quarta-feira, 19 de março de 2014

Decepção de escritora

-ele me olhou ontem
- e aí?
- eu fiquei paralisada, não sabia o que dizer. Você sabe que não sou boa em esconder sensações, fiquei sem voz
- ele falou com você?
- não. Eu falei com ele. Me aproximei, disse o meu nome e peguei o número de telefone dele. E depois, depois, bem depois, sabe, de várias tentativas, nós nos encontramos.
-e, aí, o que aconteceu? Vocês ficaram?
- ele olhou pra mim e me disse: “você é uma moça muito aristotélica”. Eu fiquei muda, meus olhos endureceram. Foram palavras duras, entende. Saí, de repente, da mesa e disse: “eu não sou aristotélica”. Ele repetiu de novo a frase: “você é muito aristotélica!”. Eu me senti ofendida por ele
- você foi embora?
- óbvio que eu fui. Não vou sair com um cara que diz pra mim que sou uma moça aristotélica. Perdi o interesse,  foi assim que eu me desapaixonei por ele
- não se viram mais?

- nunca. Espero nunca mais ver ele. Onde já se viu? Me ofender assim! 

segunda-feira, 10 de março de 2014

A memória de Pablo Barbosa Cubas

Não é por estar na sua presença meu prezado rapaz
mas você vai mal/ mas vai mal demais 
[...]
e se vai continuar enrustido
com essa cara de marido 
Por trás de um homem triste
há sempre uma mulher feliz 
atrás de uma mulher mil 
homens sempre tão gentis
Deixa a menina sambar, rapaz! 
Chico Buarque. Deixe a menina 

O que eu posso dizer? É uma história comum. A última coisa que eu me lembro ver: foi a paisagem na minha janela. A imagem da minha visão era inteira de prédios, pessoas selvagens tropeçando umas as outras e um céu, tão poluído, que já tinha perdido o tom azul puro. Há muito tempo, não tinha recordações sobre o sabor do mar, o cheiro de ar verdadeiro e noções de pessoas que olham umas as outras, principalmente, quando andam banalmente.
Quem eu sou? Desculpa, minhas amadas mulheres, essa não é a pergunta certa. Se fizeram essa pergunta, erraram. As perguntas certas são: o que eu estou fazendo? Pra quem eu faço o que eu costumo fazer sempre? Eu sou jornalista investigativo, moro no centro de São Paulo, sempre morei sozinho.  Trabalho no Jornal “Notícias toda a hora”, uso o pseudônimo Gregor Fernandes, é o meu nome falso para proteger a minha vida pessoal. Os meus textos são muito lidos pela população. Por que? Porque eu escrevo as coisas que a população quer ouvir.
Por exemplo, conheço uma cantora travesti de punk rock, o nome dela é Aline, mas ninguém quer ouvir o que ela pensa do mundo. O que as pessoas querem ouvir? É a morte dos travestis, é como eles não conseguem sustentar a própria vida, simplesmente, porque existem do que jeito que eles existem. Esse exemplo é bem simples, mas tem outros.  Eu conheço um negro chamado Erik, ele é leitor de Proust e conhece quase tudo a respeito do impressionismo francês no piano. Mas ninguém quer ouvir a vida de um homem culto e o seu conhecimento de arte, principalmente, se esse homem não é um homem erudito branco. Por isso, eu escrevo sobre a morte de pessoas, miséria e decadência, os meus leitores ficam eruditos em cima de miséria e destruição. Na maioria das vezes, os leitores de jornal ficam eruditos em cima da destruição de pessoas densas. A vida não é justa, minhas leitoras, a miséria é um atributo da beleza e da inteligência. Não fiquem tristes, moças bonitas.
Quanto a mim, não posso dizer que já me importei com o mundo. Mas também não posso dizer que nunca me importei. Eu sempre dormi em paz em um apartamentinho, pagando as contas do fim de mês e comprando boas roupas. Sempre dormi bem, tenho boa alimentação, sou até vegetariano, nunca tive pesadelos.
Minhas lindas mulheres, peço que não criem um juízo errado de mim. Ainda não contei a minha história. Eu sou um homem canalha. Descobri isso depois que eu morri. Quando isso aconteceu? Alguns meses, seis ou oito; não sei direito. Perdemos a noção do tempo depois da morte, aprendemos a nos lembrar e, depois, (é o que dizem) esquecemos de tudo. De algum modo, esquecer é uma dádiva. Ainda bem que todos nós, um dia, inevitavelmente, seremos esquecidos.
Eu estava no meu quarto. A padaria e um prédio foram as últimas que eu vi, quando eu era um homem vivo. Conversava com Angélica Natel, ela tinha me dito:
- você nunca amou ninguém, você só amou você mesmo. Você é um canalha! – Angélica, talvez, bateu a porta do meu apartamento com raiva e foi embora. Ela cambaleou e pediu um Táxi, voltou para casa que ela tinha construído com o seu primeiro marido Matheus. Angélica queria estruturar a família dela, era uma mulher de 36 anos que estava perdida, o esforço em construir uma imagem, um casamento, uma casa e um mundo não significava nada. Ela era uma mulher sozinha no mundo, nunca tinha se dado conta disso, sempre se entregou demais para ser amada. Nunca amou.
- eu nunca disse que eu era teu – acho que eu disse isso na nossa última briga
- mas você disse, eu me lembro, - Angélica já chorava copiosamente, desnuda. Era uma linda mulher triste, pedindo para não ficar sozinha, - eu me lembro. Você disse que me amava, que não ia me abandonar. Agora, você tá me abandonando.
- eu não estou te abandonando, Angélica. Eu só estou sendo a pessoa que eu fui sempre.
- você me prometeu – gritava Angélica.
- eu prometi que ia amar você. Eu te amo muito. Mas não te prometi exclusividade
- é isso então? Vai me largar por aquela vadia de vestido preto
- ela é minha amiga
- eu também fui sua amiga antes de ficar com você
- foi uma consequência
Angélica estapeou o meu rosto. Caminhei até a janela e vi o prédio:
- vai embora – eu disse
- você nunca amou ninguém. Você só amou você mesmo
Fiquei em silêncio. Angélica bateu a porta e foi embora. Cambaleando, quebrou o salto, andou descalça pela rua. Era a mais triste de todas as mulheres, procurando um táxi para ir embora.  Ela desapareceu quando entrou no táxi, o automóvel levou a mulher para sua doce prisão domiciliar. Então, eu vi a padaria.
Entraram no meu apartamento, só ouvi os sons de tiro. Morri.
Um dia antes da minha morte, conversei com a minha melhor amiga Billy Carrey. A risada de Carrey era o traço que a distinguia dos outros mortais, cabelos longos, ruivos. Era uma mulher deslumbrante, provavelmente, seria uma namorada, talvez, até esposa. Mas nós dois tínhamos tudo em comum, inclusive o gosto sexual. Gostávamos muito de mulheres.
- você sabe que eu gosto de todo o tipo de mulher
- eu sei Pablo, sei sim – Carrey disse, - você é currículo! Querido, você é currículo pras mulheres
- essa história de currículo! Só você mesmo – eu respondi rindo – enfim, eu gosto de mulher:
- as feias e as bonitas – (Nós, eu e Carrey, falávamos juntos), - não importa, o que importa é mulher
- como vai com a Milena? – eu perguntei
- ela sumiu. Está com problemas com a mãe. É uma pena, gosto muito dela, Pablo, gosto mesmo. Mas essa situação é muito tensa para nós duas, a mãe dela é uma louca, já ameaçou a filha de morte, já me ameaçou de morte. Ontem, a mãe da Milena tentou se matar. A Mileninha está arrasada, eu não sei o que fazer. Me sinto impotente.
- nossa Carrey! Que barra pesada!
Carrey se despediu de mim, foi embora, beijou o meu rosto.
- você! Meu querido, tem muita mulher do seu lado, tem mulher demais – ela riu, - eu fico até confusa. Se cuida, rapazinho, se cuida!
- você também! Mas onde você vai?
- tô atrasada, tenho que convencer um cliente a comprar um apartamento e eu já devia estar na Vila Maria. Mas, depois, você me conta sobre a sua vida, eu quero saber como está esse coração, eu quero saber como anda essa cabeça confusa. Beijo, querido!
- tchau Carrey!
Carrey foi embora, caminhou até o carro vermelho dela. Era, de fato, uma mulher deslumbrante. Nesse dia, eu falei com um dos meus grandes amores, mesmo um homem como eu que assume esse estilo de vida, tem um ou dois (ou mais) mulheres inesquecíveis que marcaram a trajetória. Era uma mulher comum, o nome dela era Sofia.  Provavelmente, o homem que tocava as costas nuas dela era o novo namorado, estava apaixonada. A paixão é um bom ingrediente para beleza.
O novo namorado não era muito atento. Sofia me percebeu, olhou-me desafiante. Eu senti o desejo original por aqueles finos lábios, belos e únicos. Não resisti, abracei minha velha conhecida e não perguntei como estava, perguntei como sentia. Sofia respondeu:
- estou um pouco sem saber como responder essa pergunta – Sofia riu
- tá bem? Não tá bem?
- tô bem. Não sei se já disse. Mas tenho a impressão que você, Pablo, usa essas perguntas pra atrair mulheres
- não entendi – eu respondi
- você faz perguntas desconcertantes, porque é o seu maior charme. Você é um homem irresistível mesmo, não por que é belo, nem é questão de grana. É questão de....É questão de... de..
- de quê, meu amor?
- você não quer saber o que as mulheres querem. Isso é engraçado! Antes de conhecer você, eu tinha tanto medo, me sentia tão insegura, não sabia ficar sozinha de jeito nenhum. Quando eu te conheci, tudo mudou, você me ajudou a não ter mais medo
- você tinha medo? Do que você tinha medo?
- eu tinha medo de ficar comigo. Hoje, eu posso ficar com qualquer um, Pablo, posso ficar com qualquer um sem apriosionar. Porque eu gosto de ficar comigo
- fui eu que fiz isso? – perguntei surpreso
- não foi não. Fui eu. Mas você deu um empurrãozinho.
Ela beijou o meu rosto. Eu também a beijei no rosto. Cinco minutos em silêncio, nós dois não nos aguentamos, nos beijamos na boca. O novo namorado viu e ficou enfurecido.
- você tá louco, mano!
Ele disse:
- ela é minha namorada! Ela é minha mulher!
Sofia tentou separar a briga. Eu fiquei quieto.
- você entendeu? Ela é minha namorada, não é sua!
- desculpa, eu não vi a placa na cabeça dela dizendo: “propriedade do Zé ruela”
Eu beijei o rosto da Sofia. Não tenho espírito de homem briguento, sou muito covarde. Sofia tentou acalmar o Zé Ruela, mas era um homem estúpido.
- cala a boca vadia!
Eu disse:
- babaca! Não chama a Sofia assim
Ele tentou socar o meu rosto. Eu soquei primeiro. Em qualquer briga, (como eu já me meti em algumas, porque sempre tem um homem estúpido em algum lugar), é sempre bom ser rápido e dar o soco primeiro. Sofia vestiu o casaco, caminhou para casa. Eu corri atrás da moça.
- vai embora assim?
- ele era um homem idiota, não é mesmo?
- parece que sim – eu disse
- nós, mulheres, nunca nos livramos de um idiota, né – ela disse sorrindo
- me desculpa – eu respondi
- se desculpar, não precisa, dessa vez, você fez um papel que não combina com você
- é! Papel de bom moço e decente nunca foi a minha cara – eu disse
- nunca foi mesmo. Ainda bem. De bons moços, o mundo tá cheio. Acho que é por isso que o mundo anda chato e tedioso – Sofia sorriu.
- isso é verdade! Por favor, Sofia, não deixa que esse babaca faça parte da sua vida de novo
- não vou deixar não – Sofia disse, - mas, você tem razão
- tenho?
- tem sim. Nunca esqueci a cantada que você me deu
- do canalha
Ela riu e disse:
- um canalha é mais feminista que as feministas. Ele vai fazer tudo que não pode com os dogmas sexistas que uma mulher aprende, vai tirar a moça da zona de conforto e, depois, vai pedir para que ela siga adiante sendo ela mesma
- eu falei aquilo de piada – eu disse
- é uma piada com algum fundo de verdade. Tchau, moço!
Sofia beijou minha boca. Ela caminhou pela calçada escura, o seu belo corpo desaparecendo entre a escuridão. O humor é uma arma contra os opressores, sem dúvida, é a arma mais impactante, porque só entende o humor quem compreende a cultura e o imaginário que vive. Essa piada de canalha só entende uma mulher que aprendeu o que é viver com dogmas sobre o que é ser mulher. Por isso, escrevo para elas, às vezes, escrevo para seduzir e tirar as suas roupas; às vezes, eu escrevo, porque eu quero transformar o mundo em um parque de diversão de canalhas.
Se um homem canalha é perigoso para nossa cultura, imagina uma mulher canalha. Sofia tinha aprendido muito com o nosso passado, eu a amei tanto, ela me amou tanto. A nossa escolha foi, em respeito ao amor, nos deixar plenamente livres e nos preocupar um com outro. Sofia caminhou firme e livre.  A beleza não é o único atributo que deixa uma mulher irresistível, a liberdade é um atributo ainda mais sedutor. Um babaca tem medo de mulheres livres, mas perde a cabeça quando encontra uma mulher como Sofia, porque o que ele quer não é a Sofia, ele quer a posse da liberdade dela. Um babaca sente ciúmes é da maneira idiossincrática que uma mulher, como a Sofia, vive a vida; ele não a deseja, ele deseja a vida da Sofia, deseja a liberdade e não a pessoa. O poder é a pior droga, nós, homens, aprendemos serem homens por causa desse vício, nos embriagamos de dogmas e viramos exatamente o que somos. Babacas.
Eu me libertei dessa condição, não sou um babaca. É importante fazer essa distinção, uma coisa é ser um babaca, outra coisa muito diferente é um homem canalha. O Zé Mané do ex-namorado da Sofia tentou correr atrás dela pelas ruas, eu estava no meio do caminho, ele me bateu. Eu apanhei, a polícia apareceu logo em seguida.
- ele tentou agredir uma mulher
- você quer deixar uma queixa
- quero sim
O ex- namorado Zé ruela da Sofia foi preso pela polícia. Pelo que sei, Sofia arranjou outro namorado. O Zé ruela ficou triste, chamou a moça de vadia, de vagabunda e falou para um amigo meu assim: “ela não trepa bem!”. Espalhou a notícia. Sofia estava feliz, mesmo com outro namorado, ela nunca me abandonou, nunca se importou e caminhava firme. É, meu amigo Zé ruela, você precisa entender que a mulher sorri com outros homens e você só vai espalhar notícias falsas. Você, Zé ruela, lambuzou-se de poder e masculinidade. Você, Zé ruela, é só mais um babaca solitário e Sofia me disse que você quando criança, para comprovar o seu poder, media o tamanho do seu pau em frente os seus amigos. Além de babaca, você é um inseguro, não tenha dúvidas que ela usou essa insegurança para tirar um sarro. Não tenha dúvidas, Zé ruela, ela atingiu o objetivo que queria. Transou com você e foi embora para sempre. Você acreditou que o seu pau era grande, bonito e gostoso. Você acreditou, Zé Ruela, mas ela só encheu mesmo a sua bola e massageou o seu belo ego previsível. Zé ruela seja um babaca, fica mais fácil para mim, porque enquanto existir homens assim, os canalhas ainda terão uma função no mundo. Eu vou comer as suas mulheres e elas vão aprender a ser exuberantemente livres.
O namorado da Sofia foi o último Zé Ruela que enfrentei corpo a corpo. Angélica Natel, a última mulher da minha vida, tinha um marido muito ciumento. Eu suspeito que foi esse homem que me assassinou. Mas não tenho certeza. Na primeira cena, eu disse que a última coisa que eu vi foram um prédio e uma padaria. Quando ouvi um barulho incompreensível e morri. Foi um tiro no meu coração.
Angélica recebeu a notícia pelo telefone. Sofia recebeu a notícia por Carrey. Elas se encontraram no meu enterro.
- você conhecia ele? – perguntou Angélica
- conhecia sim – respondeu Sofia
- você foi mais outra vadiazinha dele?
- eu fui uma mulher na vida dele. Eu amei ele
- eu amei ele. Eu amei ele como ninguém, entendeu, eu fui a única que amou ele de verdade. Você foi só outra vadiazinha que ele usou e jogou fora – disse Angélica
- desculpa, moça, eu não vou fazer essa cena ridícula. Eu vim me despedi do meu amigo
- Sofia, vem cá – disse Carrey, - deixa ela se matar aí
- pera aí! – disse Angélica, - vem cá, por favor
Sofia hesitou e disse:
- Carrey, tá tudo bem, eu não vim aqui pra fazer cena ridícula nenhuma
- você vai ficar bem?
- vou sim – respondeu Sofia
- você tratava ele como amigo? – perguntou Angélica
- eu vou tratar um homem que amei como? Como um inimigo?
- eu também amei ele
- não duvido. Não vou brigar aqui pra ver que amou mais ele. Nós duas amamos o mesmo homem
- eu sou casada
- cadê o seu marido?
- tá preso. Acho que, talvez, foi ele que assassinou Pablo
- ele machucou você? – perguntou Sofia
- tentou me bater. Na verdade, ele já me bateu algumas vezes, eu gostava dele, sabe, gostava mesmo. Sempre desejei construir família, ter filhos e uma casa.
- um sonho comum
- pois é, eu sempre sonhei. Ele me deu tudo isso, mas me tratava como um animal, eu obedecia. Teve um dia que eu tava sozinha numa festa, usava a minha melhor roupa, ele não notou como eu fazia tudo aquilo pra ele. Ficava horas na frente do espelho para ser uma mulher bonita. Adivinha, então, quem notou isso? Pablo
- Pablo Barbosa Cubas! – Sofia riu
- ele me chamou de bonita, me deu flores, me tratava como uma princesa, eu me sentia uma mulher especial. Fiz tudo para ele, dei tudo pra ele, esperando que ele me libertasse de um casamento e uma situação desastrosa
- ele não te libertou?
- não, ao invés disso, ele morreu
- bom, ele nunca teve talento pra príncipe encantado
- mas ele me prometeu
- ele prometeu te amar, ele não te prometeu a liberdade. A liberdade vem sempre de dentro pra fora, primeiro. Uma pessoa livre não aprisiona ninguém, ao contrário, deixa livre para escolher. É claro, ter uma consciência é um privilegio, ter subjetividade, então, minha querida, é luxo! Luxo!
- por que você tá falando isso pra mim?
- porque ele te amou, por isso, eu também te amo. Por isso, eu te respeito
- mesmo que eu te odeie por ele ter te amado também, mesmo eu te maltratando?
- mesmo assim
Sofia beijou Angélica no rosto. Angélica se sentiu humilhada, chorou apenas. Eu  sorri, finalmente, eu morri bem. Minhas queridas leitoras, eu sou o homem mais feliz do mundo, assassinaram-me literariamente. Há anos na história da literatura ocidental, lindas mulheres morreram, os autores sempre mataram essas figuras densas. Julieta morreu para se libertar e libertar Romeu, Ana Karenina suicidou nos trilhos do trem por conta de amor, Lady Macabeth enlouqueceu porque também queria o poder dos homens, Ofélia sabia demais, morreu ambiguamente. Sofia não morreu, vive libertada de dogmas sexuais. Angélica é uma mulher viva e, quem sabe, um dia se liberta desse imaginário genocida que matou milhares de pessoas por conta do gênero feminino. Vocês, queridas leitoras, ouviram a história do primeiro homem assassinado na literatura. Também ouviram a história de duas mulheres que permaneceram vivas e continuaram em frente.

Eu sou um homem morto. 

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

O bar inexistente das figuras imortais

 No reino da não existência, as figuras imortais mais ilustres, que já tiveram uma vida no planeta Terra, conversam sobre futebol, celebridades, novelas das oito, guerras e etc. As notícias a respeito da via láctea passam em um telão, controlado pelo Grande B. (The big b), e todos, apreensivos e ansiosos, assistem às novidades do telão da via láctea.
Nesse telão, os rumos dos planetas Saturno, Vênus, Marte e Terra são televisionados como um grande reality show. As novidades mais esperadas são sempre vindas do planeta Terra. As figuras ilustres (Platão, Nietzsche, Karl Marx, Buda, Leila Diniz, Elis Regina, Janis Joplin, Hendrix e Jim) gargalham, observando os acontecimentos terrestres como uma grande piada. Os piadistas são Marx e Hegel, afinal, as figuras mais estranhas que já viveram na Terra, foram marxistas e hegelianos. Por isso, são os maiores comediantes, vivem sacaneando a turma do bar, eles fazem piadas em cima do povo terrestre e gargalham muito.
Mas, os mais depressivos do bar, curiosamente, sentados na mesma mesa de bar, dividindo copos de cerveja. Duas figuras que dividiram povos, consolidaram polêmicas e criaram suicidas. Hoje, depressivos do reino da não existência, escutando Reginaldo Rossi, Edith Piaf, Wando e Beethoven. Embriagados de excessos. Jamais, esquecidos por nenhum ser humano, nem mesmo entre os ateus e progressistas. Eles, mais tristes do que nunca, dividem a mesma mesa. Hitler e Jesus Cristo conversam a respeito da humanidade.
- Não sei por que ninguém deixa minha memória em paz? – disse Jesus – Porra! Eu morri, deixa eu morto. Mas não. Tem sempre um cristão que faz questão de colocar uma imagem minha crucificada na Páscoa. Tem gente que sempre faz questão de me ver sendo torturado. Não sei por que todos ficam me amolando?
- ah! Ao menos, você é cultuado com amor, Jesus, - disse Hitler, - eu não. As pessoas fazem questão de colocar a culpa tudo em cima de mim. Aaaah! Mataram um bando de judeus, a culpa foi de Hitler. Ah! O Nazismo, a culpa foi de Hitler!! Ah minha sogra não sai de casa, a culpa foi de Hitler! Ah, meu namorado é preto, a culpa foi de Hitler! Esses dias até a maçã, a maçã, que o negócio foi do Adão e Eva, colocaram eu no meio. Eu! Que não tinha nem nascido ainda. Porra!!
- porra, Hitler, tu também vacilou, né                                                   
- ah! Vacilei, né, Jesus, mas, não vacilei sozinho não. Me colocaram nesse espaço de vacilação. Agora, tá tudo mundo tirando corpo fora. Ninguém quer assumir ódio não. Precisa de alguém como eu pra poder autorizar o ódio?
- ah, eu tive tanta paciência, Hitler, tanta paciência pra ensinar fundamentos de amor, fundamentos de autonomia, de questionar a ordem vigente. Eu disse que ia trazer a paz, eu ia cumprir a promessa do meu pai. Mas ninguém entendeu nada, ninguém entendeu nada.
- você que é bobo, dizem até que você morreu por toda essa gente
- eu amei a humanidade mais do que tudo. Achei que todos poderiam plantar a sua própria semente. Porra! Mas, Hitler, veja isso, no dia que eu fui crucificado, todos os apóstolos tavam dormindo, tavam embriagados. Ninguém tinha entendido nada. Nada. Eu fiquei com dúvida, fui até o Jardim, fiz a oração pro meu pai e, depois, Judas me beijou na boca. Fui crucificado e morto. Nesse dia, ninguém se lembrou de mim. Ninguém, nem Pedro.
- na hora que tu precisou, as pessoas fizeram esse favor de te esquecer. Puta sacanagem, meu! – disse Hitler, - isso é tudo um bando de cagão
- Mano, no dia que fui levado pra morte, todo mundo me esqueceu. Agora que eu morri, todo mundo se lembra de mim. Ninguém respeita a minha morte. Fica falando merda sobre mim, bosta atrás de bosta, merda atrás de merda. Inventam fundamentos da minha vida pra justificar ódio, intolerâncias e preconceitos
- eu sei que o meu maior castigo, foi ser eterno – disse Hitler, -  a minha imagem na Terra é o símbolo puro da neurose e do ódio. Ninguém, Jesus, ninguém hoje assume que já acreditou nas minhas ideias; porque, enfim, queriam uma vida melhor do jeito que fosse, nem que fosse do pior jeito; porque também eram tiranos e pequenos Hitlers. Agora, eu nunca vou ser esquecido. Nunca vou ser esquecido. Jamais.
Jesus Cristo e Hitler beberam, estavam delirantes.
- eu vou ser eterno. As pessoas vão ser imbecis, porque não pensam por si mesmas – disse Jesus
- eu vou ser eterno. As pessoas são imbecis, porque nunca pensaram por si mesmas – disse Hitler
- o esquecimento é uma dádiva – eles disseram delirantes
Nelson Mandela, o forasteiro, sentou ao lado de Jesus e Hitler e disse:
- desculpa o atraso! Mas eles não deixam ninguém morrer em paz. O que estamos brindando?
Todas as figuras ilustres do bar inexistente gritaram:

- ao esquecimento! 

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Tudo termina em Auschwitz

Eu acordei com a minha mente silenciada. Naturalmente, isso é muito incomum, sempre estive acompanhado com pensamentos esparsos, contraditórios e imprecisos, acomodando-se no mesmo lugar. Sou um biólogo, estudo genética, estava empenhado na construção de um novo DNA, que seria capaz de criar uma nova espécie de ser humano no planeta Terra. É uma maneira, completamente nova, de reconstruir a humanidade, tentando corrigir os erros já existentes da espécie humana. É algo que seria capaz de criar um novo mundo, fundamentado em saber, conhecimento, respeito, verdade e justiça. De algo modo ou de outro, seria uma nova esperança.
Caminhei, então, até a padaria da esquina. Encontrei dois amigos meus. João (estudante de pós-graduação de filosofia) e outro amigo chamado Diogo (funcionário público no setor administrativo da Escola Municipal Hélio Freitas), eles estavam fugindo de suas responsabilidades cotidianas. Eu também era um fugitivo. Com o mundo aos meus pés, eu estava cansado. Estava desacreditado na possibilidade de criar esse novo homem; houve vários fracassos com minha coleta de dados e também houve erros grotescos com minha aplicação de metodologia. As coisas não estavam boas... As coisas não estavam boas...
- Alexandre, ô grande! – (os braços de João estavam abertos, recebeu-me com alegria), - quanto tempo, meu grande amigo, como vai você? Tu lembra do Diogo?
- eu lembro sim – eu respondi – e aí, como vai os estudos com a música?
- eu abandonei a faculdade de música, - respondeu Diogo, - hoje, trabalho no setor administrativo na escola Hélio Freitas. Estudo música como hobby
- ainda toca bandolim? – eu perguntei
- abandonei o Bandolim. Estou tocando agora gaita e voltei pro violão – respondeu Diogo
- e você, meu querido Alexandre, - perguntou João, - ainda faz aquele trabalho com biologia, ainda tá pesquisando?
- ah, trabalhava na coleta de dados da descrição de um DNA de uma cabra. Agora, estou trabalhando num projeto meu – respondi.
- sério? Qual é a ideia?
- acho que é um sonho, meu amigo
- tem sonhos que vale a pena – disse Diogo
- nesse caso, é um fracasso de um desejo que eu tive quando era um jovem estudante, - (eu dei uma pausa. Encarei o Diogo), - ô Diogo, tu se lembra que você já sonhou com música?
- ah! Meu Deus, você ainda se lembra disso! Lembro sim.
- que música? – perguntou João
- eu tinha 14 anos. Eu sonhei com uma melodia de música. Menino, foi uma coisa sobrenatural, eu dormi e vi as notas musicais. No dia seguinte, eu criei aquela música minha que está no meu primeiro cd
- “nenhuma cor e todas as cores juntas”, é essa, Diogo? – perguntou João
- é essa mesma, eu pedi até pra sua namorada da época, a Aninha, lembra? Pedi pra ela criar uma letra pra canção
- lembro. Fez um puta sucesso a música
- hoje, eu sou um músico desconhecido. Fazer o quê, eu até que gosto um pouco, né! – disse Diogo – Nunca tive muito talento pra lidar com o público e com gravadoras. Estou protegido no silêncio dos anônimos
- então, - eu disse, - Diogo, eu tive um sonho parecido
- você sonhou com música? – disse João
- Não. Eu sonhei com uma rede de moléculas e células que criariam uma nova espécie humana. Acordei, de repente, com essa ideia. Passei o meu primeiro, segundo e terceiro anos de faculdade, pensando nas possibilidades de criar uma nova espécie humana.  E criando maneiras de resolver os erros existentes dela
- mas isso não é brincar de Deus? – perguntou João
- eu ia resolver os nossos problemas da arcada dentária, dos ossos, da possibilidade de guardar mais informações do cérebro, da intelectualização dos sentimentos e da imaginação religiosa. Eu ia criar um Hércules, um Cristo, um Superman. Um homem muito melhor que os mitos, um homem muito melhor que os homens
- mas isso é muito ambicioso – disse Diogo, - eu até que gosto das imperfeições dos homens
- eu adoraria ver as imperfeições dos homens serem corrigidas – disse João, - separar a imaginação criativa da ignorância das religiões. Aumentar a nossa força no mundo, não ter problemas de artrose, dentes mais fortes, respiração mais duradoura e uma racionalidade precisa e objetiva. Eu adoraria que a gente não tivesse doenças sexualmente transmissíveis e que a gente fosse, de fato, espécies inabaláveis e indestrutíveis
- João, a razão é uma rainha surda. A emoção é o excesso necessário. Já disse e repito, eu gosto das imperfeições da humanidade
- inclusive os genocídios, os femicídios e a escravidão?
- meu, tudo que é conversa termina do mesmo jeito
- que jeito?
- tudo termina em Auschwitz. Será que é impossível começar uma conversa ou diálogo banal sequer, sem colocar o Hitler no meio? – disse Diogo
- pera aí, gente – disse Diogo, - pera aí, gente, deixa eu terminar o meu raciocínio
- Hitler modificou a história do pensamento – disse João, - não é possível pensar o mundo hoje sem falar de Auschwitz
- não foi o Hitler
- claro que foi
- não foi o Hitler, mas a paixão em torno do Hitler
- gente, deixa eu terminar o meu raciocínio
Começaram as discussões calorosas em torno de Auschwitz. O funcionário público, meu amigo Diogo, tinha razão. Quando o assunto era Hitler, era pior que ver discussão de futebol no dia de libertadores. Era pior do que discussões entre são paulinos e corintianos.
- posso terminar o que tava falando? – eu disse
- pode sim – eles responderam
- eu tinha sonhado com uma nova espécie humana. Trabalhei cinco anos, tentei coletar dados, tentei criar metodologias. E, hoje, quando eu acordei e tomei ônibus. Eu fracassei novamente na coleta de dados. A metodologia não é boa. De novo, fracassei como cientista
- você não conseguiu? – os dois perguntaram
- Não consegui
- essa é a prova que a ciência é insuficiente depois de Auschwitz
- essa é a prova que só a arte é capaz de entender a falta de lógica do mundo
Eu respirei fundo e respondi antes que começassem as discussões calorosas.
- essa é a evidência de que o homem é ineficiente para criar um novo homem. O homem é o fracasso do próprio homem em todos os sentidos. Em todos os sentidos. Só nos resta tomar café, tomar cerveja, fumar cigarros e falar, falar, falar e falar sem parar a respeito do mundo, a respeito das coisas. Falar a respeito de nada. E, mesmo assim, fingir algum sucesso, porque eu vou ganhar dinheiro com meu fracasso, amanhã vou escrever um artigo e vou ganhar dinheiro pra isso
-isso é bom! – disse Diogo
- isso é bom? – disse João
- é a minha dignidade, meus caros, minha dignidade

Me despedi deles. Eu fui embora com a minha mente silenciada. 

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O reencontro

Há meses, eu não retornava para cidade de São Paulo. O sentimento de rotina me tomou o rosto, a partir do momento, que eu pus os pés nas calçadas brutas dessa cidade. As pessoas apressadas caminhando entediadas, expressando um rosto insosso, como se tivessem vivido tudo que há no mundo. Depois da morte de Mariana, não via mais sentido continuar morando perto de lembranças.
Estava separado da minha mulher, dois ou três meses que eu não visitava minhas duas filhas. Como o meu pai também, não tinha talento para paternidade, entrei no primeiro beco que encontrei, sentei numa escada e vi os rostos entediados de todos na rua. Lembrei-me imediatamente de Mariana, ela atentava-se demais para a expressão nula e branca que as pessoas faziam quando caminhavam. Ela sempre dizia: “se fosse para imitar os rostos das pessoas quando estão no metrô, eu não ia saber fazer. Eles não têm expressão, eles olham e não querem ser olhados”. Eu ri de repente; ela dizia que a melhor maneira de esconder dos olhos atentos das pessoas era olhando-as de volta. Era esse o paradoxo: “você olha e se exibi gratuitamente para não ser visto. Só tem uma maneira de enfrentar o medo, enfrentando”. 
Meus olhos atentavam-se. De repente, percebendo cada detalhe dos movimentos, cada expressão vazia no olhar, os vestígios de humanidade perdendo-se no espaço, os imprevistos fugindo do controle. Ao observar tudo isso, eu entendi a beleza que eu não via numa cidade. Senti que tudo era um exuberante quadro de arte, uma espécie de balé, um estupendo e belo mau gosto, organizado em caos. No fundo, uma música imprecisa tocava no ar, era um som expressivo e denso.
Segui a música. Quando eu me aproximei, percebi que era um homem da minha idade que tocava uma flauta. Fiquei em silêncio, ouvindo uma música incomum tocada por uma pessoa desconhecida. Ele parou subitamente e me disse:
- nos conhecemos de algum lugar?
- não, nunca te vi na minha vida – eu respondi
- como é seu nome?
- Daniel, como é o seu?
- Joaquim
 Nós permanecemos calados, eu sentei ao lado dele. Não fiz mais perguntas, ele também não me fez mais perguntas. Eu fiquei tocado por aquela música estranha, não pude esconder as minhas lágrimas.
- qual é o nome dessa música?
- se chama “cinza”
- essa música tem história?
- tem sim, por que?
- porque, uma vez, uma amiga disse pra mim que todas as coisas no mundo têm memórias. É tudo uma questão de saber perguntar, é tudo uma questão de saber ouvir
Joaquim riu e respondeu:
- eu andava no bosque, estava perdido. Eu era o menino mais perdido no mundo. De repente, eu ouvi uma música, uma linda música. Eu era músico quando criança, sempre me expressei por sons. Quando eu segui essa música, me deparei com três ruas; nessa encruzilhada, tinha um velho cabeludo, muito bêbado, ele me olhou e eu, curioso, sentei para ouvir a música dele. O velho cabeludo disse que tinha feito pacto com diabo pra ser violeiro, tocava muito bem, nunca tinha visto alguém tocar tão bem na minha vida, quando eu perguntei de quem era aquela música que ele tava tocando. Ele tinha me dito: “essa música é de ninguém e o nome dela é cinza”.
- você nunca mais viu o velho?
- nunca mais. Mas, desde então, eu resolvi imitar aqueles sons. Eu larguei o violão, porque entrei em crise e decidi criar composições que eu chamo de “sentinelas cinzas”.  Eu toco pro ar, minhas canções são anônimas.

Eu fiquei silencioso, senti uma cumplicidade com esse flautista, parecia que a gente era grandes amigos. Não sei se ele me contou uma história verdadeira, mas também não me interessa. Algumas mentiras valem mais que algumas verdades falsas, eu senti alegria e dormi com menos culpa. Reencontrei algum conforto no meio da cidade. Não acredito que vivi infeliz a vida inteira, não acredito que tenho direito a felicidade eterna. Mas, ontem, conversando com esse rapaz flautista, tive a certeza que não estava certo e pude dormi com muitos desconforto engolindo meu cobertor. Nunca mais tive bons sonhos, mas tive uma recompensa. Tive alegria. 

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Romance interrompido

Estavam os dois distraídos, sentaram em cadeiras opostas. Mariana estava profunda e escreveu com os dois polegares um sms ao Joaquim dizendo: “vi aquele filme que você me indicou Fallen Angels, fiquei impressionada como você me conhece mesmo. O filme é excelente!”. Daniel estava perdido, era um homem banal e impreciso, mandou um sms para noiva Priscila: “eu te amo, mas preciso descansar. Depois eu passo na sua casa e juro que teremos um tempo pra nós dois”.
Ela olhou para frente, ele olhou para trás. Os dois olhares perdidos se cruzaram e, rapidamente, se identificaram. Mariana estremeceu, reconheceu o rosto de Daniel. Não usava mais cabelos longos, tinha pelos no rosto e parecia olhar as coisas com menos certeza que antes. Sentiu vontade de virar uma formiga e sair de fininho por entre as mesas, ela permaneceu intacta e os olhos atentos focaram na miragem de Daniel. Era apenas Daniel, uma memória ambulante dos seus primeiros desastres; um homem banal vendo uma mulher banal.
- como vai? – Daniel perguntou
- eu vou bem – Mariana respondeu
Ficaram séculos em silêncio.
- fiquei sabendo da morte do seu pai – ela disse
- pois é, - ele respondeu, - foi uma notícia estúpida no meio da tarde. Já recebeu uma notícia estúpida no meio da tarde?
- não, eu nunca recebi notícias estúpidas
- você tá ótima, tá linda! – ele elogiou confuso
- você também!
- você não quer sentar aqui do meu lado?
- eu acho que não vou ter tempo, vou encontrar uns amigos. Mas foi um prazer te rever, depois, a gente marca alguma coisa. A gente conversa sobre as coisas, a gente fala sobre tudo que nos aconteceu
- tem certeza?
- tenho sim, tchau
- até!
- até mais!
Mariana não tinha nenhum amigo para rever. Caminhou até o parque, sentou e teve uma lembrança, lembrou-se de um velho. Ele -- (o velho do banco) -- disse que ela, um dia, receberia uma notícia estúpida e debochou dela, quando tinha falado que queria ser escritora. Não lembrava o rosto do velho do banco, só conseguia relembrar o tom de voz rouco e as mãos debilitadas do homem. Era um velho sozinho, precisava conversar com qualquer um, ela era uma alma disposta a ouvir. Mariana ouviu o velho do banco.
Daniel reativou a memória da infância, lembrou-se de Mariana.  Eles não eram mais amigos. Daniel -- (o moço confuso) -- não conhecia mais os livros favoritos dela, não sabia mais os interesses que ela guardava como futuro. O que será que tinha acontecido com Mariana? Esse moço confuso despreocupou-se, estava autocentrado demais com suas angústias. Era uma ilha de emoções fortes. Caminhando até o parque, viu Mariana perplexa e sentou ao lado dela.
- você está aqui? – disse Daniel
- era pra eu ter fugido – respondeu Mariana
- não fugiu?
- Daniel, você para mim era um mito
- o meu pai pra mim era um monstro
- isso tem alguma relação?
- acho que sim. Acho que os monstros e os mitos são mais parecidos do que a gente imagina. Ou não. – Daniel riu.
- eu sempre achei de péssimo gosto os heróis
- você é uma garota estranha, Mari – Daniel sorriu
- sempre achei. Não ri de mim. Eu sempre achei de péssimo gosto os heróis, eu tenho uma teoria. Uma teoria que criei vendo Kill Bill
- pode contar
- o herói aristotélico é caracterizado por realizar algo que ofende os deuses. Ele realiza o que chamamos de Hybris, eu acho, pelo menos, eu lembro assim. Então, Daniel, o raciocínio é o seguinte
- você pretende chegar em algum lugar com isso?
- pretendo; me escuta. Beatriz Kido cumpre a sua vingança, não é mesmo? Mas todos os heróis precisam de consciência.  Toda a consciência dos heróis trágicos é firmada na virtude. O que caracteriza o surgimento da Hybris é um ato de ignorância ou um ato de arrogância diante dos deuses ou do seu próprio destino. Algo que passa da medida; um desequilíbrio.
- os heróis montam uma tradição? – disse Daniel
- montam sim.  Mas um herói, para Tarantino, é o equivalente a um assassino. Me recordo sempre de uma música do Tom Zé, uma pergunta que aparece: “com quantas mortes no peito se faz uma tradição?”. Um herói e um assassino é a mesma coia. Por isso que eu sempre falo pro Jô; Joaquim é o meu melhor amigo, ele é um louco, mas ele é meu amigo; eu sempre falo pra ele que se densa a vida também com lacunas
- bom, é de péssimo gosto mesmo um herói. Eles matam muito gente em nome de uma tradição
- os assassinos também, entende? No caso do filme Kill Bill, Kido mata o Bill. Os heróis precisam de alter ego, não é mesmo? O Peter Park é o alter ego do Homem Aranha.  O alter ego do Bruce é o Batman. O alter ego do Clark Kent é o Superman. O alter ego de Clarience, do filme True Romance do Tarantino, é o Elvis Presley. Bom, eu te pergunto. Quem é o alter ego da Kido do Kill Bill?
- eu não sei
- bom, ela é uma heroína, ela segue uma tradição e tem todas as características de uma heroína. Mas, falta um alter ego, não é mesmo?
- bom, não faço a mínima ideia  do alter ego dela
- o Bill
- o Bill?
- isso, o filme é uma saga lunática para matar Bill. Mas é o Bill que ensina como matar ele próprio. Ou seja, você entende, que a grande sacada é essa! O filme Kill Bill é um assassinato do alter ego do herói
- O que isso tem a ver comigo?
- eu sempre achei de péssimo gosto os heróis, mas como eu não sou uma pessoa coerente. Eu sempre criei heróis, sempre cultivei mitos e sempre desejei que eles falassem o que eu devia fazer. Você é o Daniel, não é um homem qualquer, eu sempre fui apaixonada por você
- por mim?
- sim. Você é um homem feio, mas sempre me atraiu. Mas você também me chutou, não é mesmo?
- chutei sim
- você ficou na minha cabeça, acho que você sempre vai ficar. Eu sempre coloquei você em um patamar maior que eu. E te vendo de novo, eu não sei o que fazer, acho que ainda coloco você como um herói
- você me acha um arrogante, não?
- eu falo demais
- e fala pra mim que ainda é apaixonada por mim
- não por você
- não por mim?
- não! Eu sou apaixonada pela lembrança que eu tinha da gente
- mas a gente não é mais a gente de antes, Má
Mariana olhou Daniel. Ambos estavam perdidos. Mariana percebeu que não poderia retomar nenhum vínculo com esse rapaz, sentiu inconformada e abraçou Daniel como se ele morresse. Despediu-se e foi para casa.
Passaram dez anos. Daniel iria casar com outra mulher e seria pai. Caminhou até a antiga casa que eram dos pais de Mariana, estava ansioso para reencontrá-la, quando perguntou:
- onde está Mariana?
- você não ficou sabendo, Daniel?
- o que?
- ela foi atropelada quando voltava do trabalho, ela sempre andou distraída com as coisas
- quando que foi isso?
- já faz dois meses

Daniel sentou-se no mesmo banco que reencontrou Mariana. Sentiu que algo tinha sido perdido para sempre. Casou duas semanas depois, nunca mais procurou vestígios concretos de sua velha desconhecida. Mariana era uma presença minguante, bagunçava seus medos e lhe deu uma noção de efemeridade das coisas. Daniel sentiu medo de perder as coisas preciosas, sentiu vontade de ligar para todos os seus amigos, ficou perplexo. Ele se sentiu como um homem banal e teve medo da solidão. Esse moço confuso nunca se recuperou, quando voltou para casa, foi assaltado andando na rua e dormiu numa cama como um homem banal. Acordou como um homem banal, casou-se como um homem banal, teve filhos como homem banal, divorciou-se como um homem banal.  E anônimo, entristeceu como uma figura impossível. 

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Conversas imprecisas

Paramos no primeiro bar que encontramos no caminho. Eu e Mariana não tínhamos lugar secreto; caminhar e caminhar pelas ruas era a nossa maneira de nos escondermos do mundo. Não nos conhecíamos desde a infância, ela era uma garota banal. Eu também sou apenas um cara banal. Ela estava mais calada do que de costume, eu estava com fome e sentei na primeira mesa que encontrei. Mariana tinha olhos esguios, castanhos fortes. Às vezes, os olhos castanhos de Mariana traíam suas intenções e revelavam suas angústias com profundidade. Era uma garota encantadora, traidora dela mesma, ambígua e um tanto carente.
Mesmo assim, eu gostava dela. Me apaixonei perdidamente por todas as mulheres que já foram minhas amigas. De todas, a única que consolidei uma relação densa e singular foi com Mariana. Sentiria saudades dela, se acaso acontecesse alguma coisa que fizesse a gente se desencontrar, eu confesso que sentiria saudades de Mariana. Mas, as coisas não duram para sempre. Seria ingênuo, eu acreditar que teria Mariana sempre ao meu lado. Enquanto, ela estiver aqui, me sinto bem, Mariana sempre foi uma boa amiga para quem eu revelo assuntos tristes e angustiosos.
A nossa relação sempre foi marcada por grandes desencontros. Ela podia ficar sem falar comigo dois, três até cinco anos. Mariana não me procurava, não me ligava para perguntar como eu estava. Eu não a procurava, não sentia interesse de saber quem ela namorava ou fugia (Mariana passava mais tempo fugindo de relacionamentos amorosos). A gente, às vezes, passava meses sem conversar, quando nos encontrávamos era sempre para trocar informações banais sobre filmes, literatura, quadrinhos e dúvidas que acontecia com as nossas vidas. Ela sempre me dizia que eu tinha talento para encontrar mulheres problemáticas. Mariana não me exigia; em troca, eu também não a exigia.
- eu uso você pra não ficar sozinha e carente; e você me usa nos seus filmes, combinado, Joaquim? – dizia Mariana sorridente
Eu balançava a cabeça concordando, sempre quando ela me dizia essa frase, ríamos porque a gente sabia que havia algo verdadeiro nela. Mesmo assim, nos mantínhamos. Hoje, essa minha amiga inquieta estava muito calada, não era costumeiro esse comportamento de silêncio.  (Isso merece uma digressão: há três silêncios em Mariana: o primeiro é o silêncio do Daniel, quando ele passa, Mariana o admira, vendo a sua maneira de falar. É o silêncio de ver uma coisa que sabe que não é vista. O segundo é o silêncio inquieto de Mariana, os olhos castanhos divergem no ar, ela afunda em pensamentos contrários e perde-se para sempre. O último silêncio é esse de hoje, um silêncio oco, essa espécie de comportamento não é comum, é estranho).  Não era do feitio dela um silêncio tão profundo. Os olhos de Mariana corriam soltos pela sala, ela respirava grave, pentelhando os horizontes imensuráveis. Ela era, de fato, uma mulher bonita, mas demorou muito para perceber isso. A autocrítica dela era furiosa, às vezes, equivocada.
- que está acontecendo?
- muita coisa, não sei por onde começar
A minha comida tinha chegado, Mariana só pedira coca-cola. Eu pedi um hambúrguer com batatas fritas. Esse é um momento crucial, estava com fome, mas sempre media os meus atos. Havia dois momentos importantes para realizar o ato da alimentação; primeiramente, separava os tomates, -- (eu não gosto de tomates), -- deixando-lhes ao canto do prato; depois, eu mastigava as beiradas do hambúrguer, comia lentamente, concentrando-me no gosto, o recheio vinha aos poucos como uma surpresa; por último, tomava o guaraná e comia as batatas fritas. Mariana encarava meus atos, esperou a “dêxa” como uma atriz, esperando um momento acabar e iniciar outro novo acontecimento, Mariana preparou-se e disse:
- eu nunca tive métodos pra comer
- você não discute comigo sobre os canudinhos – eu provoquei
- eu não acho que isso é necessário, eu não ligo pra canudinhos
- bom, a Isa acha importante discutir comigo sobre isso. – dei a última mordida no hambúrguer e disse - Você não vai falar o que está acontecendo?
- vou – ela pausou um momento – , você cortou as unhas, jô?
- cortei, olha só, - eu mostrei minhas mãos – essa era minha novidade. Parei de tocar violão
- sério! Por que?
- disse pra você no telefone, eu entrei em crise, Má, eu não quero mais tocar instrumentos de cordas. As trastes! São as trastes que atrapalham os semitons.  A afinação é muito ruim!
Mariana riu, mas não era um riso de deboche. Ela podia ser tudo, mas nunca julgava ninguém, gostava de histórias estranhas e pessoas desconhecidas. Penso que ela gostava de coisas assim para escrever suas literaturas inacabáveis, a vida era como um laboratório artístico aos olhos de minha amiga inquieta. Acredito que viramos amigos por causa desse interesse estranho em comum, queríamos densar as nossas vidas, como ela gostava de dizer. Eu, na verdade, dizia simplesmente que o objetivo da minha vida era me divertir.
- reencontrei com Anita – Mariana olhou-me grave, - me decepcionei com ela. É tão estranho, você passar o resto de sua vida, querendo rever alguém. E ver se essa pessoa resolve todos os seus problemas. Mas não, ela não vai resolver nada. Ela é uma garota previsível; sonhos toscos e vontades comuns, sabe. Eu fiquei decepcionada com ela, esperava mais dela, esperava mais
- você espera demais, Má! Sabe, eu sei que vou mudar de assunto, depois você continua o raciocínio. Mas eu conheço e sei coisas sobre música, mas quando eu tento tocar na flauta, eu não consigo realizar. Eu me sinto um merda.
- tá aprendendo tocar flauta? Ah é! Você me contou no telefone? Como anda os estudos?
- agora, tô tendo tempo pra estudar, mas quando eu sei o que eu quero com a música e não consigo realizar. Eu acho tão frustrante. É tão frustrante!
- reencontros são tão desconfortantes – disse Mariana
- nem sempre, alguns são cômicos. Revi um colega da escola, ele estava correndo afoito e me disse, olhando pra mim, meio perdido. Pegou na minha mão, Má, e me disse: “eu vou ser pai”. Repetiu de novo, ainda mais afoito e perdido: “eu vou ser pai”
- ficou sabendo que aconteceu com Mau?
- ele sumiu, né! A última vez que vi ele foi no mês passado, ele passou na sua casa, né?
- passou, estava estranho. Ficou pálido quando eu disse que estava saindo com uma pessoa
- você ainda está saindo com Daniel ainda?
- ele também sumiu, falamos por telefone. Nunca mais soube notícias dele. Eu não sei, Jô, eu devia fazer alguma coisa, mas eu não sei o que fazer, estou muito perdida e um pouco cansada de tudo isso
- viver é boring, tentar encontrar um sentido oculto nas nossas ações, conhecer pessoas, criar vínculos. É tão cansativo! Mas eu não sei, a gente não tem muita opção
- que opção a gente tem? – perguntou-me curiosa
- a única é nos manter indo –  eu respondi impreciso
- já falei pra você da minha teoria sobre a Vani dos Normais 
- não me contou não
-  Joaquim, a Vani é uma mulher gostosa, sexy e tesuda, mas a aparência dela não condiz com a essência dela. Ela é uma mulher frustrada, porque ela se comporta como uma Beyoncé, mas não tem peitos e nem bunda, por isso, que a gente ri dela. Porque ela não é concretamente quem ela diz ser
- faz sentido – eu ri – ela é Beyoncé com corpo de Vani
- isso! Por exemplo, no filme Os normais 2 , não tem uma cena que ela está com vestido vermelho, atravessando o corredor do hospital, sensualizando total pra todos os médicos. A música de fundo é Me deixas louca na voz de Elis Regina. Você lembra dessa cena?
- lembro sim
- eu cheguei nessa teoria por causa dessa cena. Vani é uma heroína gostosa na essência, mas isso não é coerente com a aparência. Por isso, a gente ri dela. Vani é uma gostosa frustrada. Na verdade, a gente ri por causa dessa frustração. Eu adoro a Vani.
- bom, eu te disse – eu encarei os olhos da Mariana, - eu te disse que a gente só gosta de gente estranha
- não me coloca no meio do jogo, você que arruma mulheres problemáticas, você tem antena pra isso, Joaquim
- e você precisa se apaixonar, - ela encarou-me e eu reiterei o raciocínio -, eu não gosto, quando eu me sinto apaixonado e você não. Me sinto bêbado e sinto que você tá rindo de mim
Mariana não me respondeu, olhou-me confusa e disse:
- estou escrevendo novos contos
- sobre o que?
- sobre os desajustados, acho que vai ser os piores contos da minha vida
- você é engraçada, Mariana, quando você terminar, me dê, eu quero ler
- tudo bem, eu dou sim
Quando eu saí daquele bar, passei dois anos sem rever Mariana. Não sei como ela ficou. Eu estou triste, fiquei sozinho esses tempos. Estava apaixonado, mas levei um pé na bunda, Mariana conversou comigo ao telefone mês passado.
- que aconteceu? – perguntou Mariana
- Cândida sumiu, me deu um pé na bunda
- que aconteceu?
- eu não sei, acho que ela ficou com medo, sei lá, ela não me deu satisfação. Só sumiu, não atende nenhuma ligação minha
- Cândida era aquela menina que tinha síndrome do pânico, não gostava de sair de casa e era muda
- era ela sim, era uma menina tão linda, você ia gostar dela, Má. Ela sumiu
- todo mundo decepciona alguém, é normal que isso aconteça. Não é assim que você fala, talvez, ela seja uma pessoa que pode valer a pena sentir saudades
- eu falo sim, mas eu, agora, nesse momento, eu tô um pouco puto com ela, eu sei que vai passar. Mas ainda estou puto com ela

Essa foi o último diálogo que tive com minha amiga. Em todo caso, Mariana não era um reencontro desconfortante, era uma presença carinhosa que sempre me agradou. Eu não reencontrei Cândida, sinto saudades da presença silenciosa dela, foi uma pessoa que valeu a pena sentir saudades. Cândida foi uma lacuna. Mariana me disse que amores interrompidos são sempre furiosos e que a gente é preenchido também por lacunas. Entrei no último bar que conversamos, estava sozinho, comi um lanche. Não reencontrei ninguém. No bar, usando minha metodologia para comer um lanche, vi uma cena emocionante na minha frente, um homem abraçando outro homem, eram dois íntimos que não se viam por causa do curso do tempo. Pensei: “os reencontros em São Paulo são imprevisíveis”.