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sábado, 27 de setembro de 2014

Deus e a falta de humor no cristianismo

Ano passado, fiz uma declaração inocente para minha mãe a respeito de Deus. Falei o que eu pensava e no que, sinceramente, acreditava:

- o único Deus que eu acredito. É num Deus como uma criança pentelha que fica brincando, inocentemente, com a via láctea e com o planeta Terra. Nos colocando em situações absurdas, já que, para esse Deus, a inocência é a sua maior característica. Ele mesmo não sabe o que é bem e o que é mal.  Eu prefiro acreditar que Deus é uma criança pentelha do que acreditar num Deus, pai, autoritário, sem senso de humor e incapaz de dar uma risada. 

Ao dizer isso, eu dei gargalhadas sinceras. Minha mãe respondeu como se eu tivesse feito uma grande heresia:

- para de fazer isso!

- por que? É melhor um Deus palhaço? Os palhaços são muito tristes, mamãe. Prefiro acreditar num Deus criança, pentelhinho, distraído e estabanado

- filha, para de fazer essas piada, 

- mas, eu não estou fazendo piadas

- não se deve brincar com Deus

- por que?

- não se faz piadas com Deus 


Imediatamente, me lembrei dessa imagem sobre a ideia de não se brincar com Deus (fonte: http://www.umsabadoqualquer.com/?s=com+deus+n%C3%A3o+se+brinca ):



terça-feira, 9 de setembro de 2014

A Mulher-Gato

No quadrinho " ...e a maioria das fantasias ficam", a Mulher-Gato foge de uma confusão, enquanto veste a sua máscara. Explodem a sua casa. Ela vai morar com a sua amiga chamada Lola e assume a sua personalidade de Selina para trabalhar no Clã Ivgene da máfia russa. Mata um dos homens da máfia e corre para uma cobertura de um hotel.  

Nessa cobertura do Hotel Belle Monico, Batman aparece para conversar com a Mulher-Gato a respeito de suas confusões e dos riscos que ela entrou. Entretanto, a Mulher-Gato insiste transar com o detetive mais famoso de Gotham City. Ele protesta, mas desiste no final. Assim, eles transam usando máscaras e com a maioria das fantasias. 

Gotham City é uma cidade sombria, corrompida por dinheiro, violência e preconceito. Batman é o herói que essa cidade merece. E o que é a Mulher-Gato? Ela é uma pessoa que criou uma ética própria, não é dependente das leis e nem da moral dos vigilantes (dos heróis). A Mulher-Gato consegue tudo que deseja, simplesmente, porque tem potência para realizar os seus desejos mais obscuros. Segundo a própria Mulher- Gato: "Você já ouviu essa palavrinha, Principalmente, nos negócios. Ou nos namoros. Ou comendo frituras de uma carrocinha ambulante. Mas corremos risco o tempo todo, todos os dias, de mil maneiras. Dirigindo o carro. Falando com um estranho. Atravessando a rua. Essas são pequenas coisas em que nem pensamos. São as grandes coisas que tornam tudo interessante. Ao menos, para mim, são. Não estou certa se quero fazer alguma coisa a menos que isso possa me arrancar um membro. Afinal, é onde a diversão está, não é?".

A Mulher-Gato é uma pessoa que inventou uma ética independente, ela é alguém que pensa por si mesmo. Assumindo as consequências dos riscos que ela inventou. De certa maneira, a liberdade é uma maldição para essa mulher, afinal, ao aceitar as suas escolhas como possíveis, ela aceita também as consequências. A possibilidade de ser assassinada, o sofrimento de perder uma amiga, a possibilidade de ser odiada por Batman e etc.

Ela não é uma heroína. A ambiguidade de Mulher-Gato é fundamental para dar as características de humanidade e malícia que possui. Na verdade, ela é uma pessoa, absolutamente, apaixonada pelo perigo. Ao se envolver com Batman, a Mulher-gato se envolve também com o perigo, há um risco de ser capturada e presa pelo herói de Gotham City.  Antes de ser apaixonada pelo Batman, a Mulher-Gato é apaixonada pelo perigo e pelos riscos que há nesse relacionamento entre ladrões e vigilantes. Assim, a relação amorosa de Batman e Mulher-Gato não é ancorada no amor romântico, há muita malícia e provocação nos dois. Eles, na realidade, se relacionam com o estranho do outro, (uma hora, eu explico isso com mais calma). A Mulher-Gato traz à tona sentimentos conflituosos e contraditórios para o herói de Gotham City.

Fonte: http://hqonline.com.br/?page_id=629

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Cicatrizes

FONTE:

SMALL, David. Cicatrizes. Leya Cult, 2010.
CARROL, Lewis. Alice: Aventuras de Alice no país das maravilhas & Através do espelho e o que Alice encontrou lá. Tradução de Maria Luiza X. A. Borges. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2010.





Esse quadrinho é uma autobiografia de David Small, autor e ilustrador desse livro. Ele vai expor alguns momentos dolorosos que viveu, enquanto morava com seus pais. Na infância, a personagem David teve um câncer na garganta que afetou a sua voz.

David anuncia que viver sem voz será absolutamente significativo para a formação da personalidade dele. No início, ele faz um levantamento das linguagens sonoras da família. A mãe se impõe com os sons dos pratos na pia. O irmão se impõe com o som da bateria. O pai, (se eu não me engano), se impõe com o som da máquina de Raio X (não tenho certeza). A linguagem de David, para chamar atenção das pessoas, era ficar doente.
Quase sempre, David tinha algum problema de saúde. O pai sempre fazia uma centena de exames com Raio X para verificar a causa e os desenvolvimentos da doença, esse procedimento era padrão. Entretanto, por conta da quantidade de raios ultravioletas numa criança, David acabou desenvolvendo um câncer. O quadrinho conta a origem das cicatrizes que ele tem no pescoço e como isso foi significativo para formar a sua mentalidade no universo adulto.
O quadrinho traz uma referência literária famosa. A personagem David é fascinada pelo universo de “Alice no país das maravilhas”. Isso é absolutamente relevante para o desenvolvimento do enredo e a formação de personagem desse quadrinho. Quando criança, David acredita que a Alice entra no universo das maravilhas, onde flores falam, animais desaparecem e etc, porque essa garotinha possui cabelos dourados. Por isso, ele coloca uma toalha amarela e brinca no quintal, fingindo que possui cabelos dourados para entrar no universo das maravilhas de Lewis Carroll.
David entra na juventude e faz uma terapia. E, finalmente, entraremos no que essa resenha gostaria de discutir. David faz terapia com um coelho. (Particularmente, preferia fazer terapia com um gato, já que é o meu personagem favorito desse livro. Porém, eu imagino que o gato não me deixaria mais calma e sim mais confusa. Ele diria: “depende bastante de para onde quer ir?, disse o gato (...) Então não importa que caminho tome (...) Contanto que eu chegue em algum lugar, Alice acrescentou à guisa de explicação. Oh, isso certamente vai conseguir, afirmou o Gato, desde que ande bastante” [CARROLL, 2010, p. 48] ).
Por que o coelho? Eu juro que fiquei pensando sobre isso. Fazer terapia com o coelho faz mais sentido do que fazer terapia com o gato. Afinal, os gatos são budistas e anarquistas, na verdade, eles confundem as pessoas a agir de acordo com o caos e contrário a moral vigente. Os felinos estimulam que as pessoas sejam malucas, pensem por si mesmo e inventem a sua própria ética. Esses animais fazem isso através de suas ações, sem precisar conversar muito. Não faz menor sentido fazer terapia com o gato, ele não está aí para apontar caminhos, e sim para observar os andares de quem passa por esses caminhos. De certa maneira, até conta quem passa por esses caminhos, até avisa para Alice que, por um caminho, a garotinha vai encontrar a Lebre de Março e, no outro caminho, vai encontrar o Chapeleiro Maluco. Mas, o Gato, jamais, vai dizer: “vá ver a Lebre de Março” ou “vá ver o Chapeleiro Maluco”.
O Coelho leva a Alice para os mundos subterrâneos de seus sonhos. Alice corre atrás desse animal, porque sente curiosidade com a figura que o Coelho expressa, correndo apressadamente, enquanto grita que está atrasado. É esse animal que leva a Alice para as suas lágrimas, para as suas experiências de diminuir e aumentar, para a Rainha de Copas, louca, para lebre de março e para o Gato. De certa maneira, somente o Coelho, levaria ao entendimento das relações familiares e íntimas que David possui com a sua família.
Assim, David se transforma completamente, depois do encontro com o Coelho. Porque, desse jeito, ele entra e consegue interpretar a sua atitude com seus pais, consegue entender o universo psicológico de tensões e indiferença que existe na sua família. E, portanto, entende que a tempestade e as lágrimas, mais cedo ou mais tarde, seriam inevitáveis na sua vida.  O Coelho é quem faz a Alice atravessar as portas da realidade para o mundo das maravilhas. Nesse caso, esse animal faz o mesmo com David, com a diferença, é que, nesse quadrinho, não há um mundo fantástico.