sábado, 27 de dezembro de 2014

Criança

nunca gostei mesmo da forma que os adultos tratam as crianças. Ao contrário, sempre achei muito bonito como os poetas falam das crianças, como é um mundo a ser descoberto. Uma criança não possui forma, pode ser qualquer um, é algo maravilhoso. Hitler já foi uma criança, Einstein também. Acho que nunca gostei desse tratamento dos adultos, porque acho insuportável alguma pessoa ignorar a outra. 

Já viram o que os adultos discutem? Nada demais, crianças, eles morrem de medo do escuro; alguns homens adultos discutem calorosamente qual é a bunda mais bonita entre as empregadas, essa é a discussão mais profunda desses adultos. Porém, vocês enfrentam dragões, monstros no armário e espíritos malignos! Vocês sentem o terrível  gosto do inferno sobre as cabeças e vivem num mundo construído pela estupidez dos adultos. O Mal é real, isso é efeito da maldade e da ignorância que eles fazem com vocês. 

"Ah que saudade da aurora dos oito anos!" O idiota que escreveu isso, era um péssimo poeta e é uma pessoa que não entendeu as atrocidades do tempo. Crianças não caem na lábia dos adultos, eles não sabem o que fazem. Deus é uma criança; eles não admitem isso, preferem acreditar que é um velhote sem humor, sentado na cadeira, olhando o absurdo que é a raça humana.

Os adultos, (alguns, nem todos), já se esqueceram o que é enfrentar dragões cotidianamente, ficaram apáticos e insensíveis. Virem adultos, crianças, mas não esqueçam de enfrentar os seus dragões! Eu compreendo vocês, eu, pelos menos, acho que compreendo. Já faz anos que vou para uma festa de família e não brinco entre as crianças, fico entre os adultos e me sinto tão estúpida do que eles. Já faz anos que não concordo o que é um adulto nesse mundo de ignorância. Por isso, prefiro acreditar na infância de Deus e nos duendes para controlar o absurdo que é o nosso tempo. 

Por ora, prefiro permanecer criança entre a ignorância dos adultos! 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Telefone

- alô! Alô? Tem alguém aí no outro lado da linha? Eu só queria conversar com você. Como vai você? Pergunte pra mim também. Ok. Ok. Eu vou imaginar que tem alguém do outro lado da linha perguntando isto: "Olá, como vai você?". Vou até fazer uma outra voz: "Oi, pequena, como vai você? Me conte o seu dia"

 Ei voz invisível, aconteceu tanta coisa hoje. Cheguei em casa e coloquei aquela canção do Roberto, sabe, lembrando do tipo célebre que Ana C. descreveu num certo poema disperso. Esquecida, destemida, penso que, dessa vez, o fim é definitivo.  Ó voz invisível, já fiz de tudo para esquecer essa pessoa.

Aprendi inglês, dancei Ragatanga, desenhei, toquei "Hey Jude" no violão, fiz uma viagem para Peru, perambulei asfaltos. Aí, fui dramática, chorei demais, pensei numa cena para fazer esse tipo célebre voltar pra mim. Hoje, vou me suicidar com pílulas anticoncepcionais, deitar em cima da privada e cantar: "por isso eu sou vingativa! Vingativa! Vingativa! Vigantivaaa".

Não tem como se apaixonar e emburrecer pouco?

Pera aí! Não desligue, voz invisível, porra, eu só quero conversar com alguém, (mesmo que esse alguém não exista), não me deixe falando com o teto. Eu já disse que eu te amo. Eu te amo. Nunca falei isso pra ninguém. Nem pro tipo célebre eu disse essa frase, ao contrário, eu disse que odiava ele. Era mentira; eu nem sentia ódio e nem amor o que eu tinha era muito tesão. Pior que levar pé na bunda apaixonada, é levar pé na bunda com calcinha molhada. Fiquei puta! Puta mermo! Sabe o que fiz? Na-da. Só comi uma caixa de chocolate inteira e fui pra casa assistir Faustão. Deprimente, né!

ei, voz invisível, mas a história de suicídio é verdade, vou me matar com essa caixa de anticoncepcional e é pra já! Tô começando agora. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, dez. 30 pílulas na minha boca, vou engolir tudo com vinho barato, vou morrer assim. Aí, meus harmoniosinhos, todos revoltados querendo briga. Não adianta pedir as suas coisas de volta, não adianta, meu querido, eu estou indignada com a sua ausência. Olha só, minha cartela de anticoncepcional vazia! Eu só estou esperando o efeito da morte, tchau vida!

Não tem mesmo como se apaixonar sem se emburrecer

Você não me entende que sou essa bolha de tesão e sentimentos, eu sou essa coisa toda confusa. Você não entende, pera aí, voz invisível, não vai embora, não me deixa sozinha, eu detesto ficar sozinha, eu não sei o que fazer. Eu não consegui me matar. Poxa, a culpa é sua! Ei, eu não consigo te esquecer, me emburreço tanto.


quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Amigos

é um prazer conhecer cada um de vocês! 

É um prazer enorme saber qual é o rosto de tristeza que você possui. Gosto de saber que reconhecemos as mesmas piadas, temos o mesmo ritmo gestual. Fico muito grata por saber que eu sei qual é a sua comida favorita, ainda uso o seu número de telefone sem constrangimento. 

- olá, amanhã, você vai fazer alguma coisa?
- amanhã, não! Vamos beber?
- vamos sim! 

Fico contente que não concordamos com tudo, mas fico grata por saber que não é nenhum esforço permanecer ao meu lado em silêncio. Gosto de reconhecer o seu rosto de alegria, o seu rosto de excitação, o temor que você tem por conta do escuro ou seu medo infantil de altura. Sei que ainda sente medo de barata, mesmo tendo completado a maioridade. Assim, eu prometo que não vou usar esses medos contra você. 

é um prazer saber que tenho uma história com cada um de vocês. Você pode contar mais um episódio desastroso sobre mim, quando senti vontade de rir gratuitamente. Risos gratuitos são melhores do que doces desavisados. É um prazer rir com vocês, chorar com vocês, é um prazer enorme saber que o meu nome é carregado de sentido; eu não sou anônima para vocês.

é um enorme prazer reconhecer a voz de vocês ao longe e saber que estamos seguros no escuro. Saber que vocês existem. É um prazer enorme saber que vocês atravessaram os meus pensamentos, criaram passagem para os meus conceitos e destruíram meus monumentos de preconceitos. É um prazer enorme (re) conhecer cada um de vocês!  

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Educação Amorosa: a vida amorosa e sexual de uma galinha

Não resisti. Disse que preferiria escrever a vida amorosa das galinhas a escrever algo sobre a minha vida amorosa. Não é que eu seja derrotista, como diria minha amiga Alice, não concordo que eu seja uma derrotista. Só acho que minha vida amorosa não é importante, ela é parecida com todo mundo que eu conheço, é mais uma vida insignificante que não vai mudar a perspectiva de ninguém. Principalmente, a tua, meu caro leitor inteligente! 

Esse lance de escrever autobiografias faz as pessoas acreditarem que a sua vida foi maravilhosa e com enredo desenhadinho. Não é verdade, minha vida é tão insignificante quanto a vida de um inseto. Entre uma galinha e um inseto, pareço mais com uma formiga. Sou uma formiga desprezada sem a companhia de outras formigas, muitas das melhores formigas morreram pisadas pelos humanos. Queridas e desprezadas formigas, uni-vos! 

Uma galinha é outra coisa. Ninguém nasce galinha, ser galinha é um dom. 

Apêndice - a vida amorosa e sexual da galinha 

Britney Spears, pensamos em Britney Spears. Aposto que você, caro leitor, nunca pensou nessa princesinha pop. Eu não gostei de Britney Spears na adolescência, mas tenho que admitir que a melhor coisa de Britney Spears não foi a música, foi a sua história. Pense que milhares de fãs eram apaixonadinhos pela figura da princesa do pop, o rosto limpo, a virgem mais famosa da modernidade, chupando pirulitos, com saias curtas e danças sensuais. Namorando Justin Timberlake, beijando na boca de Madonna e cantando músicas que não foram composições dela. 

De repente, um boom! O término de namoro com Justin se torna assunto internacional, ela casa com outro homem, vira mãe de dois filhos. Bebe demais, usa drogas demais, a justiça impede de ter a guarda dos seus dois filhos. Ela, então, raspa os cabelos, abandonando de vez o rosto limpo, puro e virginal. A princesinha pop, que não era a virgem mais famosa da modernidade, era agora uma louca e careca. Realmente, temos que admitir que isso foi mais rock n' roll do que as bandinhas do começo do século XXI. 

Uma galinha famosa, conhecida por todos, amada por todo o galinheiro. Era apaixonada por Saltimbancos, de Chico Buarque, não desejava botar ovo. O ovo, para ela, era um mistério que não saberia comunicar. Era uma galinha jovem, assustada. O galo olhou-a de longe e decidiu que ia fazer um ovo com essa galinha. A galinha tinha asas, mas não sabia voar. 

O galo prendeu-a pelas costas, pôs o seu esperma dentro dessa galinha. Essa galinha concebeu o mistério, esperava um ovo sem ter consciência que esperava um ovo. Depois do sexo selvagem, a galinha famosa caminhou para cima e para baixo, cantando músicas de Britney Spears, sem ter a consciência da maternidade. 

Os humanos, então, sentiram necessidade de fazer uma galinhada, estavam com fome. O homem da família foi atrás das galinhas no galinheiro. A galinha famosa, com sorriso de galinha no rosto, a mais feliz, chamou-lhe a atenção. O homem pensou: essa é uma boa galinha para comer.  Uma galinha feliz, porque tinha descoberto a violência prazerosa e intensa da vida sexual, percebeu que era observada de longe pelos humanos. Sentiu um arrepio no pescoço. 

A galinha mais velha disse: estão procurando uma galinha jovem para comer

A galinha sentiu medo de morrer. Dias seguintes, o homem da família preparou a caça. Procurou um lugar para um esconderijo perfeito. A galinha famosa estava vivendo um dos mais maravilhosos dias banais, quando percebeu que uma mão humana estava sobre a sua cabeça. Ela não pensou duas vezes, correu para proteger a sua vida infinita e maravilhosa. 

O homem da família ficou assustado diante de tamanha coragem que uma galinha podia ter para proteger uma vida de animal. Ele chamou o menino mais velho para correr atrás da galinha destemida. O menino mais velho chamou a irmã mais velha para correr atrás da galinha corajosa. A irmã mais velha chamou a mãe para correr atrás da galinha furiosa. Aí, a mãe chamou a irmã mais nova para correr atrás da galinha anônima. 

A irmã mais nova conseguiu ficar próxima da galinha. Rosto a rosto. A galinha estava cansada de correr pelo galinheiro. Todos gritavam para a irmã mais nova: mata a galinha! Mata a galinha!. De repente, ela ficou assustada com o olhar da galinha. Era um olhar intenso de uma galinha com medo. Quando as duas ficaram distraídas, a galinha sem querer botou um ovo. 

A irmã mais nova mostrou o ovo para a sua mãe e disse: mãe, não vou matar essa galinha, ela é mamãe também. Todos ficaram com pena da galinha, poupando a sua vida jovem e animal. 

Depois de uma semana, o ovo tinha virado um pintinho. A galinha que já tinha sido esquecida pela família, virou comida no jantar de domingo. Um belo domingo de sol, nuvens bonitas, alegria familiar e mistério.  

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Educação Amorosa: o última dia de aula

Eu escrevi dezesseis aprendizagens que eu tive na escola sobre amor. Fiz um esforço para equilibrar as coisas boas e ruins que aprendi no colégio, mas eram importante a fúria e o ódio na escrita desses textos. Afinal, durante oito anos, a melhor sensação que eu sentia era não estar dentro de uma escola. Era ir embora. 

Muitas vezes, eu escuto de pessoas mais velhas que elas adorariam reviver as suas experiências da juventude, tendo o corpo de vinte anos com a cabeça de quarenta ou cinquenta anos. Eu acho isso uma bobagem, além de uma asneira, eu acho que é uma espécie de fuga da vida, é uma fantasia. Funciona como álcool, cigarros ou drogas ilícitas. Pegamos o passado e lembramos somente das coisas boas, esquecendo completamente das coisas ruins que densaram as nossas vidas. Esquecendo, talvez, que se você perguntasse para a pessoa jovem que você era, caro leitor, provavelmente, não gostava de viver daquele jeito ou faria aquilo da mesma forma estúpida, (porque, naquele momento, o fazer-estúpido dava sentido a sua existência).  

A graça é essa, é o que torna a vida cômica e bela. (Pelo menos, na minha opinião). Não gostaria de voltar ao passado, não pagaria por nada para voltar à escola, ter a minha infância ou a minha adolescência de volta. Eu pagaria, se eu pudesse, para viver mais e cada dia mais, da maneira mais intensa e urgente possível. Até, finalmente, morrer como um ato final de surpresa. Afinal, somos passageiros da vida e as coisas passam. 

Décima sexta lição - o último dia de aula 


No último dia de colégio, nada demais aconteceu. O dia pareceu banal demais. Tivemos seis aulas vagas seguidas, as pessoas que nunca se falaram, passaram a se abraçar e escrever declarações carinhosas nos uniformes do colégio. Não tiramos fotografias, eu lembro que assinaram o meu uniforme, lembro de duas cartas que recebi das meninas da tribo e do sorvete que ganhei do Caio, (ex-ficante de Miranda). 

Eu fiquei sentada no chão do pátio, sentindo que minha vida não era impressionante. Feliz, porque sabia que não precisaria pisar os pés naquele colégio de novo. O pátio parecia enorme demais para os meus sonhos; eu parecia estar livre demais. Confesso que houve, por alguns momentos, uma sensação estranha de liberdade e alívio. Alice me abraçou e me disse:

- agora, tudo vai ser diferente

Pareceu um clima de ano novo, tinha um ar renovador na atmosfera. Eu tive a sensação que, na outra escola, sem a presença dessas pessoas, sem vestir esse uniforme escolar, sem o medo e a minha covardia, tudo poderia ser diferente. Senti alegria, Rafael me disse:

- finalmente, vamo sair dessa merda 
- pois é, Rafael 

Caminhei até a biblioteca da escola pela última vez. Me escondi lá pela última vez, olhei a placa escrita Arquivo Morto pela última vez. Cantei músicas de rock n' roll pela última vez. Apesar de fazer tudo isso pela última vez, não tinha aquela ar solene de último dia de aula, o clima ano novo era evidente. Mas, ninguém parecia notar a fragilidade que era viver aquele último dia de aula. Eu não notei, vivi com a mesma naturalidade dos outros dias, torcendo para acabar as aulas, torcendo para chegar a hora da saída. 

As meninas da tribo choravam. Alice abraçava Miranda. Miranda abraçava Aninha. Aninha abraçava as duas. Elas choravam e choravam. As três diziam que seriam amigas para sempre, cultivariam a amizade e seriam eternas. 

Os meninos jogaram futebol pela última vez. O gol de placa foi de Caio que dedicou ao amor da vida na escola, que não era segredo para ninguém, para Miranda. Ela o ignorou. Os meninos estavam todos suados, as meninas choravam.  Eu estava sentada olhando e recontando os números de tijolos que estavam no muro da frente, como eu fazia todas as vezes e todos os dias nas aulas de educação física e nas aulas vagas. 

Finalmente, bateu o horário para ir embora. O sol estava quente, cobria o nosso olhar de luz. Quando olhei para trás, o portão da escola ainda estava aberto, ainda saíram alunos chorosos. Rafael me disse:

- tchau, Bruna, até mais! - disse
- tchau, Rafael, até mais e se cuida! - eu respondi 

Fiquei parada algumas horas, pensando. Não sei bem o que estava pensando, alguns pensamentos voam para sempre e nunca mais retornam à cabeça. 

- Bruna, você podia me devolver a minha borracha? - perguntou Kevin
- ah sim, Kevin, desculpa - devolvendo a borracha, - tá aqui ela! 

Kevin guardou a borracha, olhou-me tranquilamente e disse:

- até mais, Bruna, se cuida 
- você também, Kevin

Foi tão banal, tão comum a despedida da escola. Mais tarde, encontrei-me com a Alice, foi a única das meninas da tribo que encontrei anos depois. Ela mudou radicalmente algumas opiniões, outras permaneceram iguais, transformou-se numa mulher sensual e muito atraente. Ela foi o meu último grito que precisava externar da minha adolescência; abandonar Alice na minha imaginação foi mais libertador do que cabular aula pela primeira vez. 

Quando a encontrei e conversamos. Cheguei, finalmente, à algumas conclusões sobre as coisas que eu aprendi na escola. Não quero escrever um desfecho, meu caro leitor, com uma moral da história. Até, porque, é um tanto impossível destilar uma moral depois de tantos acontecimentos desconexos e aparentemente absurdos. Entretanto, quero dividir com vocês, talvez, a maior explicação que posso dar para tantos acontecimentos banais no último dia, (que teoricamente deveria ser o mais solene). 

Não é possível imaginar o que um aluno vai ser depois da escola. Acho que o mais terrível para um professor é lecionar para cabeças tão diferentes entre si, com experiências tão distintas e singulares. Um professor na sala de aula fica apavorado, porque são várias cabeças pensando ao mesmo tempo, são pessoas vivendo ao mesmo tempo, criando novos conceitos ou sustentando os velhos dilemas. Não era possível prever a pessoa que eu me tornei hoje, nenhum desses acontecimentos determinaram a pessoa que eu sou e, muito menos, determinaram as mulheres que, um dia, já fizeram parte das meninas da tribo. 

A minha imaginação mudou, o que condicionou a mudança foi a própria experiência do tempo. A vida é bem malandra, não determina nada; ao contrário, ela trapaceia, tira as nossas meias e nossos tapetes. Não é possível prever uma pessoa através de um número de matrícula, de uma nota baixa ou de um uniforme escolar. Uma garota vestida com um uniforme escolar comete erros e também está vivendo, caminhando pelas ruas,(me lembrei dos versos de Bukoswki: ah! como eu queria trepar com essas menininhas do colégio, mas é impossível). Acho que essa foi a melhor declaração de amor que já fizeram às meninas do colégio.  Não é possível prever o que tempo pode fazer com elas. 

Vou terminar esse texto aqui, disse que não seria um grande texto, seria um texto modesto. Eu não gostei muito de escrever sobre mim, creio que é mais interessante escrever as histórias das galinhas. Na próxima vez, eu narro a vida amorosa das galinhas, a minha é insignificante. 

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Educação Amorosa: o último primeiro beijo

Estamos chegando no final da série Educação Amorosa, lembrando que estou falando apenas do Ensino Fundamental, não escrevi nada sobre o Ensino Médio. A proposta inicial foi escrever Educação Amorosa como meio de exercício da minha narrativa, porque ainda tenho vontade de escrever um guia de sobrevivência da escola, aí incluiria as aprendizagens do Ensino Médio. (Mas essa ideia fica para depois).

Mais ou menos, as lembranças mais marcantes nesses textos estão localizadas entre a quinta série até a oitava série. Me propus a escrever dezesseis aprendizagens que eu tive sobre a minha educação amorosa na escola. Há mais, porém é impossível escrever tudo, nem sempre sabemos filtrar tudo que ficou em nós. Existe muita ficção no meio desses textos também. A memória é arbitrária, inventa as coisas de acordo com a nossa maneira parcial de enxergar o mundo e (re)interpretá-lo. Essa é imagem que eu tenho da escola, mas se perguntassem para Alice, por exemplo, tenho certeza que ela teria outra história para contar.

Daniel foi se afastando de mim. Eu fui me afastando das meninas da tribo e dos meninos da minha rua. Assim, minha descoberta do mundo implicou no abandono de uma tribo para definir os meus sentimentos e medos. Mesmo assim, é curioso! Durante dois ou três anos, escrevi  várias vezes no meu diário do Ensino Fundamental que o meu sonho era ter uma turma de amigos que eu pudesse me sentir acolhida e ser aceita. (Consegui essa turma no Ensino Médio, mas essa história fica para depois).

Alice sempre costumava me dizer que quando eu beijasse na boca de um menino, não poderia deixá-lo passar a mão na minha bunda. Eu dou muita risada, quando me recordo desse ensinamento tão sério de minha querida Alice. Na adolescência, que acreditamos nessas coisas, um beijo na boca pode ser só um simples beijo, sem segundas intenções. Talvez, acreditemos nisso, porque alguns dos meninos que beijamos na escola, também estão beijando pela primeira vez. Na verdade, é tudo uma bobagem. Imagina só que a nossa maior preocupação, quando beijávamos um menino na boca era não deixar passar a mão na bunda. Mal imaginávamos que esse era o menor dos nossos problemas, porque não sabíamos as maravilhas de uma menstruação atrasada, ainda não tínhamos ideia desse conhecimento, dessa neura e o que ela pode acarretar para uma semana.  

Nesse episódio, vou contar o último primeiro beijo que eu recebi, quando estava na escola. Último, porque foi a surpresa dos últimos momentos que estudei numa escola pública. Primeiro beijo, porque sempre quando me perguntam do meu primeiro beijo, eu conto essa história.

Décima quinta lição - o último beijo na boca 

Era uma quarta-feira, seria aula de química. Cabulei aula sem pensar duas vezes, marquei um encontro com um menino que conhecia do curso de violão. Ele tinha um nome engraçado, era chamado Robério. Ele tinha cabelo ruivo, era negro, alto demais e tinha dezoito anos. Saímos para tomar sorvete e conversarmos sobre música. 

As meninas da tribo nem imaginavam que eu estava cabulando aulas; muito menos, imaginavam a história do Robério. Nunca contei para elas, passei a saber menos da vida amorosa de cada uma e isso era recíproco. Cada dia mais, elas sabiam menos de mim. 

Quando cheguei na pracinha da Tiradentes, eu o vi me esperando. Robério estava lindo, tinha uma cabelo vermelho fantástico. O vento amassava a sua camiseta preta. Era uma camiseta da banda Capital Inicial. Eu olhei-lho e pensei: mas nunca que ia ficar com um menino bonito desses. Fui crente que ia encontrar um amigo e tomaríamos um sorvete inocente, na esperança do tempo passar rápido para chegar em casa na hora da saída. 

Não conhecia a autora Ángeles Mastretta na minha adolescência, mas ela disse uma das frases mais importantes da minha vida, no livro Mal de Amores, que me apropriei para explicar coisas que parecem tão inexplicáveis: não esperava encontrar-se com alguém daquele jeito, tinha previsto dar com um gringo de espírito indiferente, e outra vez, teve que reconhecer a verdade numa das frases de Milagros: a vida foi feita para nos desconcertar

Robério me desconcertou. Passeamos lado a lado, eu estava descomprometida com as possibilidades de viver um romance adolescente. Não imaginava nem que, a essa altura, poderia conseguir um beijo na boca sem a ajuda das meninas da tribo para empurrar garotos que sobravam.

- você gosta de Capital Inicial? - ele perguntou
- ah, gosto sim, eu sei tocar Tudo que vai, - eu disse

Ele sorriu e tirou o meu cabelo dos meus olhos. Eu disse:

- não sei fazer solos de guitarra 
- ah, tem que estudar bastante, eu consigo fazer um dos Guns and Roses 

Eu preferia tocar tears in heaven, de Eric Clapton, do que tocar qualquer música de Guns and Roses. Porém, eu balancei a cabeça, concordando com a dificuldade de tocar os solos dessa banda. A cada momento que meus cabelos cobriam os meus olhos, Robério afastava os fios de cabelo dos meus olhos. 

- poxa, você tem um sorriso lindo! - disse 
- ah, obrigada - eu respondi

Fiquei sem jeito com elogio. Nunca havia sido elogiada gratuitamente. O vento ficou muito forte, as horas passaram muito rápido. Caminhamos até o ponto de ônibus. Nós precisávamos pegar conduções diferentes. O ônibus dele foi o primeiro que passou. 

- ei, você não vai pegar esse aí? - perguntei
- ah, depois passa outro, tô sem pressa - ele disse 
- ah, então, tudo bem

Ficou um silêncio constrangedor. O meu ônibus não costumava demorar para passar. Naquele dia, ele demorou mais para chegar. Olhava o Robério. Cabelos ruivos, sorriso safado, camiseta amassada, um leve crescimento de barba no queixo e uma voz rouca inesquecível. Me calei contemplando-o. Ele percebeu que eu estava calada demais, percebeu que eu estava olhando demais. Fiquei sem jeito, mudei o meu foco e passei a olhar os dedos dos meus pés. 

- que foi? - ele disse
- ah, nada, eu preciso comprar tênis novos 
- ah, estão bons
- é, mas já tá furado, olha só - levantei o pé para mostrar 

Ele riu. Aí, aconteceu o inesperado. Meus cabelos cobriram o meu rosto, ele sempre afastava-lhos. Porém, dessa vez, não foram os meus olhos descobertos, alguns fios de cabelo cobriram a minha boca. Foi um gesto delicado, Robério tirou os fios de cabelo, descobrindo a minha boca. Naturalmente, uma coisa levou a outra, ele descobriu a minha boca, ficamos lábio a lábio,  deu um beijo de leve, como se pedisse permissão para entrar, eu deixei entrar e, em troca, nos beijamos. 

Foi um longo beijo gelado, dele guardei o cheiro forte de colônia. Ele amassou os meus cabelos, eu segurei forte a sua camiseta. Foi tão natural que, ao acabar o beijo, fiquei sem graça. Como é que eu tinha feito aquilo? Como é que eu respirei? Como é que vou olhar para esse moço depois? Robério permaneceu sólido, olhando-me inquieto e perdido. Riu para disfarçar. 

De longe, vi o meu ônibus chegar. Dei outro beijo nele e entrei no ônibus. Ele se despediu de mim com as mãos. Pela janela do ônibus, me afastando desse moço bonito, vendo-o ficar pequenininho. Senti uma alegria estonteante que quase senti vontade de chorar. Minhas mãos tremiam muito. Dias seguintes, Robério tinha desaparecido do curso de violão, nunca mais o vi. 

Acho que era para ele dar esse beijo e ir embora sem explicações. Acho que foi uma surpresa da vida para me mostrar que ainda estava muito cedo para desacreditar. Acho que foi um desconcertamento efêmero mais fantástico que guardei na minha adolescência. Acho que foi o meu último primeiro beijo inocente que dei em alguém. Acho que foi uma experiência curta que valeu mais a pena do que muitas outras que tinha ouvido. Não interessa o que eu acho, o importante é o que fica. O que ficou para mim de Robério, foi o seu gesto efêmero e delicado que calou-me por segundos. 

A vida é muito malandra mesmo.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Educação Amorosa: aula de matemática

Estamos encaminhando para o final. Mas, não podia terminar essa série sem falar da professora mais marcante do Ensino Fundamental, a professora de matemática Maria Antonieta. Eu estou falando de todas as formas de amor, inclusive daquela que foi fundamental para mim na Escola (apesar de tudo), o amor que eu tinha pelos estudos.

Sempre ouvi de professores de teatro, que eu tive, a seguinte frase: "teatro é uma merda, então é bom ter tesão pra fazer". Da professora de matemática, eu aprendi outras coisas, entre muitas, a ter persistência e paciência. Faço questão de contar a vocês um episódio marcante.

Décima quarta lição - nota baixa em matemática 


Um dos meus contos preferidos de Clarice Lispector é Os desastres de Sofia, porque me identificava muito com a descrição de Sofia. Clarice descreve a personagem condutora da narrativa como alguém que tinha tendência para o mal, uma criação desastrada de Deus. Sofia é "como um talo de begônia". Begônia é uma flor miúda que costuma nascer em conjunto, são flores graciosas e belas demais, o talo é muito forte e grosso, mas não é nada atraente. As begônias parecem pérolas da natureza, prendidas por uma monstruosidade e feiura que são os seus talos. 

Não há uma descrição mais perfeita do que essa para dizer o que eu sentia nesse momento da minha vida. Me sentia como um talo de begônia, uma criação desastrada de Deus, uma brincadeira de péssimo gosto que esse Deus inventou. Os desastres de Sofia narra uma relação entre um professor de português e uma aluna. Sofia narra os acontecimentos da infância, já na fase adulta, quando ela descobre que o professor de português mais marcante na sua vida havia morrido. 

Recentemente, minha mãe se encontrou com essa professora de matemática. Ela já é uma senhora aposentada. Fiquei muito feliz com a notícia, perguntei como ela estava. Minha mãe disse que ela estava bem, informou que eu estava fazendo graduação em Letras e, (pasmem!), Maria Antonieta respondeu que eu devia ter feito matemática, porque eu fui uma grande aluna.

Dei risada com essa notícia. Dias seguintes, não soube da Professora Maria Antonieta. A lembrança que eu tenho das aulas de matemática é que eram as únicas aulas respeitadas pelos alunos. Quando a senhora Maria Antonieta entrava em sala de aula, o silêncio era monumental. A professora de matemática não precisava fazer esforço nenhum para conseguir a atenção dos alunos, não precisava gritar. Eu morria de medo da professora Maria Antonieta. 

Além de morrer de medo, não tinha mesmo facilidade com os números. A primeira prova que fizemos com Maria Antonieta, eu tirei dois e fiquei muito triste. Ela tinha uma técnica interessante para passar prova, mandava-nos cortar uma folha do caderno ao meio e pedia que nós respondêssemos duas perguntas no máximo. Ela sempre dizia: não é quantidade, é qualidade; se vocês não conseguem responder uma, vocês não vão responder dez problemas de matemática

As meninas da tribo eram alunas medianas, tiravam até cinco. Miranda conseguiu tirar a nota seis na primeira prova que fizemos com Maria Antonieta, ela detestava no fundo da alma essa professora. Eu sentia medo, estava triste, fiquei com vergonha de mostrar a minha nota baixa. Escondi a prova no fundo do meu caderno. 

A professora Maria Antonieta passava pelos corredores, sempre olhava para mim com autoridade. Eu cumprimentava e andava até a Sala de Aula com a cabeça baixa. Um dia, ela passou por mim, deu um sorriso tranquilo, eu fiquei com a cabeça baixa. Alice era a minha melhor amiga das meninas tribo, ainda falávamos às vezes, constantemente, dizia que precisávamos estudar matemática. 

Eu me esforcei muito para aprender matemática, tinha mesmo muita dificuldade. Alice estudava comigo, quando sentia vontade. Às vezes, ela tentava fugir das brincadeiras insuportáveis da turma do Caio, por incrível que pareça, Alice se escondia comigo, quando queria fugir. Eu não andava mais com tribos. Ela falava o tempo inteiro do Doce de Leite. Eu estudava equações de primeiro e segundo grau. 

Depois de tanto estudar matemática, consegui encontrar prazer nos números. Eu até conseguia me divertir com os números e os problemas de matemática. Conversava demais sobre matemática com Kevin e Rafael, (hoje, já não me lembro mais de nada, além do raciocínio) . No dia da minha segunda prova de matemática, fiz a avaliação tranquilamente. Entretanto, eu esquecera de escrever o meu nome.  A professora Maria Antonieta não aceitava de jeito nenhum provas sem nome, ela já tinha avisado que reprovaria aluno, se isso acontecesse. Afinal, prova é documento, não pode esquecer de assinar nome em provas. 

Dias seguinte, já tinha aceitado a minha condição de reprovada em matemática. Estava triste, mas não tinha muito o que fazer. Então, a professora Maria Antonieta chegou na sala de aula, sentou na cadeira, abriu o diário de classe e começou a discursar sobre as avaliações que os alunos fizeram. 

- bem, gente, tem duas avaliações aqui na sala que estão sem nome - ela disse, - isso é um problema. Porque o único nove que tem aqui, é uma avaliação sem assinatura. Vocês sabem qual é a minha política de provas, não é? Mas, vou abrir uma exceção. 

Ela mostrou as duas provas. A primeira prova tinha nota oito e meio; a segunda prova tinha nota nove. A única nota nove da sala de aula era a nota da minha avaliação, quando eu a vi, fiquei apavorada e senti raiva da minha distração. 

- é o seguinte - Maria Antonieta explicou -, os dois alunos aqui dessa turma que esqueceu de colocar o nome da prova, eu quero que vocês se apresentem e venham aqui até a minha mesa 

Os dois alunos eram eu e o Kevin, (meu amigo negro que jogava Yu Gih Oh comigo). Nos aproximamos lentamente da mesa da professora de matemática. Eu senti que a respiração de Kevin ia sumir, por outro lado, a minha ia explodir. Estava muito nervosa, as minhas mãos tremiam descontroladamente. Chegamos próximo da figura monumental e silenciosa de Maria Antonieta. 

- quero que vocês tiram par ou ímpar para ver quem vai pegar primeiro a prova de vocês - ela disse

Kevin estava sem ar, levou-lhe a mão direita até as costas. Eu observei e repeti o mesmo gesto. Contamos até três, foram os minutos mais longos da minha vida. Um, dois e três. Kevin tinha pedido par, eu tinha pedido ímpar. Eu perdi o jogo. (Jogo é jogo!). 

- ótimo, Kevin, qual é a sua prova? - Maria Antonieta perguntou
- é essa aqui! - ele disse apontando 

Era a prova que tinha a nota oito e meio. Kevin, assustado, pegou a prova, mas, antes de ir, a professor de matemática fez um comentário:

- se eu fosse você, pegaria a prova com nota nove, já que ela está sem nome 

Kevin riu e fez o caminho épico até a sua carteira. Eu ia colocar as mãos na minha prova, quando a professora Maria Antonieta disse:

- essa prova é sua, Bruna? - ela perguntou
- é sim, professora - ela disse
- na próxima vez, não esqueça de assinar o nome 
- tá bom, professora 

Ela me deu um sorriso tranquilo. Eu senti carinho e amor por aquele sorriso, com as mãos trêmulas e atrapalhadas, peguei a prova, sorri de volta e sentei até a minha carteira. Passei a amá-la e respeitá-la, porque teve a capacidade de jogar no lixo suas próprias regras para aumentar a confiança de dois alunos. Não é questão de ser um grande professor, com uma grande bagagem teórica, é questão de olhar ao próximo e dar um sorriso tranquilo, mesmo assumindo a posição mais alta da hierarquia. A professora de matemática, desde aquele dia, tinha deixado de ser um monstro inacessível para ser um simples pessoa que lecionava matemática.