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sábado, 4 de outubro de 2014

Miopia

Daniel não consegue dormir, há dois meses. Ele trabalha muito, vive com a cabeça cheia de pensamentos desnecessários. É um homem culto, estudado e viajado. Não é alto, possui estatura mediana. Cortara todos os seus cabelos por conta de uma promessa, que tinha feito a si mesmo e não a Deus, nunca foi um homem religioso. Absolutamente, não acredita em Deus, mas lê literatura bíblica, da mesma maneira que devora poesias modernas. Ele sempre desejou ser poeta, mas percebeu (ainda bem) a falta de talento para escrever desde a juventude; rabiscara versos ruins e quando se casou, resolveu jogar todas as poesias fora. Daniel tinha se separado, há dois dias, e não se acostumara a dormir sozinho. Resolveu ler um livro, sentou-se e começou a leitura de Êxodo. 

Daniel estava lendo a segunda frase do texto, quando bateram a porta, a leitura, então, foi interrompida. Não sentiu medo, nem estranhou que uma visita estivesse o procurando tão tarde. No relógio da sala, indicava que era meia-noite. O homem calmo, sem cabelos, caminhou com passos largos em direção à porta. Olhou pela janela, viu uma figura enorme, cabelos negros, era um jovem de vinte anos. Sentiu, imediatamente, um sentimento adocicado e carinho pelo rosto do jovem ansioso e belo, que o esperava gravemente, Daniel abriu a porta. 

- ei! Natanael, nossa! Que surpresa te ver! -  Daniel abraçava-lhe. 
- tudo bom, tio? Eu queria uma ajuda sua. Posso entrar? - Natanael perguntou. 
- Claro, fica a vontade. Deseja algo para beber? 

Natanael sentou no sofá. Viu que o seu tio Daniel estava lendo a Bíblia, ao lado desse livro aberto, estavam outros livros de psicologia e psicanálise. Daniel não era acostumado a atender os seus pacientes em casa, quando era casado com Alice. Mas, depois do divórcio, tinha mudado esses hábitos, vendeu a clínica e passara fazer atendimentos na sua nova residência. Natanael perguntou:

- está tudo bem por aqui? É melhor atender aqui? 

Daniel lhe oferecia café. 

- ah! estou trabalhando mais do que deveria. Você quer açúcar?
- obrigado, tio, não gosto muito
- ah! estou trabalhando mais do que deveria, mas a gente se acostuma, né. É estranho dormir sozinho, depois de alguns anos de casado

Houve um breve silêncio. Natanael tomou dois goles de café. Daniel olhava para o espaço, perdido em seus pensamentos. 

- você disse que você queria uma ajuda minha?
- sim, tio. É que eu estou um pouco sem jeito pra falar.... 
- você pode começar pelo começo. Algo com seus pais?
- não, é algo com uma garota
- é a sua namorada?
- não, é a namorada de um amigo meu. Tio, ela é minha amiga, mas 

De repente, as luzes se apagaram. 

- acho que acabou a energia - Natanael disse. 


Daniel tentou acender as lâmpadas da casa. 


- acabou a energia mesmo. Será que acabou a energia em todo o quarterão? - Daniel colocava os óculos de grau, vestira um casaco, preparando-se para sair, - vou ver se acabou a energia em todo o quarterão, você vem comigo? Aproveita e me conta toda essa história.

- vamo, tio, eu vou com você sim 

As ruas estavam escuras. Havia saído todos de suas casas, as pessoas estavam assustadas. Daniel era míope e, quando estava sem óculos, principalmente, à noite, não costumava enxergar bem as coisas. Por isso, colocou os seus novos óculos de grau nos olhos. Por enquanto, enxergava todos os acontecimentos, percebeu que a escuridão havia tomado gradativamente toda a cidade. Natanael caminhava ao lado dele, parecia não estar preocupado com o escuro. Os dois caminhavam dentro da noite, a multidão vinha em direção contrária. Natanael correu indo ao encontro da massa inominável, preta, escusa e atraente. O jovem parecia querer o choque, era o seu maior desejo, estava fascinado pela multidão. Daniel gritava:

- Natanael, cuidado! Você vai se perder no meio da multidão!

Natanael correndo cego, não conseguiu ouvir os gritos do tio. Perdeu-se entre os outros, a escuridão comeu todo o seu corpo, não conseguiu mais encontrar os ecos de alguém que o reconhecesse, Natanael perdeu o nome. Tornara-se, para sempre, uma entidade que era pertencente a multidão plástica, bela, escura e inominável. Não conseguiu mais encontrar saídas, tinha esquecido a sua história, não lembrava mais o nome dos seus parentes, esqueceu completamente suas lembranças, tinha perdido o seu rosto. Natanael ficou inominável, perdeu a cor, era escuro. Fez um mergulho cego na multidão. 

Daniel tentou correr em direção ao Natanael, porém, percebeu que a multidão subia a ladeira com agressividade. Essa multidão queria destruir, era a serpente que engolia o ovo, comia o mundo e devorava quem quer que fosse. Escondeu-se da multidão, desceu até o esgoto. Os ratos riam, alguns contavam piadas, (esses animais insignificantes eram seres acostumados com a escuridão), era um dia de glória para esses ratinhos. Daniel sentiu que o coração estava inquieto, ficou estarrecido por ver uma multidão, violenta e agressiva, caminhando indestrutível e feroz na sua frente. Fugir dela, era o mesmo que fugir da morte. Um rato percebeu que ele estava sozinho e angustiado. Não era um rato comum, ele se chamava Hamlet. 

- você está com medo da multidão? - disse Hamlet

Daniel estranhou, quando os ratos começaram a falar?, perguntou-se intimamente e não conseguiu encontrar nenhuma resposta racional. Diante de todo o absurdo, conversar com um rato também não parecia ser tão incomum. 

- meu sobrinho se perdeu na multidão - disse Daniel 
- o seu sobrinho foi engolido por ela, que pena! Nunca mais ele vai voltar. Sinto muito! Vocês seres humanos são convencidos facilmente por coisas monumentais. Ainda bem que vocês não conheceram os dinossauros. Nenhum de vocês seria capazes de destruir um gigante. Desculpe a sinceridade, mas vocês são muito covardes - disse Hamlet 
- o que era a multidão? - perguntou Daniel. 
- a multidão é vocês. Por incrível que pareça! 
- como?
- esses eventos sempre acontecem na História. Não sei explicar, moço. Sei o que é a multidão. A multidão é vocês. A primeira vez que eu vi isso na minha frente, eu também era humano. Sorte a minha! Eu era amigo de uma bruxa, pedi para que ela me transformasse em animal, - Hamlet riu, - ela tinha um ótimo senso de humor, de todos os animais que ela podia me transformar, a bruxa me transformou em um rato. Veja só! 

Hamlet ria, ia abandonar Daniel no escuro. Daniel implorou para que ele ficasse, Hamlet não sentia muita empatia pelos humanos. Na realidade, detestava a humanidade. Porém, abriu uma exceção, dessa vez, resolveu, (talvez, por pena), que iria ajudar esse homem fraco e elegante, que tinha medo do escuro e dos esgotos. 

- você po...dia me ajudar a sair daqui? - pediu Daniel. 
- até poderia, mas quero algo em troca, - disse Hamlet
- qual...quer... qualquer... coi... sa - praguejava Daniel, sentia frio 

Hamlet ensinou o caminho que levava Daniel para as ruas novamente. Eram caminhos estreitos, Daniel não era alto, portanto, sentiu necessidade de ter uma estatura mais baixa. Sentiu nojo de pisar nas águas sujas, não conseguira suportar o cheiro de fezes e comida podre. Hamlet era muito falador, contava piadas demais. 

- adivinha só: o que é que um rato perguntou para um ser humano? - perguntou Hamlet

- não sei - respondeu Daniel

- podemos trocar uma ideia? 
podemos, mas acho que eu vou sair perdendo. - Hamlet ria da própria piada que tinha acabado de contar. 

Do outro lado do esgoto, havia um boteco. Era o único lugar que tinha luz, o resto estava coberto da noite e das trevas. Hamlet puxou a barra da calça de Daniel, insistindo para que ele olhasse para baixo. 

- você vai ficar nesse boteco aí, tudo bem, mas você vai ter que me comprar um queijo, se você não quiser que eu faça algo contra você, tudo bem?

- tudo bem, - Daniel continuo parado. Era um contraste muito intenso. O único lugar que tinha luz, era o lugar mais sujo e marginal da cidade. 

- vai comprar um queijo pra mim! - Hamlet modificou a sua expressão alegre, estava nervoso com a demora de Daniel. 

-Já estou indo - Daniel disse. 

Daniel caminhou até o boteco. O dono que era um homem arrogantemente narigudo, feio e gordo. Aproximou-se dele e disse:

- o que você quer? - perguntou
- eu quero queijo
- qual queijo? 
- qualquer um 

Daniel pegou o primeiro queijo que viu. Pagou ao Hamlet a ajuda que lhe devia. O pequeno animalzinho devorou rapidamente o seu queijo, depois do pagamento, foi embora sem olhar para trás. O homem de estatura alta, passos finos, voltou para o boteco. Pediu um copo d'água. O dono do boteco disse que não tinha água nesse lugar, se quisesse algo para beber tinha que ser apenas cachaça. Daniel não estava em condições para resistir, pediu cachaça. Quando a cachaça venho, engoliu-lha com gole só. Percebeu duas mulheres, que pareciam prostitutas, e um negro conversando animadamente sobre a multidão, que devorava tudo, eles estavam na outra mesa, afastados por alguns milímetros de distância de Daniel. 

- tava na hora disso acontecer - uma das mulheres disse
- eles bem que merecia todo esse sangue - outra mulher disse
- era um jovem garoto, não sei, será que precisava dessa violência? - perguntou o homem negro

Daniel interrompeu a conversa. Perguntou, curioso:

- o que aconteceu? 
- a multidão estava brigando - disse o homem negro
- um jovem acabou morrendo - uma das mulheres disse 
- o cachorro também, - outra mulher disse 
- sangue - todos falaram, praticamente, ao mesmo tempo. 

Daniel ficou preocupado, pagou a cachaça, correu até direção da multidão, que devora tudo que ver. Estava com medo. Será que o jovem que morreu era Natanael? Um transeunte correndo assustado, gritando: "meu filho! meu filho!", tropeçou numa pedra e quase caiu em cima de Daniel. Nesse momento, os óculos de Daniel caíram. Ele não conseguiu mais ver, onde estavam os seus óculos, não conseguia mais ver as formas das coisas. As luzes voltaram, todos ficaram alegres de repente. Daniel não conseguia enxergar, percebeu que algo se movia, a visão traduzia a deformidade do mundo. As ruas não estavam mais escuras. Cadê a multidão? Daniel ficou desesperado, não via mais as coisas, tudo parecia que tinha sumido. No meio da rua, ajoelhado, perdendo toda a esperança, Daniel gritou. 

Ele tinha acordado no seu sonho, desesperado. Daniel estava gritando a mais de duas horas. A porta estava trancada, quando ele acordou, percebeu que estava sozinho. Natanael tinha deixado dois livros de psicanálise em cima da mesa. Ele tomou um copo d' água, olhou a única fotografia que tinha com seu sobrinho. Sentiu uma pequena melancolia. Procurou os seus óculos, encontrou em cima da Bíblia, lembrou-se que não tinha terminado a leitura de Êxodo. Daniel voltou a ler. 

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Confissões de uma mulher feia

À todas as mulheres do mundo

Caminhamos pelas ruas, comemos cachorro quente com coca-cola. Somos gordas ou magras, temos um sorriso banguela, um rosto desarmônico e não somos mulheres sedutoras. Nunca nos fizeram uma bossa nova, nunca nos dedicaram uma poesia, não ganhamos nenhum concurso de beleza. Somos as rejeitadas. No máximo, satisfazemos sexualmente os maridos, noivos e namorados, quando as boas e belas mulheres não estão olhando. Somos as migalhas, o pequeno vestígio do bolo de chocolate.
Caminhamos pelas ruas, somos seres invisíveis. Mas, ainda assim, somos notadas. No consultório do ginecologista, as nossas vaginas são, impessoalmente, acariciadas sem intimidade ou carinho. Sentimos, então, o peso de não sermos belas, quando não podemos ter intimidade com as divas ou com os bons partidos. Os homens nos tornam piadas, somos motivos de riso em bares e em banheiros masculinos.
Você não sabe de mim, faço parte desse grupo de mulheres. Você não vai me chamar de diva, não vai ver o meu rosto na tela do cinema. Eu estava na esquina mais próxima do apartamento, onde você mora. Deitada sobre o asfalto, meu corpo seminu foi esfaqueado duas vezes, depois que um homem robusto, muito bonito, me estuprou.
Caminhamos pelas ruas, não percebemos que, ao nosso lado, existem pessoas. Eu era uma pessoa, mesmo sendo uma mulher feia. Fui estuprada, porque eu era uma mulher, andando no meio da noite, sozinha, não usando roupas decentes. Eu achava que ninguém iria perceber o meu corpo, mas o estuprador percebeu. Não posso nem dizer que me senti humilhada novamente, porque você vai dizer: “você devia ficar feliz! Afinal, nunca vi uma mulher bonita reclamar que foi estuprada. É só mulher feia”.
Você vai dizer isso, mas nunca me notou, porque eu era invisível, não era uma mulher que você convidaria para jantar. Agora, não existo mais. Não sou mais uma presença desconfortável à sala de estar. Mas, você vai repetir: “você devia ficar feliz! Afinal, um homem apareceu na sua vida e te notou”. Não foi um homem que me notou, foi um estuprador que me matou.
Caminhamos, invisíveis, pelas ruas. Somos mortas no asfalto todos os dias. Não pense que é uma realidade morna, não pense que é menos por que foi com uma mulher feia. Você não me conhece, não me trate como um animal. Os meus sofrimentos são verdadeiros, eu fui humilhada, porque eu existia. Ninguém vai recordar que, um dia, uma mulher feia morreu no asfalto esfaqueada por um homem bonito; depois do estupro, ela agonizou e bufou sangue.  Mesmo assim, você vai dizer: “você devia ficar feliz! Nunca vi mulher bonita dizer que foi estuprada”. Eu não posso mais ficar feliz ou triste, porque eu não existo mais. Não sou que escrevo essas confissões, não posso mais ter sentimentos, não posso discursar por mim. Mataram-me, porque eu fui uma mulher andando sobre o asfalto. O estuprador não sabia que eu era uma mulher feia, ele me estuprou, porque eu era uma mulher no lugar errado e no momento errado. Mataram-me e, agora, não sou mais uma mulher concreta, eu não existo mais. Do dia para noite, me tornei uma mulher morta sobre o asfalto. Você não notou de novo, porque eu era uma mulher feia.


quarta-feira, 19 de março de 2014

Decepção de escritora

-ele me olhou ontem
- e aí?
- eu fiquei paralisada, não sabia o que dizer. Você sabe que não sou boa em esconder sensações, fiquei sem voz
- ele falou com você?
- não. Eu falei com ele. Me aproximei, disse o meu nome e peguei o número de telefone dele. E depois, depois, bem depois, sabe, de várias tentativas, nós nos encontramos.
-e, aí, o que aconteceu? Vocês ficaram?
- ele olhou pra mim e me disse: “você é uma moça muito aristotélica”. Eu fiquei muda, meus olhos endureceram. Foram palavras duras, entende. Saí, de repente, da mesa e disse: “eu não sou aristotélica”. Ele repetiu de novo a frase: “você é muito aristotélica!”. Eu me senti ofendida por ele
- você foi embora?
- óbvio que eu fui. Não vou sair com um cara que diz pra mim que sou uma moça aristotélica. Perdi o interesse,  foi assim que eu me desapaixonei por ele
- não se viram mais?

- nunca. Espero nunca mais ver ele. Onde já se viu? Me ofender assim! 

segunda-feira, 10 de março de 2014

A memória de Pablo Barbosa Cubas

Não é por estar na sua presença meu prezado rapaz
mas você vai mal/ mas vai mal demais 
[...]
e se vai continuar enrustido
com essa cara de marido 
Por trás de um homem triste
há sempre uma mulher feliz 
atrás de uma mulher mil 
homens sempre tão gentis
Deixa a menina sambar, rapaz! 
Chico Buarque. Deixe a menina 

O que eu posso dizer? É uma história comum. A última coisa que eu me lembro ver: foi a paisagem na minha janela. A imagem da minha visão era inteira de prédios, pessoas selvagens tropeçando umas as outras e um céu, tão poluído, que já tinha perdido o tom azul puro. Há muito tempo, não tinha recordações sobre o sabor do mar, o cheiro de ar verdadeiro e noções de pessoas que olham umas as outras, principalmente, quando andam banalmente.
Quem eu sou? Desculpa, minhas amadas mulheres, essa não é a pergunta certa. Se fizeram essa pergunta, erraram. As perguntas certas são: o que eu estou fazendo? Pra quem eu faço o que eu costumo fazer sempre? Eu sou jornalista investigativo, moro no centro de São Paulo, sempre morei sozinho.  Trabalho no Jornal “Notícias toda a hora”, uso o pseudônimo Gregor Fernandes, é o meu nome falso para proteger a minha vida pessoal. Os meus textos são muito lidos pela população. Por que? Porque eu escrevo as coisas que a população quer ouvir.
Por exemplo, conheço uma cantora travesti de punk rock, o nome dela é Aline, mas ninguém quer ouvir o que ela pensa do mundo. O que as pessoas querem ouvir? É a morte dos travestis, é como eles não conseguem sustentar a própria vida, simplesmente, porque existem do que jeito que eles existem. Esse exemplo é bem simples, mas tem outros.  Eu conheço um negro chamado Erik, ele é leitor de Proust e conhece quase tudo a respeito do impressionismo francês no piano. Mas ninguém quer ouvir a vida de um homem culto e o seu conhecimento de arte, principalmente, se esse homem não é um homem erudito branco. Por isso, eu escrevo sobre a morte de pessoas, miséria e decadência, os meus leitores ficam eruditos em cima de miséria e destruição. Na maioria das vezes, os leitores de jornal ficam eruditos em cima da destruição de pessoas densas. A vida não é justa, minhas leitoras, a miséria é um atributo da beleza e da inteligência. Não fiquem tristes, moças bonitas.
Quanto a mim, não posso dizer que já me importei com o mundo. Mas também não posso dizer que nunca me importei. Eu sempre dormi em paz em um apartamentinho, pagando as contas do fim de mês e comprando boas roupas. Sempre dormi bem, tenho boa alimentação, sou até vegetariano, nunca tive pesadelos.
Minhas lindas mulheres, peço que não criem um juízo errado de mim. Ainda não contei a minha história. Eu sou um homem canalha. Descobri isso depois que eu morri. Quando isso aconteceu? Alguns meses, seis ou oito; não sei direito. Perdemos a noção do tempo depois da morte, aprendemos a nos lembrar e, depois, (é o que dizem) esquecemos de tudo. De algum modo, esquecer é uma dádiva. Ainda bem que todos nós, um dia, inevitavelmente, seremos esquecidos.
Eu estava no meu quarto. A padaria e um prédio foram as últimas que eu vi, quando eu era um homem vivo. Conversava com Angélica Natel, ela tinha me dito:
- você nunca amou ninguém, você só amou você mesmo. Você é um canalha! – Angélica, talvez, bateu a porta do meu apartamento com raiva e foi embora. Ela cambaleou e pediu um Táxi, voltou para casa que ela tinha construído com o seu primeiro marido Matheus. Angélica queria estruturar a família dela, era uma mulher de 36 anos que estava perdida, o esforço em construir uma imagem, um casamento, uma casa e um mundo não significava nada. Ela era uma mulher sozinha no mundo, nunca tinha se dado conta disso, sempre se entregou demais para ser amada. Nunca amou.
- eu nunca disse que eu era teu – acho que eu disse isso na nossa última briga
- mas você disse, eu me lembro, - Angélica já chorava copiosamente, desnuda. Era uma linda mulher triste, pedindo para não ficar sozinha, - eu me lembro. Você disse que me amava, que não ia me abandonar. Agora, você tá me abandonando.
- eu não estou te abandonando, Angélica. Eu só estou sendo a pessoa que eu fui sempre.
- você me prometeu – gritava Angélica.
- eu prometi que ia amar você. Eu te amo muito. Mas não te prometi exclusividade
- é isso então? Vai me largar por aquela vadia de vestido preto
- ela é minha amiga
- eu também fui sua amiga antes de ficar com você
- foi uma consequência
Angélica estapeou o meu rosto. Caminhei até a janela e vi o prédio:
- vai embora – eu disse
- você nunca amou ninguém. Você só amou você mesmo
Fiquei em silêncio. Angélica bateu a porta e foi embora. Cambaleando, quebrou o salto, andou descalça pela rua. Era a mais triste de todas as mulheres, procurando um táxi para ir embora.  Ela desapareceu quando entrou no táxi, o automóvel levou a mulher para sua doce prisão domiciliar. Então, eu vi a padaria.
Entraram no meu apartamento, só ouvi os sons de tiro. Morri.
Um dia antes da minha morte, conversei com a minha melhor amiga Billy Carrey. A risada de Carrey era o traço que a distinguia dos outros mortais, cabelos longos, ruivos. Era uma mulher deslumbrante, provavelmente, seria uma namorada, talvez, até esposa. Mas nós dois tínhamos tudo em comum, inclusive o gosto sexual. Gostávamos muito de mulheres.
- você sabe que eu gosto de todo o tipo de mulher
- eu sei Pablo, sei sim – Carrey disse, - você é currículo! Querido, você é currículo pras mulheres
- essa história de currículo! Só você mesmo – eu respondi rindo – enfim, eu gosto de mulher:
- as feias e as bonitas – (Nós, eu e Carrey, falávamos juntos), - não importa, o que importa é mulher
- como vai com a Milena? – eu perguntei
- ela sumiu. Está com problemas com a mãe. É uma pena, gosto muito dela, Pablo, gosto mesmo. Mas essa situação é muito tensa para nós duas, a mãe dela é uma louca, já ameaçou a filha de morte, já me ameaçou de morte. Ontem, a mãe da Milena tentou se matar. A Mileninha está arrasada, eu não sei o que fazer. Me sinto impotente.
- nossa Carrey! Que barra pesada!
Carrey se despediu de mim, foi embora, beijou o meu rosto.
- você! Meu querido, tem muita mulher do seu lado, tem mulher demais – ela riu, - eu fico até confusa. Se cuida, rapazinho, se cuida!
- você também! Mas onde você vai?
- tô atrasada, tenho que convencer um cliente a comprar um apartamento e eu já devia estar na Vila Maria. Mas, depois, você me conta sobre a sua vida, eu quero saber como está esse coração, eu quero saber como anda essa cabeça confusa. Beijo, querido!
- tchau Carrey!
Carrey foi embora, caminhou até o carro vermelho dela. Era, de fato, uma mulher deslumbrante. Nesse dia, eu falei com um dos meus grandes amores, mesmo um homem como eu que assume esse estilo de vida, tem um ou dois (ou mais) mulheres inesquecíveis que marcaram a trajetória. Era uma mulher comum, o nome dela era Sofia.  Provavelmente, o homem que tocava as costas nuas dela era o novo namorado, estava apaixonada. A paixão é um bom ingrediente para beleza.
O novo namorado não era muito atento. Sofia me percebeu, olhou-me desafiante. Eu senti o desejo original por aqueles finos lábios, belos e únicos. Não resisti, abracei minha velha conhecida e não perguntei como estava, perguntei como sentia. Sofia respondeu:
- estou um pouco sem saber como responder essa pergunta – Sofia riu
- tá bem? Não tá bem?
- tô bem. Não sei se já disse. Mas tenho a impressão que você, Pablo, usa essas perguntas pra atrair mulheres
- não entendi – eu respondi
- você faz perguntas desconcertantes, porque é o seu maior charme. Você é um homem irresistível mesmo, não por que é belo, nem é questão de grana. É questão de....É questão de... de..
- de quê, meu amor?
- você não quer saber o que as mulheres querem. Isso é engraçado! Antes de conhecer você, eu tinha tanto medo, me sentia tão insegura, não sabia ficar sozinha de jeito nenhum. Quando eu te conheci, tudo mudou, você me ajudou a não ter mais medo
- você tinha medo? Do que você tinha medo?
- eu tinha medo de ficar comigo. Hoje, eu posso ficar com qualquer um, Pablo, posso ficar com qualquer um sem apriosionar. Porque eu gosto de ficar comigo
- fui eu que fiz isso? – perguntei surpreso
- não foi não. Fui eu. Mas você deu um empurrãozinho.
Ela beijou o meu rosto. Eu também a beijei no rosto. Cinco minutos em silêncio, nós dois não nos aguentamos, nos beijamos na boca. O novo namorado viu e ficou enfurecido.
- você tá louco, mano!
Ele disse:
- ela é minha namorada! Ela é minha mulher!
Sofia tentou separar a briga. Eu fiquei quieto.
- você entendeu? Ela é minha namorada, não é sua!
- desculpa, eu não vi a placa na cabeça dela dizendo: “propriedade do Zé ruela”
Eu beijei o rosto da Sofia. Não tenho espírito de homem briguento, sou muito covarde. Sofia tentou acalmar o Zé Ruela, mas era um homem estúpido.
- cala a boca vadia!
Eu disse:
- babaca! Não chama a Sofia assim
Ele tentou socar o meu rosto. Eu soquei primeiro. Em qualquer briga, (como eu já me meti em algumas, porque sempre tem um homem estúpido em algum lugar), é sempre bom ser rápido e dar o soco primeiro. Sofia vestiu o casaco, caminhou para casa. Eu corri atrás da moça.
- vai embora assim?
- ele era um homem idiota, não é mesmo?
- parece que sim – eu disse
- nós, mulheres, nunca nos livramos de um idiota, né – ela disse sorrindo
- me desculpa – eu respondi
- se desculpar, não precisa, dessa vez, você fez um papel que não combina com você
- é! Papel de bom moço e decente nunca foi a minha cara – eu disse
- nunca foi mesmo. Ainda bem. De bons moços, o mundo tá cheio. Acho que é por isso que o mundo anda chato e tedioso – Sofia sorriu.
- isso é verdade! Por favor, Sofia, não deixa que esse babaca faça parte da sua vida de novo
- não vou deixar não – Sofia disse, - mas, você tem razão
- tenho?
- tem sim. Nunca esqueci a cantada que você me deu
- do canalha
Ela riu e disse:
- um canalha é mais feminista que as feministas. Ele vai fazer tudo que não pode com os dogmas sexistas que uma mulher aprende, vai tirar a moça da zona de conforto e, depois, vai pedir para que ela siga adiante sendo ela mesma
- eu falei aquilo de piada – eu disse
- é uma piada com algum fundo de verdade. Tchau, moço!
Sofia beijou minha boca. Ela caminhou pela calçada escura, o seu belo corpo desaparecendo entre a escuridão. O humor é uma arma contra os opressores, sem dúvida, é a arma mais impactante, porque só entende o humor quem compreende a cultura e o imaginário que vive. Essa piada de canalha só entende uma mulher que aprendeu o que é viver com dogmas sobre o que é ser mulher. Por isso, escrevo para elas, às vezes, escrevo para seduzir e tirar as suas roupas; às vezes, eu escrevo, porque eu quero transformar o mundo em um parque de diversão de canalhas.
Se um homem canalha é perigoso para nossa cultura, imagina uma mulher canalha. Sofia tinha aprendido muito com o nosso passado, eu a amei tanto, ela me amou tanto. A nossa escolha foi, em respeito ao amor, nos deixar plenamente livres e nos preocupar um com outro. Sofia caminhou firme e livre.  A beleza não é o único atributo que deixa uma mulher irresistível, a liberdade é um atributo ainda mais sedutor. Um babaca tem medo de mulheres livres, mas perde a cabeça quando encontra uma mulher como Sofia, porque o que ele quer não é a Sofia, ele quer a posse da liberdade dela. Um babaca sente ciúmes é da maneira idiossincrática que uma mulher, como a Sofia, vive a vida; ele não a deseja, ele deseja a vida da Sofia, deseja a liberdade e não a pessoa. O poder é a pior droga, nós, homens, aprendemos serem homens por causa desse vício, nos embriagamos de dogmas e viramos exatamente o que somos. Babacas.
Eu me libertei dessa condição, não sou um babaca. É importante fazer essa distinção, uma coisa é ser um babaca, outra coisa muito diferente é um homem canalha. O Zé Mané do ex-namorado da Sofia tentou correr atrás dela pelas ruas, eu estava no meio do caminho, ele me bateu. Eu apanhei, a polícia apareceu logo em seguida.
- ele tentou agredir uma mulher
- você quer deixar uma queixa
- quero sim
O ex- namorado Zé ruela da Sofia foi preso pela polícia. Pelo que sei, Sofia arranjou outro namorado. O Zé ruela ficou triste, chamou a moça de vadia, de vagabunda e falou para um amigo meu assim: “ela não trepa bem!”. Espalhou a notícia. Sofia estava feliz, mesmo com outro namorado, ela nunca me abandonou, nunca se importou e caminhava firme. É, meu amigo Zé ruela, você precisa entender que a mulher sorri com outros homens e você só vai espalhar notícias falsas. Você, Zé ruela, lambuzou-se de poder e masculinidade. Você, Zé ruela, é só mais um babaca solitário e Sofia me disse que você quando criança, para comprovar o seu poder, media o tamanho do seu pau em frente os seus amigos. Além de babaca, você é um inseguro, não tenha dúvidas que ela usou essa insegurança para tirar um sarro. Não tenha dúvidas, Zé ruela, ela atingiu o objetivo que queria. Transou com você e foi embora para sempre. Você acreditou que o seu pau era grande, bonito e gostoso. Você acreditou, Zé Ruela, mas ela só encheu mesmo a sua bola e massageou o seu belo ego previsível. Zé ruela seja um babaca, fica mais fácil para mim, porque enquanto existir homens assim, os canalhas ainda terão uma função no mundo. Eu vou comer as suas mulheres e elas vão aprender a ser exuberantemente livres.
O namorado da Sofia foi o último Zé Ruela que enfrentei corpo a corpo. Angélica Natel, a última mulher da minha vida, tinha um marido muito ciumento. Eu suspeito que foi esse homem que me assassinou. Mas não tenho certeza. Na primeira cena, eu disse que a última coisa que eu vi foram um prédio e uma padaria. Quando ouvi um barulho incompreensível e morri. Foi um tiro no meu coração.
Angélica recebeu a notícia pelo telefone. Sofia recebeu a notícia por Carrey. Elas se encontraram no meu enterro.
- você conhecia ele? – perguntou Angélica
- conhecia sim – respondeu Sofia
- você foi mais outra vadiazinha dele?
- eu fui uma mulher na vida dele. Eu amei ele
- eu amei ele. Eu amei ele como ninguém, entendeu, eu fui a única que amou ele de verdade. Você foi só outra vadiazinha que ele usou e jogou fora – disse Angélica
- desculpa, moça, eu não vou fazer essa cena ridícula. Eu vim me despedi do meu amigo
- Sofia, vem cá – disse Carrey, - deixa ela se matar aí
- pera aí! – disse Angélica, - vem cá, por favor
Sofia hesitou e disse:
- Carrey, tá tudo bem, eu não vim aqui pra fazer cena ridícula nenhuma
- você vai ficar bem?
- vou sim – respondeu Sofia
- você tratava ele como amigo? – perguntou Angélica
- eu vou tratar um homem que amei como? Como um inimigo?
- eu também amei ele
- não duvido. Não vou brigar aqui pra ver que amou mais ele. Nós duas amamos o mesmo homem
- eu sou casada
- cadê o seu marido?
- tá preso. Acho que, talvez, foi ele que assassinou Pablo
- ele machucou você? – perguntou Sofia
- tentou me bater. Na verdade, ele já me bateu algumas vezes, eu gostava dele, sabe, gostava mesmo. Sempre desejei construir família, ter filhos e uma casa.
- um sonho comum
- pois é, eu sempre sonhei. Ele me deu tudo isso, mas me tratava como um animal, eu obedecia. Teve um dia que eu tava sozinha numa festa, usava a minha melhor roupa, ele não notou como eu fazia tudo aquilo pra ele. Ficava horas na frente do espelho para ser uma mulher bonita. Adivinha, então, quem notou isso? Pablo
- Pablo Barbosa Cubas! – Sofia riu
- ele me chamou de bonita, me deu flores, me tratava como uma princesa, eu me sentia uma mulher especial. Fiz tudo para ele, dei tudo pra ele, esperando que ele me libertasse de um casamento e uma situação desastrosa
- ele não te libertou?
- não, ao invés disso, ele morreu
- bom, ele nunca teve talento pra príncipe encantado
- mas ele me prometeu
- ele prometeu te amar, ele não te prometeu a liberdade. A liberdade vem sempre de dentro pra fora, primeiro. Uma pessoa livre não aprisiona ninguém, ao contrário, deixa livre para escolher. É claro, ter uma consciência é um privilegio, ter subjetividade, então, minha querida, é luxo! Luxo!
- por que você tá falando isso pra mim?
- porque ele te amou, por isso, eu também te amo. Por isso, eu te respeito
- mesmo que eu te odeie por ele ter te amado também, mesmo eu te maltratando?
- mesmo assim
Sofia beijou Angélica no rosto. Angélica se sentiu humilhada, chorou apenas. Eu  sorri, finalmente, eu morri bem. Minhas queridas leitoras, eu sou o homem mais feliz do mundo, assassinaram-me literariamente. Há anos na história da literatura ocidental, lindas mulheres morreram, os autores sempre mataram essas figuras densas. Julieta morreu para se libertar e libertar Romeu, Ana Karenina suicidou nos trilhos do trem por conta de amor, Lady Macabeth enlouqueceu porque também queria o poder dos homens, Ofélia sabia demais, morreu ambiguamente. Sofia não morreu, vive libertada de dogmas sexuais. Angélica é uma mulher viva e, quem sabe, um dia se liberta desse imaginário genocida que matou milhares de pessoas por conta do gênero feminino. Vocês, queridas leitoras, ouviram a história do primeiro homem assassinado na literatura. Também ouviram a história de duas mulheres que permaneceram vivas e continuaram em frente.

Eu sou um homem morto. 

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

O bar inexistente das figuras imortais

 No reino da não existência, as figuras imortais mais ilustres, que já tiveram uma vida no planeta Terra, conversam sobre futebol, celebridades, novelas das oito, guerras e etc. As notícias a respeito da via láctea passam em um telão, controlado pelo Grande B. (The big b), e todos, apreensivos e ansiosos, assistem às novidades do telão da via láctea.
Nesse telão, os rumos dos planetas Saturno, Vênus, Marte e Terra são televisionados como um grande reality show. As novidades mais esperadas são sempre vindas do planeta Terra. As figuras ilustres (Platão, Nietzsche, Karl Marx, Buda, Leila Diniz, Elis Regina, Janis Joplin, Hendrix e Jim) gargalham, observando os acontecimentos terrestres como uma grande piada. Os piadistas são Marx e Hegel, afinal, as figuras mais estranhas que já viveram na Terra, foram marxistas e hegelianos. Por isso, são os maiores comediantes, vivem sacaneando a turma do bar, eles fazem piadas em cima do povo terrestre e gargalham muito.
Mas, os mais depressivos do bar, curiosamente, sentados na mesma mesa de bar, dividindo copos de cerveja. Duas figuras que dividiram povos, consolidaram polêmicas e criaram suicidas. Hoje, depressivos do reino da não existência, escutando Reginaldo Rossi, Edith Piaf, Wando e Beethoven. Embriagados de excessos. Jamais, esquecidos por nenhum ser humano, nem mesmo entre os ateus e progressistas. Eles, mais tristes do que nunca, dividem a mesma mesa. Hitler e Jesus Cristo conversam a respeito da humanidade.
- Não sei por que ninguém deixa minha memória em paz? – disse Jesus – Porra! Eu morri, deixa eu morto. Mas não. Tem sempre um cristão que faz questão de colocar uma imagem minha crucificada na Páscoa. Tem gente que sempre faz questão de me ver sendo torturado. Não sei por que todos ficam me amolando?
- ah! Ao menos, você é cultuado com amor, Jesus, - disse Hitler, - eu não. As pessoas fazem questão de colocar a culpa tudo em cima de mim. Aaaah! Mataram um bando de judeus, a culpa foi de Hitler. Ah! O Nazismo, a culpa foi de Hitler!! Ah minha sogra não sai de casa, a culpa foi de Hitler! Ah, meu namorado é preto, a culpa foi de Hitler! Esses dias até a maçã, a maçã, que o negócio foi do Adão e Eva, colocaram eu no meio. Eu! Que não tinha nem nascido ainda. Porra!!
- porra, Hitler, tu também vacilou, né                                                   
- ah! Vacilei, né, Jesus, mas, não vacilei sozinho não. Me colocaram nesse espaço de vacilação. Agora, tá tudo mundo tirando corpo fora. Ninguém quer assumir ódio não. Precisa de alguém como eu pra poder autorizar o ódio?
- ah, eu tive tanta paciência, Hitler, tanta paciência pra ensinar fundamentos de amor, fundamentos de autonomia, de questionar a ordem vigente. Eu disse que ia trazer a paz, eu ia cumprir a promessa do meu pai. Mas ninguém entendeu nada, ninguém entendeu nada.
- você que é bobo, dizem até que você morreu por toda essa gente
- eu amei a humanidade mais do que tudo. Achei que todos poderiam plantar a sua própria semente. Porra! Mas, Hitler, veja isso, no dia que eu fui crucificado, todos os apóstolos tavam dormindo, tavam embriagados. Ninguém tinha entendido nada. Nada. Eu fiquei com dúvida, fui até o Jardim, fiz a oração pro meu pai e, depois, Judas me beijou na boca. Fui crucificado e morto. Nesse dia, ninguém se lembrou de mim. Ninguém, nem Pedro.
- na hora que tu precisou, as pessoas fizeram esse favor de te esquecer. Puta sacanagem, meu! – disse Hitler, - isso é tudo um bando de cagão
- Mano, no dia que fui levado pra morte, todo mundo me esqueceu. Agora que eu morri, todo mundo se lembra de mim. Ninguém respeita a minha morte. Fica falando merda sobre mim, bosta atrás de bosta, merda atrás de merda. Inventam fundamentos da minha vida pra justificar ódio, intolerâncias e preconceitos
- eu sei que o meu maior castigo, foi ser eterno – disse Hitler, -  a minha imagem na Terra é o símbolo puro da neurose e do ódio. Ninguém, Jesus, ninguém hoje assume que já acreditou nas minhas ideias; porque, enfim, queriam uma vida melhor do jeito que fosse, nem que fosse do pior jeito; porque também eram tiranos e pequenos Hitlers. Agora, eu nunca vou ser esquecido. Nunca vou ser esquecido. Jamais.
Jesus Cristo e Hitler beberam, estavam delirantes.
- eu vou ser eterno. As pessoas vão ser imbecis, porque não pensam por si mesmas – disse Jesus
- eu vou ser eterno. As pessoas são imbecis, porque nunca pensaram por si mesmas – disse Hitler
- o esquecimento é uma dádiva – eles disseram delirantes
Nelson Mandela, o forasteiro, sentou ao lado de Jesus e Hitler e disse:
- desculpa o atraso! Mas eles não deixam ninguém morrer em paz. O que estamos brindando?
Todas as figuras ilustres do bar inexistente gritaram:

- ao esquecimento! 

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Tudo termina em Auschwitz

Eu acordei com a minha mente silenciada. Naturalmente, isso é muito incomum, sempre estive acompanhado com pensamentos esparsos, contraditórios e imprecisos, acomodando-se no mesmo lugar. Sou um biólogo, estudo genética, estava empenhado na construção de um novo DNA, que seria capaz de criar uma nova espécie de ser humano no planeta Terra. É uma maneira, completamente nova, de reconstruir a humanidade, tentando corrigir os erros já existentes da espécie humana. É algo que seria capaz de criar um novo mundo, fundamentado em saber, conhecimento, respeito, verdade e justiça. De algo modo ou de outro, seria uma nova esperança.
Caminhei, então, até a padaria da esquina. Encontrei dois amigos meus. João (estudante de pós-graduação de filosofia) e outro amigo chamado Diogo (funcionário público no setor administrativo da Escola Municipal Hélio Freitas), eles estavam fugindo de suas responsabilidades cotidianas. Eu também era um fugitivo. Com o mundo aos meus pés, eu estava cansado. Estava desacreditado na possibilidade de criar esse novo homem; houve vários fracassos com minha coleta de dados e também houve erros grotescos com minha aplicação de metodologia. As coisas não estavam boas... As coisas não estavam boas...
- Alexandre, ô grande! – (os braços de João estavam abertos, recebeu-me com alegria), - quanto tempo, meu grande amigo, como vai você? Tu lembra do Diogo?
- eu lembro sim – eu respondi – e aí, como vai os estudos com a música?
- eu abandonei a faculdade de música, - respondeu Diogo, - hoje, trabalho no setor administrativo na escola Hélio Freitas. Estudo música como hobby
- ainda toca bandolim? – eu perguntei
- abandonei o Bandolim. Estou tocando agora gaita e voltei pro violão – respondeu Diogo
- e você, meu querido Alexandre, - perguntou João, - ainda faz aquele trabalho com biologia, ainda tá pesquisando?
- ah, trabalhava na coleta de dados da descrição de um DNA de uma cabra. Agora, estou trabalhando num projeto meu – respondi.
- sério? Qual é a ideia?
- acho que é um sonho, meu amigo
- tem sonhos que vale a pena – disse Diogo
- nesse caso, é um fracasso de um desejo que eu tive quando era um jovem estudante, - (eu dei uma pausa. Encarei o Diogo), - ô Diogo, tu se lembra que você já sonhou com música?
- ah! Meu Deus, você ainda se lembra disso! Lembro sim.
- que música? – perguntou João
- eu tinha 14 anos. Eu sonhei com uma melodia de música. Menino, foi uma coisa sobrenatural, eu dormi e vi as notas musicais. No dia seguinte, eu criei aquela música minha que está no meu primeiro cd
- “nenhuma cor e todas as cores juntas”, é essa, Diogo? – perguntou João
- é essa mesma, eu pedi até pra sua namorada da época, a Aninha, lembra? Pedi pra ela criar uma letra pra canção
- lembro. Fez um puta sucesso a música
- hoje, eu sou um músico desconhecido. Fazer o quê, eu até que gosto um pouco, né! – disse Diogo – Nunca tive muito talento pra lidar com o público e com gravadoras. Estou protegido no silêncio dos anônimos
- então, - eu disse, - Diogo, eu tive um sonho parecido
- você sonhou com música? – disse João
- Não. Eu sonhei com uma rede de moléculas e células que criariam uma nova espécie humana. Acordei, de repente, com essa ideia. Passei o meu primeiro, segundo e terceiro anos de faculdade, pensando nas possibilidades de criar uma nova espécie humana.  E criando maneiras de resolver os erros existentes dela
- mas isso não é brincar de Deus? – perguntou João
- eu ia resolver os nossos problemas da arcada dentária, dos ossos, da possibilidade de guardar mais informações do cérebro, da intelectualização dos sentimentos e da imaginação religiosa. Eu ia criar um Hércules, um Cristo, um Superman. Um homem muito melhor que os mitos, um homem muito melhor que os homens
- mas isso é muito ambicioso – disse Diogo, - eu até que gosto das imperfeições dos homens
- eu adoraria ver as imperfeições dos homens serem corrigidas – disse João, - separar a imaginação criativa da ignorância das religiões. Aumentar a nossa força no mundo, não ter problemas de artrose, dentes mais fortes, respiração mais duradoura e uma racionalidade precisa e objetiva. Eu adoraria que a gente não tivesse doenças sexualmente transmissíveis e que a gente fosse, de fato, espécies inabaláveis e indestrutíveis
- João, a razão é uma rainha surda. A emoção é o excesso necessário. Já disse e repito, eu gosto das imperfeições da humanidade
- inclusive os genocídios, os femicídios e a escravidão?
- meu, tudo que é conversa termina do mesmo jeito
- que jeito?
- tudo termina em Auschwitz. Será que é impossível começar uma conversa ou diálogo banal sequer, sem colocar o Hitler no meio? – disse Diogo
- pera aí, gente – disse Diogo, - pera aí, gente, deixa eu terminar o meu raciocínio
- Hitler modificou a história do pensamento – disse João, - não é possível pensar o mundo hoje sem falar de Auschwitz
- não foi o Hitler
- claro que foi
- não foi o Hitler, mas a paixão em torno do Hitler
- gente, deixa eu terminar o meu raciocínio
Começaram as discussões calorosas em torno de Auschwitz. O funcionário público, meu amigo Diogo, tinha razão. Quando o assunto era Hitler, era pior que ver discussão de futebol no dia de libertadores. Era pior do que discussões entre são paulinos e corintianos.
- posso terminar o que tava falando? – eu disse
- pode sim – eles responderam
- eu tinha sonhado com uma nova espécie humana. Trabalhei cinco anos, tentei coletar dados, tentei criar metodologias. E, hoje, quando eu acordei e tomei ônibus. Eu fracassei novamente na coleta de dados. A metodologia não é boa. De novo, fracassei como cientista
- você não conseguiu? – os dois perguntaram
- Não consegui
- essa é a prova que a ciência é insuficiente depois de Auschwitz
- essa é a prova que só a arte é capaz de entender a falta de lógica do mundo
Eu respirei fundo e respondi antes que começassem as discussões calorosas.
- essa é a evidência de que o homem é ineficiente para criar um novo homem. O homem é o fracasso do próprio homem em todos os sentidos. Em todos os sentidos. Só nos resta tomar café, tomar cerveja, fumar cigarros e falar, falar, falar e falar sem parar a respeito do mundo, a respeito das coisas. Falar a respeito de nada. E, mesmo assim, fingir algum sucesso, porque eu vou ganhar dinheiro com meu fracasso, amanhã vou escrever um artigo e vou ganhar dinheiro pra isso
-isso é bom! – disse Diogo
- isso é bom? – disse João
- é a minha dignidade, meus caros, minha dignidade

Me despedi deles. Eu fui embora com a minha mente silenciada. 

sábado, 6 de julho de 2013

Entre dois homens, o boteco e o café da manhã

- De tudo na vida, o que eu acredito que seja mais impressionante é a experiência. Você não acha impressionante ter a vida que você tem?
- ora, a vida que eu tenho é normal – (Márcio colocava açúcar no café, pegava as sobras com dedo anular).
- como você pode ter certeza? Eu acho impressionante, meu, nascer assim como eu sou, sendo que eu poderia ter nascido de outra maneira. Eu nasci brasileiro, tenho vinte e três anos, estudei em uma puta faculdade, sou formado em economia, nunca tive namoros longos; em compensação, tenho um monte de coisa que muita gente não tem; por exemplo, adoro alguns tipos de livros, gosto de beber segurando os copos com a mão esquerda e, de todos os homens do mundo, tenho uma rotina só minha que não é sua
- mas isso é normal, Victor
- não é, meu, por exemplo, você é você, você não é eu. Cê não consegue achar isso impressionante, muito louco! Você nasceu Márcio, a gente estudou juntos, a gente é amigo, temos um vínculo, você trabalha, você vai casar com a sua noiva, vai ter uma filha com vinte e cinco anos, vai morar em Santa Catarina. Eu não vou casar, vou fazer mestrado em filosofia e não vou ser pai tão cedo; às vezes, eu duvido muito se eu vou ser marido e terei uma namorada fixa. Você é você, Márcio, você não é eu. Você tem as experiências que não são minhas, são suas, essa é a sua vida
- bom, mas isso tem mais a ver com destino. Cada pessoa nasce para vivenciar uma vida, as pessoas escolhem, antes de reencarnar, e se destinam a fazer determinadas coisas e não outras
- tudo bem. Independente de uma explicação religiosa, Márcio, vamos esquecer por enquanto isso. Não é louco? De todas as possibilidades do mundo, eu nasci exatamente a pessoa que eu sou hoje, eu poderia ter sido travesti, gay, negro, judeu, argentino, chileno, ter sido órfão, cachorro ou barata. Mas não! Eu nasci brasileiro, classe média, branco e sou formado em economia, mesmo com todas as possibilidades do mundo, eu tenho essa vida e não outra
- mas, qual o problema com isso? Por acaso, você queria ter outra vida?
- poxa, eu queria ser pianista, já tive vontade de ser mulher, já sonhei ser pássaro. Uma vez, queria até ter nascido negro em uma periferia, sem mãe e pai, para ver que tipo de visão, eu teria. Poxa, não é estranho! Eu tenho uma visão de mundo, terrivelmente limitada, porque eu tenho as experiências que eu conheço, sendo que poderia muito bem ter tido outras

Nesse momento, passa duas mulheres, uma morena e outra ruiva. Uma usava um vestido verde e os cabelos soltos; a outra usava uma calça e camiseta, um batom vermelho forte, a roupa discretamente decotada. Elas, deslumbrantes, passam distraídas por eles, ambos percebem e olham descaradamente para o corpo delas. Márcio derruba sem querer um pouco de café na mesa e respinga na sua calça, Victor dá um pulo de alegria e continua sorrindo. As duas mulheres vão embora, eles permanecem onde estão.
- tá vendo
- como elas são gostosas!
- não! Nós! Por que nós olhamos?
- porque elas são lin-das
- Não, homem! Por que sentimos desejo por mulher?
- ora, isso é normal, anormal se fosse o contrário
- Márcio, mas e se a gente não olhasse, se a gente não sentisse desejo por essas mulheres; já pensou que eu e você poderíamos muito bem ter desejo um pelo outro e oprimir isso. Eu poderia tá louco de tesão por você, mas a gente será para sempre amigos
- você é louco! Eu gosto de mulher – Márcio dá um pulo de susto
- mas, poderia não gostar e gosta. Você não vê? Nós somos o que somos, não o que não somos. Diante de tantas possibilidades, só que temos os nossos desejos sexuais, os nossos medos, nossa língua, nossos gostos, nossa cultura, nossos amigos, nossa família; criaremos um futuro assim por conta de uma religião, por conta de um padrão de relação, por conta de tanta coisa. E se fosse o contrário? E se eu fosse uma mulher que nascesse lá no Irã? E se eu fosse índio, Márcio? Eu não seria eu, seria outro, acho até que teria raiva de mim, dessa pessoa que me visto, dessa pessoa que eu sou e me conheço
- Victor, você não tá meio pirado não! Que conversa é essa? Falou de gay, falou disso e daquilo? Tá insinuando o quê?

Passou um homem barbudo ao lado deles, sentava sozinho na mesa. Depois de dois minutos, aproximou dele um outro homem de cabelos loiros. Eles, dois homens bonitos, se beijaram demoradamente. Márcio fez uma cara de nojo e desprezo, Victor bebeu um gole de café, deu outro pulo de exaltação, bateu nas costas de seu amigo.
- Viu!
- o quê? Esses daí se beijando
-  exatamente! Por que, Márcio? Por que somos assim se a gente poderia ser outro?
- Victor, eram dois homens se beijando
- e daí! Podia muito bem ser a gente se beijando, se amando e se perdendo publicamente. A gente podia tá no lugar deles
- Victor, para com isso
- para por que? É verdade! Você sabe que é. Somos o que podemos ser. Márcio, eu podia dizer eu te amo, podia falar que eu tenho ciúmes de suas namoradas, também podia falar que, na verdade, eu sinto ciúmes de você, podia falar que amo a sua vida, que eu queria ser você. Do mesmo jeito, o contrário, você podia ser eu. Mas, por alguma razão, que me foge dos meus conhecimentos, porque a minha sabedoria também é limitada, eu não entendo, eu não entendo porque eu sou eu e você é você, por que aqueles dois gays são gays? Por que aquelas mulheres me afetam? Por que eu tenho esses sonhos e não outros? Você entende?
- Victor, o que eu entendo que já está na hora de trabalhar, vamos embora, vai pagar o seu café ou quer que eu pague?
- não, não se preocupe, eu pago meu café
Márcio, antes de ir embora, bate nas costas de seu amigo e fala:
- quero você para ser padrinho do meu casamento, você aceita?

Victor para subitamente com as mãos suspensas, sorri e aceita a proposta com um abraço. Márcio vai embora do boteco. O homem branco, perdido, com seus óculos de armação preta, terno e gravata, olha para o dono do boteco, paga dois reais e pensa: “eu podia estar casando com a mulher dele, mas ele vai casar no meu lugar; eu vou viver a vida que é minha, vida que ele não vai conhecer, porque ele tem outra”. Victor foi embora.