conheceu um homem miserável? Um homem que faz coisas que não são dignas? Já conheceu? É de se ver que não conheceu. Eu sou um homem desgraçado que também é pobre. É possível ser pobre e não ser desgraçado ao mesmo tempo?
Maurício não respondeu, bebeu mais um pouco de conhaque.
- é possível, garoto. Minha mãe era uma mulher pobre, você parece um garoto pobre, essas pessoas daqui são pessoas pobres. Ser pobre não é o mesmo que ser miserável. Ser miserável é algo que você, garoto, não consegue imaginar. Você ri? Você ri de mim, garoto? Isso, menino, a tragédia dos outros é muito engraçada não?
Maurício engoliu desconforto, não riu mais, permaneceu calado.
- você não é da política, né? Como é que falam? Você não é um desses bostinhas revolucionários, é? Militante, não é assim que falam?
- sou comunista
O velho soltou uma gargalhada, pediu outro conhaque.
- pode por na conta desse garoto aqui, ele vai pagar tudo. Não sei por que, garoto, não sei qual é o motivo, mas gostei de você. E porque eu gostei de você, vou falar algumas coisas. Você quer mudar o mundo?
- quero
- quer acabar com a miséria do povo?
- quero
- quer fazer alguma coisa importante da sua vida?
- quero
- então, não seja um homem romântico. Vai por mim, na minha época, os homens românticos eram os primeiros covardes que morriam ou fugiam. Pobres não se encontram em estatísticas, garoto. Você entendeu?
- acho que sim
- não romantiza os pobres. Eles são mais espertos do que os chefões imagina. Né não, chefe, traz outra aqui? O garoto paga, não paga, garoto?
- pode trazer mais uma. Só posso pagar mais uma
- não se preocupe – o velho beijou o jovem Maurício – não se preocupe, garoto, você tem um futuro brilhante. Não desperdice com sofrimentos efêmeros. Você ainda não sabe o que é sofrimento. Você já trepou com uma mulher bonita?
Maurício enrubesceu, encolheu-se e escondeu a cabeça.
- você é um garoto ainda? Um garoto virgem? – o miserável apoiou a mão esquerda no ombro do garoto – um menininho virgem que bebe conhaque? Os militantes de esquerda não mudaram muito nos tempos de hoje. As coisas parecem que só mudaram de roupa, mas continuam as mesmas
- eu já tive uma garota
- já
- já vi uma garota nua
- olha! – o velho sorriu – isso não é um grande passo, né! Menino, vai trepar com mulheres bonitas, não desperdice a sua vida querendo mudar um mundo que não quer ser mudado. Os pobres não são anjos caídos do céu, e todos nós, garoto, todos nós temos os nossos dias, você me entende? Aquele dia que a gente faz uma coisa e na verdade quer fazer outra. Que mal me pergunte? Quantos anos você tem?
- dezenove anos
- é um jovem bonito, é um jovem bonito
O velho miserável caiu no chão de tão bêbado. Maurício ajudou o velho levantar-se, colocando em uma cadeira. O homem desgraçado não falava mais palavras com nexo, ele xingava todos que encontrassem o seu caminho. Maurício abandonou o velho miserável naquele bar, solitário e pequeno, repousado no silêncio dos embriagados.
No dia seguinte, Maurício encontrou Mariana. Ela estava mais encantadora do que nunca, sorriu aprisionando o jovem estudante naquela alegria esfuziante. Ele tinha sonhado com a sua amiga, estava aliviado por encontrar uma alma íntima. Mariana sorriu e disse:
- que aconteceu?
- eu te procurei ontem, encontrei um velho no bar que me falou coisas estranhas, Mari, era um velho miserável. Mas você está tão linda, parece até que aconteceu algo maravilhoso com você ontem?
- e aconteceu, mas não quero falar
- por que? Aprontou alguma coisa?
- não aprontei nada – Mariana estapeou o ombro de Maurício – é que não é nada demais, Mau, é uma coisa sem importância
- bom, uma hora que quiser conta, eu vou estar pronto pra ouvir. Mas queria tanto conversar com você, Mari, tanto e agora...
- agora não quer mais?
- não é isso, parece que agora não importa mais, entende? Parece que passou – Maurício engoliu as bolachas com manteiga.
- bom, isso é bom não é? Quando eu te liguei você tava tão aflito e angustiado
- e você parece que está tão feliz, mais feliz do que nunca
- eu conheci uma pessoa
Maurício mudou a expressão do rosto completamente, ficou branco, engoliu os restos das bolachas com pressa. Mariana não parava de sorrir, mostrando a felicidade exótica que exibia nas bochechas. O jovem estudante decidiu que não ia mais encontrar Mariana a partir daquele dia, seria a última vez que ele veria a Mariana sorrir assim por causa de outro homem. Sentiu vontade de matar, sentiu ânsia de cometer um homicídio, ficou enciumado.
- eu acho que vou embora – disse Maurício
- mas já? – respondeu Mariana
- já
Maurício pegou a sua blusa, vestiu e caminhou até porta. Ele deu um último beijo no rosto de sua melhor amiga e foi embora. Mariana nunca mais viu Maurício de novo, nunca mais encontrou vestígios da presença dele na cidade. A última notícia que soube de Maurício era que tinha se formado na faculdade com excelentes notas e bons créditos. Era um homem decente e trabalhador, namorava uma mulher linda, diziam as más línguas que era um homem possessivo e controlador de suas namoradas.

Numa manhã, Mariana comendo bolachas com manteiga e um pouco de leite, assistindo um programa sensacionalista de crimes. Viu um rosto conhecido, escondendo-se das câmaras de televisão. Uma foto 3x4 mostrava uma figura envelhecida, escandalizada por lentes selvagens da câmara, olhos carinhosos, um rosto coberto por uma barba, era Maurício. Ele era suspeito de um crime passional, tinha matado a mulher com uma faca no coração, guardando as peles da esposa nas gavetas do amante e o coração tinha oferecido para o cachorro. O amante tinha sido misteriosamente atropelado. Maurício, na televisão, escondendo-se como um rato assustado, olhava do mesmo jeito. Mariana sentiu pena, ela engoliu o leite, saiu para trabalhar perturbada. Eles não eram mais as mesmas pessoas.