domingo, 16 de novembro de 2014

Sobre o Blog

Olá,

é a autora mesmo, prazer, meu nome é Bruna Landim! Vou poupar a vocês mais apresentações sobre mim. Estou aqui para explicar por que cultivo esse blog e o que vocês podem encontrar.  (Eu sei que devia ter feito isso tempos atrás). 

Esse blog tem dois anos de existência, está incluindo textos autorais, na grande maioria, prosas, contos e crônicas. Há poesias também, mas não sou uma boa poetisa. Dediquei o meu tempo livre na elaboração desse blog, porque exercito minha escrita, fortaleço a minha criatividade e posso compartilhar minhas ideias ao mundo. Afinal, não tem nada mais triste do que escrever um texto e não mostrar para ninguém. 

O blog era chamado de Caos Intempestivos. Por quê? Achava o nome espirituoso, gostava da sonoridade da palavra "intempestivo". "Caos", porque nós somos originados dele, somos os seus frutos. Nascemos da relação sexual entre Terra e Céu, somos o pecado dos deuses, a vaidade dos imortais, os ratinhos esquisitos que andam perdidos no mundo. Assim, o mundo é perigoso, caótico, divino e intempestivo. Era um nome forte para um blogue, não? 

Depois de um ano e meio, comecei a achar que o nome estava pomposo demais. Fiquei pensando nos outros nomes para substituir. Quando eu já estava desistindo de procurar e pensar nos outros títulos, cansada de livros dramáticos, tornando-me uma pessimista, ignorando os intelectuais, amando ser anônima. Li o livro Guia dos Mochileiros da Galáxia, fiquei fascinada com a boa escrita, simples, o humor cínico e as críticas ácidas que Douglas Adams havia feito. Então, para homenagear um pouco à vida moderna, mudei o meu blogue para Aquários, sendo que o endereço eletrônico possui palavras-chave engraçadas, ou seja, Peixe Frito e Golfinhos

Os golfinhos são animais dissimulados, agradeceram os humanos por oferecer peixes. Eles e os ratos são os animais mais inteligentes da Terra, por isso, nos abandonarão quando o fim do mundo, mais esperado por todos, finalmente, acontecer. Eu que não sou boba nem nada, vou dedicar todos os meus textos aos golfinhos, pelo menos, eu vou poder transar com eles, já que possuem uma vida sexual parecida com a nossa. 

Acho que é isso! 
Obrigado pelos peixes fritos! 

Bruna Landim 


Educação Amorosa: Sobre o isolamento

Sex and City eram as meninas da tribo, era óbvio que eu não jogava esse jogo. O desejo delas era o mesmo que as quatros mulheres, andando em Nova York, tinham. Nas meninas da tribo, as quatro meninas já existiam, eu era a quinta, ou seja, eu era o resto da brincadeira, tanto faz como tanto fez não estar presente. Elas desejavam andar pela cidade, ser amada desesperadamente, falar de sexo o tempo inteiro, ter dinheiro para comprar alegrias e inventar regras ou calendários para viver a vida. 

Eu sempre quando me defini, pensava que poderia ser a Phoebe de Friends, mas eu não era nada na tribo das meninas. A Phoebe era Miranda, a Rachel era Aninha, a Mônica era Alice. Eu era uma espécie de fantasma que escutava pacientemente as confissões amorosas dessas meninas, (quando elas sentiam vontade também de contar seus anseios. Eu não era a única desconfiada da turma). Ficava muito triste às vezes, sem entender o motivo.

Acontece que nós somos aquilo que a nossa imaginação nos define, como somos animais que vivem em sociedade, a imaginação não é cem por cento individual, por isso, a imaginação dos outros também interfere na nossa. Se não entramos na brincadeira dos outros, não entraremos nunca. 

Eu era uma anônima. Apenas isso. Os signos já estavam postos, não estava sonhando junto com elas, não estava desejando os mesmos desejos, não estava brincando a mesma brincadeira. A rede de significados estava pronta antes de mim. Portanto, inventei a minha rede particular que costumava comunicar com as paredes. Eu me isolei. 

Fora da escola, fiz os meus melhores amigos; dentro da escola, eu era um número de matrícula. 

Sétima Lição - aprendendo sobre solidão 

Alice e Miranda estavam bravas comigo, porque eu tinha falado alguma coisa que elas não gostaram. Eu virei amiga íntima da professora de Educação Artística, a única com quem eu conversava e me abria na escola era essa professora chamada Antônia. Ficava ansiosa para chegar o dia da aula de Educação Artística. Em casa, as coisas não estavam boas também, precisava conversar com alguém. Por isso, eu passei a escrever diários, poesias e desenhar todo o dia para passar o tempo das intermináveis aulas vagas. 

Alice me ignorava. Miranda descia comigo até a minha casa sem falar uma palavra. Fiquei um mês sem conversar com Miranda e dois meses sem conversar com Alice. Se perguntarem o motivo dessa briga, eu vou dizer que não me recordo. Provavelmente, eu falei alguma coisa que elas não gostaram, as duas não tinham a minha mania de guardar raivas, por isso, ficamos sem conversar.  

Então, eu fiquei sozinha. Ou melhor, eu entendi que, na realidade, estava sozinha o tempo inteiro. Em casa, as coisas estavam piorando, precisava desabafar com alguém, caminhava firme até a escola, sentindo o peso de não comunicar as minhas angústias. Alice passava próximo rindo, Miranda ignorava a minha presença totalmente. Eu colocava meu rosto entre os braços, esperando morrer ou matarem meus medos. O tempo da escola era eterno, eu tinha a sensação que nunca ia conseguir sair daquele lugar, nunca ia acabar com os meus medos, sempre precisaria correr atrás dos outros para ser aceita. Estava ficando cansada de brincar de anulação. 

- tá tudo bem, Bruna? - perguntou Antônia
- não está muito não, - eu disse, - eu estou sozinha, professora 

Ela olhou para mim com sorriso fraterno. 

- aconteceu alguma coisa? - ela perguntou
- eu acho que eu fiz alguma coisa errada, estou brigada com algumas amigas, elas não estão falando comigo 
- que você fez? - Antônia perguntou
- eu acho que falei sem pensar alguma coisa que elas não gostaram 
- por que você não pede desculpa?
- elas não tão olhando pra minha cara. Ah tudo bem! - com voz chorosa, - se fosse eu, não ia ficar quase dois meses sem conversar com a outra, eu ia tentar esquecer e continuar
- vocês tão quase dois meses sem conversar?
- é 
- pede desculpa, Bruna!
- ah, eu sou ignorada, - ansiosa, perguntei, - professora, será que, um dia, eu vou me sentir menos sozinha? 
- estamos todos sozinhos, Bruna - ela disse, piscou os olhos para mim e foi tentar lecionar para turma. 

Naquele dia, eu fiz um desenho bonito, pintado de azul com bolinhas amarelas. Senti alguma alegria no meio disso tudo, senti que fui acolhida. No dia seguinte, consegui pedir desculpas para Alice, Miranda voltou a conversar comigo e voltamos a rotina. Elas falavam, enquanto eu me distraía com as nuvens. Com alguma diferença, senti que não era impossível viver sem a opinião delas, senti que precisava ficar mais calada e passei a me acostumar com a minha condição de não pertencer à tribo. A solidão não era mais dolorida.  

- eu jamais conseguiria ficar sozinha, Miranda, - disse Alice 
- eu também, preciso ficar com algum menino - disse Miranda

Eu sorri. Pela primeira vez, senti que o meu passo não era manco, o descompasso entre nós não era um abismo. Eu falei:

- eu consigo ficar sozinha - disse 
- eu não sou o tipo de mulher que consegue ficar sozinha, Bruna, preciso de um homem, - disse Alice 
- eu sei ficar sozinha, não preciso de homem. A gente estamos sozinhos, nascemos sozinhos e vamos morrer sozinhos. Acho que cês deviam aprender a ficar sozinhas, acho que essa devia ser a primeira lição 

Elas olharam incrédulas. Alice ignorou a minha frase, começou a descrever as linhas do corpo do cantor preferido dela. Miranda bateu as palmas das mãos nos meus joelhos, enquanto eu sorri. As nuvens desapareciam, a melhor coisa que eu aprendi na escola foram os meses que não conversei com essas meninas. Ficar sozinha seria difícil, mas não impossível, a sensação de bem estar que eu tive depois que voltamos à rotina de anulação; essa descoberta que eu tive que não precisava me esforçar para ficar com ninguém, não precisava me anular. A professora Antônia me deu o melhor ensinamento, o mais libertador de todos: estamos todos sozinhos. 

De repente, percebi que o peso não era só meu.  As meninas também se anulavam para ser o que elas eram, elas também sentiam medo de ficar sozinhas. Para ficar com alguém, as meninas da tribo eram capazes de inventar regras, calendários e sonhos deslocados da realidade só para sentir um pouco de amor. A anulação não era privilégio somente meu, eu dei um salto manco pela primeira vez. Senti que estava entendendo. Eu estava sozinha, mas não estava triste. 

Durante esses dois meses que fui ignorada, não conversava com as meninas da tribo, andava com passos firmes até a escola, desejava morrer e desejava matar. Me escondia na biblioteca, colocava meu rosto entre os braços, escrevia furiosamente e desacreditava que o mundo havia alegrias. Eu senti que seria eterna a escola, senti que não ia conseguir. Mas, é sempre assim, nós nunca achamos que podemos dar o outro passo, aí conseguimos e caminhamos um passo a frente. A vida é violenta, mas é ótima! 

Eu ri percebendo que estava na melhor fase da minha vida. Ri distraída, olhando os rostos daquelas meninas que, provavelmente, nunca mais ia ver. Ri catando as nuvens que estavam na minha imaginação, descobrindo que a beleza era ter o que não sabia. Nós conversávamos ali, era uma cena efêmera, ninguém notaria. Alice deu gargalhadas, Miranda chorou, porque tinha terminado com Caio. Estávamos conversando sobre as nossas vidas, nunca mais conversaríamos assim de novo. Era um momento frágil. 

Alice era uma menina frágil que gargalhava. Miranda era uma menina frágil que chorava. Eu era uma menina frágil que brincava. As três estavam sozinhas, fazendo monólogos que tentavam ser diálogos. Ninguém conversava com ninguém, as três viviam imersas nas suas solidões. Eu ri, tudo pareceu cômico demais, pueril e passageiro. Alice disse:

- eu vou casar com ele - mostrou a foto do cantor favorito, - ,ter filhos e ser muito feliz. Vocês conseguem imaginar como vai ser a vida de vocês daqui a dez anos?

- eu vou casar com Caio - disse Miranda
- eu vou fazer cinema - disse 
- mas, casar você não vai casar, não? - perguntou Alice 
- eu não sei, não tô pensando muito nisso 
- mas você não se imagina com ninguém? - perguntou Miranda
- eu não sei, talvez 
- não, Bruna, você tá sendo muito derrotista, - disse Miranda, - você vai casar, ter filhos e ter muito sucesso 
- tomara, mas não tô muito contado com isso em casar e ter filhos, sei lá. Eu só não sei o que vai acontecer. Vocês não acham isso bonito?
- o quê? - perguntou Alice
- não saber o que vai acontecer. Puxa! Tudo pode acontecer com a gente, tudo! Vocês não acha isso engraçado? Vocês não acha isso incrível? Sei lá, alguém aqui pode ser uma assassina, alguém aqui pode publicar um livro, alguém aqui pode viajar o mundo inteiro, pode casar ou ter filhos. A gente não sabe, não é bonito?

Desconfiadas, elas me olharam. Eu continuei rindo para as nuvens. 

- que é? Eu falei algo tão estranho? - perguntei 
- não, não é isso, Bruna, - disse Alice, - eu sei que eu vou casar e ter filhos. O meu destino é esse, já nasci pronta pra viver isso 
- e todas nós, mais cedo ou mais tarde, vamo casar e ter filhos, Bruna, não adianta fugir - disse Miranda
- tudo bem, vamo casar e ter filhos. Mas, até lá, tem um espaço um branco imenso nas nossas vidas, tudo pode acontecer - disse 

Elas ficaram perplexas. Eu fiquei rindo, senti que, pela primeira vez, que o mundo era mais imprevisível do que eu imaginava, foi um sentimento libertador. O formato das nuvens era de algodão, senti desejo de viver e seguir as linhas em branco. Ri catando as nuvens. 

Educação Amorosa: sexo e moda

Depois da aprendizagem esquizofrênica de sedução que eu tive com as meninas, retomando o último episódio. Aprendi que, ao se interessar por uma pessoa, o correto é não demonstrar o interesse afetivo, ou seja, a pessoa precisa ser um adivinha para entender o que está sentindo por ela. Portanto, a comunicação amorosa efetiva é aquela que não se comunica, inventa uma linguagem esquizofrênica.

Essa comunicação amorosa possibilita a falta de entendimento do não que alguns meninos insistem em reafirmar que essa negativa tem o significado oposto, na realidade, não é só um outro modo de dizer sim. A palavra talvez também é outro modo de dizer sim. Entretanto, a palavra sim significa apenas que a menina é uma dada, portanto, uma vadia, piriguete, funkeira, que não merece ser respeitada pela comunidade escolar.

Depois dessa aprendizagem edificante, comecei os primeiros passos para iniciar a minha vida amorosa. Aqui, vamos a sexta lição que aprendemos na escola sobre Amor. 

Sexta lição: aprendendo a moda do sexo 

Se pensar que, em menos de 50 anos, os costumes do Brasil mudaram radicalmente. Quando a minha mãe era jovem, a moda era a virgindade. Quando a Leila Diniz era ainda viva, andando pelo Rio de Janeiro cantando a música Papo firme, de Roberto Carlos, (pelo menos, é essa representação mítica que eu tenho na minha cabeça da figura de Leilinha), os anticoncepcionais eram consideradas armas perigosas. 

Meninas adolescentes com anticoncepcionais na bolsa eram consideradas prostitutas, por isso, marginais. Se pensar que a invenção dos anticoncepcionais e a informação da AIDS foram conhecimentos e técnicas de natalidade bem recentes na sociedade. A ideia da minha adolescência ser muito sexualizada por conta das haves, das drogas mais acessíveis e da liberdade herdada de 1970 não parece ser tão descolada ou mesmo impossível. 

A moda era fazer sexo, não era ser virgem. Esse foi um salto da modernidade muito bonito, pensar que as mulheres podem decidir quando e com quem elas vão começar a sua vida sexual, dar o direito autônomo de decidir a sua vida. A frase da Leila Diniz: eu dou pra todo mundo, mas não dou pra qualquer um, é uma frase revolucionária. A mulher está constituído o seu direito como sujeito da sua vida amorosa e sexual. Uma Julieta do século XVI, de Shakespeare, por exemplo, quando empoderou esse direito, ela terminou morta, porque correu o risco da subversão da família tradicional. Esse salto da modernidade foi incrível, devemos muito das nossas vidas à 1970 e 1980, (levando consideração que a década de 80 foi o boom do rock nacional). 

Um dos principais fatores que fez esses sonhos desabarem, (que deu bosta!), foi o processo de globalização intensificado e o modelo econômico capitalista que se tornou hegemônico depois do fim da União Soviética. Desse modo, o padrão de vida de sucesso das pessoas era ter poder de consumo e dinheiro para realizar as suas vontades. As liberdades e as exigências da contracultura de 1970 foram jogadas para debaixo do tapete e transformadas em moda. Sexo não era uma forma de conhecimento, mas uma forma de consumir o outro e mostrar poder. 

Eu era virgem, demorei para começar transar, segundo as exigências imperativa da minha geração. Aos 14 anos de idade, estávamos vivendo o governo federal de Lula. Tudo parecia revolucionário demais, belo e divino. Então, por que a angústia com Sexo? Por que aprender sobre sexualidade parecia tão perturbador do que era nas juventudes anteriores? Por que o moralismo era tão presente nas nossas vidas ainda? Por que o sofrimento de seguir tantas exigências da modernidade parecia ser um peso árduo dos anos que nós precisávamos carregar? Por que o sexo ainda era uma aprendizagem de violência?

Do meu ponto de vista, ainda era uma aprendizagem de violência, porque não superamos as intolerâncias da sociedade. Simples assim. Mas, as explicações são múltiplas.  A primeira menina que começou a transar da tribo foi Aninha. Era uma menina que tinha a aparência de rockeira, ia para escola de preto, parecia uma pessoa super "prafrentex". Entretanto, era só mais uma aparência de liberdade.

- pra transar com alguém é preciso esperar mais ou menos dois anos - disse Alice
- tem que ser um cara legal - afirmou Aninha
- bonito - disse Miranda, -  e com um puta corpão
- com pegada - disse Aninha

Todas riram.

- é preciso sempre esperar a hora certa, - disse Aninha, - mas, a gente tem que fazer sexo - perguntou Aninha, - e você, Bruna, quando é que você vai fazer?
- não sei, quando for pra fazer - eu disse
- mas, você não tem nenhum menino? - perguntou Alice
- não
- por acaso, você tem alguma menina? - debochou Aninha
- também não - respondi com desconforto
- gente, é muito bom fazer sexo, é algo que muda a sua vida total, você passa a enxergar as coisas de um modo diferente, sabe

É claro que a curiosidade é muito grande, quando existe algo que nunca se fez e existe alguém falando desse assunto. Todas perguntaram imediatamente para Aninha:

- aí, doeu?
- só um pouquinho no começo, mas depois ficou bom
- tô pensando em fazer sexo com Caio - disse Miranda

Todas olharam, surpresas. Eu disse:

- mas, quando?
- hoje - disse Miranda, -, eu tive uma ideia. Mas, você vai ter que me ajudar, Bruna!

Eu ouvi atentamente.

- a gente costuma descer juntas. Então, as outras meninas vêm comigo até a casa do José, o Caio vai ficar lá o dia inteiro e você, Bruna, me dá cobertura, desce sozinha e fala pros meus pais que eu tive que ficar mais tarde, porque estava fazendo trabalho com as meninas, entendeu? - disse Miranda

- pera aí, vocês todas vão cabular aula e eu vou ficar na escola? - perguntei

- pra me dar cobertura, por favor, Bruna - pediu Miranda

- tudo bem, eu dou cobertura - disse


Eu fiquei na escola, vivendo seis intermináveis aulas vagas naquele dia. Quando terminou, desci sozinha até a minha casa, esperando e torcendo que a Miranda chegasse antes que os pais dela. Ao me distrair com as nuvens de novo, Miranda desceu correndo e puxou o meu cabelo para acabar com as minhas distrações do mundo.

- e aí, deu tudo certo? - perguntei
- não, nem aconteceu nada - respondeu Miranda
- como assim?
- quase aconteceu, Bruna, mas eu fiquei com medo, sei lá, ele me puxou pra ele, beijou o meu pescoço, deu aquele beijo com mordidinha que eu gosto. Foi tudo muito gostoso, mas quando começou a passar a mão na minha bunda, fiquei com medo e saí do quarto. As meninas estavam brincando com o sobrinho do José, é um bebê bonitinho, acabei ficando lá e deu a hora. Aí, a gente foi embora - disse Miranda
- então, não aconteceu nada? - repeti - , puxa!
- puxa? Por que?
- por nada

Ficamos silenciosas. Miranda fez uma pergunta repentina:

- o que você acha dessa história de fazer sexo cedo?
- eu não tenho uma opinião formada - eu disse
- fala, Bruna
- eu não faria, não conheço ninguém bacana pra fazer. Quero fazer, sinto curiosidade, mas, fico me perguntando se eu vou fazer isso pra mim ou se eu vou fazer isso por causa de vocês
- como assim?
- se eu fazer sexo pra mim, não preciso ficar contando histórias; agora, se eu fazer sexo pra vocês, vai dar muito trabalho, nem sei se eu vou ficar feliz, porque eu vou ter que contar histórias
- mas, Bruna, a gente tem que fazer
- eu sei, a gente tem que fazer, mas, agora, o beijo na boca, pra mim, ainda é muita informação

Paramos de conversar.

- você acha que eu devia transar com Caio?
- eu não sei
- diz, Bruna -  Miranda exigiu uma resposta
- eu acho que não

Depois de muito silêncio, ela me perguntou:

- já quase aconteceu com você?
- com meu amigo lá do Hélio Motta

Menti descaradamente.

- mas, você ficou com medo também?
- também saí correndo

As nuvens estavam fazendo formatos de cachorros, parei de prestar atenção à descrição épica do beijo e dos carinhos maravilhosos de Caio. Senti vontade de perguntar à Miranda se ela também se masturbava, mas fiquei envergonhada, fiquei com medo de sentir que eu era uma otária.

- você quando beijou o Edu, você guardou o cheiro dele? - perguntou Miranda

O Edu é o episódio do meu primeiro beijo, depois eu explico.

- não guardei nada, senti vontade de sair correndo - disse
- o cheiro do Caio é tão demais - suspirou Miranda
- eu nunca guardei cheiro nenhum
- então, talvez, é porque você nunca beijou alguém que você gostava, né Bruna
- é, talvez - disse sem força

Miranda começou a descrição detalhada do cheiro maravilhoso e suave de Caio. Eu sorri com dentes amarelos, senti repulsa por minhas atitudes de beijar garotos que eu não sentia sequer desejo, eles, apenas, eram empurrados para mim, como restos e sobras. Já estava perdida dentro de mim, introspectiva, querendo contar o que me machucava, mas ouvia atentamente as confissões amorosas de Miranda. As nuvens estavam perdendo o formato de cachorro e ficando disformes; eu estava sozinha.

- ah! O cheiro do Caio! - suspirou Miranda

Os pais de Miranda apareceram para buscá-la, beijei o rosto de Miranda e me despedi dos pais dela. Ela foi embora, eu fiquei mais alguns minutos observando os formatos das nuvens disformes. Minha mãe me viu sozinha sentada na calçada e gritou pela janela:

- filha, venha pra casa, já tá ficando tarde
- tá bom, Mãe 


sábado, 15 de novembro de 2014

Educação Amorosa: sedução e esquizofrenia

De acordo com muitos amigos meus, eu sou a pior pessoa para dar conselhos amorosos. Eles não estão errados, só que tenho outra ambição, escrevo sobre amor, porque desejo escrever ficção científica. Bukowski já aconselhou aos jovens escritores para escrever alguns péssimos poemas de amor, transar com belas mulheres, esquecer de pagar o cartão de crédito, bater forte na máquina de escrever e beber cerveja. Eu estou somente seguindo os conselhos dele. 

No caso, não sou uma escritora marginal, sou mais uma jovem escritora, mais uma anônima. Mas, isso não importa, o que realmente importa é escrever sobre a educação amorosa que se aprende nas escolas. O resto é só papo furado. Continuando a série de textos terríveis, com fúria e ódio. 


Quinta Lição: aprendendo a seduzir 

Na adolescência, escrevi poesias, elas não eram boas. Cheguei à conclusão que, na verdade, meu desejo de poetisa era fazer poemas como Waldick Soriano ou textos semelhantes à canções como Negue, Toca Fita do carro e etc. Na realidade, eu queria ser a Maria Bethânia cantando Negue e Explode coração. Era o meu sonho enrustido de adolescente.  

Mas, o máximo, que eu chegava, era escrever dois ou três versos idealistas. Toda a forma de idealismo é nojenta, principalmente, quando o ideal é deslocado da realidade, regado a bondade e a virtude que desumaniza qualquer pessoa. Na realidade, esses dias pensei num poema que, talvez, pudesse ilustrar meus pensamentos eróticos dessa fase. Era algo mais ou menos assim:


A tua boca

na tua boca 
transborda 
solta 
a língua 

a tua boca 
morde 
minha boca
mordo 
a tua boca 

a tua boca 
come 
minha garganta
que come 
tua boca

a tua boca 
lambe
minha orelhas 
que come 
a tua boca

a tua boca 
engole 
minha sede
que lava 
a tua boca

a tua boca 
me come 
sou comida 
da boca 
que eu como

o boca-boca 
não desafoga 
o corpo 
dos afogados 


Dizem que a Literatura Mundial é contada por causa dos poemas que falam de amor e sexo. Uma vez, virei amiga de um escritor carioca. Ele costumava dizer que o amor é a palavra que mais move pessoas numa guerra. É a palavra mais contaminada de sangue na História. As pessoas são capazes de matar e morrer por amor. Deus também é uma palavra assim. Por Deus e Amor, a barbárie é justificada ao longo dos anos. 

Escrever poesias era minha distração na escola, quando iniciei a escrita de diários. Eu passava horas, esperando as aulas vagas intermináveis acabar, escrevendo poemas de amor inglórios e idealistas. Era divertido, confesso, escutava músicas o dia inteiro, enquanto escrevia poemas, anotações e observações do comportamento dos outros. Sempre achei que não era uma grande observadora, a minha vida era tagarelar, tagarelar e tagarelar. Falava demais, soltava palavras por impulso. Eu era fogo. Brincava com isqueiro, porque eu tinha fascinação de ver as coisas sendo queimadas ao olho nu.

Falava, falava e falava. Não era muito adepta ao silêncio, fui aprender a importância disso mais tarde. Mas, nunca perdi a fascinação de queimar fotos, textos, poemas e passar o dedo na chama quente, buscando o risco de queimar.   

Nesse dia, quando eu estava escrevendo mais um extraordinário poema de amor, (ao menos, na minha cabeça!). Apareceu um menino na escola que chamou a minha atenção, roubou minha distração e, por alguns minutos, preencheu a minha imaginação de desejos que eu jamais havia sentido. Esses desejos não estão relacionados ao amor, pelo menos, não era o amor idealista e abstrato que cultivamos na nossa mente, criamos futuro e alimentamos insistentemente, acreditando na sua cruel bondade. Naquele momento, eu desejei no fundo do coração engolir o menino com a minha boca, eu não conhecia o sexo, o máximo que imaginava era um beijo na boca. 

O beijo na boca era um acontecimento; quando nos apaixonamos, ficamos um tanto crianças e mostramos algumas fragilidades. Eu fiquei sem jeito e pedi para uma das minhas amigas me ajudar a lidar com esses desejos. Miranda, então, tentou me ensinar a seduzir um menino. 

- então, você tá gostando do menino novo? - ela perguntou
- eu sim, na real, acho ele bonitinho, - eu disse, - o que eu faço pra ficar com ele? 
- primeiro lugar, você não pode falar com ele - disse Miranda
- mas, se eu não posso falar com ele, como é que ele vai saber que eu quero ele? 
- ele tem que perceber, você tem que mandar alguns sinais. Tipo, passar a mão no cabelo - Miranda passou a mão no cabelo, - agora, faça você e sorria 

Eu repeti o mesmo gesto e sorri. Me senti uma idiota. 

- não é assim, Bruna, você tem que passar a mão no cabelo desse jeito. Tem que ser mais delicada - Miranda explicou didaticamente 

- me diz, isso funciona? 
- o quê?
- essa coisa de passar a mão do cabelo e o menino adivinhar o interesse. Funciona ou não? 
- não é adivinhar, Bruna, é perceber, entendeu?
- tudo bem, isso funciona, Miranda, essa história de mandar um sinal e o cara advi, perdão, perceber?
- ah, funcionou comigo, o Caio percebeu, eu fiquei com ele e eu amo ele, vai funcionar com você. Mas, você tem que fazer do jeito que eu estou falando

Miranda parecia a Monalisa, eu parecia um idiota tentando imitar a Monalisa original. Depois de passar o ridículo da imitação, eu senti vontade de sair correndo e fingir que não estava sendo uma pessoa idiota, esqueci o interesse fugaz que senti pelo menino novo do colégio. O menino não reparou nos meus sinais, foi uma das cenas mais ridículas que já vivi. Olhei para Miranda, senti desejo de dizer: "por que eu não faço do meu jeito?" Para variar, não falei, fiquei observando a minha covardia e a cena ridícula de passar a mão do cabelo que eu estava me submetendo.  

- vem cá, quanto tempo demora pra isso funcionar? - eu perguntei
- não sei, às vezes, meses ou anos, mas ele que tem que perceber - Miranda respondeu
- deixa eu ver se entendi. Se eu gosto de um menino, ele não deve saber que eu gosto, é isso?
- não, se você gosta de um menino, ele tem que perceber
- mas, como é que ele vai perceber, se eu não contar? Quer dizer que ele tem obrigação de ser um adivinha?
- Bruna, ele tem que perceber e pronto - disse, irritada, Miranda. 
- Miranda, mas ele vai perceber como? Ele é profeta por acaso?

Miranda ficou brava comigo, parou de conversar comigo. Eu ri, o menino novo foi embora do recinto. Terminei voltando para escrita de poemas de amores imaginários, (pelo menos, o ridículo era autoral). Naquele dia, escrevi A Canção de amor, depois, guardei na gaveta. 

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Educação Amorosa: o primeiro amor

Estou tentando lembrar alguma coisa boa que aprendi na escola sobre amor. Juro que estou me esforçando, mas, realmente, o assunto de amor foi uma educação de violência, intolerância e preconceitos. Para conseguir escrever esse texto, vou continuar tentando lembrar o ódio que eu tinha de ir à escola. 

Quarta Lição: aprendendo sobre os primeiros amores  

Era aula de matemática. Subitamente, não era ouvido nenhum cochicho indelicado e desnecessário. Estávamos aprendendo sobre as equações de primeiro grau, era um assunto que eu tinha muita dificuldade. A professora Maria Antonieta era uma senhora de cabelos loiros, olhos claros e poucas falas. Explicava matemática como se contasse anedotas. Era visível a sua relação amorosa e rotineira com os números. 

Eu não era diferente das outras meninas, também ficava muda, quando a senhora alta e silenciosa entrava na sala de aula. Esbanjando sabedoria, sem gritarias e, absolutamente, plena de si mesmo, domava alunos entre doze e catorze anos, com paciência, sem gastar a garganta com gritos e um silêncio monumental. Começava a lecionar sem explicações enfeitadas, era a matemática do dia-a-dia, visível no mundo e presente nas nossas jovens vidas também. Eu tinha muito medo da professora Maria Antonieta, principalmente, quando nos olhava com olhos serenos e rígidos, ficava apavorada quando ela pedia a resposta de equações. 

Ela enchia os nossos cadernos com vários problemas e exercícios de matemática, costumava dizer que a matemática é um exercício cerebral, é preciso fazer, repetir e repetir. Não era importante o resultado, mas os caminhos que percorremos para elaborar um raciocínio. Muitas vezes, costumamos xingar os nossos professores da escola, dizer que são ruins, mas alguns são surpreendentes. A professora Maria Antonieta foi a minha melhor professora de matemática, foi uma pessoa surpreendente na minha vida.  

Muitas histórias para contar sobre essa professora, mas esse não é exatamente o foco do texto. As meninas estavam mandando entre si bilhetinhos que guardavam histórias sobre a vida amorosa e outros assuntos que nunca soube direito. Nunca recebi esses bilhetinhos nas aulas de matemática, o que me dava a impressão que, realmente, não pertencia à tribo. Tentava relaxar e distrair com as equações de primeiro grau, mas tinha mesmo muita dificuldade com matemática. Nunca tive uma ligação forte com os números, era uma estudante dedicada apenas, havia algo naquelas aulas que, realmente, aumentava o meu interesse pelos estudos. 

A aula acabou, a próxima aula era vaga. Decidi que ia atrás das meninas e descobrir o que elas escreveram nos bilhetinhos. Aproximou-se da tribo uma menina da 7B, nós éramos da 7A. Essa menina da 7B era chamada Márcia, tinha cabelos curtos pintados de roxo. Era muito amiga de Miranda, falava muito. Márcia foi criada apenas com o pai, a mãe parece que abandonara quando ainda era um bebê. Eu acreditei que nós duas iríamos nos identificar imediatamente, afinal, meu pai era uma figura que odiei até os meus 21 anos de idade com muita intensidade na minha vida, sempre considerei apenas a criação materna, o ódio do meu pai foi constitutivo da minha personalidade, me definia inclusive. Entretanto, não foi isso que aconteceu, Márcia era uma menina muito carente, queria só chamar atenção, tagarelava, tagarelava e não escutava ninguém. 

- eu estou apaixonada, meninas - disse Miranda 
- eu também estou apaixonada - disse Márcia 

As meninas escutavam como se fosse um acontecimento radical na vida de todas. 

- o primeiro amor a gente não esquece - disse Miranda 

- nós temos uma essência, ela acompanha gente por todos os lugares. O primeiro amor é para sempre, marca a gente - disse Alice

Eu sempre achei uma bobagem essa história de primeiro amor, porém, era uma menina muito covarde para falar o que eu pensava. 

- eu já me apaixonei por alguém, mas ele está no Hélio Motta, nunca mais vi ele - disse 

Era outra mentira. Depois da primeira mentira, as outras saem com mais naturalidade. No fundo, o primeiro amor, para mim, era uma espécie de mito. Uma bobagem que contavam às meninas para elas sentirem culpa ao longo da vida inteira. Os filmes de comédia romântica atrapalham muito a realidade dos relacionamentos amorosos, todas nós, em menor ou maior dosagem, alimentamos as nossas imaginações com esses filmes. Isso é um tanto nocivo, na verdade, é um veneno mesmo. 


- gente, eu estou apaixonada pelo Filipe, ele é tão lindo - disse Márcia, - ele me deu um beijo ontem. Ah! Imagine só ele me dando um anel de namoro

Suspiros intermináveis. Eu, às vezes, suspirava, às vezes, ficava calada, olhando as nuvens ou os meninos jogando cartas. A Alice percebeu que eu estava olhando um dos meninos fixamente, isso porque ele tinha uma carta que eu desejava do baralho de Yu Gui Uoh. Esse menino era Rafael, era um menino gay, visivelmente, gay, mas ele ainda não tinha aceitado essa sexualidade, também nem poderia. Já disse: o preço da diferença numa escola é muito alto. 

- olha, Bruna, por que você não fica com Rafael? - ela me puxou e me levou ao Rafael, - oi, Rafael, você tá gatinho, hein? Por que você não fica com a Bruna, ela também tá gatinha?

Nada contra a Alice. Ela era uma amiga muito especial. Mas, se tinha algo que me irritava nela, eram essas atitudes, como se eu fosse incapaz de cuidar da minha vida. 

- por que você não fica com ele, Bruna? - perguntou Alice

Eu fiquei vermelha de raiva, mas pareceu que era de timidez. De repente, ouvi os risinhos insuportáveis ao redor. Por que eu não ficava com Rafael? Porque ele era não queria, porque eu não queria e, porque, era óbvio que ele não gostava de meninas. Era uma violência dupla, tanto para mim e muito mais para ele. Afinal, estávamos lá, aprendi que a paquera precisava de uma segunda ou terceira pessoa para mediar. Nunca respeitei essa regra na minha vida, os homens que me envolvi mais tarde, não tive nenhuma mediação por terceiros. (Ainda bem). 

- não quero, vamo embora, Alice - disse 
- não quer, por que? Ele é bonitinho - disse Alice
- porque eu não quero, simples assim, vamo lá, olha, as meninas tão esperando a gente - disse 

Rafael ficou constrangido. Eu fiquei constrangida por ele e por mim. Fiquei muito brava com Alice, não demonstrei, mas meu desejo era não conversar com mais ninguém, ignorando-a, só que fiquei com medo que ela pensasse que eu era uma otária. Fiquei muito brava mesmo, porém, eu tinha um péssimo hábito de guardar as minhas raivas para ser aceita. 

- que foi, Bruna?
- não foi nada, eu vou caminhar um pouco

Quando eu falava que ia caminhar um pouco. Costumava me esconder na biblioteca. A biblioteca era um lugar que os alunos não podiam frequentar, era o lugar que os casais se escondiam para beijar na boca. Eu gostava de ir, porque não tinha ninguém, era silencioso e, às vezes, dava sorte de encontrar a biblioteca aberta, então, eu ficava escondida para ler livros lá. Entretanto, se a Diretora ou a Coordenadora da escola visse qualquer aluno na biblioteca, era levado imediatamente à Direção para receber uma advertência ou uma suspensão. Fui à mesa da Direção da escola, apenas duas vezes na minha vida, sempre pelo mesmo motivo: você está frequentando lugares que não devia. O curioso é que era, para mim, uma proibição irracional. Como alguém impede um aluno de frequentar a biblioteca? Não parece algo lógico, até hoje... 

Enfim, eu me escondi na Biblioteca, ela estava fechada. Era um lugar escuro, muito silencioso. Eu agarrava minhas pernas e ficava observando a porta azul com os escritos: Arquivo Morto. Desejava que o dia acabasse, orava no fundo da minha alma para não passar por nenhum constrangimento parecido. Na realidade, de novo, estava elaborando uma lista de vinganças na minha cabeça ou tentando elaborar algum feitiço para desaparecer de vez. Quando bateu o sinal, limpei algumas lágrimas que tinha espalhado no meu rosto e subi até a minha sala de aula. 

Estavam sentadas, discutindo sobre o tal primeiro amor. Miranda me convidou para sentar perto delas, eu me aproximei. Ela disse:

- você, Bruna, acha essa história de primeiro amor uma bobagem, porque você nunca se apaixonou, quando você se apaixonar vai parar de achar bobagem, vai até dar sentido pro pagode romântico

- eu nunca disse que acho essa história de primeiro amor uma bobagem, só não acho que a gente precisa ser tão dramática. Só isso, eu nem acho saudável

As meninas olharam para mim com os mesmos olhares de recriminação. Eu já estava muito brava, fingi que não percebi, fiquei calada. Elas falaram mais outras bobagens, eu contava nos dedos para ir embora para casa. O sinal, finalmente, bateu. 

Fomos embora. Eu não desejava voltar, se eu voltasse, meu sonho era ser muda e surda. 

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Educação Amorosa: Beijo na Boca, Amizade e Amor

Até agora, eu só estou falando do Ensino Fundamental, acho que estou misturando as coisas. Mas, estamos entre a quinta e a oitava série, como isso é um tanto ficção, não vou ficar preocupada com o realismo desse texto.

Dizem que a melhor vingança são os anos que dão. A sorte de escrever sobre a Escola é a vingança que o narrador pode fazer através dos comentários. Vou ser sincera, estou escrevendo esses textos para me vingar dos meus coleguinhas da escola, é um desejo inocente e reprimido. Ridiculizar o outro é algo que nós aprendemos na escola. Eu já fiz muitas listas de vingança à la Kill Bill, mas sem a espada japonesa e sem o mar de sangue dos filmes de Tarantino. Dar a outra face é sinal de superação e bondade, mas se vingar é bem melhor. 

Caros leitores, leiam a vingança do narrador. A ficção é má, é brincadeira, caro leitor, estou brincando, não precisa levar esses textos com tanta seriedade. Na maioria das vezes, o que eu aprendi com a escrita de diários, durante esses dez anos, é que nós escrevemos muito para esquecer o dia anterior. 

Terceira Lição: A diferença entre Amizade, Amor e Beijo na boca 


Classicamente, as formas de amor foram divididas pela tradição grego-romana no texto chamado O Banquete (Platão). As três formas de amor são Philo, Ágape e Eros, sendo que, (porcamente falando), Philo se relaciona ao conhecimento científico, Ágape se relaciona ao âmbito religioso, Eros se relaciona diretamente à sedução e ao amor erótico. Não tive esse conhecimento na escola, fui aprender sobre Platão e Aristóteles em outros lugares que eram mais adequados. 

Na escola, a divisão é outra: Amor, Paixão e Amizade. Essa divisão é estranha, são sentimentos, que estão presentes na tradição grego-romana e são mais complexos do que se imagina segundo a Literatura ampla desse assunto. Entretanto, essas são consideradas, na Escola, formas de sentimento, elas são híbridas, não são, exatamente, bem definidas e funcionam de outra maneira. Como os alunos tinham muito tempo livre, constantemente, conversávamos sobre a natureza do amor, da amizade e da atração erótica. 

- amor é algo que não dá para explicar, o primeiro amor a gente nunca esquece, né - disse Amanda 

- amor é, tipo assim, quando você não consegue esquecer a pessoa, quando duas pessoas completam a frase do outro, quando há química - disse Aninha 

Rafaela estava comendo salgadinho de cebola com coca-cola, balançou a cabeça. Sempre há a menina, que conduz a conversa, nesse caso, as duas meninas, que manipulavam o diálogo, eram a Aninha e a Alice. 

- eu mesmo vou perder a virgindade com 15 anos - disse Rafaela 

As meninas olharam perturbadas com essa declaração. Eu disse:

- a amizade também é uma forma de amor, não?  

Aninha me respondeu discordando:

- eu não considero a amizade uma forma de amor 

- amor é outra coisa - disse Amanda 

- mas, eu sinto essas coisas todas que vocês falaram com amigos meus, não vejo muita diferença entre Amizade e Amor. Na verdade, até vejo diferença, mas acho que amizade também é um forma de amar - repliquei 

- mas, amor é diferente, Bruna, você nunca amou ninguém, você não sabe como é, no dia que você amar alguém, você vai descobrir que amar é algo maior que qualquer coisa na vida - explicando didaticamente Alice

Eu ouvi essas sentenças diversas vezes na minha vida, repetidas vezes, com o mesmo tom, com a mesma sensação de ignorância e com o mesmo sentimento que, na verdade, eu estava dois passos atrás de todas essas meninas. Elas patinavam com dois patins, eu mancava, correndo atrás delas; por muitos anos, tive esse sonho e essas sensação. As meninas corriam, tendo o vento como fiel amiga, deixando-as com aparência de modelos de verão, leves e sem preocupações na cabeça, patinavam. Eu mancava, o vento empurrava os meus dois pés para atrás, não conseguia alcançá-las. A sabedoria delas era a maior do mundo, elas eram inalcançáveis. O amor delas era impossível. 

- eu sei lá, viu, Rafaela, sabe que, para mim, uma vez, quase rolou de transar com alguém - retomou Aninha o assunto de Rafaela, - que você acha, Bruna?

- sobre o quê? - perguntei. Sempre fui muito distraída, eu tinha uma memória de peixe para assuntos imediatos, costumava me distrair com as imagens das nuvens e com os meninos jogando cartas. Às vezes, eu tinha vontade de abandonar as conversas das meninas para jogar cartas com os meninos, principalmente, quando ficava com a sensação de desconforto. Eu acabava mesmo me afastando das meninas e brincava com os meninos de jogar cartas. 

- sobre sexo, Bruna, você é meio lesada, hein? Não tá prestando atenção na conversa? Você vai perder a virgindade com quantos anos? - perguntou Alice 

- sei lá, eu não fico pensando que anos que eu tenho ter pra fazer as coisas. Eu acho que esperaria as coisas acontecer um pouco - disse 

- eu vou perder a virgindade com 15 anos - repetiu Rafaela 

15 anos era a idade desejada por todos nós. 

- vocês já beijaram na boca? - perguntou Aninha 

Pronto. Começamos a conversa mais esperada. O beijo na boca era o grande acontecimento, elas eram capazes de ficar três horas (ou mais!) conversando sobre esse assunto. Eu preciso dizer que, até esse momento, o máximo de contato que eu tive com alguém, foi um beijo na bochecha, um quase selinho e um toque de mãos. De resto, o meu entendimento era igual a uma jabuticaba. Todas balançaram a cabeça, afirmando que já experimentaram beijos na boca, depois de alguns anos, fico me perguntando se era somente eu quem mentia nessas histórias, porque vejam só: 

- gente, qual foi a sensação de vocês, hein? - disse Aninha, dando pulinhos de curiosidade, Miranda penteava os cabelos encaracolados dela. 

As meninas ficaram silenciosas. 

- vai, gente, responde. Como foi o seu Rafaela? - perguntou Aninha

- ah, o meu primeiro beijo foi incrível, foi maravilhoso, sabe, o menino tinha gosto de melão, a gente se beijou na escada, foi ele quem teve a iniciativa. Eu me senti flutuando nas nuvens, navegando via láctea e, aí, acordei. Eu fiquei muito sem graça - respondeu Rafaela 

- é isso aí, - disse Miranda -, ah, eu também me senti flutuando nas nuvens, foi maravilhoso também. Eu beijei, pela primeira vez, um primo meu. Eu parecia que ia voar, sabe

Sempre começavam esse tema com um suspiro longo e interminável.

- eu também me senti assim - disse Alice 

Eu balancei a cabeça também, concordando. Não tinha a capacidade de ironia, relevamos a minha falta de prática nesse momento da minha vida. Mas, sinceramente, beijo que nos faz voar! Que beijo é esse que confronta as leis da gravidade? Como os cientistas ainda não descobriram essa propriedade do beijo? Isso não é beijo na boca, isso se chama avião ou astronave, elas deviam fazer astronomia. 

- o meu primeiro beijo me levou a lua - disse Aninha 

Estou falando que elas deviam fazer Astronomia. Beijo que nos leva a lua? Agora, beijo também tem capacidade de teletransporte? Os cientistas podiam usar o beijo na boca para conseguir conquistar o planeta Marte, Imaginem isso: um beijaço terrestre no meio do apocalipse, para sairmos desse planeta inofensivo e covarde. Eu acredito que isso podia ser uma grande contribuição à humanidade. 

- e você, Bruna? É BV? - perguntou Aninha 

O maior arrependimento é que não respondi que o meu primeiro beijo me levou até Plutão, (porque ainda era considerado planeta, quando eu estudava), mas já disse que ironia é um refinamento que o tempo lhe ensina depois, é um presente aos menos privilegiados de beleza e sorte. 

- ah, meu primeiro beijo, me fez ver as nuvens também, foi com um primo meu - repeti a mesma ladainha das outras. 

- ah, o primeiro amor a gente nunca esquece, né, gente - repetiu Alice, - é a essência. Nós temos uma essência de nós. Amanda, satisfeita com a resposta, assentiu com a cabeça.

Eu prefiro não comentar essa tal essência, (pelo menos, ainda). Alice continuou com a tal revelação revolucionária:

- por exemplo, tava lendo a Bíblia, sabe gente, pensei assim num dos mandamentos de Deus. Aquele lá, sabe, que a gente não deve dizer o nome de Deus em vão. Então, tava assistindo novela e pensei que os maiores pecadores são os atores

A Alice sabia que um dos meus maiores sonhos, até então, era ser uma grande atriz. 

- por quê? - perguntei 

- ah Bruna! Os atores vivem falando de Deus nas novelas, ele falam o nome de Deus o tempo inteiro. Logo, eles dizem o nome de Deus em vão, estão pecando

No fundo do coração, eu discordei da afirmação de Alice. As meninas concordaram sem replicar. Eu tentei replicar, mas não consegui. Ficamos por isso mesmo, o meu sonho ficou uma espécie de sonho de pecador. Eu ia dizer o nome de Deus em vão, inclusive nesse momento, enquanto escrevo essas memórias, eu estou dizendo o nome de Deus em vão, já estou mais acostumada com a ideia do Inferno. Deus, Deus, Deus e Deus. Centenas vezes Deus. 

- mas, Alice, não é bem assim - eu tentei replicar 

Bateu o sinal. Era uma campainha horrível, entrou a professora de Matemática na sala de aula. A única professora que conseguia dar aula na Escola. A Professora Maria Antonieta era um senhora de olhos claros, muito silenciosa, alta e com tom de voz pausado e didático, ela era a mais odiada na escola, todos os alunos sentiam medo dela. Calamos repentinamente, a conversa tinha terminado.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Educação amorosa: A Educação Física

Continua a série, vamos a segunda lição sobre a educação amorosa nas escolas.

Lição do dia: A Educação Física - aprendendo a mentir 

Em qualquer livro de História ou ficção, há um evento que reúne as pessoas e personalidades de uma sociedade, esses eventos são produtivos para observar as diferenças sociais e os pensamentos comuns de um grupo social. No drama Romeu e Julieta, a festa foi o evento que reuniu as duas personagens marcantes dessa tragicomédia shakesperiana. O evento marcante em Casa de boneca que possibilitou o divórcio de Nora também foi uma festa.

Nesse caso, o evento que reuni as personagens e os acontecimentos dessa tragicomédia, narrada por mim, é a aula de Educação Física. Nada mais e nada menos. Essas aulas eram consideradas semelhantes às aulas vagas. O conceito de aula vaga lhe pareceu estranho? Você que lê esse texto e não faz a mínima ideia do significado de aula vaga, então, não deve saber o que é uma escola. Se não consegue entender esse conceito, possivelmente, meu caro leitor, você nunca frequentou uma escola pública e, portanto, não faz a mínima ideia de como as coisas funcionam.

O que significa aula vaga? Parece uma construção paradoxal, mas, - vai por mim, caro leitor, não é. É um conceito muito produtivo. Um dos sentidos desse conceito é festa ou liberdade carcerária. Aluno é a palavra utilizada para designar um sujeito na escola, é uma palavra de origem latina, significa sem luz. Os professores são os seres iluminados que iluminam a escuridão da ignorância desses seres cobertos pelas trevas. Qual é a relação disso tudo com aula vaga e as aulas de educação física? Esse conceito de aluno define exatamente o sujeito da escola, ele não é um indivíduo com uma história e uma imaginação, é apenas um número de matrícula. Esse conceito define a vida estudantil, a vida amorosa e a vida social de todos esses indivíduos que se matriculam num colégio. O número de matrícula é maior que a vida dessas pessoas.

A aula vaga é o carnaval, é a redenção da prisão. O aluno pode sair das cadeiras que machucam as costas, pode conversar besteiras significativas entre os seus colegas, pode comer um lanche, pode fugir da escola e cabular aulas. (Sinceramente, cabular aula é uma desobediência ética necessária dentro da escola). A aula vaga move os alunos no desejo de ir à escola, é a possibilidade de rever os seus amigos, de fumar maconha e cigarro escondido, de beber escondido, de falar sobre música, de conversar sobre os pais, de falar mal dos professores e, finalmente, de falar sobre os relacionamentos amorosos. Sem a autorização de uma autoridade, o aluno pode fazer todas essas coisas. A aula vaga é um universo particular dos estudantes, quando tudo acontece, tudo se aprende sobre a sociedade, só não se aprende matemática, física, história e geografia. 

A educação física é uma aula vaga com lista de chamada. O grande pátio era dividido por um muro. De um lado, havia o refeitório e o pátio; de outro lado, havia a quadra e as escadas monumentais. Os meninos jogavam futebol, porque, obviamente, futebol é esporte para homens. As meninas procuravam fazer alguma coisa nesse tempo ocioso, ou seja, comentavam sobre os meninos ou falavam de outras garotas. (É claro que sempre existem pessoas diferentes, as figuras de exceção, naõ se resume assim. É muito mais complexo, porém, superficialmente, as coisas eram bem assim mesmo. O mundo era dividido entre os meninos do futebol e as meninas ociosas nas escadas).

Eu detestava no fundo do coração a Educação Física. Mas, nunca consegui entender o motivo de tanto ódio por essa disciplina, fui entender o motivo de tanto ódio pela Educação Física, quando não estava mais dentro de uma escola. A minha maior lembrança da Educação Física foi o dia que abandonei o gosto de jogar futebol. Costumava jogar futebol com os meninos da rua, com meus primos e sozinha em casa, era uma atividade que tinha relação direta com a minha personalidade, (nunca gostei de brincadeiras pouco movimentadas). Entretanto, jogar futebol, ao lado dos meninos, era o mesmo que ser chamada de briguenta, mulher-macho, esquisita e etc. Não ia conseguir muitas amizades femininas jogando futebol, o máximo que poderia acontecer era ser considerada uma menina estranha. De certa maneira, mesmo abandonando o futebol, foi exatamente isso que aconteceu, eu era uma menina estranha. Eu só queria, desesperadamente, ser uma menina igual às outras, não tinha o menor desejo de ser uma pessoa diferente.

Pagar o preço de ser diferente numa escola é muito alto e nunca tive disposição para isso. Eu abandonei o futebol, fiquei sentada nas escadas com as meninas (ou quem não gostava de jogar de futebol), olhando os meninos do futebol e comentando assuntos insignificantes.

O menino que jogava o futebol melhor, suava mais, chutava e goleava mais. Era sempre considerado o menino mais bonito, era o mesmo que o macho alfa da escola, como um Neymarzinho que tinha liberdade para fazer tudo, podia xingar o professor, faltar aulas, fumar maconha, roubar beijos de meninas, não estudar e etc. O Neymarzinho da escola era livre para trapacear e passar por cima da lei, porque todos os outros alunos sempre lhe protegiam. A motivação dessa proteção não era um querer bem, era o oposto disso, a proteção homogênea dessa figurinha era uma inveja coletiva. Afinal, todos queriam ser um Neymarzinho, todos queriam ser amado por conta de suas habilidades com os pés, queriam ser desejados pelas meninas das escadas e paparicados pelos professores, que entendiam os sonhos ambiciosos do aluninho, mesmo que cometesse arrogâncias, passasse por cima dos outros e machucasse meninas.

Certa vez, eu ri de um quadrinho. A piada era a seguinte: "um menino pergunta ao homem mais velho, o que ele deve fazer com uma menina. O velho responde: você destrói a casa e as bonecas dela, porque você ainda não tem idade para estuprar." O Neymarzinho da escola é a figurinha que aprende a destruir a casa e as bonecas, porque ainda não tem idade para estuprar. Não se engane, a sociedade ainda não mudou os seus valores, a escolha do nome Neymar não foi aleatória.

Ficar com o tal Neymarzinho lhe dava impunidade diplomática. Assim, era possível ficar livre dos deboches, ter os amigos menos risíveis, andar sem medo de risinhos escondidos e não ter apelidos toscos. A maioria dos apelidos era invenção dos meninos, eles se tornavam comuns e as meninas, para identificar alguém, falavam através desses apelidos. Eu era a Tévez, por causa dos meus dentes e porque gostava de futebol. A Stephany era a Dengue, era a menina negra da escola, considerada a mais feia da escola também. A Amanda foi o cabo de vassoura até a quinta série. São vários apelidos terríveis, eu posso dizer que já ri de muitos e também brincava com eles. Mas, não era confortável andar e ser chamada através desses apelidos. Eram sempre para ferir. Adolescentes são maus, crianças também. 

Numa quarta-feira, era o dia de Educação Física, a sensação era de ambiguidade. Era delicioso não estar mais dentro daquela sala de aula,  porém, ficar o dia inteiro sem fazer nada no pátio e sentado numa escada era algo que me aborrecia. Do meu ponto de vista, era preferível não fazer nada do que fingir que estávamos tendo boas aulas na escola. Tudo era uma representação. Nós, os alunos, fingíamos aprender; os professores fingiam ensinar; os diretores e os condenadores fingiam funcionar a administração da escola. O fingimento não é privilégio de Fernando Pessoa. 

Um aluno se aproximou e me perguntou:

- você gosta de comer linguiça?
- eu gosto - respondi

A turminha, que estava perto desse aluno, começou a rir descontroladamente. Eu fiquei sem entender. 

- não liga pra eles, tão fazendo piadas sem graça - me disse uma menina
- tipo, você gosta de salames? - eu brinquei

Ela riu, a menina era Rafaela. Ficava muito feliz, quando tinha alguma identificação com alguém, era uma realização. 

- você gosta de que tipo de música? - perguntou Rafaela
- eu gosto de rock - eu respondi 

Com quatorze anos, a música que nós costumamos gostar é sempre a música dos outros. Eu gostava da música que os meus primos apresentavam, isso incluía Legião Urbana, Nirvana, Os Tribalistas, Ramones e gostava de ouvir o cd da Elis Regina que minha mãe tinha. Para música, pessoas e arte, temos um gosto muito limitado, aprendemos a expandir mais tarde. Na minha cabeça, ser rockeira significava usar roupas pretas, ter tatuagens e piercings pelo corpo, ( minha mãe, provavelmente, detestaria). 

- eu também sou rockeira, olha só - ela me mostrou uma pulseira 

Ah sim! A pulseira! Na minha cabeça, as pessoas, que tinham anéis de caveira e pulseiras com espetos, eram os maiores rockeiros do universo. Ainda, não entendia que isso apenas significava que essas pessoas tinham dinheiro para comprar pulseiras e anéis.

- nossa! Que máximo! - eu falei - onde você comprou?
- na galeria do rock! Você já foi lá?
- não, eu nunca fui - eu respondi

Nesse momento, a Rafaela me olhou com recriminação. 

- você não conhece a Galeria do Rock! - disse Rafaela 
- não conheço - respondi 

Rafaela, apenas, balançou a cabeça e continuou olhando os meninos jogar futebol. Na aula de educação física, ficamos o resto dos 15 minutos, que sobravam de liberdade, num silêncio absoluto. Quando a aula estava terminando, ela me perguntou:

- você é BV? - disse Rafaela 

BV. Essa sigla merece alguma explicação. Eu demorei para entender o significado dessa sigla, fui entender somente na sétima série, quando uma das meninas da tribo teve o seu primeiro beijo. B= Boca e V= Virgem, ou seja, uma pessoa que é BV, é uma pessoa com Boca Virgem. Ao que parece, havia uma distinção clara de experiências de mundo, entre os BVs e os não BVs. Mas, nesse momento, eu mesmo não estava entendendo o significado dessa sigla, respondi:

- claro que não - disse 

Voltamos à sala de aula, era a última aula e iríamos embora para as nossas casas. A segunda lição que aprendemos hoje sobre Educação Amorosa é a mentira. Eu aprendi a ser uma grande mentirosa, inventava estórias incríveis que nunca vivi. Era uma forma de sobrevivência, eu mentia para não ter essa mesma sensação desconfortável do olhar recriminatório. De falar a verdade, a pessoa olhar para mim com recriminação e eu ser ignorada. Eu detestava ser ignorada, não sabia que ser ignorada era uma grande virtude, ainda era muito jovem para responder: "não, eu não sei de nada, não posso saber nada, mas, dentro de mim, tenho todos os sonhos do mundo". Só, para terminar bonito, eu invoquei Fernando Pessoa que, antes de o ter conhecido, eu já usava seus heterônimos e já fingia.