terça-feira, 27 de agosto de 2013

Entrevista com o Diabo

Eu nunca consegui descrever aquela figura. Em 1972, aquilo estava diante dos meus olhos, esperando algumas perguntas minhas e eu, em prontidão, talvez, querendo respostas. Estávamos sentados um diante do outro. Eu, com aquela sensação, estranha, de não saber o que perguntar, mesmo sentindo uma petulância irascível; afinal, um repórter que se preza precisa, antes de tudo, possuir um sentimento de ousadia. Todas as perguntas são idiotas. O repórter é a profissão mais idiota que essa sociedade inventou. Sendo idiota, me assumindo assim, eis a minha maior coragem, afinal o repórter é um escritor medíocre que não conseguiu escrever o grande romance. Morreu antes de escrever as primeiras linhas, terminou com perguntas bobas, esperando respostas que não teve coragem de responder por si mesmo.
- o que você pensa do mundo? – perguntei com uma frieza falsa
Houve um tempo de respiração. A sala estava vazia. Então, depois de cinco minutos silenciosos, houve o tempo de fala daquela figura:
- é uma piada de Deus, onde estão andando pessoas medíocres e, facilmente, imitáveis, com sonhos tolos e noções ridículas da natureza. O mundo é um parque de diversões, eu rio demais com as imbecilidades que as pessoas diz. Pô cara, a gente tem três caminhos: 1º) entrar na guerra; 2º) entrar na floresta proibida; 3º) um mergulho no labirinto.
- como são esses três caminhos?
- todos são caminhos sem volta. Todos terminam na morte física. Os homens possuem isso, morrem. Assim, sofrem menos – (ele olhou para baixo, os olhos tristes pareciam fundos), - os imortais sofrem mais, eles conhecem as leis e as regras da natureza, joga o jogo e, às vezes, ultrapassam a natureza.
O mundo aparente é a guerra, onde existem guerreiros cansados, guerreiros preguiçosos e bons guerreiros. Os bons sempre morrem antes. Os preguiçosos têm um monte de truque de cartas, normalmente, vivem nos botecos e jogam truco ao invés de lutar contra os imperadores. Eles se divertem na guerra, são pessoas divertidas. Os medíocres estão cansados, hoje, estão sem saber de nada, não encontram sentido no mundo; eles precisam de explicações, precisam de líderes e decoram livros.
A floresta proibida é também divertida, existem belos e esquisitos animais. Alguns adolescentes entram nela porque se apaixonam pelas fadas e os elfos. Conheço poucos humanos que se transformaram em fadas e elfos, são pessoas difíceis e com temperamentos complicados. Aah! A beleza! Eu adoro a beleza, ela é perigosa e sedutora, eu gosto de trepar com fadas e elfos, esses desgraçados sempre fazem que eu me apaixone por eles. Os duendes é que são criaturas terríveis e escrotas, roubam e são feios, sujos e fedidos; mas, até que conseguem serem bons amigos, é sempre bom ter um amigo assim. Os duendes são baixinhos, entram em todos os lugares, entende, são criaturinhas feinhas, mas são simpáticas e verdadeiras.
O labirinto é lugar de preservação de sentimentos profundos. Não conheço pessoas que moram lá. Só sei que que quem entraram lá, não voltaram, são criaturas que não são criaturas, são profundos e a tristeza e a angústia lá têm outro nome, entende. Os adolescentes que entra lá, não volta e ganha outra aparência, sonha outros sonhos, conhecem outro amor.  Normalmente, os medíocres permanecem na guerra, mas tem gente que consegue se divertir jogando truco e enchendo a cara.
- o que é a memória?
- Isso é uma pergunta bonita. Existem poetas que fazem da memória o fruto de suas artes, consequentemente, o fruto de sua pobreza. O mundo de guerra é mundo de conservação de miséria e pobreza. A memória é feita em diálogos entre pessoas que querem inventar o presente. O passado é uma narrativa inventada. Somos todos meio que poetas da nossa vida, na verdade, não são todos, são aqueles que conseguem e querem ser idiotas a vida inteira. O inferno são dos idiotas.
- os poetas são importantes?
- pra guerra não, na guerra os poetas morrem fácil fácil. Não são todos que sabem segurar uma arma e matar. Apesar que a poesia tem um pouco de morte. Um bom poeta é um assassino em potencial. O poeta sempre flerta com a morte, mas essa sedução é idiota, porque o poeta sempre perde. Sempre! Enfim, eu gosto dos poetas, são criaturas únicas. Pena! Que são poucos e que também vão embora rápido. Vão embora, porque os poetas, na verdade, são criaturas fracassadas, queriam namorar elfos e fadas, não conseguiu; queriam conhecer o labirinto e inventam poesias pra tentar representar esse tal sonho, mas nunca chegaram nem perto disso; eles são criaturas que não conseguem e, aí, correm atrás de mecenas pra bancar, né, os seus poemas. É pra isto que eu existo, banco os poetas, eles fazem pacto comigo.
- o que você é?
Ele olhou para mim, riu com uma malícia sedutora, estava tão bonito. Ri de volta.
- repórteres são burros, a burrice é a melhor inocência. Afinal, só vocês pode fazer essas perguntas estúpidas e tão bobas. Vocês, repórteres burros, são parecidos com os atores, os melhores são absolutamente toscos de tão bons, são tão humildes que até eu fico emocionado. – (ele soltou um som de riso, gostoso, e eu ri também) – O que eu sou, querido? Eu sou o mecenas dos poetas, o cafetão das putas, o cara que sempre está nos botecos, o verdadeiro rebelde, eu sou apaixonado pela beleza, eu amo homens imbecis, porque sempre pagam a conta do boteco, eu sou o cara que fode todo mundo, porque todos imitam porcamente a natureza, ninguém se usa dela. Eu sou o ser inimitável, porque ultrapasso a natureza. Eu sou o diabo.
- eu estou fazendo uma entrevista com o Diabo
- constatação óbvia que só os repórteres consegue fazer! Meu querido, pergunta pra mim o que todos querem perguntar pra Deus.
Eu fiquei com medo, passei os dois minutos mais longos da minha vida. Afinal, estava diante da figura mais popular do mundo. A figura que se rebelou contra Deus. Poderia fazer a pergunta que toda a humanidade gostaria de fazer, então, olhei fundo dos olhos e, com uma petulância tímida, fiz a pergunta:
- como é o Deus?
O Diabo gargalhou. Riu de mim como se eu fosse um idiota, afinal, só um completo idiota teria a coragem de fazer uma pergunta tão estúpida. Ele me respondeu:
- Deus não imita ninguém, nem quer ser imitado. Ele está no silêncio, mas se você for buscar o silêncio para encontrar ele, você não vai achar. Ele está nas árvores, mas se você procurar as árvores para encontrar ele, não vai encontrar. Ele está nos botecos, mas se você se perder para encontrar ele, você não vai encontrar. Ele está em muitos lugares e não está em nenhum desses lugares. Ele não é uma figura, ele não é parecido com ninguém, como eu, não sou parecido com ninguém. Sou o que os outros fizeram de mim. Nós dois precisamos um do outro para existir, eu adoro beber com ele. Ele é uma figura engraçada, ótimo humorista, quase um palhaço e é um bailarino engraçadíssimo. Ele se parece com uma criança. Aliás, ele adora crianças.
- como é que você quer terminar essa entrevista?
- vamos fazer um pacto, meu querido, eu quero fazer um pacto com a burrice dos jornalistas. Afinal, os poetas daqui alguns anos vão estar fora de moda. Se você topar, meu querido, eu te levo até o labirinto.
Naquele dia, em 1972, eu fiz um pacto com o diabo. Ele prometeu que iria apresentar o labirinto para mim. Não conheci o labirinto. Depois, perguntei a ele porque tinha feito essa promessa para mim. O Diabo me respondeu: “eu menti pra você”. Eu fiquei muito nervoso, acabei me tornando poeta. Mas, depois de quarenta anos, a poesia ficou fora de moda. Morri pobre com dois livros de poesia publicados e uma entrevista com o diabo que me deixou famoso por uns tempos. Namorei duas fadas e fiquei apaixonado, perdidamente, por um elfo. Tive um filho que morreu jovem na guerra. Eu virei poeta.


domingo, 25 de agosto de 2013

Ensaios sobre Amor: O estranho desaparecimento do Belo

Ele não conhecia nenhuma garota, saia de casa sempre às seis horas da tarde e dormia exatamente às dez da noite. Certo dia, ele conheceu Alessandro, era um mulherengo, dormia com muitas garotas e, sabe-se lá por que motivo, esse rapaz gostou do tímido Gabriel. Eles se conheceram em um sábado, exatamente umas seis e três da tarde.
- o que você está fazendo?
- nada. Caminhando
No dia seguinte.
- o que você está fazendo?
- nada. Caminhando
Na semana seguinte, Alessandro paquerava uma menina bonita, mas quando viu o mesmo rapaz atravessar a rua, agiu da mesma forma e até se esqueceu da mulher que estava ao seu lado.
- o que você está fazendo?
- nada. Só caminhando

Alessandro ficou ensimesmado. Porém, não sabia como fazer a aproximação com o tímido Gabriel, a curiosidade foi abatendo o seu íntimo, queria conhecer a história desse rapaz. Até onde Alessandro observava, Gabriel lhe parecia mais jovem que ele e muito distraído, não parecia ter muito jeito com as coisas, andava desengonçado, mas chamava atenção por todos que estavam na mesma rua.
De repente, Gabriel parou de andar e viu uma moça exuberante atravessar o caminho, era uma mulher que tinha cabelos longos, peitos fartos e usava minissaia. Alessandro percebeu que o olhar do rapaz tímido mudou radicalmente, permaneceu sentado para observar qual seria o próximo passo dele. Nada aconteceu, Gabriel viu a mulher passar e, no olhar, tinha uma expressão de tristeza, parecia que o horizonte estava mais longe que aparentava, os limites tendiam ao infinito. Ele se sentou sobre o chão.
- o que você está fazendo? – perguntou Alessandro
- olhando a Beleza que passa – respondeu Gabriel
- e por que não vai atrás dessa mulher?
- porque prefiro sentar aqui
- o que tem aqui?
- tem você – Gabriel mostrou os dentes timidamente
Alessandro riu, tinha esquecido que sentia atração por mulheres. Olharam-se muitas horas, perderam algumas noções de espaço e esqueceu que era quarta-feira.

Na semana seguinte, Alessandro sentou no mesmo lugar que o Gabriel. Esperou, mas ele não apareceu. Andou até o lugar que tinha passado a mulher bonita, mas não encontrou o tímido rapaz. Perguntou para uma senhora com roupa rosa, ela respondeu: “não vi nenhum menino assim”. Ele procurou por todos os lugares, perguntou para moça que paquerava na última quarta-feira, essa menina respondeu: “que menino? Você não estava sozinho?”.
Alessandro ficou com dúvida, se, de fato, ele tinha conhecido aquele rapaz tímido. Se não era uma espécie de ilusão criada na cabeça. Perguntou para o moço que vendia sorvete: “ licença, você viu um rapaz tímido, usando roupa azul e com um bigodinho discreto, ele falava esquisito e tinha sotaque que não era de São Paulo?” O homem respondeu: “não vi ninguém assim”. Alessandro parou subidamente no meio do caminho, voltou ao lugar que tinha sentado antes. Olhou para o céu, então, lembrou-se que tinha o telefone do Gabriel.
Fez o telefonema, a senhora que atendeu disse: “esse rapaz não mora aqui não”. Alessandro tossiu e empalideceu. Ele se lembrou das palavras do tímido Gabriel: “estou olhando a Beleza que passa”, pensou no sorriso bobo dele, sentiu saudades. O que tinha acontecido com aquele rapaz? Passaram duas horas, Alessandro não entendia. Não conseguiu encontrar evidências para solucionar o misterioso desaparecimento do rapaz tímido.
Quando ele atravessou a rua para ir à sua casa, encontrou uma pulseira. Gabriel tinha sido atropelado por um caminhão. Estava uma grande confusão em volta dele, Alessandro se lembrou da última frase que Gabriel tinha falado: “estou olhando a beleza que passa”. Ele, um homem alto, cabelos pretos e olhos confusos, olhou a morte de perto e pensou: “estou olhando a beleza morrer”.

No IML, um corpo de baixa estatura, com um bigodinho discreto e olhos sonhadores estava esquecido. Duas semanas depois ninguém foi procurar por esse corpo. Alessandro perguntou por Gabriel, a moça de vinte anos que atendeu, disse que tinha um corpo que podia ter essas características lá. Alessandro mentiu, disse que era irmão e que queria procurar o corpo, pois havia sumido por duas semanas. 
- é esse daqui – A moça mostrou o último corpo
Ele olhou, respirou fundo e pensou: “estou olhando a beleza morta”.
- é sim – tentou engolir o choro.
- quando tempo ele está aqui?
- duas semanas


Na quarta-feira, Alessandro paquerou uma garota. Dormiu com essa menina, olhou os olhos da garota e só conseguia lembrar a frase do tímido Gabriel: “estou olhando a beleza que passa”. Marcela que tinha uma vitalidade no olhar, percebeu que Alessandro estava distante e perguntou:

- o que você tem?
- eu não esqueço
- você não esquece alguém?
- sim – Alessandro respirou profundamente -, era alguém que tinha um sorriso muito bonito
- o que aconteceu?
- sumiu – Alessandro virou de lado e olhou para menina, ele tinha olhos confusos -,  Má, será que eu criei uma imagem na minha cabeça? Será que a gente inventa imagens de beleza?
- que que você tá querendo dizer?
- acho que me apaixonei por uma imagem, mas não tenho certeza se ela existe, não sei se aquele rapaz que eu vi na rua, foi fruto na minha imaginação, se foi sonho ou se foi delírio. Agora, agora, agora. Ele sumiu
- por que você não correu atrás?
- aí que está – suspiro longo – eu fui atrás dele em todos os lugares, eu liguei para casa dele. Foi uma senhora com uma voz horrorosa e brava que me atendeu e me disse: ‘não tem ninguém com esse nome que mora aqui’. De repente, voltando para casa, eu encontrei uma pulseira, Má, essa pulseira aqui – ele mostra o seu pulso – você vê! Essa pulseira é real, eu estou usando ela
- então, esse menino existiu
- será? Má, eu encontrei ele morto em uma calçada, ele apareceu como uma faísca e com tanta vitalidade e tanta energia, sumiu com pressa e hoje, agora, eu aqui, não consigo esquecer, não sei se isso foi produção minha, se fui eu quem produziu ele, não sei se ele já estava morto ou se não era para encostar naquela pessoa?
- Lê, parece que você não está falando coisa com coisa
- Má, – acariciou os cabelos dela – você acha que é possível a gente vivenciar coisas e não ter certeza sobre as suas próprias vivências?
- como assim?
- Má, eu procurei esse rapaz por tudo que é canto, eu menti pra encontrar esse rapaz, eu fui na puta que pariu, quando eu encontrei, ele estava morto. Mas, no IML, esse rapaz estava morto já fazia duas semanas, será que ele tinha morrido atropelado mesmo? Será que eu inventei esse rapaz? Será, Má, que eu estou inventando tudo isso pra te contar essas coisas?
- Lê, você tá meio aflito, não é
- Má, será que eu inventei – ele para subitamente, parece que ele não tem coragem de dizer -, será que as coisas que eu senti perto desse rapaz foram mentiras? Será que eu inventei tudo isso?

Passaram cinco anos, Alessandro casou com Maurício, um rapaz menos bonito que Gabriel, mais extrovertido, mais normal. Alessandro reencontrou a Marcela, ela perguntou:

- como você está?
- eu estou bem – respirou – mas, ainda não esqueço, Má
- o que você não esquece?

- Má, eu não esqueço a beleza que eu vi morrer 

sábado, 10 de agosto de 2013

Bossa Nova e Rock n’ roll: Observações sobre evoluções desprecisas de uma história


Ao Monteiro, 
quem me ensinou ouvir rock n' roll
com quem bebi meu primeiro gole de uísque 
quem me contou muitas histórias 
um bom amigo! 

Nada é tão precioso a ponto de ser eterno. As boas músicas efemerizam a nossa realidade e eternizam as nossas memórias; quando menina ouvia Toquinho, Elis e Vinicius mais do que bebia água. Aprendi a tocar violão, porque gostava de blues e imitar os acordes difíceis da bossa nova. Ouvia rock, mas não me cabia qual era o motivo, a chama subversiva não me contagiava. (Desde cedo, eu saquei que artista não tem que agradar, os melhores iam em direção contrária do sentido imposto).
Mas houve uma mudança tão profunda em mim, conheci um moço gordo de olhos azuis e melancólicos, um vagabundo, um indivíduo típico de histórias norte-americanas, que bebe mais conhaque do que água. Ele ouve emaranhados de Engenheiros do Hawai como se as canções fossem dele, contagiou-me com um certa efusão de tristeza que já tinha me esquecido, transformando os meus ideais em litros de cenas alegremente depressivas, todos os gritos reprimidos foram soltos na pinga e no rock.
- bruninha, o rock salvou minha alma, mas estragou o meu corpo! – e com uma risada rouca reiterava – e o que cê acha do bota fogo?
Por trás de tantos risos, a fumaça esvaziava um olhar doce, evidenciando um caminho tão longo que lhe dava licença de utilizar tantas palavras dionisíacas. Não era um amigo que se cria um vínculo eterno, logo desvincularia por completo. Seria rapidamente órfã dele assim como fui com a Amanda, a Tais e a Clarice. No final, teria que saltar os muros impostos com minhas próprias pernas e acobertada com seu rock n’ roll, o sangue contínuo de suas palavras.
- eu era tão bossa nova que tinha me esquecido do rock, - confessava ao meu amigo
- eu tenho uma teoria da bossa nova, às vezes é bom ficar no violão e no banquinho, mas depois eu volto pro rock and roll pra botar os pés no chão –  tragando outro cigarro malboro inexpressivo.
Acho que durante muito tempo, perdi-me em mim. Influenciada demais por minha bela subjetividade, muito mulherzinha, viciada demais com tantos intelectualismos, sem gritos, sem inquietudes pra fora, sem sexo, sem porres, estava demais sóbria. Com tanto equilíbrio, tinha me esquecido das minhas metamorfoses, precisava inventar o amor, precisava inventar um drama. O mundo estava inexplicável de novo, os sentimentos voltavam com rangidos finos de guitarra, a rebeldia contagiava-me, agora podia assumir um pouco de poesia. O rock tinha me salvado! Me colocou de novo no chão tão bossa nova, uma alma contaminada por muito intelectualismo.
- bruninha, eu não quero que te falar o que eu sei, não quero que você se torne eu, porque eu vou embora, então não sou seu exemplo. Sou um herói errado, nem tenho o corpo de dezoito mais, sou gordo e perto da morte.

  

domingo, 4 de agosto de 2013

Sedução

Dois olhos negros olham duas mãozinhas trêmulas. Nenhum dos dois recorda como começa um papo. Eu podia citar Spinoza, Engel e Hegel, posso até falar dos meus últimos trabalhos como pianista, será que eu chamo atenção dela? A mocinha não abre a boca, o que será que está passando na cabeça dela? Podia tentar adivinhar o pensamento? É! Assim, ela vai pensar que eu sou cara certo pra ela...
- a gente vai tomar cerveja? – disse ela
- sim, alguma preferência?
- pra mim tanto faz
Ela está tão bonita. O que será que ela quer comigo? Poxa!
- E então... e as suas canções?
- pois é, preciso mostrar pra você
Ela começa o papo e fica em silêncio. Esses olhos que olham trigueiros para a mesa, o chão e o céu. O que eles esperam do mundo? Queria tanto essa boca! O que será que ela está falando? Deve ser algum enigma, estou um pouco tonto com ela aqui. Essa menina pode falar palavrões terríveis na hora da cama, mas é apaziguado quando saem dessa voz doce. De novo. Ela ficou em silêncio. Vou ver se consigo adivinhá-la.
- Você tem, como chama mesmo?, acho que é complexo de alguma coisa, sabe?
- não sei. Do que você tá falando?
- Poxa, tem um livro, o Freud fala disso, é, como é o nome mesmo?
- complexo de Édipo
- Isso. Você tem Complexo de Édipo? Por isso, esse receio em assumir compromissos longos, os homens te assustam um pouco
Ela apenas balança a cabeça concordando.
- Tá bom! Tá bom! Vou parar de ler os seus pensamentos


Ler os meus pensamentos. Cada coisa! Será que esse cara não vai me levar pra algum lugar? A gente vai ficar aqui jogando conversa fora. Aí que vontade de não fazer nada!
- adivinhei o que você tava pensando
- uhum

Nunca vou entender. Caramba! Será que isso é coisa só de homens? Será que é só insegurança do primeiro encontro? Por que ele quer desvendar o mistério que existe dentro de mim? Não existe nada além. Só existe isso. Será que não é um misticismo que jogam nas mulheres, uma espécie de invenção dos mitos na sociedade. Eu não quero um homem que adivinhe os meus pensamentos, quero alguém que é tão banal quanto eu. No final das contas, o que existe é só uma pessoa, não quero que me transformem em musa. Elas (as musas) falam em enigmas, eu falo português, as musas trazem o passado sedutor e atraem os viajantes com as suas vozes. Eu gosto mais de ouvir do que falar, não sei cantar também. Só quero mesmo que ele me leve pra cama e a gente namore bastante, afinal, é um modo de escapar do tédio que é morar nessa cidade. Que vontade de falar pra ele que, em mim, não há mistério nenhum. Lá vai ele abrindo a boca. 

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Vexame

Os fantasmas são invisíveis. Procuro, às vezes, fiapos dessa pessoa no meu pensamento, a natureza da paixão é afetar o presente. A presença dos olhos que um dia acariciou o meu ego, não existe mais, guardo mágoas. Foi uma pessoa que apareceu nas aparências de outras pessoas. Não esqueço as marcas da minha alma, (o ódio é sempre a busca por uma das formas de amor).
Ame uma lembrança, passa, então, uma vida inteira amarrada por ilusões e nostalgias de um tempo que nem era tão bom. A infância marca momentos, somos crianças até os nossos cem anos, - eis a força do verbo “foi”; eis a presença da irregularidade do verbo ser. Vexame de tempo que causa a mim toda a vez que te encontro, não o amo e nem o odeio. Apenas, enxergo que o seu fantasma é imprescindível ao meu caráter e a força do apesar de não é suficiente para fazer minha vida separar-se completamente da sua ausência.
Não amo mais a sua pessoa, o vexame é o verbo amar na própria busca de conhecimento humano. Passo a te odiar, afetando o meu passado para acontecimentos ruins; passo a te amar, afetando o meu passado para acontecimentos magníficos. A imagem desse fantasma é inaparente, portanto, preencho com todas as possibilidades do mundo, inclusive sobreponho minhas incongruências de caráter para, na verdade, definir a mim mesmo. O vexame é esse: nosso amor foi uma história contada somente por uma pessoa ao bel prazer e semelhança, como um Deus, invento um amor e elejo como o melhor de todos. Me impedindo, seriamente, de viver todos os outros que existem no mundo.

Os fantasmas são invisíveis, não os olho, não conheço as cores deles, não sei se eles conhecem a natureza ridícula da figura humana. Amo-os por conta da natureza misteriosa e estranha que provoca a mim; ridicularizo-os por conta da minha natureza selvagem de negar que eles são uma invenção de algo que não consegui me livrar. Meu passado assombra minha porta, um vexame que inaugura um dado real, a não realização e negação da minha presença sentimental (não puramente racional) em vários momentos da vida. A figura completa de um ser muito mal resolvido na vida diante da sua total falta de entendimento da natureza selvagem que esconde e do seu próprio passado que parece não ter vivido intensamente. O tempo é invisível demais aos nossos olhos. 

Um homem sem sobrenome

I

Olhar de seriedade. Às cinco e meia da tarde... Ele olha, ela não tem certeza. Eu como os restos de amendoim sobre a mesa, nenhuma leitura me fez ter ideia correta de uma possível felicidade nesse mundo (quem sabe ela existe em outros planetas?). Aí! – respiro fundo – como seria bom ter um amozinho pra acordar. Cinco e trinta um. O sol perde a cor; a sombra engrandece timidamente. O olhar de seriedade some, o casal na minha frente se entrega ao um beijo profundo. Paro de observá-los.
Meu olhar de vazio enxerga pouco. A fumaça do homem bigodudo inebria o ar, me recordo de uma definição de felicidade em um conto que eu li. Certamente, era de um amigo carioca. Ao fundo, uma música bem sugestiva: “rompi tratados, traí os ritos/ quebrei a lança/ lancei no espaço/ um grito, um desabafo” [Sangue Latino. Ney Matogrosso] . O meu vazio encontra um pouco de música para preencher, a vida sem música não tem a menor graça. Pode faltar pintores, peças de teatro, livros e poesias, mas a música! Não. 
Um homem se aproxima, eu cumprimento. Ele me pergunta se eu tenho fogo, acendo o cigarro dele com um isqueiro. Nós começamos a papear, eu não falo muito, deixo que o homem sem sobrenome faça o seu discurso.  O homem é professor de história, fala um pouco da época de 1964, outro pouco da traição de Lula, outro pouco nas mortes que viu quando os tios, militantes do PT, morreram para construir o partido que hoje está no poder. Um rapaz de dezoito anos se aproxima e diz:
- “agora, com gente jovem no PT, as coisas vão mudar. Eu vou ajudar a fazer um novo PT”.
-  “ Cala a boca! Lave essa boca pra falar no PT, você não sabe o que significa o PT, você não sabe o que é ver um amigo seu levar um tiro por causa desse maldito partido. Você não sabe nada”
- “ mas...”
- “ O PT me traiu, traiu os seus mortos quando subiu ao poder. Você não sabe nada.”
- “ dá pra mudar...”
- “ Cala boca! Lave essa boca pra falar desse partido, os nossos mortos estão sepultados pra história”
- “eu...”
-“ vai tomar no cú!, sai daqui!”
O rapaz saiu nervoso, batendo o pé nas cadeiras da frente. O homem jogou um copo plástico perto da cabeça dele, então o outro, também nervoso, reagiu: “seu velho... vá pra puta que pariu! ”. O homem sem sobrenome olhou pra mim, algumas lágrimas adornavam os cílios e perguntou:
- “ você tem mais fogo?”
- “tenho”
Acendi. Ele tragou e saiu cambaleando até o banheiro. Eu não tinha o que falar; o que eu poderia falar? Fiquei silenciosa. O meu silêncio é trevas escondidas que desconheço, não sei exatamente o que pode resultar nesses demônios que não gostamos de cutucar, acostumam-se no escuro e sonham com a claridade mais fresca, serão violentos quando o sol iluminar os olhos acostumados com a sombra. O silêncio virou, a pouquíssimos segundos atrás, o meu melhor amigo. 

II

Depois, a noite ganhou corpo. As pessoas que se acostumaram viver nela, foram encontrando as posições nesse espaço, estavam preparadas para o encontro. Eu, acostumada com o não, me perguntei qual era a hora do sim? Uma moça sentou ao lado da minha mesa e falou:
- “ você sempre vem aqui”
- “sempre”
-“ fica aí olhando, está esperando alguém”
- “não, estou olhando o tempo”
-“ tá um calorzinho bom, né! Você não é daqui né!”
- “ sou sim”
- “ mas e esse sutaque?”
-“ é inventado. Me conte, você está com o seu namorado?”
- “ estou, ele tá no banheiro. Era um rapaz que tava conversando com você, pediu fogo e tudo, sabe?”
- “ Ah sei!..”
O homem sem sobrenome voltou com óculos escuros, começou a brigar com a moça. Ela pediu desculpas e também saiu nervosa. Sete e vinte e cinco. E hoje, já vi duas brigas com esse mesmo homem. Um olhar doce fita meus olhos, não respondo, ofereço outro cigarro.
- “acho que acabamos esse namoro, menina fresca! Você é bem calada. É melhor, quem fala demais, acaba falando besteira. Sabe como você consegue respeito, sabendo pouco e sendo burro. Mediano o suficiente para não se destacar em público! Pessoas originais demais é sempre um peso. Um peso pra sociedade. Um peso pros apáticos. Um peso pra ela própria. Eu sei que sou um peso, minhas palavras são rancorosas. ‘Todo poema tem os seus lobos’. Essa menina que eu tava comendo, não ia suportar ficar comigo mais um dia, é até melhor pra ela. O sonho dela é ser digna. Ela ainda não descobriu que a dignidade é a maior ilusão da sociedade, é um conto de fantasia, o demônio sempre pega na nossa mão”
- “você tá precisando de alguma coisa?” – eu fiz uma pergunta idiota, ele não estava precisando de nada. Era alguém querendo falar.
- “ eu sou um merda, você é um merda porque não fala o que sente e esses merdas controlam a nossa sociedade, porque merdas como você não quer abrir a boca. Quer ficar aí, calado, respirando a podridão dos outros”

Onze horas. Nós engolimos um pouco de saliva, eu ia dormir culpada e perdida. Se não tivesse uma insônia e uma vontade iminente indefinível que saia na garganta e dominava minhas pernas. Pensei em matar, mas, em seguida, conclui que era uma atitude que jamais faria, era covarde demais para tirar a minha vida, no entanto, covarde demais para viver sem constrangimentos. 

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Um dedo de papo e nada mais

- Não se estranhe muito diante do espelho. O outro só responde a uma pergunta que a gente, primeiro, precisa a aprender perguntar pra gente mesmo. Por que as palavras certas nunca aparecem nos momentos mais coerentes? Acho que, naturalmente, o homem sente uma inclinação para comédia, manias de incongruências! Se eu conversasse com um terapeuta hoje, provavelmente, ele falaria conclusões óbvias que cheguei nesses dias numa conversa com um qualquer que conheci em um ônibus
- o que você anda sentindo?
- minha menstruação tá atrasada duas semanas, não tive coragem de assinar um documento que vai mudar a minha vida e, muito menos, me esqueci de dizer pras pessoas que esses dias as coisas estão com gosto muito forte. Eu estou triste.
- que documento é esse?
- não quero falar sobre isso, quero falar sobre outra coisa
(pausa longa)
- esses dias, assisti um filme sobre psicólogos, descobri que o paciente é que conduz a terapia e ele mesmo que encontra as respostas para suas feridas
- mas é claro! As pessoas guardam as respostas dentro dela, é uma questão de aprender a se ouvir
-  não tenho resposta e nem pergunta. Só ensaios de perguntas, não sei, meu amigo
- que pergunta é essa?
- é uma pergunta que tem a ver com fome
- comida?
- sim. Eu estou com fome, algo que anda matando minha vitalidade, minha existência e anda me fazendo menos humana. Tenho sido mais egoísta, sentindo mais medo, falando muito pouco e tagarelando demais. Não ando me alimentando direito
- o que você gosta de comer?
- não sei, ultimamente, não sei nem qual é o tipo de ovo que eu gosto, conheço de todos, menos o meu. Gostava de ovos com batatas, aqueles que a minha mãe sabe fazer
- é bom?
- é ótimo, é talvez a única coisa que faço e não me faz passar fome
- mas a fome não é de sexo não? Não tá necessitada não?
- transei ontem com aquele homem que eu te falei. Lembra?
- lembro sim, aquele estranho pra caralho! Vem cá, você sabe dizer por que você sente atração por pessoas diferentes de você?
- talvez, paixão e inveja estejam relacionadas, talvez, é mania de perfeição. A gente deseja aquele outro que justamente te opõe por completo, e não necessariamente vai te fazer mais satisfeita, mas
- mas te dá prazer?
- muito! E aumenta minha fome
- mas que fome é essa, minha querida?
- acho que é fome de existir, não, pera! Acho que é fome de inventar. Querido, não basta o que eu vivo, não basta, é demais, é demais. O que você acha?
- isso que você está sentindo se chama: estar vivo
- e depois?
- vai continuar vivo até morrer