sexta-feira, 6 de junho de 2014

Poetas populares

À Elisa Lucinda

O povo não conhece os seus poetas populares
Um violeiro morreu atropelado no meio da calçada
Cantava música de caipira
Que ninguém conhecia
A viola morreu desconsolada
Porque nenhuma criança queria aprender tocá-la
O povo esquece os seus poetas populares
Que cantavam uma história de sangue e glória
De um povo que o povo não quer lembrar
A memória do Brasil é uma invenção Brazileira
O povo que morre à toa por tristeza

Falta d’ comida
Falta d’ educação
Falta d’ memória
Falta d’ água
Falta d’água de chorar
Falta d’água pra beber

Águas de março que param o trânsito
Brasil não é brincadeira, há seriedade no carnaval que passa
Há seriedade no samba da moça de cabelo duro e nos corações de um povo sem pátria
Brasil não é brincadeira, há seriedade no verão
Verão sonhos desmantelados

Caminham a massa sem rosto
Indecisa, sem caminho
Os poetas populares andam em desalinho
Nem anônimos são
Eles perderam a dimensão
De como a importância deles
Marcam uma história
Os poetas populares não gostam mais de poesia
Precisam ganhar a vida

O povo se esqueceu dos seus poetas populares
E os poetas populares se esqueceram de cantar o povo  

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Seco

Os poros não fecham
Os pelos não molham
Os dias não passam
A tristeza não vem

As estrelas sentem preguiça de brilhar
A lua não fica mais cheia
A boca implode
Os ouvidos explodem
As mãos destroem
O açúcar salga
O azedo adoça
O vazio dimensiona
A água mata a sede
A sede não cessa
Seca o mundo  

O seco que seca tudo 

Profundidade

lavei minha cabeça
duas, três, quatro vezes
lavei meus cabelos fio por fio
fiquei com a cabeça lavada
cabelos cheirosos, limpos e belos,
mas a minha consciência não se limpou
a minha angústia não toma banho
durmo fedendo todo o dia com a cabeça limpinha 

O verdadeiro remédio para fim de namoro: a laranja e as palavras

está impresso na minha testa
a impressão besta
da nossa última detestável conversa
já esquecida

não se preocupe
não estou chateada
frases são assim mesma,
de natureza efêmera,
mais cedo ou mais tarde,
elas serão esquecidas

(obs: espero esquecer tudo
espero ser esquecida do mundo)

vamos conversar
sei que esse é o fim de tudo
isso é a nossa separação
sei que, possivelmente, eu encontre uma outra pessoa
e aconteça o mesmo com você
mas, agora, quando as coisas estão em chamas
e você está aí, sentado na beira da cama,
eu estou aqui, deitando-me sobre os ouvidos, adiando o término dessa discussão
não escutando suas palavras de fúria contra mim,
não gritando ternas palavras cruéis, cobertas de arrependimento.
são só palavras, eu sei. (Vou me contradizer), você também é poeta,
sei que entende que as palavras são só palavras.
mas, nesse instante, eu aqui e você aí, sentado na beira da cama.
uma palavra pode estar no meio do caminho.

as frases são assim mesmo,
de natureza efêmera,
mas uma palavra
modifica uma era

sei que está impresso no meu corpo
todas as nossas conversas,
fincadas como tatuagem
E o que me resta?
esquecer o mundo que tinha você
e fazer um mundo, onde eu possa ser esquecida por todos

meu poeta, todas as minhas escritas foram para você
depois que o nosso amor acabou
eu preciso me reinventar
essa é a parte difícil
torna-me branca, virgem outra vez
preciso aprender a esquecer, e para isso faço-me lembrar
de tudo que eu me tornei por sua causa
de tudo que eu perdi e realizei por causa dessa última detestável conversa
precisei apanhar os caquinhos do que sobrou,
quando você saiu do apartamento

houve consentimento no fim
as lágrimas de domingo foram inevitáveis
 a música que ouvi no supermercado
a laranja que tinha o seu nome na casca

meu amor, passei os meus dedos na casca da laranja
senti que o cheiro que exalava era o seu
coloquei-a na minha boca
a saliva molhou minha pele
a laranja revelou no meu ouvido sua palavra secreta
senti você
tive que preencher minha memória
de suco de laranja
escutei o telefonema, era Marcela cobrando minha presença:
-Bruna, você esqueceu de escrever aquela redação?
- mas, justo hoje?
- venha aqui agora
Tive que ir

o mundo não se esqueceu de mim
por outro lado, enchi minha memória de suco de laranja
quando choro repentinamente, sinto que minha lágrima
tem cheiro de fruta cítrica. Aí, meu sorriso fica azedo,
minhas palavras perdem o jeito lacunar, todas hoje têm dimensão de laranja
peso, sabor, altura e formato


terça-feira, 27 de maio de 2014

Ódio

Eu tenho ciúmes deste cigarro que você fuma tão
Distraidamente
E quando pisa aquele cigarro no fim, a fumaça espalha no ar
Estonteantemente

Sinto vontade de matar 

Rimas para quem gosta de bons choros

(Técnica para ouvidores profissionais)

De manhã, não deixe o dia esgotar.
Café com leite, papéis avulsos sobre a mesa
O lápis solitário flerta com uma lacuna inteira
Uma folha de caderno com linhas retas
(- Não! Eu não vou ter coragem de terminar esse caderno).
Duvidando.

De tarde, não deixe o dia esgotar.
Não dê telefonemas
Caminha pela rua, conversa com o primeiro estranho que vê.
Pergunte: “Como foi o seu dia?”
Se ele não souber a resposta, não insiste,  
(não é importante).
Tenta escutar o barulho dos pés.
Caminhando

De noite, não deixe o dia esgotar.
O violão fica mais leve
As cordas estão compridas
O som brilha
Durando

Sorteia duas notas breves
(lembrete: pés descalços ajudam na sensação das texturas sonoras)

Mizinho rézinho e fázinho
Mizinho rézinho fázinho
Acorde em sol maior, dois tons acima,
Preencha o vazio com um fá maior
Mizão Mizão

Silêncio
Sizinho sol fá sustenido
Mizinho fázinho rézinho fázinho
Solzão

Acorde em fá maior, dois tons abaixo,
Preencha o vazio com um si bemol,
Solzão

Silêncio breve nas primas
Mizão longo

Diante o dia, não deixe a vida esgotar.
O mundo é comprido
O tempo anda esbaforido
Repente que, durante o dia, repete
Cabelos soltos estão no pente
Cobrindo o branco dos brancos
Soltos no tapete
O tempo velho repete o vácuo
Não esgota o duo
(Silêncio e barulho)

Durando 

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Um sonho de flor

                               à Leila Diniz

as flores murcham às 4h e meia
desfolham as viçosas manhãs
sem dizer adeus
deixam as camas desarrumadas
fogem
sem beijos de despedidas

seus olhinhos safados
pedem mais carinhos línguas
disparadas pelo corpo
cadentes e sozinhas
elas pedem
um pouco mais
desaparecem

as flores desabrocham depois das dez
acobertadas de espinhos
embelezando o seu cheiro gostoso
elaborando suas pétalas
com cor de vida
beijam sozinhas
 acordam mais belas
fugitivas

as flores morrem aos vinte e sete
mitificam-se e nem sempre renascem
às seis da manhã
permanecem
lindas
anônimas

as flores são mais atraentes
que as fotos
elas gritam
as calcinhas da bunda tiram
gozam
às cinco, seis, quatro
(trepam de manhã, de tarde ou de noite)

as flores são malvadas
(desnecessárias),
mas como gosto delas!
gosto tanto que um dia

serei uma