quinta-feira, 22 de maio de 2014

o algoritmo da sorte

a sorte precisa mudar pra mim
vou jogar Tarô
vou cantar rock n'roll
quem sabe voltar tocar Bossa Nova no violão

a sorte precisa sorrir pra mim
vou ouvir Ludov o final de semana inteiro
sair na rua e torcer pra não encontrar ninguém
pedir o telefone do Bin Laden
ganhar uma medalha de honra
fazer terrorismo
assaltar um Banco
aderir uma seita
ser herói

a sorte está muito baixa
vou escrever besteiras na internet
ouvir conselhos e depois cuspir
vou comer no prato que comi
dormir sem sono
fingir que concordo
fazer macumba
inventar simpatias
comer zumbis

a sorte não está feliz pra mim
vou ficar de mimimimimi
dar piti
pedir um abraço pro meu melhor amigo
Tomar cafezim
dar um rolê no domingo

ficar sem chão
pular de olhos fechados
cair


quem sabe a sorte muda?

A última palavra de Julieta

1 parte: A Canção de Julieta

Eu sou pequenininha como uma larva
                    no meio da rua crava
                   o meu coração

                pequenos joguetes da paixão
                 evaporam
                 (rotineiros)
                Sombras de ciúmes e caos
                doce duo
               (derradeiros)
                Sobram suspiros mútuo

                eu sou pequenininha como uma larva
                no meio da esquina crava
                o meu coração sobre uma pedra de cristal
               borrado de sangue e medo
           
             um desenredo colossal 
             marca todas as histórias de amor
             crimes severos perpetuam mitos
              grandes histórias de amor são belos homicídios

             eu sou pequenininha como uma larva,
             cantada por trás de lindas palavras,
             no meio do papel crava
             minha alma
             cruel e dissimulada
            profunda e mortal


2 parte: Uma carta ao Romeu

Aos berros, Romeu diz: Julieta! Julieta!
Eu respondo: não grites, Romeu!
Romeu diz: por você, eu te dou meu coração, o céu e todas as estrelas
Eu digo: não precisa de tanto, não desejo nem estrelas e nem violetas
Romeu diz: essa paixão me violenta, quero a ti e serei teu. Prometo à lua
Eu digo: Não faça isso, não prometa à lua. Se prometer a mim sobre o teu amor, faça essa promessa por ti, quem eu acredito e sou adoradora.  Não faças promessas à lua, ela é de natureza inconstante e muda de fases; ora cheia, ora meia, ora inteira. Não quero acreditar que esse amor que sente por mim, sofre a inconstância da lua. Jure, meu Romeu, jure por ti e eu vou acreditar
Romeu jurou simplesmente.

Eu sou pequenininha como uma larva
Sepultada no meio da madrugada
Crava o meu coração
Com um veneno doce de todas as palavras
Malditas e eternas
Toda a paixão
é um anúncio de morte

Uma palavra como um corte
Arranca um pedaço
Rasga o aço
Floreia o mórbido
Romeu e Julieta
Flertam com a morte

Eu sou pequenininha como uma larva
No meio do tempo crava
outras palavras:  

“Romeu, por ti, eu amei a liberdade
E só, por isso, eu te amarei por resto de toda a eternidade
O teu amor era inconstante como a lua
Mas, a liberdade é dura e lascívia,
como venenosas larvas,
alinhando as tuas veias pálidas
jovens e estúpidas.
Romeu, por ti, eu amei a ideia de estar livre das caixinhas
Mas, morri uma jovem bela e estúpida
Ainda bem que não morri virgem e amarga
Romeu, por ti, eu amei uma vida nova
Menos cínica, menos hipócrita
Tu és um tolo herói, morreste por falta de pensamento
Por contentamento, apenas por isso,
A nossa história de amor foi a única que teve um final feliz.”

Com carinho e doçura,

Tua, sempre tua, eterna e jovem, Julieta

sexta-feira, 2 de maio de 2014

A novela das nove

Homens vis
vigiam a vila
vilania

comem “french fries”
cultivam ódio
demais

Temem o vermelho
A mentira do espelho
esclarece a cor do sangue
as máscaras guardam os seus rostos
vigiam a vila
Lá vem: inimigos do povo!
Estranhos da nação

Homens vis
Vigiam a vila
Selvageria

Sangue derramado
Asfalto, podre e avermelhado,
Contam os buracos de tiros encontrados
O gatilho matou três ou quatro inocentes

Homens vis
Vigiam a vila
Cegueira geral

Mortos na central
Encaixotados, anônimos.
O gatilho matou três ou seis inocentes
Os boatos da rua ficaram deficientes
A história ficou manca


A televisão escondeu o pé esquerdo.  

sábado, 12 de abril de 2014

A primeira vista (domingo 23/03)

Uma justificativa para crítica

Não é o enfoque desse blog escrever crítica literária, teatral e/ou de cinema.  Mesmo gostando muito dessas produções artísticas, eu acredito que para tecer críticas é preciso saber fazer, dominar alguns conhecimentos que requer tempo de aprofundamento, reflexão e leitura. Ainda não saberia tecer uma crítica com profundidade. Por isso, não é o enfoque do blog; mas, eu acredito e vejo a importância da crítica ao lado dos leitores e consumidores de produtos da arte. A crítica é fundamental, não para ensinar o público o que deve ser lido, visto ou amado. A importância dela é de, em primeiro lugar, divulgação, e, em segundo lugar, reconhecimento histórico da produção artística. Principalmente, a função da crítica é de educação política do leitor apaixonado.
Nesse caso, vou abrir uma exceção. Em 2009, 2012 e 2013, Enrique Diaz fez parceria com um dramaturgo canadense chamado Daniel Macivor que rendeu as montagens: In on It, A primeira vista e Cine Monstro. As peças In on it e A primeira vista estrearam em 2012 no teatro Alfredo Mesquita, que ficou fechado para reformas. A exceção é, justamente, porque eu tenho carinho pelo teatro Alfredo Mesquita e fiquei feliz com o retorno da Drica Moraes depois de enfrentar o câncer. Em 2012, eu assisti à peça In on it, mas não vi o espetáculo de estreia, em São Paulo, A primeira vista, estreia também do Alfredo Mesquita, depois de ficar fechado para reformas.
No dia 23 de março de 2014, assisti ao espetáculo A primeira Vista no Itaú Cultural, última apresentação aqui em São Paulo e última da temporada. Não vi a estreia, mas vi o último dia, foi uma oportunidade de ver com meus próprios olhos uma atriz que tenho muito carinho, a oportunidade de ver outra direção do Enrique Diaz e um texto de um dramaturgo vivo, o canadense Daniel Macivor. (Sempre é importante exaltar os vivos, - gosto de frisar isso, - às vezes, perdemos muito tempo com os mortos. A arte, em geral, literatura, teatro, cinema, música e pintura, é um monumento de pessoas mortas. Às vezes, nós, adoradores da arte e público, perdemos muito tempo lidando com a morte, nos esquecendo de valorizar a vida).
Nesse dia, pessoalmente, eu estava um tanto tristinha por conta de uma série de coisas em relação ao rumo da minha vida. Não cabe listar os motivos aqui, mas fiquei bem animada com essa possibilidade de ver esse espetáculo. Eu sou uma pessoa que gosta de falar de coisas boas, gosto de falar e indicar livros que eu gosto, perco muito tempo da minha vida fazendo comentários a respeito das obras de arte que me agradam, me afetam e me tocam. Para mim, é a melhor maneira de lutar diante do mundo. A nossa cultura de ódio, de falar mal, de trocar informações ruins e tecer críticas destrutivas sobre tudo que é produzido. Já está muito em alta. Por exemplo, esses dias, no jornal El País, foi feito uma entrevista com Marcelo Rubens Paiva[i]. O jornalista fez uma pergunta ao escritor sobre os desdobramentos da Ditadura Militar brasileira nos tempos de hoje. O escritor Marcelo Rubens Paiva respondeu que, às vezes, gostaria de falar sobre outras coisas, porque esse assunto é sempre acompanhado de dor e sofrimento, sempre questionam sobre o desaparecimento do seu pai Rubens Paiva e etc; por isso, às vezes, ele queria escrever sobre outras coisas, principalmente esse ano que é o aniversário dos 50 anos do golpe militar, por exemplo, ele desejaria escrever sobre o filme Ninfomaníaca. Ele também disse que é preciso revisar a lei da Anistia e repensar as heranças da Ditadura Militar no país. Exemplificando o caso do Amarildo que foi bem parecido com o desaparecimento de Rubens Paiva. O jornalista perguntou: “Você gostou do filme?”. Marcelo Rubens Paiva respondeu: “achei uma bosta”.
Eu não vi o filme, não posso dizer o que eu penso a respeito de Ninfomaníaca. Mas, essa é a mania predominante, sempre há mais discussões em torno dos piores livros, dos assuntos polêmicos, dos ódios imperdoáveis, das produções artísticas que são consideradas péssimas. Enfim, a agressividade gratuita é uma mania predominante no senso comum e no jornalismo. (Independentemente, do que eu apontei dessa entrevista, o escritor Marcelo Rubens Paiva é uma pessoa que vale a pena ser ouvida, tem uma história interessante e sugiro que leiam a entrevista, deixarei o link abaixo). Só trouxe esse comentário para indicar uma mania predominante da crítica de arte jornalística e do senso comum. De divulgar o detestável, ao invés, de divulgar o bom, o provocativo e o inteligente. Mesmo que esses conceitos sejam relativos em relação à arte, (isso dá outro assunto!), a crítica de arte é sempre voraz e taxativa, ela perde tempo demais divulgando o que não deve ser lido ou visto, do que o que pode ser visto ou lido para entender melhor o mundo atual.
Não acredito que os leitores e os consumidores de arte saem ganhando com essa posição agressiva e taxativa da crítica de arte atual no âmbito do senso comum e do jornalismo.  

A peça – pequena paráfrase e considerações sobre o enredo

A história é de duas mulheres que se conhecem por acaso em um acampamento, tornam-se amigas e possuem uma rede de coincidências entre elas. Ambas fazem aniversário no mesmo dia, gostam de acampar, gostam de música, conhecem uma turma de músicos, tem medo de urso e, por um momento, fizeram terapia com o mesmo psicanalista.
A peça começa com um cenário ao fundo. A cenografia é uma trajetória, indicando uma encruzilhada. Entram as duas mulheres silenciosamente, elas não são nomeadas durante o espetáculo. Uma das atrizes, a Drica Moraes, fala: “e aí, vamo começar?”. A outra atriz, Mariana Lima, demonstra uma insegurança, sente dúvidas se  deve começar ou não. Elas fazem um pacto com o público, nós (o público) somos como terapeutas e as duas amigas são as analisadas.
Assim, elas contam como se conheceram, viraram amigas e tiveram um caso amoroso no passado. Drica, a amiga 1, diz que adora acampar, porque os seus pais não eram pessoas práticas, então, ela associa praticidade ao acampamento. O que uniu as duas são as coincidências, principalmente, o acampamento e o medo por ursos. A amiga 1 brinca: “se o medo fosse concretizado, teria a forma de um urso”.
Mariana Lima, a amiga 2, deseja fazer uma banda de rock e engana a amiga 1 dizendo que conhece uma turma de músico, da qual ambas são fãs e curtem o mesmo som. Amiga 1 também engana-a dizendo que é barman em um bar. Ambas acabam descobrindo que elas não são o que aparentam ser. Drica é, na verdade, uma garçonete em um aeroporto e sabe tocar guitarra. Mariana é, na verdade, uma vendedora de discos e não sabe tocar guitarra. No aeroporto, a amiga 2 convida amiga 1 para tomar um drink e revela toda a mentira. Drica diz: “isso só estabelece que nós duas somos mentirosas”.
No apartamento da amiga 1, elas ficam embriagadas e transam pela primeira vez. Mariana foge em seguida e diz ao público: “não foi por maldade, sabe que é, eu não tinha estrutura no dia seguinte de ser uma bissexual, por isso que eu fugi”. Elas voltam a se reencontrar alguns anos depois, Drica está casada com um homem, vivendo um casamento tedioso e sem paixão.
Enfim, ela abandona o marido e vive um relacionamento com Mariana. Drica diz ao público: “a gente era uma espécie de casal na verdade”. Nesse relacionamento, a amiga 2 consegue realizar alguns desejos, aprende a tocar guitarra e realiza uma banda de rock. As duas passam tocar ukelelê, tocam a música “come as you are”, de Nirvana, em uma apresentação mal sucedida. A banda de rock delas é um fracasso completo, mesmo assim, elas permanecem juntas.
Elas resolvem fazer, antes da concretização da banda de rock, uma terapia com o mesmo psicanalista. Ambas fazem um pacto para confundir o terapeuta. Amiga 1 resolve ficar muda diante do terapeuta e não abrir a boca; a amiga 2 resolve tagarelar e falar sobre coisas desnecessárias diante do terapeuta. Quando o psicanalista descobre que faz terapia com as duas e ambas se conhecem, são namoradas, fica louco e abandona a psicanálise.  
Em uma festa fantasia, acontece uma separação marcante entre elas. Drica vai disfarçada de Sérgio Malandro, Mariana vai disfarçada de Luluzinha. Em alguns minutos de tédio, Drica desaparece na festa, procurando alguma foto do Sérgio Malandro para explicar o motivo da fantasia. Mariana, depois de alguns minutos, nota o sumiço da companheira, começa procurá-la pela festa, encontra-a com Sasha e vê a traição.
Drica diz: “bom, coisas acontecem”. Elas se reencontram muito tempo depois em um acampamento. Mariana diz que perdeu a mãe e está mais próxima de suas irmãs. Nesse reencontro, elas se reconectam por causa do medo. Amiga 1 entra na barraca da Amiga 2 e diz que está fugindo do urso. A peça termina ambiguamente, não sabemos se elas morrem por causa do urso ou se o urso era fruto da imaginação das duas para arranjar uma desculpa e ficar juntas diante do medo.
O enredo não é linear. O espetáculo é marcado pela memória, que é ativada e reativada através do diálogo entre as duas. A memória não possui o tempo cronológico retilíneo, às vezes, o esquecimento se faz presente para algumas lembranças e, por isso, a narrativa não tem compromisso em especificar as datas e os anos.

“Nada é suficiente” – comentários sobre o espetáculo e sobre o dramaturgo Daniel Macivor.

Cabe destacar algumas partes que chamou alguma atenção da minha parte. Mariana diz que, na hora final, aconselharia todas as crianças tocarem guitarra. Drica diz que, na hora final, aconselharia a todos pararem com a mania de nomear as coisas. Esse é o momento que elas respondem a pergunta: “o que elas fariam antes de morrer?”. Esse tema é um eixo que liga os textos de Daniel Macivor. Em In on it, um homem tenta encontrar uma maneira de revelar ao filho que tem uma doença terrível. As duas peças são ligadas por essa mesma temática de enfrentamento da morte e os desdobramentos do tempo ao longo da vida.
O humor é mais envolvente no espetáculo A primeira vista, dando uma aparência mais trágica ao In on it. Aqui é interessante ressaltar um excerto do depoimento de Daniel Macivor sobre o humor em suas obras:
“ Sobre o humor nos meus textos, posso usar um exemplo: Admiro muito o Dalai Lama, que é um homem de riso fácil. Uma vez um jornalista o questionou sobre como era o seu dia a dia. Ele disse: ‘eu acordo e preparo para morrer’. O que na verdade é o aspecto humorístico e trágico da vida. O que fazemos é hilário, pois acordamos e nos preparamos para uma porção de coisas e fazemos tudo de forma estritamente séria, mas a realidade é que podemos morrer a qualquer momento”. (MACIVOR, Daniel. Revista e, p. 49)
Daniel Macivor diz que a função do teatro é mexer com a gente. Inevitavelmente, os escritores escolhem um objeto temático e tomam-lhe obsessivamente para todo o sempre, alguns tornam suas assinaturas previsíveis e dolorosamente deliciosas, quando o público reconhece essa assinatura, produz o efeito de uma sensação prazerosa, tanto para o artista, quanto para o público. Arte precisa de empatia.
No texto A primeira vista, destacam-se as diferenças de pontos de vistas entre as duas amigas, quando interpretam a frase na geladeira: “Nada é suficiente”, essa é a solução textual para marcar a oposição entre as duas amigas. Do ponto de vista de Mariana, é uma frase que indica a não finitude, uma possibilidade de sempre ter algo mais adiante, um otimismo, ainda não é o bastante. Do ponto de vista de Drica, significa a finitude, não existe possibilidade de ter algo adiante, um pessimismo, nada é bastante diante da vida, é, na realidade, uma infinitude do nada que não preenche a vida e cria banalidade atrás de banalidade.

Conclusão

É um espetáculo que, infelizmente, acabou e trouxe uma alegria na minha vida. O assunto não é fácil, mas Clarice Lispector já dizia: “com prazer não se brinca, pois dele se morre”. E, apesar de, morrer, é possível viver uma vida prazerosa. A vida, dessas duas amigas, marcada por encontros e desencontros, transformações e coincidências, deram um sentido à minha.
E, só para citar uma escritora viva, a mexicana Ángeles Mastretta que diz algumas frases lindas a respeito da amizade, tempo, amor e surpresa. Aliás, a amizade é o relacionamento que torna possível a criação de conceitos e questionamentos existenciais, sem os ares autoritários da família, dos professores e dos pais. Há filósofos que dizem que a amizade é a forma perfeita para filosofia. A autora diz o seguinte no livro Mal de Amores: “Não esperava encontrar-se com alguém daquele jeito, tinha previsto dar com um gringo de espírito indiferente, e outra vez teve que reconhecer a verdade numa das frases de Milagros: a vida foi feita para nos desconcertar”.
E, assim, finalizo, a vida foi feita para nos desconcertar. E quando o teatro, a literatura, a poesia e a música fazem esse mesmo efeito que a vida faz, é sinal que a arte ainda afeta as pessoas e produz a habilidade de enriquecimento da subjetividade. Sendo, às vezes, mais eficazes que antidepressivos, álcool, psicanálise e confissões confusas com amigos indiferentes que conhecemos na rua e nos esquecemos no dia seguinte. Quando a arte nos desconcerta, sentimos que a dor não é individual, mas é coletiva, isso alivia.
















[i] http://brasil.elpais.com/brasil/2014/04/03/politica/1396562225_091459.html

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Confissões de uma mulher feia

À todas as mulheres do mundo

Caminhamos pelas ruas, comemos cachorro quente com coca-cola. Somos gordas ou magras, temos um sorriso banguela, um rosto desarmônico e não somos mulheres sedutoras. Nunca nos fizeram uma bossa nova, nunca nos dedicaram uma poesia, não ganhamos nenhum concurso de beleza. Somos as rejeitadas. No máximo, satisfazemos sexualmente os maridos, noivos e namorados, quando as boas e belas mulheres não estão olhando. Somos as migalhas, o pequeno vestígio do bolo de chocolate.
Caminhamos pelas ruas, somos seres invisíveis. Mas, ainda assim, somos notadas. No consultório do ginecologista, as nossas vaginas são, impessoalmente, acariciadas sem intimidade ou carinho. Sentimos, então, o peso de não sermos belas, quando não podemos ter intimidade com as divas ou com os bons partidos. Os homens nos tornam piadas, somos motivos de riso em bares e em banheiros masculinos.
Você não sabe de mim, faço parte desse grupo de mulheres. Você não vai me chamar de diva, não vai ver o meu rosto na tela do cinema. Eu estava na esquina mais próxima do apartamento, onde você mora. Deitada sobre o asfalto, meu corpo seminu foi esfaqueado duas vezes, depois que um homem robusto, muito bonito, me estuprou.
Caminhamos pelas ruas, não percebemos que, ao nosso lado, existem pessoas. Eu era uma pessoa, mesmo sendo uma mulher feia. Fui estuprada, porque eu era uma mulher, andando no meio da noite, sozinha, não usando roupas decentes. Eu achava que ninguém iria perceber o meu corpo, mas o estuprador percebeu. Não posso nem dizer que me senti humilhada novamente, porque você vai dizer: “você devia ficar feliz! Afinal, nunca vi uma mulher bonita reclamar que foi estuprada. É só mulher feia”.
Você vai dizer isso, mas nunca me notou, porque eu era invisível, não era uma mulher que você convidaria para jantar. Agora, não existo mais. Não sou mais uma presença desconfortável à sala de estar. Mas, você vai repetir: “você devia ficar feliz! Afinal, um homem apareceu na sua vida e te notou”. Não foi um homem que me notou, foi um estuprador que me matou.
Caminhamos, invisíveis, pelas ruas. Somos mortas no asfalto todos os dias. Não pense que é uma realidade morna, não pense que é menos por que foi com uma mulher feia. Você não me conhece, não me trate como um animal. Os meus sofrimentos são verdadeiros, eu fui humilhada, porque eu existia. Ninguém vai recordar que, um dia, uma mulher feia morreu no asfalto esfaqueada por um homem bonito; depois do estupro, ela agonizou e bufou sangue.  Mesmo assim, você vai dizer: “você devia ficar feliz! Nunca vi mulher bonita dizer que foi estuprada”. Eu não posso mais ficar feliz ou triste, porque eu não existo mais. Não sou que escrevo essas confissões, não posso mais ter sentimentos, não posso discursar por mim. Mataram-me, porque eu fui uma mulher andando sobre o asfalto. O estuprador não sabia que eu era uma mulher feia, ele me estuprou, porque eu era uma mulher no lugar errado e no momento errado. Mataram-me e, agora, não sou mais uma mulher concreta, eu não existo mais. Do dia para noite, me tornei uma mulher morta sobre o asfalto. Você não notou de novo, porque eu era uma mulher feia.


quarta-feira, 19 de março de 2014

Decepção de escritora

-ele me olhou ontem
- e aí?
- eu fiquei paralisada, não sabia o que dizer. Você sabe que não sou boa em esconder sensações, fiquei sem voz
- ele falou com você?
- não. Eu falei com ele. Me aproximei, disse o meu nome e peguei o número de telefone dele. E depois, depois, bem depois, sabe, de várias tentativas, nós nos encontramos.
-e, aí, o que aconteceu? Vocês ficaram?
- ele olhou pra mim e me disse: “você é uma moça muito aristotélica”. Eu fiquei muda, meus olhos endureceram. Foram palavras duras, entende. Saí, de repente, da mesa e disse: “eu não sou aristotélica”. Ele repetiu de novo a frase: “você é muito aristotélica!”. Eu me senti ofendida por ele
- você foi embora?
- óbvio que eu fui. Não vou sair com um cara que diz pra mim que sou uma moça aristotélica. Perdi o interesse,  foi assim que eu me desapaixonei por ele
- não se viram mais?

- nunca. Espero nunca mais ver ele. Onde já se viu? Me ofender assim! 

segunda-feira, 10 de março de 2014

A memória de Pablo Barbosa Cubas

Não é por estar na sua presença meu prezado rapaz
mas você vai mal/ mas vai mal demais 
[...]
e se vai continuar enrustido
com essa cara de marido 
Por trás de um homem triste
há sempre uma mulher feliz 
atrás de uma mulher mil 
homens sempre tão gentis
Deixa a menina sambar, rapaz! 
Chico Buarque. Deixe a menina 

O que eu posso dizer? É uma história comum. A última coisa que eu me lembro ver: foi a paisagem na minha janela. A imagem da minha visão era inteira de prédios, pessoas selvagens tropeçando umas as outras e um céu, tão poluído, que já tinha perdido o tom azul puro. Há muito tempo, não tinha recordações sobre o sabor do mar, o cheiro de ar verdadeiro e noções de pessoas que olham umas as outras, principalmente, quando andam banalmente.
Quem eu sou? Desculpa, minhas amadas mulheres, essa não é a pergunta certa. Se fizeram essa pergunta, erraram. As perguntas certas são: o que eu estou fazendo? Pra quem eu faço o que eu costumo fazer sempre? Eu sou jornalista investigativo, moro no centro de São Paulo, sempre morei sozinho.  Trabalho no Jornal “Notícias toda a hora”, uso o pseudônimo Gregor Fernandes, é o meu nome falso para proteger a minha vida pessoal. Os meus textos são muito lidos pela população. Por que? Porque eu escrevo as coisas que a população quer ouvir.
Por exemplo, conheço uma cantora travesti de punk rock, o nome dela é Aline, mas ninguém quer ouvir o que ela pensa do mundo. O que as pessoas querem ouvir? É a morte dos travestis, é como eles não conseguem sustentar a própria vida, simplesmente, porque existem do que jeito que eles existem. Esse exemplo é bem simples, mas tem outros.  Eu conheço um negro chamado Erik, ele é leitor de Proust e conhece quase tudo a respeito do impressionismo francês no piano. Mas ninguém quer ouvir a vida de um homem culto e o seu conhecimento de arte, principalmente, se esse homem não é um homem erudito branco. Por isso, eu escrevo sobre a morte de pessoas, miséria e decadência, os meus leitores ficam eruditos em cima de miséria e destruição. Na maioria das vezes, os leitores de jornal ficam eruditos em cima da destruição de pessoas densas. A vida não é justa, minhas leitoras, a miséria é um atributo da beleza e da inteligência. Não fiquem tristes, moças bonitas.
Quanto a mim, não posso dizer que já me importei com o mundo. Mas também não posso dizer que nunca me importei. Eu sempre dormi em paz em um apartamentinho, pagando as contas do fim de mês e comprando boas roupas. Sempre dormi bem, tenho boa alimentação, sou até vegetariano, nunca tive pesadelos.
Minhas lindas mulheres, peço que não criem um juízo errado de mim. Ainda não contei a minha história. Eu sou um homem canalha. Descobri isso depois que eu morri. Quando isso aconteceu? Alguns meses, seis ou oito; não sei direito. Perdemos a noção do tempo depois da morte, aprendemos a nos lembrar e, depois, (é o que dizem) esquecemos de tudo. De algum modo, esquecer é uma dádiva. Ainda bem que todos nós, um dia, inevitavelmente, seremos esquecidos.
Eu estava no meu quarto. A padaria e um prédio foram as últimas que eu vi, quando eu era um homem vivo. Conversava com Angélica Natel, ela tinha me dito:
- você nunca amou ninguém, você só amou você mesmo. Você é um canalha! – Angélica, talvez, bateu a porta do meu apartamento com raiva e foi embora. Ela cambaleou e pediu um Táxi, voltou para casa que ela tinha construído com o seu primeiro marido Matheus. Angélica queria estruturar a família dela, era uma mulher de 36 anos que estava perdida, o esforço em construir uma imagem, um casamento, uma casa e um mundo não significava nada. Ela era uma mulher sozinha no mundo, nunca tinha se dado conta disso, sempre se entregou demais para ser amada. Nunca amou.
- eu nunca disse que eu era teu – acho que eu disse isso na nossa última briga
- mas você disse, eu me lembro, - Angélica já chorava copiosamente, desnuda. Era uma linda mulher triste, pedindo para não ficar sozinha, - eu me lembro. Você disse que me amava, que não ia me abandonar. Agora, você tá me abandonando.
- eu não estou te abandonando, Angélica. Eu só estou sendo a pessoa que eu fui sempre.
- você me prometeu – gritava Angélica.
- eu prometi que ia amar você. Eu te amo muito. Mas não te prometi exclusividade
- é isso então? Vai me largar por aquela vadia de vestido preto
- ela é minha amiga
- eu também fui sua amiga antes de ficar com você
- foi uma consequência
Angélica estapeou o meu rosto. Caminhei até a janela e vi o prédio:
- vai embora – eu disse
- você nunca amou ninguém. Você só amou você mesmo
Fiquei em silêncio. Angélica bateu a porta e foi embora. Cambaleando, quebrou o salto, andou descalça pela rua. Era a mais triste de todas as mulheres, procurando um táxi para ir embora.  Ela desapareceu quando entrou no táxi, o automóvel levou a mulher para sua doce prisão domiciliar. Então, eu vi a padaria.
Entraram no meu apartamento, só ouvi os sons de tiro. Morri.
Um dia antes da minha morte, conversei com a minha melhor amiga Billy Carrey. A risada de Carrey era o traço que a distinguia dos outros mortais, cabelos longos, ruivos. Era uma mulher deslumbrante, provavelmente, seria uma namorada, talvez, até esposa. Mas nós dois tínhamos tudo em comum, inclusive o gosto sexual. Gostávamos muito de mulheres.
- você sabe que eu gosto de todo o tipo de mulher
- eu sei Pablo, sei sim – Carrey disse, - você é currículo! Querido, você é currículo pras mulheres
- essa história de currículo! Só você mesmo – eu respondi rindo – enfim, eu gosto de mulher:
- as feias e as bonitas – (Nós, eu e Carrey, falávamos juntos), - não importa, o que importa é mulher
- como vai com a Milena? – eu perguntei
- ela sumiu. Está com problemas com a mãe. É uma pena, gosto muito dela, Pablo, gosto mesmo. Mas essa situação é muito tensa para nós duas, a mãe dela é uma louca, já ameaçou a filha de morte, já me ameaçou de morte. Ontem, a mãe da Milena tentou se matar. A Mileninha está arrasada, eu não sei o que fazer. Me sinto impotente.
- nossa Carrey! Que barra pesada!
Carrey se despediu de mim, foi embora, beijou o meu rosto.
- você! Meu querido, tem muita mulher do seu lado, tem mulher demais – ela riu, - eu fico até confusa. Se cuida, rapazinho, se cuida!
- você também! Mas onde você vai?
- tô atrasada, tenho que convencer um cliente a comprar um apartamento e eu já devia estar na Vila Maria. Mas, depois, você me conta sobre a sua vida, eu quero saber como está esse coração, eu quero saber como anda essa cabeça confusa. Beijo, querido!
- tchau Carrey!
Carrey foi embora, caminhou até o carro vermelho dela. Era, de fato, uma mulher deslumbrante. Nesse dia, eu falei com um dos meus grandes amores, mesmo um homem como eu que assume esse estilo de vida, tem um ou dois (ou mais) mulheres inesquecíveis que marcaram a trajetória. Era uma mulher comum, o nome dela era Sofia.  Provavelmente, o homem que tocava as costas nuas dela era o novo namorado, estava apaixonada. A paixão é um bom ingrediente para beleza.
O novo namorado não era muito atento. Sofia me percebeu, olhou-me desafiante. Eu senti o desejo original por aqueles finos lábios, belos e únicos. Não resisti, abracei minha velha conhecida e não perguntei como estava, perguntei como sentia. Sofia respondeu:
- estou um pouco sem saber como responder essa pergunta – Sofia riu
- tá bem? Não tá bem?
- tô bem. Não sei se já disse. Mas tenho a impressão que você, Pablo, usa essas perguntas pra atrair mulheres
- não entendi – eu respondi
- você faz perguntas desconcertantes, porque é o seu maior charme. Você é um homem irresistível mesmo, não por que é belo, nem é questão de grana. É questão de....É questão de... de..
- de quê, meu amor?
- você não quer saber o que as mulheres querem. Isso é engraçado! Antes de conhecer você, eu tinha tanto medo, me sentia tão insegura, não sabia ficar sozinha de jeito nenhum. Quando eu te conheci, tudo mudou, você me ajudou a não ter mais medo
- você tinha medo? Do que você tinha medo?
- eu tinha medo de ficar comigo. Hoje, eu posso ficar com qualquer um, Pablo, posso ficar com qualquer um sem apriosionar. Porque eu gosto de ficar comigo
- fui eu que fiz isso? – perguntei surpreso
- não foi não. Fui eu. Mas você deu um empurrãozinho.
Ela beijou o meu rosto. Eu também a beijei no rosto. Cinco minutos em silêncio, nós dois não nos aguentamos, nos beijamos na boca. O novo namorado viu e ficou enfurecido.
- você tá louco, mano!
Ele disse:
- ela é minha namorada! Ela é minha mulher!
Sofia tentou separar a briga. Eu fiquei quieto.
- você entendeu? Ela é minha namorada, não é sua!
- desculpa, eu não vi a placa na cabeça dela dizendo: “propriedade do Zé ruela”
Eu beijei o rosto da Sofia. Não tenho espírito de homem briguento, sou muito covarde. Sofia tentou acalmar o Zé Ruela, mas era um homem estúpido.
- cala a boca vadia!
Eu disse:
- babaca! Não chama a Sofia assim
Ele tentou socar o meu rosto. Eu soquei primeiro. Em qualquer briga, (como eu já me meti em algumas, porque sempre tem um homem estúpido em algum lugar), é sempre bom ser rápido e dar o soco primeiro. Sofia vestiu o casaco, caminhou para casa. Eu corri atrás da moça.
- vai embora assim?
- ele era um homem idiota, não é mesmo?
- parece que sim – eu disse
- nós, mulheres, nunca nos livramos de um idiota, né – ela disse sorrindo
- me desculpa – eu respondi
- se desculpar, não precisa, dessa vez, você fez um papel que não combina com você
- é! Papel de bom moço e decente nunca foi a minha cara – eu disse
- nunca foi mesmo. Ainda bem. De bons moços, o mundo tá cheio. Acho que é por isso que o mundo anda chato e tedioso – Sofia sorriu.
- isso é verdade! Por favor, Sofia, não deixa que esse babaca faça parte da sua vida de novo
- não vou deixar não – Sofia disse, - mas, você tem razão
- tenho?
- tem sim. Nunca esqueci a cantada que você me deu
- do canalha
Ela riu e disse:
- um canalha é mais feminista que as feministas. Ele vai fazer tudo que não pode com os dogmas sexistas que uma mulher aprende, vai tirar a moça da zona de conforto e, depois, vai pedir para que ela siga adiante sendo ela mesma
- eu falei aquilo de piada – eu disse
- é uma piada com algum fundo de verdade. Tchau, moço!
Sofia beijou minha boca. Ela caminhou pela calçada escura, o seu belo corpo desaparecendo entre a escuridão. O humor é uma arma contra os opressores, sem dúvida, é a arma mais impactante, porque só entende o humor quem compreende a cultura e o imaginário que vive. Essa piada de canalha só entende uma mulher que aprendeu o que é viver com dogmas sobre o que é ser mulher. Por isso, escrevo para elas, às vezes, escrevo para seduzir e tirar as suas roupas; às vezes, eu escrevo, porque eu quero transformar o mundo em um parque de diversão de canalhas.
Se um homem canalha é perigoso para nossa cultura, imagina uma mulher canalha. Sofia tinha aprendido muito com o nosso passado, eu a amei tanto, ela me amou tanto. A nossa escolha foi, em respeito ao amor, nos deixar plenamente livres e nos preocupar um com outro. Sofia caminhou firme e livre.  A beleza não é o único atributo que deixa uma mulher irresistível, a liberdade é um atributo ainda mais sedutor. Um babaca tem medo de mulheres livres, mas perde a cabeça quando encontra uma mulher como Sofia, porque o que ele quer não é a Sofia, ele quer a posse da liberdade dela. Um babaca sente ciúmes é da maneira idiossincrática que uma mulher, como a Sofia, vive a vida; ele não a deseja, ele deseja a vida da Sofia, deseja a liberdade e não a pessoa. O poder é a pior droga, nós, homens, aprendemos serem homens por causa desse vício, nos embriagamos de dogmas e viramos exatamente o que somos. Babacas.
Eu me libertei dessa condição, não sou um babaca. É importante fazer essa distinção, uma coisa é ser um babaca, outra coisa muito diferente é um homem canalha. O Zé Mané do ex-namorado da Sofia tentou correr atrás dela pelas ruas, eu estava no meio do caminho, ele me bateu. Eu apanhei, a polícia apareceu logo em seguida.
- ele tentou agredir uma mulher
- você quer deixar uma queixa
- quero sim
O ex- namorado Zé ruela da Sofia foi preso pela polícia. Pelo que sei, Sofia arranjou outro namorado. O Zé ruela ficou triste, chamou a moça de vadia, de vagabunda e falou para um amigo meu assim: “ela não trepa bem!”. Espalhou a notícia. Sofia estava feliz, mesmo com outro namorado, ela nunca me abandonou, nunca se importou e caminhava firme. É, meu amigo Zé ruela, você precisa entender que a mulher sorri com outros homens e você só vai espalhar notícias falsas. Você, Zé ruela, lambuzou-se de poder e masculinidade. Você, Zé ruela, é só mais um babaca solitário e Sofia me disse que você quando criança, para comprovar o seu poder, media o tamanho do seu pau em frente os seus amigos. Além de babaca, você é um inseguro, não tenha dúvidas que ela usou essa insegurança para tirar um sarro. Não tenha dúvidas, Zé ruela, ela atingiu o objetivo que queria. Transou com você e foi embora para sempre. Você acreditou que o seu pau era grande, bonito e gostoso. Você acreditou, Zé Ruela, mas ela só encheu mesmo a sua bola e massageou o seu belo ego previsível. Zé ruela seja um babaca, fica mais fácil para mim, porque enquanto existir homens assim, os canalhas ainda terão uma função no mundo. Eu vou comer as suas mulheres e elas vão aprender a ser exuberantemente livres.
O namorado da Sofia foi o último Zé Ruela que enfrentei corpo a corpo. Angélica Natel, a última mulher da minha vida, tinha um marido muito ciumento. Eu suspeito que foi esse homem que me assassinou. Mas não tenho certeza. Na primeira cena, eu disse que a última coisa que eu vi foram um prédio e uma padaria. Quando ouvi um barulho incompreensível e morri. Foi um tiro no meu coração.
Angélica recebeu a notícia pelo telefone. Sofia recebeu a notícia por Carrey. Elas se encontraram no meu enterro.
- você conhecia ele? – perguntou Angélica
- conhecia sim – respondeu Sofia
- você foi mais outra vadiazinha dele?
- eu fui uma mulher na vida dele. Eu amei ele
- eu amei ele. Eu amei ele como ninguém, entendeu, eu fui a única que amou ele de verdade. Você foi só outra vadiazinha que ele usou e jogou fora – disse Angélica
- desculpa, moça, eu não vou fazer essa cena ridícula. Eu vim me despedi do meu amigo
- Sofia, vem cá – disse Carrey, - deixa ela se matar aí
- pera aí! – disse Angélica, - vem cá, por favor
Sofia hesitou e disse:
- Carrey, tá tudo bem, eu não vim aqui pra fazer cena ridícula nenhuma
- você vai ficar bem?
- vou sim – respondeu Sofia
- você tratava ele como amigo? – perguntou Angélica
- eu vou tratar um homem que amei como? Como um inimigo?
- eu também amei ele
- não duvido. Não vou brigar aqui pra ver que amou mais ele. Nós duas amamos o mesmo homem
- eu sou casada
- cadê o seu marido?
- tá preso. Acho que, talvez, foi ele que assassinou Pablo
- ele machucou você? – perguntou Sofia
- tentou me bater. Na verdade, ele já me bateu algumas vezes, eu gostava dele, sabe, gostava mesmo. Sempre desejei construir família, ter filhos e uma casa.
- um sonho comum
- pois é, eu sempre sonhei. Ele me deu tudo isso, mas me tratava como um animal, eu obedecia. Teve um dia que eu tava sozinha numa festa, usava a minha melhor roupa, ele não notou como eu fazia tudo aquilo pra ele. Ficava horas na frente do espelho para ser uma mulher bonita. Adivinha, então, quem notou isso? Pablo
- Pablo Barbosa Cubas! – Sofia riu
- ele me chamou de bonita, me deu flores, me tratava como uma princesa, eu me sentia uma mulher especial. Fiz tudo para ele, dei tudo pra ele, esperando que ele me libertasse de um casamento e uma situação desastrosa
- ele não te libertou?
- não, ao invés disso, ele morreu
- bom, ele nunca teve talento pra príncipe encantado
- mas ele me prometeu
- ele prometeu te amar, ele não te prometeu a liberdade. A liberdade vem sempre de dentro pra fora, primeiro. Uma pessoa livre não aprisiona ninguém, ao contrário, deixa livre para escolher. É claro, ter uma consciência é um privilegio, ter subjetividade, então, minha querida, é luxo! Luxo!
- por que você tá falando isso pra mim?
- porque ele te amou, por isso, eu também te amo. Por isso, eu te respeito
- mesmo que eu te odeie por ele ter te amado também, mesmo eu te maltratando?
- mesmo assim
Sofia beijou Angélica no rosto. Angélica se sentiu humilhada, chorou apenas. Eu  sorri, finalmente, eu morri bem. Minhas queridas leitoras, eu sou o homem mais feliz do mundo, assassinaram-me literariamente. Há anos na história da literatura ocidental, lindas mulheres morreram, os autores sempre mataram essas figuras densas. Julieta morreu para se libertar e libertar Romeu, Ana Karenina suicidou nos trilhos do trem por conta de amor, Lady Macabeth enlouqueceu porque também queria o poder dos homens, Ofélia sabia demais, morreu ambiguamente. Sofia não morreu, vive libertada de dogmas sexuais. Angélica é uma mulher viva e, quem sabe, um dia se liberta desse imaginário genocida que matou milhares de pessoas por conta do gênero feminino. Vocês, queridas leitoras, ouviram a história do primeiro homem assassinado na literatura. Também ouviram a história de duas mulheres que permaneceram vivas e continuaram em frente.

Eu sou um homem morto.