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terça-feira, 27 de agosto de 2013

Entrevista com o Diabo

Eu nunca consegui descrever aquela figura. Em 1972, aquilo estava diante dos meus olhos, esperando algumas perguntas minhas e eu, em prontidão, talvez, querendo respostas. Estávamos sentados um diante do outro. Eu, com aquela sensação, estranha, de não saber o que perguntar, mesmo sentindo uma petulância irascível; afinal, um repórter que se preza precisa, antes de tudo, possuir um sentimento de ousadia. Todas as perguntas são idiotas. O repórter é a profissão mais idiota que essa sociedade inventou. Sendo idiota, me assumindo assim, eis a minha maior coragem, afinal o repórter é um escritor medíocre que não conseguiu escrever o grande romance. Morreu antes de escrever as primeiras linhas, terminou com perguntas bobas, esperando respostas que não teve coragem de responder por si mesmo.
- o que você pensa do mundo? – perguntei com uma frieza falsa
Houve um tempo de respiração. A sala estava vazia. Então, depois de cinco minutos silenciosos, houve o tempo de fala daquela figura:
- é uma piada de Deus, onde estão andando pessoas medíocres e, facilmente, imitáveis, com sonhos tolos e noções ridículas da natureza. O mundo é um parque de diversões, eu rio demais com as imbecilidades que as pessoas diz. Pô cara, a gente tem três caminhos: 1º) entrar na guerra; 2º) entrar na floresta proibida; 3º) um mergulho no labirinto.
- como são esses três caminhos?
- todos são caminhos sem volta. Todos terminam na morte física. Os homens possuem isso, morrem. Assim, sofrem menos – (ele olhou para baixo, os olhos tristes pareciam fundos), - os imortais sofrem mais, eles conhecem as leis e as regras da natureza, joga o jogo e, às vezes, ultrapassam a natureza.
O mundo aparente é a guerra, onde existem guerreiros cansados, guerreiros preguiçosos e bons guerreiros. Os bons sempre morrem antes. Os preguiçosos têm um monte de truque de cartas, normalmente, vivem nos botecos e jogam truco ao invés de lutar contra os imperadores. Eles se divertem na guerra, são pessoas divertidas. Os medíocres estão cansados, hoje, estão sem saber de nada, não encontram sentido no mundo; eles precisam de explicações, precisam de líderes e decoram livros.
A floresta proibida é também divertida, existem belos e esquisitos animais. Alguns adolescentes entram nela porque se apaixonam pelas fadas e os elfos. Conheço poucos humanos que se transformaram em fadas e elfos, são pessoas difíceis e com temperamentos complicados. Aah! A beleza! Eu adoro a beleza, ela é perigosa e sedutora, eu gosto de trepar com fadas e elfos, esses desgraçados sempre fazem que eu me apaixone por eles. Os duendes é que são criaturas terríveis e escrotas, roubam e são feios, sujos e fedidos; mas, até que conseguem serem bons amigos, é sempre bom ter um amigo assim. Os duendes são baixinhos, entram em todos os lugares, entende, são criaturinhas feinhas, mas são simpáticas e verdadeiras.
O labirinto é lugar de preservação de sentimentos profundos. Não conheço pessoas que moram lá. Só sei que que quem entraram lá, não voltaram, são criaturas que não são criaturas, são profundos e a tristeza e a angústia lá têm outro nome, entende. Os adolescentes que entra lá, não volta e ganha outra aparência, sonha outros sonhos, conhecem outro amor.  Normalmente, os medíocres permanecem na guerra, mas tem gente que consegue se divertir jogando truco e enchendo a cara.
- o que é a memória?
- Isso é uma pergunta bonita. Existem poetas que fazem da memória o fruto de suas artes, consequentemente, o fruto de sua pobreza. O mundo de guerra é mundo de conservação de miséria e pobreza. A memória é feita em diálogos entre pessoas que querem inventar o presente. O passado é uma narrativa inventada. Somos todos meio que poetas da nossa vida, na verdade, não são todos, são aqueles que conseguem e querem ser idiotas a vida inteira. O inferno são dos idiotas.
- os poetas são importantes?
- pra guerra não, na guerra os poetas morrem fácil fácil. Não são todos que sabem segurar uma arma e matar. Apesar que a poesia tem um pouco de morte. Um bom poeta é um assassino em potencial. O poeta sempre flerta com a morte, mas essa sedução é idiota, porque o poeta sempre perde. Sempre! Enfim, eu gosto dos poetas, são criaturas únicas. Pena! Que são poucos e que também vão embora rápido. Vão embora, porque os poetas, na verdade, são criaturas fracassadas, queriam namorar elfos e fadas, não conseguiu; queriam conhecer o labirinto e inventam poesias pra tentar representar esse tal sonho, mas nunca chegaram nem perto disso; eles são criaturas que não conseguem e, aí, correm atrás de mecenas pra bancar, né, os seus poemas. É pra isto que eu existo, banco os poetas, eles fazem pacto comigo.
- o que você é?
Ele olhou para mim, riu com uma malícia sedutora, estava tão bonito. Ri de volta.
- repórteres são burros, a burrice é a melhor inocência. Afinal, só vocês pode fazer essas perguntas estúpidas e tão bobas. Vocês, repórteres burros, são parecidos com os atores, os melhores são absolutamente toscos de tão bons, são tão humildes que até eu fico emocionado. – (ele soltou um som de riso, gostoso, e eu ri também) – O que eu sou, querido? Eu sou o mecenas dos poetas, o cafetão das putas, o cara que sempre está nos botecos, o verdadeiro rebelde, eu sou apaixonado pela beleza, eu amo homens imbecis, porque sempre pagam a conta do boteco, eu sou o cara que fode todo mundo, porque todos imitam porcamente a natureza, ninguém se usa dela. Eu sou o ser inimitável, porque ultrapasso a natureza. Eu sou o diabo.
- eu estou fazendo uma entrevista com o Diabo
- constatação óbvia que só os repórteres consegue fazer! Meu querido, pergunta pra mim o que todos querem perguntar pra Deus.
Eu fiquei com medo, passei os dois minutos mais longos da minha vida. Afinal, estava diante da figura mais popular do mundo. A figura que se rebelou contra Deus. Poderia fazer a pergunta que toda a humanidade gostaria de fazer, então, olhei fundo dos olhos e, com uma petulância tímida, fiz a pergunta:
- como é o Deus?
O Diabo gargalhou. Riu de mim como se eu fosse um idiota, afinal, só um completo idiota teria a coragem de fazer uma pergunta tão estúpida. Ele me respondeu:
- Deus não imita ninguém, nem quer ser imitado. Ele está no silêncio, mas se você for buscar o silêncio para encontrar ele, você não vai achar. Ele está nas árvores, mas se você procurar as árvores para encontrar ele, não vai encontrar. Ele está nos botecos, mas se você se perder para encontrar ele, você não vai encontrar. Ele está em muitos lugares e não está em nenhum desses lugares. Ele não é uma figura, ele não é parecido com ninguém, como eu, não sou parecido com ninguém. Sou o que os outros fizeram de mim. Nós dois precisamos um do outro para existir, eu adoro beber com ele. Ele é uma figura engraçada, ótimo humorista, quase um palhaço e é um bailarino engraçadíssimo. Ele se parece com uma criança. Aliás, ele adora crianças.
- como é que você quer terminar essa entrevista?
- vamos fazer um pacto, meu querido, eu quero fazer um pacto com a burrice dos jornalistas. Afinal, os poetas daqui alguns anos vão estar fora de moda. Se você topar, meu querido, eu te levo até o labirinto.
Naquele dia, em 1972, eu fiz um pacto com o diabo. Ele prometeu que iria apresentar o labirinto para mim. Não conheci o labirinto. Depois, perguntei a ele porque tinha feito essa promessa para mim. O Diabo me respondeu: “eu menti pra você”. Eu fiquei muito nervoso, acabei me tornando poeta. Mas, depois de quarenta anos, a poesia ficou fora de moda. Morri pobre com dois livros de poesia publicados e uma entrevista com o diabo que me deixou famoso por uns tempos. Namorei duas fadas e fiquei apaixonado, perdidamente, por um elfo. Tive um filho que morreu jovem na guerra. Eu virei poeta.


sábado, 10 de agosto de 2013

Bossa Nova e Rock n’ roll: Observações sobre evoluções desprecisas de uma história


Ao Monteiro, 
quem me ensinou ouvir rock n' roll
com quem bebi meu primeiro gole de uísque 
quem me contou muitas histórias 
um bom amigo! 

Nada é tão precioso a ponto de ser eterno. As boas músicas efemerizam a nossa realidade e eternizam as nossas memórias; quando menina ouvia Toquinho, Elis e Vinicius mais do que bebia água. Aprendi a tocar violão, porque gostava de blues e imitar os acordes difíceis da bossa nova. Ouvia rock, mas não me cabia qual era o motivo, a chama subversiva não me contagiava. (Desde cedo, eu saquei que artista não tem que agradar, os melhores iam em direção contrária do sentido imposto).
Mas houve uma mudança tão profunda em mim, conheci um moço gordo de olhos azuis e melancólicos, um vagabundo, um indivíduo típico de histórias norte-americanas, que bebe mais conhaque do que água. Ele ouve emaranhados de Engenheiros do Hawai como se as canções fossem dele, contagiou-me com um certa efusão de tristeza que já tinha me esquecido, transformando os meus ideais em litros de cenas alegremente depressivas, todos os gritos reprimidos foram soltos na pinga e no rock.
- bruninha, o rock salvou minha alma, mas estragou o meu corpo! – e com uma risada rouca reiterava – e o que cê acha do bota fogo?
Por trás de tantos risos, a fumaça esvaziava um olhar doce, evidenciando um caminho tão longo que lhe dava licença de utilizar tantas palavras dionisíacas. Não era um amigo que se cria um vínculo eterno, logo desvincularia por completo. Seria rapidamente órfã dele assim como fui com a Amanda, a Tais e a Clarice. No final, teria que saltar os muros impostos com minhas próprias pernas e acobertada com seu rock n’ roll, o sangue contínuo de suas palavras.
- eu era tão bossa nova que tinha me esquecido do rock, - confessava ao meu amigo
- eu tenho uma teoria da bossa nova, às vezes é bom ficar no violão e no banquinho, mas depois eu volto pro rock and roll pra botar os pés no chão –  tragando outro cigarro malboro inexpressivo.
Acho que durante muito tempo, perdi-me em mim. Influenciada demais por minha bela subjetividade, muito mulherzinha, viciada demais com tantos intelectualismos, sem gritos, sem inquietudes pra fora, sem sexo, sem porres, estava demais sóbria. Com tanto equilíbrio, tinha me esquecido das minhas metamorfoses, precisava inventar o amor, precisava inventar um drama. O mundo estava inexplicável de novo, os sentimentos voltavam com rangidos finos de guitarra, a rebeldia contagiava-me, agora podia assumir um pouco de poesia. O rock tinha me salvado! Me colocou de novo no chão tão bossa nova, uma alma contaminada por muito intelectualismo.
- bruninha, eu não quero que te falar o que eu sei, não quero que você se torne eu, porque eu vou embora, então não sou seu exemplo. Sou um herói errado, nem tenho o corpo de dezoito mais, sou gordo e perto da morte.

  

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Um homem sem sobrenome

I

Olhar de seriedade. Às cinco e meia da tarde... Ele olha, ela não tem certeza. Eu como os restos de amendoim sobre a mesa, nenhuma leitura me fez ter ideia correta de uma possível felicidade nesse mundo (quem sabe ela existe em outros planetas?). Aí! – respiro fundo – como seria bom ter um amozinho pra acordar. Cinco e trinta um. O sol perde a cor; a sombra engrandece timidamente. O olhar de seriedade some, o casal na minha frente se entrega ao um beijo profundo. Paro de observá-los.
Meu olhar de vazio enxerga pouco. A fumaça do homem bigodudo inebria o ar, me recordo de uma definição de felicidade em um conto que eu li. Certamente, era de um amigo carioca. Ao fundo, uma música bem sugestiva: “rompi tratados, traí os ritos/ quebrei a lança/ lancei no espaço/ um grito, um desabafo” [Sangue Latino. Ney Matogrosso] . O meu vazio encontra um pouco de música para preencher, a vida sem música não tem a menor graça. Pode faltar pintores, peças de teatro, livros e poesias, mas a música! Não. 
Um homem se aproxima, eu cumprimento. Ele me pergunta se eu tenho fogo, acendo o cigarro dele com um isqueiro. Nós começamos a papear, eu não falo muito, deixo que o homem sem sobrenome faça o seu discurso.  O homem é professor de história, fala um pouco da época de 1964, outro pouco da traição de Lula, outro pouco nas mortes que viu quando os tios, militantes do PT, morreram para construir o partido que hoje está no poder. Um rapaz de dezoito anos se aproxima e diz:
- “agora, com gente jovem no PT, as coisas vão mudar. Eu vou ajudar a fazer um novo PT”.
-  “ Cala a boca! Lave essa boca pra falar no PT, você não sabe o que significa o PT, você não sabe o que é ver um amigo seu levar um tiro por causa desse maldito partido. Você não sabe nada”
- “ mas...”
- “ O PT me traiu, traiu os seus mortos quando subiu ao poder. Você não sabe nada.”
- “ dá pra mudar...”
- “ Cala boca! Lave essa boca pra falar desse partido, os nossos mortos estão sepultados pra história”
- “eu...”
-“ vai tomar no cú!, sai daqui!”
O rapaz saiu nervoso, batendo o pé nas cadeiras da frente. O homem jogou um copo plástico perto da cabeça dele, então o outro, também nervoso, reagiu: “seu velho... vá pra puta que pariu! ”. O homem sem sobrenome olhou pra mim, algumas lágrimas adornavam os cílios e perguntou:
- “ você tem mais fogo?”
- “tenho”
Acendi. Ele tragou e saiu cambaleando até o banheiro. Eu não tinha o que falar; o que eu poderia falar? Fiquei silenciosa. O meu silêncio é trevas escondidas que desconheço, não sei exatamente o que pode resultar nesses demônios que não gostamos de cutucar, acostumam-se no escuro e sonham com a claridade mais fresca, serão violentos quando o sol iluminar os olhos acostumados com a sombra. O silêncio virou, a pouquíssimos segundos atrás, o meu melhor amigo. 

II

Depois, a noite ganhou corpo. As pessoas que se acostumaram viver nela, foram encontrando as posições nesse espaço, estavam preparadas para o encontro. Eu, acostumada com o não, me perguntei qual era a hora do sim? Uma moça sentou ao lado da minha mesa e falou:
- “ você sempre vem aqui”
- “sempre”
-“ fica aí olhando, está esperando alguém”
- “não, estou olhando o tempo”
-“ tá um calorzinho bom, né! Você não é daqui né!”
- “ sou sim”
- “ mas e esse sutaque?”
-“ é inventado. Me conte, você está com o seu namorado?”
- “ estou, ele tá no banheiro. Era um rapaz que tava conversando com você, pediu fogo e tudo, sabe?”
- “ Ah sei!..”
O homem sem sobrenome voltou com óculos escuros, começou a brigar com a moça. Ela pediu desculpas e também saiu nervosa. Sete e vinte e cinco. E hoje, já vi duas brigas com esse mesmo homem. Um olhar doce fita meus olhos, não respondo, ofereço outro cigarro.
- “acho que acabamos esse namoro, menina fresca! Você é bem calada. É melhor, quem fala demais, acaba falando besteira. Sabe como você consegue respeito, sabendo pouco e sendo burro. Mediano o suficiente para não se destacar em público! Pessoas originais demais é sempre um peso. Um peso pra sociedade. Um peso pros apáticos. Um peso pra ela própria. Eu sei que sou um peso, minhas palavras são rancorosas. ‘Todo poema tem os seus lobos’. Essa menina que eu tava comendo, não ia suportar ficar comigo mais um dia, é até melhor pra ela. O sonho dela é ser digna. Ela ainda não descobriu que a dignidade é a maior ilusão da sociedade, é um conto de fantasia, o demônio sempre pega na nossa mão”
- “você tá precisando de alguma coisa?” – eu fiz uma pergunta idiota, ele não estava precisando de nada. Era alguém querendo falar.
- “ eu sou um merda, você é um merda porque não fala o que sente e esses merdas controlam a nossa sociedade, porque merdas como você não quer abrir a boca. Quer ficar aí, calado, respirando a podridão dos outros”

Onze horas. Nós engolimos um pouco de saliva, eu ia dormir culpada e perdida. Se não tivesse uma insônia e uma vontade iminente indefinível que saia na garganta e dominava minhas pernas. Pensei em matar, mas, em seguida, conclui que era uma atitude que jamais faria, era covarde demais para tirar a minha vida, no entanto, covarde demais para viver sem constrangimentos. 

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Um dedo de papo e nada mais

- Não se estranhe muito diante do espelho. O outro só responde a uma pergunta que a gente, primeiro, precisa a aprender perguntar pra gente mesmo. Por que as palavras certas nunca aparecem nos momentos mais coerentes? Acho que, naturalmente, o homem sente uma inclinação para comédia, manias de incongruências! Se eu conversasse com um terapeuta hoje, provavelmente, ele falaria conclusões óbvias que cheguei nesses dias numa conversa com um qualquer que conheci em um ônibus
- o que você anda sentindo?
- minha menstruação tá atrasada duas semanas, não tive coragem de assinar um documento que vai mudar a minha vida e, muito menos, me esqueci de dizer pras pessoas que esses dias as coisas estão com gosto muito forte. Eu estou triste.
- que documento é esse?
- não quero falar sobre isso, quero falar sobre outra coisa
(pausa longa)
- esses dias, assisti um filme sobre psicólogos, descobri que o paciente é que conduz a terapia e ele mesmo que encontra as respostas para suas feridas
- mas é claro! As pessoas guardam as respostas dentro dela, é uma questão de aprender a se ouvir
-  não tenho resposta e nem pergunta. Só ensaios de perguntas, não sei, meu amigo
- que pergunta é essa?
- é uma pergunta que tem a ver com fome
- comida?
- sim. Eu estou com fome, algo que anda matando minha vitalidade, minha existência e anda me fazendo menos humana. Tenho sido mais egoísta, sentindo mais medo, falando muito pouco e tagarelando demais. Não ando me alimentando direito
- o que você gosta de comer?
- não sei, ultimamente, não sei nem qual é o tipo de ovo que eu gosto, conheço de todos, menos o meu. Gostava de ovos com batatas, aqueles que a minha mãe sabe fazer
- é bom?
- é ótimo, é talvez a única coisa que faço e não me faz passar fome
- mas a fome não é de sexo não? Não tá necessitada não?
- transei ontem com aquele homem que eu te falei. Lembra?
- lembro sim, aquele estranho pra caralho! Vem cá, você sabe dizer por que você sente atração por pessoas diferentes de você?
- talvez, paixão e inveja estejam relacionadas, talvez, é mania de perfeição. A gente deseja aquele outro que justamente te opõe por completo, e não necessariamente vai te fazer mais satisfeita, mas
- mas te dá prazer?
- muito! E aumenta minha fome
- mas que fome é essa, minha querida?
- acho que é fome de existir, não, pera! Acho que é fome de inventar. Querido, não basta o que eu vivo, não basta, é demais, é demais. O que você acha?
- isso que você está sentindo se chama: estar vivo
- e depois?
- vai continuar vivo até morrer


sábado, 6 de julho de 2013

Entre dois homens, o boteco e o café da manhã

- De tudo na vida, o que eu acredito que seja mais impressionante é a experiência. Você não acha impressionante ter a vida que você tem?
- ora, a vida que eu tenho é normal – (Márcio colocava açúcar no café, pegava as sobras com dedo anular).
- como você pode ter certeza? Eu acho impressionante, meu, nascer assim como eu sou, sendo que eu poderia ter nascido de outra maneira. Eu nasci brasileiro, tenho vinte e três anos, estudei em uma puta faculdade, sou formado em economia, nunca tive namoros longos; em compensação, tenho um monte de coisa que muita gente não tem; por exemplo, adoro alguns tipos de livros, gosto de beber segurando os copos com a mão esquerda e, de todos os homens do mundo, tenho uma rotina só minha que não é sua
- mas isso é normal, Victor
- não é, meu, por exemplo, você é você, você não é eu. Cê não consegue achar isso impressionante, muito louco! Você nasceu Márcio, a gente estudou juntos, a gente é amigo, temos um vínculo, você trabalha, você vai casar com a sua noiva, vai ter uma filha com vinte e cinco anos, vai morar em Santa Catarina. Eu não vou casar, vou fazer mestrado em filosofia e não vou ser pai tão cedo; às vezes, eu duvido muito se eu vou ser marido e terei uma namorada fixa. Você é você, Márcio, você não é eu. Você tem as experiências que não são minhas, são suas, essa é a sua vida
- bom, mas isso tem mais a ver com destino. Cada pessoa nasce para vivenciar uma vida, as pessoas escolhem, antes de reencarnar, e se destinam a fazer determinadas coisas e não outras
- tudo bem. Independente de uma explicação religiosa, Márcio, vamos esquecer por enquanto isso. Não é louco? De todas as possibilidades do mundo, eu nasci exatamente a pessoa que eu sou hoje, eu poderia ter sido travesti, gay, negro, judeu, argentino, chileno, ter sido órfão, cachorro ou barata. Mas não! Eu nasci brasileiro, classe média, branco e sou formado em economia, mesmo com todas as possibilidades do mundo, eu tenho essa vida e não outra
- mas, qual o problema com isso? Por acaso, você queria ter outra vida?
- poxa, eu queria ser pianista, já tive vontade de ser mulher, já sonhei ser pássaro. Uma vez, queria até ter nascido negro em uma periferia, sem mãe e pai, para ver que tipo de visão, eu teria. Poxa, não é estranho! Eu tenho uma visão de mundo, terrivelmente limitada, porque eu tenho as experiências que eu conheço, sendo que poderia muito bem ter tido outras

Nesse momento, passa duas mulheres, uma morena e outra ruiva. Uma usava um vestido verde e os cabelos soltos; a outra usava uma calça e camiseta, um batom vermelho forte, a roupa discretamente decotada. Elas, deslumbrantes, passam distraídas por eles, ambos percebem e olham descaradamente para o corpo delas. Márcio derruba sem querer um pouco de café na mesa e respinga na sua calça, Victor dá um pulo de alegria e continua sorrindo. As duas mulheres vão embora, eles permanecem onde estão.
- tá vendo
- como elas são gostosas!
- não! Nós! Por que nós olhamos?
- porque elas são lin-das
- Não, homem! Por que sentimos desejo por mulher?
- ora, isso é normal, anormal se fosse o contrário
- Márcio, mas e se a gente não olhasse, se a gente não sentisse desejo por essas mulheres; já pensou que eu e você poderíamos muito bem ter desejo um pelo outro e oprimir isso. Eu poderia tá louco de tesão por você, mas a gente será para sempre amigos
- você é louco! Eu gosto de mulher – Márcio dá um pulo de susto
- mas, poderia não gostar e gosta. Você não vê? Nós somos o que somos, não o que não somos. Diante de tantas possibilidades, só que temos os nossos desejos sexuais, os nossos medos, nossa língua, nossos gostos, nossa cultura, nossos amigos, nossa família; criaremos um futuro assim por conta de uma religião, por conta de um padrão de relação, por conta de tanta coisa. E se fosse o contrário? E se eu fosse uma mulher que nascesse lá no Irã? E se eu fosse índio, Márcio? Eu não seria eu, seria outro, acho até que teria raiva de mim, dessa pessoa que me visto, dessa pessoa que eu sou e me conheço
- Victor, você não tá meio pirado não! Que conversa é essa? Falou de gay, falou disso e daquilo? Tá insinuando o quê?

Passou um homem barbudo ao lado deles, sentava sozinho na mesa. Depois de dois minutos, aproximou dele um outro homem de cabelos loiros. Eles, dois homens bonitos, se beijaram demoradamente. Márcio fez uma cara de nojo e desprezo, Victor bebeu um gole de café, deu outro pulo de exaltação, bateu nas costas de seu amigo.
- Viu!
- o quê? Esses daí se beijando
-  exatamente! Por que, Márcio? Por que somos assim se a gente poderia ser outro?
- Victor, eram dois homens se beijando
- e daí! Podia muito bem ser a gente se beijando, se amando e se perdendo publicamente. A gente podia tá no lugar deles
- Victor, para com isso
- para por que? É verdade! Você sabe que é. Somos o que podemos ser. Márcio, eu podia dizer eu te amo, podia falar que eu tenho ciúmes de suas namoradas, também podia falar que, na verdade, eu sinto ciúmes de você, podia falar que amo a sua vida, que eu queria ser você. Do mesmo jeito, o contrário, você podia ser eu. Mas, por alguma razão, que me foge dos meus conhecimentos, porque a minha sabedoria também é limitada, eu não entendo, eu não entendo porque eu sou eu e você é você, por que aqueles dois gays são gays? Por que aquelas mulheres me afetam? Por que eu tenho esses sonhos e não outros? Você entende?
- Victor, o que eu entendo que já está na hora de trabalhar, vamos embora, vai pagar o seu café ou quer que eu pague?
- não, não se preocupe, eu pago meu café
Márcio, antes de ir embora, bate nas costas de seu amigo e fala:
- quero você para ser padrinho do meu casamento, você aceita?

Victor para subitamente com as mãos suspensas, sorri e aceita a proposta com um abraço. Márcio vai embora do boteco. O homem branco, perdido, com seus óculos de armação preta, terno e gravata, olha para o dono do boteco, paga dois reais e pensa: “eu podia estar casando com a mulher dele, mas ele vai casar no meu lugar; eu vou viver a vida que é minha, vida que ele não vai conhecer, porque ele tem outra”. Victor foi embora. 

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Estudantes, Protesto e Brasil

Introdução

No Jornal “El País”, o colunista Juan Arias termina com uma pergunta bastante relevante depois de um levantamento sistemático sobre questões do momento que o país Brasil atravessa: “Alguém pode negar a um jovem o direito de sonhar?”. Reinaldo de Azevedo e Cia. dizem que essa manifestação tem o aparelhamento do PT e dos esquerdistas-marxistas riquinhos que aprenderam no colégio com um professor de história hipomarxista sobre a necessidade de reivindicar o direito pelo oprimido.
Na análise de Juan Arias, o autor coloca que temos hoje um país muito diferente de anos atrás. A mudança do quadro histórico começa com a possibilidade dos filhos de pobres que nunca pisaram numa faculdade estarem nas Universidades pela primeira vez; tiraram os pobres da miséria; aumentaram o poder de consumo das empresas e do povo. Por que, então, essa manifestação no Brasil agora que esse país está prestes a viver uma Copa do Mundo e fazer uma nova história a partir de agora? A resposta está aí: a possibilidade de fazer uma nova história gritando nos olhos dos jovens e dos cidadãos brasileiros.
No Movimento de 68, a juventude queria mudar o mundo, hoje, eles querem coisa diferente. Tomaram consciência do poder público. Não querem ser transportados como um burro de carga, atravessar São Paulo correndo riscos de serem avacalhados por todo o tipo de violência que estamos expostos; porém, a pior violência é aquela que a história desse povo esconde, é a voz dos braços repressores do Estado. Não é somente a Polícia Militar, que é a última e a mais eminente de todos nós, pois também são trabalhadores e devem sofrer uma espécie pior de vergonha, quando cumprem o seu dever.
Essa frase “cumprir dever” é perigosa, porque repetimos todos os dias. Repetimos quando encaramos a nossa rotina, quando estamos dentro do ônibus, quando nos acostumamos com a nossa aparente felicidade. Não é uma frase dita somente por policiais, é uma frase dita também por estudantes, professores, médicos e enfermeiros. É preciso cumprir os nossos deveres, seja lá o que isso significar, mesmo que seja corrompendo a liberdade alheia. É o que acontece, às vezes, dentro de manifestações políticas quando vemos manifestantes revelando o pior do humano que existe em todos nós.

Sobre direitos e privilégios

É muito difícil falar de educação, estamos contagiados ainda pela figura mítica do movimento estudantil de 68 e a luta contra Ditadura Militar, recebemos uma série de novidades sobre o que consideram o nosso país e um passado nostálgico que parece surgir no ouvido dos jovens como uma espécie de fantasma ou cobrança que nunca teremos noção, apenas podemos imaginar o passado. A difícil tarefar de um historiador está em trazer a experiência do passado para nós como uma experiência real e presente na vida.
É mais difícil falar de educação, quando a educação estadual permanece a mesma por vinte anos. Quando o Estado simplesmente abandona o professor e com isso instaura a guerra entre professor e aluno. Quando a escola parece formar as mesmas espécies de estudantes, analfabetos funcionais e aparentemente sem cultura. (Até hoje, não sei como alguém tem coragem de chegar ao outro e dizer que uma pessoa é sem cultura. Ninguém é sem cultura). Quando o sistema burocrático parece cada dia mais modernizar e emperrar todas as possibilidades simples; quando o sistema, cada dia mais, cria pessoas medíocres. Mas, afinal, estudar numa faculdade pública é privilégio, estar dentro de um ônibus lotado é normal, passar por humilhações para ver o seu filho preso é medida de segurança, dormir no ônibus por causa do trânsito que não anda é normal, não ter médicos nos hospitais públicos é normal e etc.
A lista de normalidade é longa. A Constituição Civil dá direito ao cidadão a possibilidade de estudar, ter saúde, estar seguro e ter direito de ir e vir. No entanto, os impostos são pagos todos os dias, a educação de qualidade ainda continua sendo privilégio, o direito de ir e vir é um tanto estranho a todos nós porque pagamos por isso e nem é seguro; trabalhar todos os dias, enquanto diminui a qualidade de vida.  O que é preciso lutar todos os dias, isso é absolutamente estranho que ainda precise ser lembrado, é o direito do cidadão reivindicar o seu espaço numa esfera pública, não é nada ilegítimo, por mais que a elite mediática e outros colocam a aparência ilegítima nas ações de qualquer manifestação política. O espaço público é de todos os cidadãos, não é de uma minoria, a democracia é do povo e não de um conjunto de gestores. Esse direito devia ser inquestionável.

Sobre Estudantes e Trabalhadores

O protesto foi feito por estudantes e jovens, mas não só. É muito engraçado que até hoje quando se escuta a palavra estudante, isso ganha uma dimensão quase perturbadora. Se for estudante de Universidades públicas, então, ganha o mesmo sentido depreciativo que as palavras “vagabundo” e “puta” estranhamente possuem. Isso é um fenômeno engraçado, ao mesmo tempo, que é um grande privilégio não pagar mensalidades numa faculdade. Um estudante que pertence a uma Instituição Pública não pode reclamar, afinal ele não paga, é tudo riquinho, não faz nada. Não é mesmo? Eles não têm direito de fazer isso, eles não são nada, são só estudantes, jovens que ainda não cresceram.
Esse discurso: “eles não são nada, são só estudantes, jovens que ainda não cresceram”. Isso é muito familiar com um discurso presente nas escolas públicas quando os professores se referem aos alunos da seguinte forma: “vocês não são nada, eles são muito ruins, tudo sem educação, sem cultura, tudo péssimo, para conversar com eles tem que ser cabeça aberta”. Dentro de manifestações é possível ver o pior do humano, mas observa direito, porque dentro da rotina escolar e dos setores públicos, é possível encontrar pessoas sem vontade e estúpidas do mesmo jeito, também é visível ver o pior do humano.
É óbvio que tudo é uma questão de perspectiva. A pessoa pode ficar quatro, cinco, seis ou nove anos numa graduação, passando por coisas e vivendo coisas que transforma um jovem em uma espécie de adulto maravilhoso, se o mundo abrisse espaço para isso. Se as academias e as escolas também melhorassem para os jovens. Mas, enfim, algumas coisas no mundo ainda não mudaram, as duas instituições mais antigas da humanidade ainda são Escola e Igreja.  
Um jovem que ganha um salário mínimo no Shopping Center ou trabalha como segurança, porque tem que sustentar filhos, sabe-se lá como, não pôde fazer faculdade por conta dos rumos da vida, é menos jovem por conta disso? Ou é mais adulto? Esse jovem que ganha um salário mínimo e não estuda, seria o trabalhador que a elite e outros escutariam? Não é meio absurdo o privilegiado estudante que possui o direito de viver a sua juventude sem pressa ser mais jovem e menos convincente para falar do mundo do que um adulto que precisa efetivamente trabalhar e deixar os estudos lá embaixo da cama? O que é um jovem, afinal de contas, uma pessoa entre 18 até 25 anos, ou uma pessoa sem grana que precisa efetivamente sacrificar muitas coisas para fazer uma graduação? Ou uma pessoa sem grana de 20 anos que precisa efetivamente sacrificar a vontade de cursar uma graduação porque não tem dinheiro, porque não quer, porque os rumos da vida foram outros? Afinal, um jovem estudante, por acaso, é o quê? Um parasita do governo. Parasita ruim, porque os auxílios de permanência de uma faculdade pública também não mudam, um estudante ganha sempre auxílio no valor de 400 reais ou 150 reais e não é todos,  esse auxílio que não cai no mês certo e ele precisa realmente “ir se virando” como dá. (Isso quando não acontece a evasão nas Universidades públicas, não tenho estofo para falar das diferenças da evasão em Federais e Estaduais).
Observemos bem isso. A educação é um problema, porque vivemos em um mundo desigual. Houve mudanças? Sim, muito curtas e pequenas. Mas, em qualquer esquina, eu ainda escuto: “tudo que é pago ainda é melhor. Tudo que é público, é muito ruim”. Em qualquer esquina, escuto pessoas que não conseguiram marcar sua consulta nos hospitais. Assim, o setor público não melhorou e querer que essas instituições públicas ofereçam um serviço que forneçam qualidade, não é nada do outro mundo. É, realmente, normal e legal.

Protestos

O protesto não é um movimento estudantil, mas poderia ser. Não é um movimento hippie, mas poderia ser. Não é um movimento mediado por um partido político (como diria Reinaldo Azevedo), não é aparelhado pelos petistas, mas é múltiplo partidário. O protesto acontece na rua, ela pertence à esfera pública, quem manda nela é o povo.
O protesto não pode possuir rótulos. Os manifestantes e o povo precisam sempre estar atentos para verdadeira mensagem de toda e qualquer manifestação política. A violência dos participantes do movimento não é a causa, a mensagem não deve ser essa, o debate não é esse, a Policia Militar agredindo manifestantes com expressões bélicas superiores a vinagres e latas de lixo, isso sim é motivo de debate, porque não garante segurança e instaura o caos. O motivo sempre precisa partir da causa que o movimento defende. A causa é o real motivo desse encontro, que é um encontro dos paulistanos.

Conclusão

Alguém pode tirar de um cidadão paulistano e brasileiro o direito de sonhar com um mundo diferente que ele conhece? Os paulistanos, os cariocas e o mundo estão provando que os sonhos podem ser expostos na rua e a luta por eles pode ser considerada algo normal na vida das pessoas. Fiquemos sempre atentos com as nossas contradições e tentemos, de certa maneira, colocá-las no debate. Entretanto, não deixemos os nossos sonhos ruírem novamente por conta de dois ou três parasitas aparentemente libertários ou intelectulóides da nossa mídia apavorada que não respeitam nenhuma rede de pesquisa realizada por nossos verdadeiros lutadores acadêmicos do nosso país.
Se houver engano e equívocos, aprenderemos com eles.

Bibliografia




terça-feira, 28 de maio de 2013

Sobre sampa

Sampa do meu cocozão, todas as minhas virtudes e defeitos são suas e detesto o seu ar fedido do rio de bosta que sempre te atravessa. Cidade feia, de arquiteturas encardidas, poluição que eu acostumei respirar. Meu centro velho que eu me perco e me acho como labirinto. Cidade arrogante, caminham paulistanos que não têm raízes, não sabem o que é São Paulo, porque tudo daqui é tradições remendadas dos migrantes nordestinos e imigrantes coreanos, bolivianos, negros e japoneses. São Paulo, cidade perdida, que se acostumou com o seu labirinto. Teu ar fede minha querida, os meus sonhos se perdem nos seus grafites e nos seus vagabundos que estão nos botecos mais podreiras. Sampinha do meu cocozão, garoa é toda de sangue.

domingo, 21 de abril de 2013

O Edifício feio no meio da visão do céu



“ Um chá pra curar essa azia
Um bom chá pra curar essa azia
Todas as ciências de baixa tecnologia
Todas as cores escondidas nas nuvens da rotina
Pra gente ver por entre os prédios e nós
Pra gente ver o que sobrou do céu”
(O Rappa – canção “O que sobrou do céu”)


I
A nuvem do céu nem brilha, perdida no sono da madrugada, observa de cima o caos intempestivo da cidade. Um estrondo no meio da madrugada, respiração ofegante. Estão lá várias pessoas mortas que ninguém mais vai conhecer.
(Porque sim, esse narrador sabe que a pessoa só é considerada indivíduo para sociedade se tiver um conjunto de números que recebe o nome carinhoso de RG. Torna-se também uma pessoa física quando também possui outro conjunto de números chamado de CPF. No final das contas, esse narrador não é uma pessoa de duas pernas, ele é um conjunto de números).
E como um conjunto de números, não consigo falar de um ser invisível, porque a menina negra com a boneca da mão, correndo descalça pelas ruas, que acabou de morrer agora. Ela não é nem um indivíduo, a garotinha não é ninguém, é só o resto de toda a barbárie. A menina que morreu baleada, sequer vai ter uma notícia na televisão. Mortes de mulheres negras são banalidades que não dão notícia. Afinal, além de criança, ela não tem RG, nem CPF, a menina negra não é um individuo para o Estado. Essa criança não é ninguém. Como eu, o narrador,  posso achar que tenho esse direito de onisciência sobre os outros? Como posso contar a história dessa menininha?
Acho que só é possível se eu contar uma outra história em paralelo. Tinha um garoto de onze anos que sempre roubava a boneca dessa menininha e lhe provocava com muita crueldade. Certa vez, ambos correram longe, fugindo dos olhos dos adultos.
Lá, de longe, a menina enxergava um edifício. Uma arquitetura exuberante e gigantesca que enxergava os dois com arrogância. O cheiro que atravessava o ar vinha do rio Pinheiros, sentia de longe uma feiura que submergia no ar da cidade, pairava nas conversas e poluía os diálogos. A menina disse ao garoto: “isso é o prédio mais feio que já vi na minha vida”. O menino respondeu: “meu pai trabalha aí como faxineiro”. Os dois trocaram olhares, ele perguntou: “e o seu? Ele trabalha?”. Os olhos do menino mudaram para uma expressão de maldade: “ah é, teu pai não trabalha, você nem tem pai, você é uma menina feia e estranha”
Distante da brincadeira perversa, estava a mãe do garoto. Ela estava desesperada procurando esse menino pelas ruas. Finalmente, achou-o e gritou por ele: “Pedro! Pedro! Vem cá, agora!”. A menina que estava chupando o polegar, enxergou os dois de longe, deu um sinal de despedida ao menino. Pedro não respondeu, a mãe dele tinha cochichado ao ouvido que ele não deveria brincar com esse tipo de criatura.
A menina olhava agora as nuvens e o prédio, sondava o seu íntimo e disse: “nunca vi algo tão grande e tão feio ao mesmo tempo”.

II
Um desempregado andava no meio da estrada. Ele tinha o mesmo sobrenome que o seu filho Pedro, se chamava Pereira. Esperava o ônibus para voltar em casa, sem perspectivas para um futuro e sem noção de como faria para resolver as coisas hoje. Pedro escutou os passos do pai entrando em casa, sentou no colo dele e percebeu um olhar diferente. No rosto, uma expressão de angústia, o homem olhou para mulher e disse: “eu estou com medo”.
A porta fechou na cara da criança. Pedro só escutou os gritos, não entendeu nada, chorou miudinho, sentiu saudades da menina que brincava hoje de manhã. Aquela garota que a mamãe tinha chamado de criatura suja e porca, dizendo que não tinha a nossa cor. A mesma menina que ele também foi malvado, mas era brincadeira de criança, não era nada. Ela nem vai sentir. Olhou para lua, percebeu que o negro fazia parte do céu escuro, o ar fedia; porém, também dava para sentir melhor a brisa de vento nas bochechas. Pedro viu o prédio, lembrou-se da voz da garotinha e repetiu: “que prédio mais horroroso!”.
No dia seguinte, Pedro assistia a uma notícia de televisão. Havia uma dúvida colocada no jornal da manhã, o pai dele chegou e disse:
- mas tem que colocar. Tem que resolver isso no tiro, a violência só resolve assim. Colocando esses marmanjos pelados com frio e com fome em frente ao muro e metralhando todos eles. Aí, quero ver, se esses vão ter coragem de matar, estuprar e roubar trabalhador como a gente.

III
A menina no começo. Aquela que o narrador disse que não saberia contar a história dela, pois ela não existe. Eu reitero algumas informações: a garota não tem RG, nem CPF, nem mãe e nem pai, nem conta no banco, só uma boneca que achou na rua e um corpo para andar. A menina corre descalça pelas ruas, com alguns regalos de roupas protegendo o corpo dos restos de nudez, que não tem ainda vestígios de mulher. Essa menina olha o mesmo prédio, enquanto passa um homem, passa dois, um carro bem gigante passa rápido, atropelando todo mundo que está na frente. A rua é estreita, a menina quase cai no chão e se machuca.
A menina sente vontade de chorar, mas esquece do choro olhando o céu, o sol ilumina seus olhos. O prédio mascara o azul do céu, impedindo a visão ampla das nuvens que observam a menina andar. Ela não sabe o que vai acontecer daqui alguns minutos, senta então na beirada da calçada e continua olhando o prédio. Repete a frase: “nunca vi um prédio tão feio”.
De longe, o homem que vende cachorro quente, conversando no boteco e tomando cafezinho com seu Irineu, vê uns homens fardados. Esse homem é trabalhador, vende cachorro-quente na rua, tem RG e CPF, mas possui uma outra coisa, possui malandragem. De longe, ele pressente e pensa na cabeça: “esses coxinha aqui, vai dá merda!”.
Os policiais se aproximam de uma molecada, a menina negra olhava esses moleques brincando na rua. Mas, naquele momento, ela estava distraída com a visão arrogante do prédio feio que tanto se exibia. A menina estava tão deslumbrada com a arquitetura horrorosa dessa cidade que não percebeu o primeiro tiro, sentiu apenas uma mão pegando o seu braço esquerdo e falando alto: “corre! Corre!”. Essa mão era do homem trabalhador que eu contei, aquele que tinha um RG, ele era chamado Antônio, mas tinha o apelido de “Tingo”, esse narrador não sabe dizer por que desse apelido, apenas sabe dizer que era assim o nome que as pessoas do boteco conheciam na vizinhança. A menina conseguiu fugir alguns metros da confusão, Tingo morreu protegendo a menina sem nome, mas, logo em seguida, uma bala matou a criança pelas costas. Uma bala assassinou um corpo. Esse tiro foi dado por outro homem, chamado Henrique, menino branco de vinte e dois anos, que tinha uma conta bancária e era o orgulho da família, porque tinha passado no Concurso Público, seria um investigador policial e mudaria de cidade.  Foi o Henrique que deu o tiro. Ele era um indivíduo para sociedade, porque tinha um RG e um CPF, o tiro foi dado por um homem adulto, que era também um conjunto de números como esse narrador. Matou um corpo. A bala matou ninguém.

IV
No dia seguinte, Pedro olhava o Edifício, enquanto tomava o seu café da manhã e ouvia as brigas dos seus pais. O noticiário dizia de uma ação que tinha acontecido próximo das redondezas do Edifício. Henrique segurava a boneca daquela menina que tinha brincado na rua. A mãe se aproximava do garoto Pedro e lhe oferecia café com leite. O pai assistia ao noticiário na sala de casa.
- olha só, é assim que resolve as coisas, matando bandido. Agora sim, agora sim
- viu, amor, com que tipo de gente você tava brincando
- para de falar essas coisas, esse menino não é nem gente ainda, quando ele crescer e virar gente, ele vai entender tudinho que a gente faz. A gente só faz pra proteger ele.
Pedro olhava o Edifício, lambia os beiços e não conseguia perceber as nuvens do céu. Esse narrador sabe que esse menino vai crescer e se tornar gente, vai possuir um RG, um CPF, uma Conta Bancária, melhorar a situação financeira da família e se responsabilizar pelo indivíduo que se tornou. Quando esse menino crescer vai ser um conjunto de números.



domingo, 14 de abril de 2013

O Artista


No centro do universo, não existe o homem, nem os animais. No centro do universo, existe a dúvida.  Deitado na cama, o artista sonha com seus piores anseios e seus mais terríveis medos. No centro da cama, se escuta um grito de desespero. Esse grito é de humano, perdido e sufocado com os seus sentimentos selvagens que não consegue se livrar inteiramente. Na dúvida, o humano se alimenta e se diferencia das coisas, o mundo ganha significados a partir do momento que ele aprende a falar a palavra "talvez".
Na infância, um bailarino tinha dado de presente um livro A Carta ao Pai (Kafka), uma dose cavalar de pessimismo antes do surgimento da vida adulta. A criança nunca conheceu esse bailarino, a não ser por cartas. Numa dessas antigas cartas, havia palavras carinhosas que dizia e aconselhava a permanência pela criação artística. Esse pequeno artista se lembrou em sonho de uma frase preeminente dos conselhos centrais de Rilke ao um jovem poeta: “Antes de criar, desista totalmente da sua criação. Quer ser escritor, então desista de escrever”.
Aprendendo, desde cedo, a conviver com o pessimismo que lhe ensinaram e lhe deram de presente como uma espécie de carinho. Não havia dúvidas sobre o que era e estava se tornando. Em sonho, assustado com tanta consciência, repetia em pesadelos palavras que o assustava (Deus meu, eram reais, como eram reais!): eu não sou nada, sou menos que um inseto, menos que um animal, não consigo ser realmente nada, nem um ser banal. Ao menos o ser banal, possui o pensamento prático, agirá de acordo com uma escala, terá sucesso profissional, amoroso e amigos que lhe serão fiéis. Eu serei menos que a banalidade. Serei uma sobra dos artistas.
Esse pesadelo nascia em um contexto que o jovem artista precisava tomar uma decisão. Não era Édipo, não chegava ter a coragem de uma Ofélia e não era a barbárie que precisava ser extirpada no mundo, não era a Medeia. O artista que sonhava nesse sonho era apenas o resto da modernidade que pouco conhecia, a sua porca imitação e a certeza gasta de que as utopias já tinham virado ressacas. Não era nada, era só a imitação do humano que não conseguia ser banal.
No sonho, o jovem artista estava preso por barbantes finos, camadas de barbantes que tapavam a sua boca, o seu nariz e os seus ouvidos. O único que estava livre dos barbantes era o par de olhos. A sensação era de solidão, falta de ar e tristeza amarga, havia camadas e camadas finas de opressão que prendia o indivíduo. Os barbantes eram finos, até era possível livrar-se deles, mas eram muitos barbantes, vários que enrolavam o corpo do jovem artista. Diante dessa sensação de falta de ar, o artista via as pessoas que tinham um vínculo afetivo muito intenso se afastarem definitivamente da vida dele, vivendo a vida feliz distante do mundo de solidão e opressão que o jovem vivia. Ele até gritava, tentando desesperadamente comunicar a dor de tantas camadas de barbantes enrolando o seu corpo, mas era impossível, a voz ficava abafada. A lágrima caía tímida no rosto da criança e sumia lenta no corpo aprisionado.
Entre a vontade de ser artista e a vontade de ser feliz, há um abismo monstruoso. Em um dos episódios do livro Perto do Coração Selvagem (Clarice Lispector), a criança Joana faz uma pergunta desconcertante a sua professora: “Ô Professora, ser feliz serve pra quê?”. A professora não entende a pergunta, então a criança repete: “Pra que serve ser feliz?”. Não sabendo responder essa despretensiosa questão, a professora foge e diz que a Joana deverá responder isso quando tiver a idade adulta.
O sonho dessa criança era ser herói. Pobre criança, a modernidade esvaziou a ideia de herói a partir do momento que os militantes políticos da Ditadura Militar deixaram de ser pessoas e se transformaram em mitos para a juventude de 1990. O mito é toda a maquiagem da barbárie. Afinal, ser mito serve pra quê? Ser feliz serve pra quê? Ser artista serve pra quê? Sonhar serve pra quê? De que serve todas as coisas que colocaram na minha cabeça? De que serve um livro do Kafka? De quer serve esse pesadelo do qual tem tanto medo? O sonho dessa criança era poder sonhar de novo. Mas o que restou do sonho do sonho? Restou apenas o vazio.
Posso falar dos militantes políticos que sofreram a tortura de 1970, dizer o quanto eu não conheço eles. Entretanto, posso também discutir uma tortura hoje. Uma tortura diferente e mais silenciosa, como toda a tortura não se fala e evita a discussão dela entre os amigos, a família e o namorado. Essa tortura é antiga, ela nasceu desde escravidão, criou raízes na apatia da Classe Média e hoje em dia é passada de pai para filho como uma espécie de cultural brasileira. O nome dessa tortura se chama sucesso a qualquer custo, vencer e sobreviver em cima do outro. Consumir o outro, destruir a cultura do outro, acabar com a linguagem do outro, estuprar o outro, não permitir que o outro prevaleça e só permitir que o meu ego prevaleça na história, o meu EU é mais importante que tudo nessa vida.
Entretanto, o “Eu” é, ao mesmo tempo, a grande perdição, pois ele é supervalorizado. O sucesso será representado nas últimas instâncias e com toda a euforia que se pode ter depois da embriaguez; mas o fracasso será o fim de mim, será a permissão que eu precisava para poder tirar a minha própria vida. O “ego” é aprisionado com as responsabilidades e os venenos da “ideologia do sucesso” de todos os dias, agraciado com o sentimento de apatia, apimentado com o afastamento gradativo de sentimentos fundamentais do humano que o caracterizam como um ser. Os barbantes finos de todos os dias enclausuram o ser e descaracterizam-lhe cada dia mais de sua figura humana, afastando de tudo que um dia foi importante.
Posso falar do genocídio dos negros, da intolerância de classes sociais mais pobres em Universidades públicas brasileiras, da ascensão social de migrantes brasileiros nordestinos e de direitos humanos para o movimento político LGBT, da violência contra as mulheres fora dos movimentos políticos e dentro de lugares mais eruditos. Posso falar de violência. E, sobretudo, posso falar dos militantes políticos que morreram e a História Oficial apagou dos seus arquivos, do mesmo jeito que querem apagar o negro e o migrante nordestino na construção de São Paulo, na língua portuguesa e na História de todos nós. Posso falar de tudo isso, admitindo que é impossível, é humanamente impossível falar do outro. Só sei falar de mim. Mesmo assim, falo da pior tortura, daquela que é silenciosa, que a gente não se apercebe, surge mais frequentemente nos sonhos.
A tortura que me faz fechar os olhos pela manhã. Coloco os fones de ouvido no metrô e finjo não perceber que estou no lugar lotado, aprisionado com todos os outros homens e mulheres ao meu lado, finjo que não sou um burro de carga também, querendo sucesso profissional, desejando ser uma artista de cinema. Essa tortura que aprisiona os meus sentimentos mais bonitos e verdadeiros de um ser humano, faz com que eu negue o meu tempo de aprendizagem e desrespeite o outro em nome de créditos bancários. Essa cultura brasileira do eu que me ensinaram o valor da indiferença e da apatia, valores que eu assimilei e sou intimamente aprisionada. Também tortura o negro, a mulher, o militante político, o petista e o psdbista. Essa tortura recebe outro nome pelos psicanalistas, ela se chama Depressão.
O abismo entre ser artista e ser humano é maior do que muitos conseguem imaginar. Uma coisa é se tornar patrimônio cultural, negando qualquer vestígio de aprisionamento que a sociedade colocou na sua mentalidade e no seu coração. Outra coisa, bem diferente, é assumir que a figura do humano estará para sempre enclausurada nas suas obras de arte, sendo impossível fugir da pergunta crucial: e se não fosse eu? E se eu fosse o outro? O sentimento de impotência é tão grande diante dessa questão, corta a garganta, agrava os sentidos. Os olhos estão para sempre olhando as ruínas do presente do passado. Restam as lágrimas de sangue e fúria. Nenhum artista consegue fugir inteiramente de suas prisões. Nenhum.
O “talvez” advém de um infinito de possibilidades. Na tentativa fugaz, de um ser diante de outro ser , se questionar e dizer: mas, então, e se eu vivesse no seu lugar? E se eu tivesse em outro tempo? E se fosse de outro jeito? Diante de milhares de possibilidades, a criança que não sabe a diferença da palavra “foi” para a palavra “era”, ela que não é confundida ainda com a doença da memória. Está presa em outro âmbito, ela aprende observando os adultos e imitando a realidade através das possibilidades da brincadeira, joga com o talvez, sempre que colocam obstáculos e problemas. O “talvez” nasce espontaneamente, quando fala com as autoridades: “mas, ô mãe, eu posso brincar com clipes da caneta já que eu não tenho o carrinho daquele jeito?”. O “talvez” mais tarde fica impregnado de tempo e memória, os brinquedos só mudam de formas.
Enquanto o artista, aquele do início adoentado porque é da espécie humana, sonha agora pesadelos, não consegue mais cultivar sonhos. O que resta do talvez de um artista? Entre o abismo da arte e da vida, qual é a melhor escolha? Entre o eu e o mundo, qual é a melhor decisão? Entre ser artista e ser um ser banal, qual é a melhor escolha? Às vezes, a dúvida é tanta que o jovem artista pensa que um dia será encontrado morto com a cabeça transfigurada em interrogações. Se um dia deixar uma obra de arte será esse o legado que deixará ao seu público. Ele deixará a dúvida.