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sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Carta aos velhos poetas

Confissões de uma jovem e azarenta leitora que tenta escrever contos de vez em quando para os velhos brasileiros:


“Uma espécie de inesgotável e arraigada infantilidade atinge o nosso povo; em direta oposição com o que há de melhor em nós, nosso infalível senso prático, com frenquência nos portamos com a mais rematada insensatez, exatamente a mesma insensatez das crianças, inconscientes, desperdiçadores, grandiosos, irresponsáveis, e tudo isso muitas vezes em nome de alguma diversão trivial.
[...]
Mas nosso povo não é apenas infantil, somos também em certo sentido prematuramente velhos. A infância e a velhice não nos chegam como aos outros. Não temos juventude, logo somos todos adultos e então permanecemos adultos por tempo demais, daí se originando um certo cansaço e uma certa desesperança que deixa uma profunda marca na natureza do nosso povo, em geral resistente e esperançoso”
Franz Kafka
Josefina, A cantora ou o Povo dos Ratos  


Todos dão conselhos aos jovens poetas. Queria fazer o contrário, queria dar um conselho aos velhos poetas. Por favor, peço a vocês, não aconselhe a juventude, ela não precisa de suas histórias, não existe necessidade de saber as suas angústias e tristezas para criar as nossas narrativas. Cada narrativa é uma. 
Em um mundo, estranhíssimo como nosso, onde a juventude envelhece como irresponsáveis. As mulheres crescem acreditando em cinderelas e "caras certos". É, realmente, muito perigoso nadar contra corrente, afinal, algumas mulheres nascem com o dom da feitiçaria e desejam virar uma pessoa, não ficção, muitos menos contos de fadas.  Os estereótipos são o alvo da verdadeira justiça, morram todos eles. A juventude anda envelhecendo muito cedo, escrevo também aos velhos jovens que fingem tanta felicidade, porém, também usam estereótipos comprados na primeira esquina. Não criem imagens para os outros, velhos poetas, escutem a juventude, sejam educado pelas crianças e não ofendam o Tempo. Isso ainda pode voltar contra vocês. 
Cada narrativa é uma. Meus queridos velhos poetas, não aconselhe a juventude, se possível ajunte-se a ela, fale baixo, escute o seu entusiasmo e transmite suas experiências sem utilizar a máscara da autoridade. Não aconselhe a juventude. Não use frases de mau gosto, como: "as crianças daquele tempo"; " ah! o namoro daquela época...". O sintagma "daquela época" só significa que você, meu velho, está mais próximo da morte. Não inveje a beleza dos jovens por conta disso. 
Seja uma pessoa, não seja o oráculo. Mas, quando estiver sensato e embebido de vontade e amor, aconselhe a juventude, meu querido poeta, afinal, os jovens erram muito, caem muito na vida. Precisam dos mais velhos, ao menos, para criar as dúvidas e para criar as tensões. Não fuja das suas responsabilidades, não negue a sua história, aconselhe a juventude em base as suas experiências anteriores. Aconselhe, tendo uma certeza irrevogável: "o meu conselho não tem nenhuma utilidade, a vida é de cada um, a responsabilidade de estragar ela não é minha". 
Meus queridos velhos poetas, estejam vivos. Não fiquem frios por causa da crueldade do mundo moderno, não fiquem confortáveis com suas manias e vícios da idade. Rejuvenesçam, mas não escondam o que o tempo fizeram com vocês, não acreditem na beleza efêmera dos jovens, eles não sabem ainda o que fazem, precisam dessa falta de conhecimento para conhecer o mundo. Meus poetas, não morram, fiquem eternos, mas desapareçam às vezes para o novo surgir. 


Respeitosamente,
Uma jovem escritora brasileira

domingo, 25 de agosto de 2013

Ensaios sobre Amor: O estranho desaparecimento do Belo

Ele não conhecia nenhuma garota, saia de casa sempre às seis horas da tarde e dormia exatamente às dez da noite. Certo dia, ele conheceu Alessandro, era um mulherengo, dormia com muitas garotas e, sabe-se lá por que motivo, esse rapaz gostou do tímido Gabriel. Eles se conheceram em um sábado, exatamente umas seis e três da tarde.
- o que você está fazendo?
- nada. Caminhando
No dia seguinte.
- o que você está fazendo?
- nada. Caminhando
Na semana seguinte, Alessandro paquerava uma menina bonita, mas quando viu o mesmo rapaz atravessar a rua, agiu da mesma forma e até se esqueceu da mulher que estava ao seu lado.
- o que você está fazendo?
- nada. Só caminhando

Alessandro ficou ensimesmado. Porém, não sabia como fazer a aproximação com o tímido Gabriel, a curiosidade foi abatendo o seu íntimo, queria conhecer a história desse rapaz. Até onde Alessandro observava, Gabriel lhe parecia mais jovem que ele e muito distraído, não parecia ter muito jeito com as coisas, andava desengonçado, mas chamava atenção por todos que estavam na mesma rua.
De repente, Gabriel parou de andar e viu uma moça exuberante atravessar o caminho, era uma mulher que tinha cabelos longos, peitos fartos e usava minissaia. Alessandro percebeu que o olhar do rapaz tímido mudou radicalmente, permaneceu sentado para observar qual seria o próximo passo dele. Nada aconteceu, Gabriel viu a mulher passar e, no olhar, tinha uma expressão de tristeza, parecia que o horizonte estava mais longe que aparentava, os limites tendiam ao infinito. Ele se sentou sobre o chão.
- o que você está fazendo? – perguntou Alessandro
- olhando a Beleza que passa – respondeu Gabriel
- e por que não vai atrás dessa mulher?
- porque prefiro sentar aqui
- o que tem aqui?
- tem você – Gabriel mostrou os dentes timidamente
Alessandro riu, tinha esquecido que sentia atração por mulheres. Olharam-se muitas horas, perderam algumas noções de espaço e esqueceu que era quarta-feira.

Na semana seguinte, Alessandro sentou no mesmo lugar que o Gabriel. Esperou, mas ele não apareceu. Andou até o lugar que tinha passado a mulher bonita, mas não encontrou o tímido rapaz. Perguntou para uma senhora com roupa rosa, ela respondeu: “não vi nenhum menino assim”. Ele procurou por todos os lugares, perguntou para moça que paquerava na última quarta-feira, essa menina respondeu: “que menino? Você não estava sozinho?”.
Alessandro ficou com dúvida, se, de fato, ele tinha conhecido aquele rapaz tímido. Se não era uma espécie de ilusão criada na cabeça. Perguntou para o moço que vendia sorvete: “ licença, você viu um rapaz tímido, usando roupa azul e com um bigodinho discreto, ele falava esquisito e tinha sotaque que não era de São Paulo?” O homem respondeu: “não vi ninguém assim”. Alessandro parou subidamente no meio do caminho, voltou ao lugar que tinha sentado antes. Olhou para o céu, então, lembrou-se que tinha o telefone do Gabriel.
Fez o telefonema, a senhora que atendeu disse: “esse rapaz não mora aqui não”. Alessandro tossiu e empalideceu. Ele se lembrou das palavras do tímido Gabriel: “estou olhando a Beleza que passa”, pensou no sorriso bobo dele, sentiu saudades. O que tinha acontecido com aquele rapaz? Passaram duas horas, Alessandro não entendia. Não conseguiu encontrar evidências para solucionar o misterioso desaparecimento do rapaz tímido.
Quando ele atravessou a rua para ir à sua casa, encontrou uma pulseira. Gabriel tinha sido atropelado por um caminhão. Estava uma grande confusão em volta dele, Alessandro se lembrou da última frase que Gabriel tinha falado: “estou olhando a beleza que passa”. Ele, um homem alto, cabelos pretos e olhos confusos, olhou a morte de perto e pensou: “estou olhando a beleza morrer”.

No IML, um corpo de baixa estatura, com um bigodinho discreto e olhos sonhadores estava esquecido. Duas semanas depois ninguém foi procurar por esse corpo. Alessandro perguntou por Gabriel, a moça de vinte anos que atendeu, disse que tinha um corpo que podia ter essas características lá. Alessandro mentiu, disse que era irmão e que queria procurar o corpo, pois havia sumido por duas semanas. 
- é esse daqui – A moça mostrou o último corpo
Ele olhou, respirou fundo e pensou: “estou olhando a beleza morta”.
- é sim – tentou engolir o choro.
- quando tempo ele está aqui?
- duas semanas


Na quarta-feira, Alessandro paquerou uma garota. Dormiu com essa menina, olhou os olhos da garota e só conseguia lembrar a frase do tímido Gabriel: “estou olhando a beleza que passa”. Marcela que tinha uma vitalidade no olhar, percebeu que Alessandro estava distante e perguntou:

- o que você tem?
- eu não esqueço
- você não esquece alguém?
- sim – Alessandro respirou profundamente -, era alguém que tinha um sorriso muito bonito
- o que aconteceu?
- sumiu – Alessandro virou de lado e olhou para menina, ele tinha olhos confusos -,  Má, será que eu criei uma imagem na minha cabeça? Será que a gente inventa imagens de beleza?
- que que você tá querendo dizer?
- acho que me apaixonei por uma imagem, mas não tenho certeza se ela existe, não sei se aquele rapaz que eu vi na rua, foi fruto na minha imaginação, se foi sonho ou se foi delírio. Agora, agora, agora. Ele sumiu
- por que você não correu atrás?
- aí que está – suspiro longo – eu fui atrás dele em todos os lugares, eu liguei para casa dele. Foi uma senhora com uma voz horrorosa e brava que me atendeu e me disse: ‘não tem ninguém com esse nome que mora aqui’. De repente, voltando para casa, eu encontrei uma pulseira, Má, essa pulseira aqui – ele mostra o seu pulso – você vê! Essa pulseira é real, eu estou usando ela
- então, esse menino existiu
- será? Má, eu encontrei ele morto em uma calçada, ele apareceu como uma faísca e com tanta vitalidade e tanta energia, sumiu com pressa e hoje, agora, eu aqui, não consigo esquecer, não sei se isso foi produção minha, se fui eu quem produziu ele, não sei se ele já estava morto ou se não era para encostar naquela pessoa?
- Lê, parece que você não está falando coisa com coisa
- Má, – acariciou os cabelos dela – você acha que é possível a gente vivenciar coisas e não ter certeza sobre as suas próprias vivências?
- como assim?
- Má, eu procurei esse rapaz por tudo que é canto, eu menti pra encontrar esse rapaz, eu fui na puta que pariu, quando eu encontrei, ele estava morto. Mas, no IML, esse rapaz estava morto já fazia duas semanas, será que ele tinha morrido atropelado mesmo? Será que eu inventei esse rapaz? Será, Má, que eu estou inventando tudo isso pra te contar essas coisas?
- Lê, você tá meio aflito, não é
- Má, será que eu inventei – ele para subitamente, parece que ele não tem coragem de dizer -, será que as coisas que eu senti perto desse rapaz foram mentiras? Será que eu inventei tudo isso?

Passaram cinco anos, Alessandro casou com Maurício, um rapaz menos bonito que Gabriel, mais extrovertido, mais normal. Alessandro reencontrou a Marcela, ela perguntou:

- como você está?
- eu estou bem – respirou – mas, ainda não esqueço, Má
- o que você não esquece?

- Má, eu não esqueço a beleza que eu vi morrer 

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Vexame

Os fantasmas são invisíveis. Procuro, às vezes, fiapos dessa pessoa no meu pensamento, a natureza da paixão é afetar o presente. A presença dos olhos que um dia acariciou o meu ego, não existe mais, guardo mágoas. Foi uma pessoa que apareceu nas aparências de outras pessoas. Não esqueço as marcas da minha alma, (o ódio é sempre a busca por uma das formas de amor).
Ame uma lembrança, passa, então, uma vida inteira amarrada por ilusões e nostalgias de um tempo que nem era tão bom. A infância marca momentos, somos crianças até os nossos cem anos, - eis a força do verbo “foi”; eis a presença da irregularidade do verbo ser. Vexame de tempo que causa a mim toda a vez que te encontro, não o amo e nem o odeio. Apenas, enxergo que o seu fantasma é imprescindível ao meu caráter e a força do apesar de não é suficiente para fazer minha vida separar-se completamente da sua ausência.
Não amo mais a sua pessoa, o vexame é o verbo amar na própria busca de conhecimento humano. Passo a te odiar, afetando o meu passado para acontecimentos ruins; passo a te amar, afetando o meu passado para acontecimentos magníficos. A imagem desse fantasma é inaparente, portanto, preencho com todas as possibilidades do mundo, inclusive sobreponho minhas incongruências de caráter para, na verdade, definir a mim mesmo. O vexame é esse: nosso amor foi uma história contada somente por uma pessoa ao bel prazer e semelhança, como um Deus, invento um amor e elejo como o melhor de todos. Me impedindo, seriamente, de viver todos os outros que existem no mundo.

Os fantasmas são invisíveis, não os olho, não conheço as cores deles, não sei se eles conhecem a natureza ridícula da figura humana. Amo-os por conta da natureza misteriosa e estranha que provoca a mim; ridicularizo-os por conta da minha natureza selvagem de negar que eles são uma invenção de algo que não consegui me livrar. Meu passado assombra minha porta, um vexame que inaugura um dado real, a não realização e negação da minha presença sentimental (não puramente racional) em vários momentos da vida. A figura completa de um ser muito mal resolvido na vida diante da sua total falta de entendimento da natureza selvagem que esconde e do seu próprio passado que parece não ter vivido intensamente. O tempo é invisível demais aos nossos olhos. 

sábado, 6 de julho de 2013

Entre dois homens, o boteco e o café da manhã

- De tudo na vida, o que eu acredito que seja mais impressionante é a experiência. Você não acha impressionante ter a vida que você tem?
- ora, a vida que eu tenho é normal – (Márcio colocava açúcar no café, pegava as sobras com dedo anular).
- como você pode ter certeza? Eu acho impressionante, meu, nascer assim como eu sou, sendo que eu poderia ter nascido de outra maneira. Eu nasci brasileiro, tenho vinte e três anos, estudei em uma puta faculdade, sou formado em economia, nunca tive namoros longos; em compensação, tenho um monte de coisa que muita gente não tem; por exemplo, adoro alguns tipos de livros, gosto de beber segurando os copos com a mão esquerda e, de todos os homens do mundo, tenho uma rotina só minha que não é sua
- mas isso é normal, Victor
- não é, meu, por exemplo, você é você, você não é eu. Cê não consegue achar isso impressionante, muito louco! Você nasceu Márcio, a gente estudou juntos, a gente é amigo, temos um vínculo, você trabalha, você vai casar com a sua noiva, vai ter uma filha com vinte e cinco anos, vai morar em Santa Catarina. Eu não vou casar, vou fazer mestrado em filosofia e não vou ser pai tão cedo; às vezes, eu duvido muito se eu vou ser marido e terei uma namorada fixa. Você é você, Márcio, você não é eu. Você tem as experiências que não são minhas, são suas, essa é a sua vida
- bom, mas isso tem mais a ver com destino. Cada pessoa nasce para vivenciar uma vida, as pessoas escolhem, antes de reencarnar, e se destinam a fazer determinadas coisas e não outras
- tudo bem. Independente de uma explicação religiosa, Márcio, vamos esquecer por enquanto isso. Não é louco? De todas as possibilidades do mundo, eu nasci exatamente a pessoa que eu sou hoje, eu poderia ter sido travesti, gay, negro, judeu, argentino, chileno, ter sido órfão, cachorro ou barata. Mas não! Eu nasci brasileiro, classe média, branco e sou formado em economia, mesmo com todas as possibilidades do mundo, eu tenho essa vida e não outra
- mas, qual o problema com isso? Por acaso, você queria ter outra vida?
- poxa, eu queria ser pianista, já tive vontade de ser mulher, já sonhei ser pássaro. Uma vez, queria até ter nascido negro em uma periferia, sem mãe e pai, para ver que tipo de visão, eu teria. Poxa, não é estranho! Eu tenho uma visão de mundo, terrivelmente limitada, porque eu tenho as experiências que eu conheço, sendo que poderia muito bem ter tido outras

Nesse momento, passa duas mulheres, uma morena e outra ruiva. Uma usava um vestido verde e os cabelos soltos; a outra usava uma calça e camiseta, um batom vermelho forte, a roupa discretamente decotada. Elas, deslumbrantes, passam distraídas por eles, ambos percebem e olham descaradamente para o corpo delas. Márcio derruba sem querer um pouco de café na mesa e respinga na sua calça, Victor dá um pulo de alegria e continua sorrindo. As duas mulheres vão embora, eles permanecem onde estão.
- tá vendo
- como elas são gostosas!
- não! Nós! Por que nós olhamos?
- porque elas são lin-das
- Não, homem! Por que sentimos desejo por mulher?
- ora, isso é normal, anormal se fosse o contrário
- Márcio, mas e se a gente não olhasse, se a gente não sentisse desejo por essas mulheres; já pensou que eu e você poderíamos muito bem ter desejo um pelo outro e oprimir isso. Eu poderia tá louco de tesão por você, mas a gente será para sempre amigos
- você é louco! Eu gosto de mulher – Márcio dá um pulo de susto
- mas, poderia não gostar e gosta. Você não vê? Nós somos o que somos, não o que não somos. Diante de tantas possibilidades, só que temos os nossos desejos sexuais, os nossos medos, nossa língua, nossos gostos, nossa cultura, nossos amigos, nossa família; criaremos um futuro assim por conta de uma religião, por conta de um padrão de relação, por conta de tanta coisa. E se fosse o contrário? E se eu fosse uma mulher que nascesse lá no Irã? E se eu fosse índio, Márcio? Eu não seria eu, seria outro, acho até que teria raiva de mim, dessa pessoa que me visto, dessa pessoa que eu sou e me conheço
- Victor, você não tá meio pirado não! Que conversa é essa? Falou de gay, falou disso e daquilo? Tá insinuando o quê?

Passou um homem barbudo ao lado deles, sentava sozinho na mesa. Depois de dois minutos, aproximou dele um outro homem de cabelos loiros. Eles, dois homens bonitos, se beijaram demoradamente. Márcio fez uma cara de nojo e desprezo, Victor bebeu um gole de café, deu outro pulo de exaltação, bateu nas costas de seu amigo.
- Viu!
- o quê? Esses daí se beijando
-  exatamente! Por que, Márcio? Por que somos assim se a gente poderia ser outro?
- Victor, eram dois homens se beijando
- e daí! Podia muito bem ser a gente se beijando, se amando e se perdendo publicamente. A gente podia tá no lugar deles
- Victor, para com isso
- para por que? É verdade! Você sabe que é. Somos o que podemos ser. Márcio, eu podia dizer eu te amo, podia falar que eu tenho ciúmes de suas namoradas, também podia falar que, na verdade, eu sinto ciúmes de você, podia falar que amo a sua vida, que eu queria ser você. Do mesmo jeito, o contrário, você podia ser eu. Mas, por alguma razão, que me foge dos meus conhecimentos, porque a minha sabedoria também é limitada, eu não entendo, eu não entendo porque eu sou eu e você é você, por que aqueles dois gays são gays? Por que aquelas mulheres me afetam? Por que eu tenho esses sonhos e não outros? Você entende?
- Victor, o que eu entendo que já está na hora de trabalhar, vamos embora, vai pagar o seu café ou quer que eu pague?
- não, não se preocupe, eu pago meu café
Márcio, antes de ir embora, bate nas costas de seu amigo e fala:
- quero você para ser padrinho do meu casamento, você aceita?

Victor para subitamente com as mãos suspensas, sorri e aceita a proposta com um abraço. Márcio vai embora do boteco. O homem branco, perdido, com seus óculos de armação preta, terno e gravata, olha para o dono do boteco, paga dois reais e pensa: “eu podia estar casando com a mulher dele, mas ele vai casar no meu lugar; eu vou viver a vida que é minha, vida que ele não vai conhecer, porque ele tem outra”. Victor foi embora. 

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Interrogação


Fico assustada também comigo e com a minha imagem. O mundo me assombra, diante disso, resta apenas um vácuo. Devo questionar esse vácuo? Será que esse desassossego com qual eu me assombro todos os dias tem alguma relação com o meu ser ou com a imagem do meu ser? Desse ângulo, o espanto é tão grande que, ocasionalmente, faz a pergunta mais imprecisa diante das coisas, me leva como um tropeço às questões: quem sou eu? Pra aonde vou? Onde estou?
Interrogar o vazio é o mesmo que pedir conselhos amorosos para parede. Nada acontece. E o nada é instigante e terrível, ele pode ser preenchido de futuro e aprisionado de passado; eu tenho que perguntar também até que ponto essas categorias “futuro” e “passado” respondem a pergunta vital: que horas são? Vinte minutos para viver mais ou para viver menos. Tudo é tão insólito, não agarro nada nas mãos, questiono também a pergunta. Olho a mim mesmo e não tenho certeza se essas perguntas são minhas, se eu as criei realmente ou se falaram para mim que eu deveria fazê-las.
Tenho, então, o sujeito que pode ser, facilmente, embriagado com conhaque ou com a sobriedade de um destino com valores burgueses, - um sonho de família como um comercial de margarida e café com leite pela manhã. Embriago-me com receitas de bolo ou com porres todas as sextas-feiras para esquecer a angústia? Mas que angústia é essa? Sou muito contaminada por sentimentos, não enxergo as coisas por que sinto demais, ao contrário, não enxergo as coisas porque evito sentir.
Sonho contaminado de competitividade e perfeição! Amor impregnado de exclusividade e puritanismo! Frases repetidas, pessoas iguais, discursos proferidos em bares e museus, tudo repetido. De que adianta responder perguntas mutáveis se o mundo me foge dos olhos e os acasos são tão iguais? Minha memória é o peso que carrego no cotidiano, a imaginação é maldita, não vejo solidez e concretude nas relações, as coisas desmancham e o ar fede. O mundo parece sem saída. Evito sentir a angústia, a fuga pelos meus sentidos, iniciando pelo corpo é a melhor saída, não sinto mais as coisas, suicido devagar, roubando de mim mesmo, primeiramente, a minha vontade de viver.
Dessa maneira, volto o pensamento a mim mesmo, não estabeleço mais relação com os outros, estou triste, cansada e morta demais para estabelecer vínculos e buscar uma saída. Não me aventuro criar novas coisas, reproduzo em mim um mito de felicidade e, para respirar, paro de interrogar e de indignar diante das coisas. O mundo não tem saída.
No fundo disso, sozinha no quarto, não olho mais nada, as coisas tendem a ser o que eu olho para elas, fecho os olhos. Fujo, mas, lá dentro, questiono-me: quem disse que os mortos não andam e respiram entre os vivos? De olhos fechados, paro de fazer perguntas, não corro riscos de enlouquecer parando de interrogar, ficarei sã, ficarei sã, ficarei sã... De olhos fechados ainda, repito essas frases como um mantra, sinto sono, caminho até cama, abro os olhos, a cama é exatamente uma cama. Durmo, não tenho sonhos durante a noite, mas acordo diante de uma realidade que mais parece ficção, devo viver um pesadelo.  

terça-feira, 16 de abril de 2013

Sobre o tempo que materializa na gente


Caros amigos,
Isso aqui é uma autobiografia, e como toda (auto) biografia, ela pretende-se ser mentirosa. Por isso, peço para que não acreditem em mim, duvide tudo. Inclusive, duvide isso que eu falei agora, porque cada palavra minha é falsa. Somente essa frase que acabei de inventar é verdadeira, a anterior é uma mentira da verdade que inventei. Porque, meus queridos amigos, o tempo muda tanto, só disso eu tenho certeza, o verbo ser é o único irregular.
Vocês estão me entendendo? Eu não tenho certeza de nada. Sinto saudades apenas, não sei nem explicar de que. Só sinto que houve um momento na minha vida que eu acreditava que estava tudo bem, mas esse momento também é uma mentira bonita que a minha memória inventou para continuar a labuta do meu cotidiano (veja só!), mais feliz ou menos angustiada.
Sabe como o tempo se materializa? Ele se materializa em corpo. Certa vez, andando por São Paulo, revi uma amiga minha de escola, uma dessas que costumava almoçar na minha casa, trocamos olhares, não sei nem se ela me viu. Eu a vi; olhei-a profundamente e como doeu a consciência de que nunca mais a veria novamente. Nunca mais estabeleceríamos contato de novo. O caminho dela sem querer tropeçou com o meu, isso foi um acaso. Irrepetível.  Ela estava diferente, não conversamos, não vamos conversar jamais, ela não é mais a minha amiga. Eu não a conheço. Nesse momento, tive a certeza clara dos meus dias e do meu corpo, o tempo mudara brutalmente.
Me deu uma tristeza nostálgica, fervorosa no olhar. Afinal, ainda não aprendi dizer adeus. Não à minha amiga, aquela que encontrei no metrô e no caminho de volta pra casa, que trocamos apenas olhares e que, jamais, conversaremos outra vez. Dela, eu não sinto falta, sou egoísta demais para sentir falta do outro. Eu sinto falta de mim. Rever um amigo, que outrora foi íntimo seu no passado, é a certeza exata de que o tempo é selvagem suficiente para mudar com o seu cotidiano, tirar os seus amigos, afastar de vez a sua inocência e virgindade com algumas coisas da vida. O tempo é brutal, não porque é dinheiro, mas porque é selvagem. O meu corpo é outro, meu modo de ver as coisas se transformou por conta do desencontro que aconteceu. Por outro lado, me deu uma alegria plena, pois descobri que era impossível o retorno do cotidiano de ontem, era possível agora criar uma pessoa nova, um olhar novo e um ser humano melhor em mim. Aquela amiga que se perdeu no meu caminho, ensinou-me a me encontrar como caminhante diante do desencontro que nos encontrou casualmente. Passei a olhar a vida com novos olhos, meu olhar hoje é tão efêmero.
Rever um amigo íntimo do passado é a forma mais perfeita de materialização do tempo. Certa vez, reencontrei outra amiga, essa eu tive uma briga. Queria nunca mais vê-la de novo. Pensava que ela imaginava as coisas mais terríveis sobre minha pessoa, mas nos reencontramos, desabafamos todos os excessos de adolescência que ainda possuíamos nos nossos corações uma para outra. Distante de mundos, aquela amizade que jurava ser eterna, passava não ser, não a conhecia. Ela não me conheceria de novo. Éramos duas desconhecidas íntimas que um dia visitaram a casa uma da outra, contaram segredos e sonharam juntas. Saudades apenas. Não havia nada para fazer, eu só podia sentir impotência diante do tempo, o único Deus infinito que, cada dia mais, me dava certeza da finitude da vida, mas não por causa da morte, ao contrário, por conta da vida. A vida é entranhada de acasos, desencontros e encontros, curiosamente, a falta de originalidade do meu cotidiano era reafirmada com vários acasos. Todos os dias são iguais e não são.
Seis anos depois, reencontrei outra amiga. Seis anos não são seis dias. Tive um orgulho tão grande e uma alegria tão intensa de revê-la, havia uma mudança brutal nos olhos, no corpo e na voz. Era outra pessoa, tinha se transformado em mulher, desembestou na vida, ela era outra pessoa. Me deu vontade de contar toda a minha vida do início ao fim, mas o presente me ensinara que as histórias são sempre contadas através de fragmentos, a totalidade é sempre impossível. Não era mais a mesma pessoa, tanto que eu me perguntei se era possível continuar estabelecendo relações com esse novo ser humano diante dos meus olhos. Eu estava impossível, não era mais a amiga dela, também era outra. Éramos outras sendo as mesmas.
Caros amigos, o tempo é violento. Revi também outros amigos, fiquei me perguntando seriamente: será que eles sentem tanta falta de mim como eu sinto deles? Ou será que é deles que sentem falta do mesmo jeito que eu sinto falta de mim? Soube da morte de um menino de vinte anos, que tinha nascido em 1992, fiquei com medo de morrer repentinamente. Me deu vontade de ligar para todos os meus amigos, só para ouvir a voz deles. Não aprendi nada com o Drummond, não aprendi nada com nada, não posso esperar nada deles. Não posso esperar nada de ninguém. Só posso amar aqueles que são estranhos a mim, por isso eu amo esses desconhecidos íntimos que um dia eu chamei de amigos. 
Fiquei com tanto medo de morrer, senti uma vontade de ser protegida por todos que um dia me ensinaram a diferença entre um livro e o outro, me empurram pro primeiro beijo, brigariam comigo se eu me envolvesse com os canalhas que me envolvi, me apresentaram Moulin Rouge, falaram que um dia tudo daria certo, me mostraram Bergman, me deram um livro da Clarice Lispector e disseram para mim que o mundo só valia a pena se as relações fossem feitas com generosidade e amor. Eu sinto medo de morrer, por isso senti o impulso de pegar o telefone e falar com todos os meus amigos sobre bobagens e coisas bonitas. Depois, me arrependi. Não liguei para todos os meus amigos, percebi que na minha lista de telefones eu não tinha o número de muitos, não tinha fotografias, não tinha sequer a lembrança do rosto de alguns, me bastava alguns pequenos fragmentos que eu guardei na minha memória sobre cada um dos meus amigos.
Por isso, fiz uma lista, sabendo que a escrita é o pior recurso para guardar a lembrança das coisas que aconteceram. Tentei escrever algo sobre todos eles. Isso aqui é uma autobiografia que pretende ser autêntica, diante de minha solidão, eu não vou poder mais daqui em diante dividir mais nada com vocês. Eu vou deixar os meus rastros na memória de vocês, espero que alguns de vocês lembrem o quanto eu fui verdadeira quando abraçava, quando eu disse uma mentira para alegrar, quando eu contava trechos de textos que eu gostava, ria alegremente ou mesmo quando eu ficava em silêncio ouvindo a história de vocês. De vocês, eu só tenho sobras de mim; o mesmo vale o contrário. Só guardará de mim, aquilo que a subjetividade de vocês, meus caros, gostar de recordar.


De resto é só isso;
É preciso viver a vida no apesar de.
(Clarice Lispector)
Ass: B.L. 

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Anotações do relógio parado: Os devaneios de um corpo sem alma


Inquietude ou ânsia? Marta não sabia responder o que ela sentia no fundo do coração. Olhava-se, percebia o corpo e não conseguia enxergar a boca. Era uma ignorante, inclusive dela mesma, Marta só enxergava os braços, as mãos e a ponta do nariz, não tinha a mínima ideia de como ela era de corpo inteiro. Só se conhecia através do reflexo deturpado do espelho.
Marta tinha acabado de chegar em casa. Sentou-se na cadeira. Os pratos sujos chamavam-na insistentemente. A cor da parede era branca, na cozinha tinha uma mesa ao meio, dois quadros expressionistas decoravam o ambiente, o apartamento era muito grande para morar sozinha. Um pouco menos de um ano e um pouco mais de dois meses, Marta morava nesse lugar. Ela vestia preto, usava botas e respirava um ar de cansaço.
Repentinamente. (Porque é sempre repentinamente que as grandes coisas acontecem! Embora sejam muito banais...). Repentinamente, ela levanta-se, toma uma xícara de café e fuma o último cigarro do maço. Era o último cigarro da manhã, amargo e consolador, (Marta precisava comprar outro maço de cigarros, quando fosse ao supermercado). Ela se levanta e vai em direção ao quarto, encara o relógio preto em cima da mobília, esse objeto fascina a sua imaginação, pega-o, voltando para cozinha.
A cozinha estava silenciosa. Marta, antiga atriz e atual recepcionista do consultório do Dr. Pedro, um dentista, não tinha reparado no silêncio quando chegou em casa. Ela sentiu vontade de chorar, uma angústia lhe apertava o peito. Olhou, finalmente, o relógio parado. Decidindo criar uma situação nova que propiciasse o fim do tédio da segunda-feira. Nesse joguinho, ela criou objetivos: 1º) observar o relógio parado; 2º) perceber o som no silêncio. Anotaria as experiências com relógio preto dentro de um caderninho marrom, rasgado e rabiscado.
Chorou, mas não sabia responder qual era o motivo da tristeza. Marta, vivendo essa situação inventada, pensou de repente que conseguia responder mais facilmente as perguntas profundas e filosóficas dos grandes pensadores modernos do que responder as perguntas práticas do mundo cotidiano e banal. A vida se repete. O que ela faria amanhã? E depois? Como seria se não conseguisse o dinheiro para pagar o aluguel? E depois? Quando ia comprar comida para encher a geladeira? E depois? Que horas ela ia tomar banho? E depois? E se fosse despejada do apartamento? E depois. O cotidiano saltava-lhe aos olhos. Marta precisava arranjar um emprego, lavar pratos e arrumar o guarda-roupa. As roupas estavam todas desorganizadas.
Quanto ao relógio parado, o gravador era sua única companhia. Marta registrava todos os seus depoimentos nele.
*8h15min: “Eu, Marta de Martini Santos, me dei o objetivo de observar o maior tempo que eu puder esse relógio quebrado. Os ponteiros estão imóveis.  – ela gravava a sua voz no gravador – Quero, nessa experiência, apreender a matéria do silêncio. Seria uma espécie de laboratório teatral? Algo até muito idealista. O silêncio é uma utopia? Vou anotar diariamente todas as minhas vivências com esse objeto inanimado
*8h17min: “Eu sentei nessa cadeira branca e comecei a observar esse relógio. Notei que ele estava quebrado, os ponteiros apontavam sempre para um mesmo horário: 7h55min50s; 7h55min50s; 7h55min50s. Parece que o tempo parou, não escuto nenhum barulho, talvez o ritmo do meu sangue. O relógio era preto, arredondado e morto. No meio do objeto, tinha uma palavra escrita em cinza, caixa alta, QUARTZ, embaixo do número doze, outra palavra, itálico, Yin’s, escrita em preto”.
Renato. Marta pronunciou esse nome mentalmente. Re-na-to. Era o nome do seu primeiro namorado, rapaz simpático, cabeludo e muito quieto. Os olhos eram grandes, a boca muito fina. O sonho de Renato era ser escritor. Tinha uma frase marcante na vida de Marta que ele sempre repetia, era sobre os livros detalhistas: “ninguém quer saber quantos grãos de trigo tem no saco, isso não é importante. A vida expressada! (quando ele falava isso, abria muito a boca, Renato ficava entusiasmado demais), o drama humano, não, não, não, o drama cotidiano da existência, é isso, as pessoas querem algo que vai além do drama cotidiano da existência, a arte ultrapassando a vida”.
*8h30min: “Drama humano?! Não, não, eu não saberia pensar sobre isso, não sei nem direito o que um relógio quebrado, um mero objeto inanimado, pode ter a ver com o drama cotidiano da existência!...eeeeeh, se tiver? Acho que isso é uma grande loucura, olhar esse relógio não vai me fazer chegar onde eu quero...maaas, o que eu quero? O silêncio? O silêncio vai por acaso preencher o meu vazio? O silêncio, que é o vazio, pode preencher outros vazios?”
Toca o telefone: trim-trim-trim.
*8h31min: “atendo? Quem será que é a essa hora da manhã? Ninguém normal acorda às oito horas para ligar. Eu não vou atender. Estou muito ocupada com esse trabalho artístico. Vou me descobrir e perceber o meu corpo. Sim: o corpo. O corpo é a resposta! Meu corpo sabe mais de mim, guarda mais memórias e diz mais o que sinto do que eu mesmo”. 
Marta tira o telefone e deixa-o fora do gancho. Ninguém mais a incomoda. Só há o silêncio.
*8h42min: “Vou concentrar todas as minhas energias nesse relógio parado (fechando os olhos) Não! Quero enxergar esse momento que criei, senão eu vou perder ele para sempre. Na realidade, o relógio é parado, não existe movimento nele... Droga! Me perdi, eu tinha mais coisa para falar antes, mas esqueci....”
Tic-tac-tic-tac-tic-tac-tic-tac: esse é o barulho de outro relógio que existe na cozinha da Marta, ao lado do menor quadro de pintura expressionista. Marta não diz nada, só o percebe.
*8h45min: “isso é o relógio? Ah!! Me esqueci que tinha outros relógios na casa, mas, veja, que momento! É um relógio vivo gritando e um relógio quebrado, mudo. Tudo em contraste, disforme, como a minha vida. Os gregos definiam o movimento como tudo aquilo que transformasse a realidade, mesmo algo parado pode significar movimento, acaso atingir a transformação do real. Acho que eu estou me modificando, não sei o que isso significa...”
Tudo é transformação. O tempo sobrevoa nas costas de Marta, é inevitável, todos os dias ela está próximo da morte, envelhecendo e entristecendo. Ela não consegue tocar o silêncio, porque não sabe se isso também é uma invenção dos homens para atingir a felicidade. O silêncio pleno pode ser uma utopia. As mãos alisam a pele e os cabelos, caminham até o útero e Marta relembra o seu sexo.
*8h50min: “ter um útero é diferente, é mesmo muito diferente do que não ter...”
*8h51min: “porque a arte nos inferniza, porque quando você toma a decisão de ser artista, não escapa mais, porque eu tô com fome, porque eu preciso comprar anticoncepcional, porque eu preciso pagar o aluguel, porque não falo mais com os meus pais, porque não tenho dinheiro para pagar as contas de água e luz, porque Rodrigo transou comigo e não me ligou mais, porque nunca sei...”
Ela relembrou, repentinamente, as duas vezes que tentou largar o teatro. Sentiu como um objeto perdido, mas nunca achado. Não soube se exprimir para ela mesma. Parou, respirou e quase gritou. Sufocando o grito, sussurrou.
8h55min: “e abandonei, mas não resisti por muito tempo, eu acabei voltando pro teatro dois meses depois. O que há nessa coisa que é tão difícil de sair e tão fácil de desamar? Atuar... No começo é lindo, depois fica uma merda. Um dia a gente aprende que o prazer é sempre complicado, exige paciência e personalidade, um dia a gente aprende que o amor é inundado de angústias, a gente aprende que o medo é natural, a gente aprende que a raiva é o sentimento que implica posicionamento. Acho que um dia a gente aprende”
Marta pensando, um relógio inanimado e outro tiquetaqueando. Na maioria das vezes, o ser humano perde a cabeça quando pensa demais e se esquece de viver o presente. Um Instante parecido com o silêncio, difícil de agarrar, com as mãos, essa tal efemeridade do aqui e agora. O presente se vai, se perde.
*8h57min: “ por um momento não consegui perceber nenhum som, me esqueci do relógio e não senti nada com meu corpo. Droga! Me perdi de novo, esqueci completamente da coisa, de tudo, do que eu queria realmente...”
*8h58min: “...será que sabemos o que queremos realmente? Ah saco! Eu de novo me indagando e esquecendo da vivência... aaaaah vida!, o...”
*8h59min: “... instante se foi, indo, indo e eu nem peguei...”
*8h59min59s: “...ou...”
*9h: “...eu que fui?” 

sábado, 6 de abril de 2013

Espelho III: a consciência e a ilusão do mundo



 Tudo que eu conhecia em mim ganhava volume como massa de bolo que coloca fermento e cresce. O sabor do bolo era amargo, a floresta negra que sondava o meu ventre, insurgia em mim sentimentos perigosos como o medo de ficar grávida, o desejo por todos os homens do mundo e o gosto do inferno. Estava em processo, me transformando pouco a pouco em uma criatura inventada, eu seria o que eles queriam uma mulher.” (Espelho I, 2006)[1]

“O tempo foge das minhas mãos. Envelheci alguns séculos essa semana, mas esqueci de contar para os mais velhos. Apago a luz, fecho a porta do banheiro. O espelho nunca muda, permanece espelho.” (Espelho II: Sobre o tempo e a memória, 2010)[2]

“Quem sabe eu ainda
Sou uma garotinha
Esperando o ônibus
Da escola, sozinha
Cansada com minhas
Meias três quartos
Rezando baixo
Pelos cantos
Por ser uma menina má” (Cazuza. Malandragem)[3]

I

Esperando o ônibus azul. Ansiosa para dar o horário. Eu penso em tudo que eu vivi e que não vivi igualmente, sem desproporção. Fico muito ansiosa, com uma leve sensação de que a minha vida não valeu a pena ou que a minha vida é muito boa. Sonho com sexo, amor, Cuba, Paris, penso seriamente nas minhas tias e na falta de grana. Cadê o ônibus? Ainda não chegou. Puta! Que vontade de arranjar um namoradinho essa semana, só pra levar no papo.
Ao entrar no ônibus, procuro seriamente algum lugar próximo da janela. Detesto ouvir música se não for para ver a paisagem passando na minha visão míope de São Paulo, (cidade de baita mau gosto que odeio amando profundamente. Os melhores anos da minha vida foram todos aqui, os piores também. Cidade de contradições exageradas que se aprende desde criança). Coloco na primeira música que aparecer na rádio 89,7 F.M.. Vejo os matos, os casebres, as favelas, os prédios, o shopping, os caminhões, a chuva e o trânsito da Dutra temperamental. Vou ficar parada. São duas horas; vou chegar atrasada e só me resta ouvir essa música até o final para não entediar.
Lembro-me de todos os meus amores, amigos e sonhos que passaram na minha vida; percebo que a minha vida não foi tão mal. Ao mesmo tempo, sinto como eu sou carente de futuro, fantasias e desejos; concluo que a minha vida é de uma pobreza subjetiva suprema. Sinto vontade de desistir de tudo inteiramente, me jogar no carro em movimento. Mas uma voz interior relembra que a minha juventude não pode ser perdida por tão pouco, há muito para se viver. A minha vida é uma linha tênue entre morte e vida o tempo inteiro, não esqueço que um dia a minha beleza e carisma vão desaparecer. Eu não pretendo ser um mito de vinte e sete anos, estou preparada em virar eu própria no avesso e transfigurar-me na mulher mais feia, gorda, velha e mau humorada do mundo. Mitos possuem a responsabilidade da morte, não aguentaria esse peso, não queria virar museu para os intelectulóides blazés.
Olho para Dutra, não estou em movimento, é o ônibus que se movimenta por mim. O espelho do ônibus (que na verdade é a janela do ônibus), meio ofusco e perdido no espaço, reflete a minha imagem. Sou uma cópia mal feita do passado dos meus avós. Fico desconcertada, eu me sinto tão bela, mesmo com o cabelo despenteado, os olhos cansados e maltratados pelo dia de ontem, os sonhos adormecidos na gaveta. Será que as duas décadas nesse mundo de milhões de anos têm surtido em mim algum efeito bom? Desisto inteiramente de fazer perguntas difíceis para não enlouquecer.
(Regras perversas básicas para sobreviver no mundo terráqueo: ser feliz, ser duro consigo mesma psicologicamente, ser espontâneo, ser engraçado, ser erudito, ser falso, etc, etc e etc. Eu tento desesperadamente colocar alguma máscara social dessas para aliviar minha angústia, mas não diminui. Só aumenta). De repente, cai a ficha. Não consigo mais ver utilidades de tantas máscaras e símbolos para esconder quem realmente gosto de ser. Aí, me assusto com a descoberta tosca, fixo o meu olhar na imagem em movimento do espelho ruim.
Nunca seria uma mulher realizada. O meu tempo é irregular, mas os meus olhos são de hoje. Meus cabelos, meus sonhos e minha vida são as coisas que posso fazer hoje. Nem sempre as pessoas do passado vão guiar todos os seus passos no presente, o tempo é um presente intransferível para cada um. O tempo é a experiência amorosa mais completa, de liberdade e de opressão, temos o poder dele em nossas mãos quando aprendemos tomar as nossas decisões, mas também somos reféns das escolhas de outros e, às vezes, nem sabemos reconhecer onde somos prisioneiros da História. Crescer nunca foi uma tarefa fácil para ninguém. Não, definitivamente, como diria Sofia (de Clarice Lispector), não era por maldade que eu não estudava, era porque eu só tinha tempo para crescer, descobrir e redescobrir o mundo dos outros, meu e do cachorro do vizinho.

II

Meu olhar fixa exageradamente na figura da moça refletida no espelho que me espia. Não a reconheço imediatamente, fico também bastante apreensiva para não perder o ponto de ônibus que eu tenho que descer. Escuto músicas, sonho demais acordada e relembro a feijoada no Capão Redondo em pleno Domingo que tenho de ir, tenho uma festa de família lá. Não acredito muito em todas as verdades que me contam, gosto das mentiras, sou da tribo dos vagabundos, dos artistas e perdidos no mundo. Gosto de abraçar, beijar e amar. O importante na vida é dar amor, espalhar esse sentimento catatrófico pelo mundo e sonhar ainda com as coisas. O sonho é a única matéria de humano que existe em mim, fecho os olhos e deixo a minha imaginação voar, sem censura. Apenas, flutuo no mar da minha imaginação.
Gosto de imaginar o mundo como um grande recreio que as crianças brigam para não sair e não voltar para aula chata de matemática. Os olhos da moça que me espia com curiosidade, acabaram de mover-se,  o espelho ruim entorta um pouco a imagem. A moça parece um pouco confusa com tudo, anda como uma turista no mundo, esquece de perguntar os números de telefones dos homens que amou e transa com tanta facilidade com todos os desconhecidos.
Vou falar de signos para falar de mim. E falar de si mesmo é sempre muito complicado, o que você imagina que é na sua cabeça, não é o que os outros te veem. O poder da imaginação é tão incrível que a capacidade de criar pontos de vistas parte de si mesmo e da sua relação direta do corpo com o mundo. As pessoas podem enxergar como uma baixinha medíocre, mas não você. Na sua cabeça, olhando esse espelho ruim, sabendo o quanto está desarrumada e bicho grilo. A sua imaginação voa, o seu corpo tem mil metros de comprimentos, a sua fala, o seu rosto, tudo em você é mais gostoso. (E a Dutra continua parada).
Na janela, eu vejo cores, pessoas e lugares. Me esqueço que estou no mundo. Os olhos da moça do espelho, quase dormindo, espiam o jeito que eu remexo os meus cabelos. Não tenho a mínima ideia qual é o mundo que eu vivo, do mesmo jeito, que não confio nas imagens do espelho ruim no meio dos caminhos. O mundo parece tão belo nessa visão, porém, de perto, é só ilusão de espelhamento. Na janela, eu vejo o mundo passando, meio ilusório, sabendo que a minha miopia atrapalha na visão das coisas. Eu sempre fingi que enxergava bem as coisas, a moça do espelho ruim que me vigia, sorri descaradamente da minha falta de noção do mundo.
A minha consciência é esquizofrênica, tenho profundo delírios sobre o que é a realidade. Rezo todos os dias para conseguir ter mais malandragem na vida, pois isso é a única lição que vale a pena aprender. O resto é detalhe de erudição, não faz muita diferença os livros que eu leio, nem a faculdade que eu faço. Rezo, sonhando acordada, para sair dessa teia de opressão que cada dia me entrego mais, mais e mais. O tempo corre de assustado. Eu me sinto muito manca para acompanhar os meus colegas que já estão a três milhões de anos na minha frente, me sinto parada eternamente em um trânsito da Dutra. Sem poder sair, sem poder correr, andar a pé e vivenciar os lugares com a calma de que necessito.
Eu sou a moça do espelho ruim, tenho desejos imensos, manias estranhas de sonhar acordada quando não posso. Perco-me na minha irregularidade do verbo ser, não sei exatamente o quanto a ilusão do mundo se identifica comigo. Não posso vivenciar as coisas pela metade mais, o mundo me pede cada dia mais, não quero, não posso e vivo uma vida de medo todos os dias. Não queria sentir tanto medo do outro, porque é disso que sinto medo. É sempre da relação, por isso não me acho, porque não adianta viver no mundo sem o outro para mostrar os lugares desconhecidos. Tenho receio de que a moça do espelho descorda de mim, pois aprendi bem com a cultura do narcisismo. Amo eu mesmo com todas as forças que não consigo me imaginar fora de mim.
Mas estou aí. Diante de uma imagem ofusca e perdida, olhando-me para um espelho em movimento que reflete muito mal a minha vida, os meus anseios e medos. Estou diante de mim, mas ainda não consigo me encontrar. Acho que o mundo não me representa, eu mesmo não me represento. Sou o ator de mim mesmo.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Ventre


A menstruação pode ou não estar ocorrendo em meu corpo, minha barriga clama e os meus ovários são o grande mistério. Será um filho ou um aborto? Estou prestes a me parir de novo ou vou parir outra vida iminente? As palavras fogem. Ainda tenho alguns defeitos, escrevo querendo agradar.
(Não deveria, sei que não deveria).
 A escrita imita tão bem a vida, às vezes a minha dúvida é tão grande que não sei bem se esse roteiro é meu ou se alguém escreve por mim. Sei só que a vida e a arte são irmãs gêmeas, bastante temperamentais. A vida só é limitada pela morte. A arte é só limitada pela eternidade.
Quero viver sem ter que pedir autorização ao mundo (autorização de ser eu mesma), mas tenho medo que a minha vida inteira seja uma ficção, um enorme fracasso. Meus pais possuem um controle vital de minhas ações a ponto de toda a minha identidade ter sido constituída por conta de nossa relação. O que eu sou de virtude e defeito, vieram deles. Eu os culpo, mas deveria culpar a mim que tenho medo de impor os meus valores e assumir as consequências desses atos. O meu ventre pode gerar um futuro que poderá me destruir ou poderá criar novos valores.
Tenho medo de morrer sozinha. Não falo de amor, quer dizer, de um homem ao meu lado, falo de pessoas que gostam de estar comigo. Talvez eu devesse abandonar completamente a ideia de ser artista, (ideia essa que suscita a perda total, inclusive de todo ou qualquer resquício de moralidade cristã e de tudo que relembre o paternalismo). Contudo, não saberia pensar a minha vida sem criação. Desde criança eu produzo coisas, produzo sonhos, aprendi a fazer brinquedos e a fantasiar a minha realidade. O meu corpo criava em mim o delírio da fome, eu inventava o alimento e, depois, produzia cocô. Não é por vaidade que invento de inventar coisas, é por necessidade de criação. Por isso, mesmo sabendo da minha possibilidade de fracasso total. Eu quero criar, qualquer coisa, qualquer merdinha ou patifaria furada. As palavras – fonte de sufocáveis inquietudes – são preciosas, porque alimentam a minha individualidade medíocre que me comporto. Assumo que o meu fracasso é inevitável, mas também assumo que me é indispensável continuar criando.
Talvez eu consiga me parir ainda esse mês, mas é sempre o mistério toda a irregularidade das minhas regras. É sempre presente o risco que eu tenho de ter problemas, viver na dúvida, viver nessa inteira confusão e nesse desespero. Poderia, assim, incitar o brotamento de palavras desconhecidas, como: gravidez, filho ou a pos-si-bi-li-da-de i-me-diata de aborto. Seriam palavras novas que produziriam a abertura de um novo mundo aos meus pés. A imaginação é sempre a metade da realização de uma vida, a outra metade é a ação.
Minhas palavras são todas medíocres. O mundo que eu vivo é mais banal, só sei produzir as palavras que todo mundo fala e diz no cotidiano entre amigos, primos e namorados (esses amores que nunca foram meus. Olho agora um beijo na boca de um casal e me imagino a menina beijada. Sonho em pé no meio da rua, entre os carros e no caos. Estórias de amor que eu invento da minha cabeça e que, depois, como vingança as destruo, já que nunca foram minhas). Na verdade, eu sou uma roubadora de mundos, de frases e sotaques. Roubo tanto as pessoas, tão descaradamente, que acho que não me conheço direito. Me confundo demais, não sei direito se eu conto minhas histórias ou se conto as histórias dos outros para falar de mim. O que há de mais real na minha vida é somente a minha menstruação. Meu sangue que tanto escorre costuma sujar demais os meus pensamentos, costuma me fazer chorar palavras que pouco importam aos machos, palavras tão mulherzinhas que, mal ou bem, requer sensibilidades além do feminino.
Infelizmente, tenho a ousadia de ser eu mesma, o problema é que a sociedade rege tantos papéis sociais sobre o feminino e o masculino que uma pessoa assumindo a sua identidade para o mundo é motivo de loucura. Vou desagradar, tenho tanto medo, vou atrair inimigos e não terei os meus amigos vivendo sempre comigo no meu cotidiano para ver as decisões que eu tomo na vida. Por um lado é bom, não preciso contar a verdade o tempo inteiro; por outro, às vezes, sinto uma necessidade enorme de alguém guiando os meus passos. Eu sou tão carente, é tão ridículo chegar nessa conclusão sozinha, mas é verdade. Detesto fazer coisas que eu sei que as pessoas não gostam, mas também não posso fazer coisas que eu não gosto. Não posso me trair.
Não tenho mais idade para cometer traições. Sou absolutamente fiel, mesmo traindo oitocentos homens e sendo amante de todos os homens casados de São Paulo. Não consigo me imaginar vivendo no mundo, onde a traição contra eu mesma seja possível. Se eu faço uma coisa contrária do que eu queria, não é infidelidade com o meu ser, é na verdade ação contrária ao meu pensamento. Nem sempre o que se pensa é o que se é. Ao mesmo tempo, nem sempre o que se é é o que se sonha. Nem toda a ação e pensamento vivem uma relação de causa e efeito. Infidelidade não é contrariedade, é oposição. Não teria coragem de me opor, negando tudo que eu já criei e fui. Eu sou a pessoa que multiplica erros, não que subtrai acertos.
A minha menstruação pode ou não estar ocorrendo agora. Sinto o silêncio brotando no meu ventre. E se for gravidez? Nem tenho idade para cuidar de mim. Teria idade certa para criar futuro? O tempo é um ovário misterioso. As palavras fugiram com o vento. Aquele casal se entreolha feliz, acho que eles vão embora. Foram, acabaram de ir. As palavras também se foram, não vou falar para ninguém o que aconteceu aqui. Esse vai ser um segredo meu que guardarei para o meu ventre.