quinta-feira, 27 de junho de 2013

O Bolo de Chocolate

Tinha abandonado a sua cidade natal chamada Talera. Estava tomando um copo de água, soube através de uma carta de um acidente de carro que houve com Marcelo. Estava fria, um pouco calculista, tentava compreender o acontecimento, esqueceu completamente de chorar. Ela olhava o chão sem enxergar a cor, pensava as coisas que tinha vivido.
- Não quer tomar um banho Manuela? – perguntou a sua mãe
- não
- não quer comer um bolo de chocolate?
- não
Depois de um profundo silêncio.
- Filha, o que você quer?
- mãe, vai fazer o bolo de chocolate – pensando em como usaria as palavras para não transparecer a profundidade de suas emoções, disse com uma banalidade – quero comer bolo, mas antes vou tomar banho.
Saiu da sala com a cabeça cabisbaixa, a Mãe sentiu um tormento no ar, mas aprontou-se rapidamente em criar um bolo e sentiu uma tristeza que não soube exprimir enquanto preparava o doce. Desejou, de certa maneira, sentir o sentimento no lugar da sua filha, mas soube, imediatamente, que ela jamais comunicaria o sentimento por completo, só fragmentos deste, apenas um diálogo bruto comunicaria o amor que sempre teve por Marcelo e nunca assumiria diante de ninguém. O silêncio era o sinal mais bruto de sua tristeza que a sua filha não queria viver.

No banho, Manuela decidiu orar e isso pareceu algo tão estranho à concepção de mundo dela que quase desistiu. Criou tantas espécies de pensamentos sobre Deus que acabou por decidir que nunca mais falaria essa palavra para não enlouquecer com dogmas e com ideias de futuros eternos. Uma solidão efêmera já lhe parecia muito grave, uma eterna solidão, então, lhe pareceu profundo demais. O Deus dos Católicos sempre lhe deu muitos temores, nunca foi muito sedutor rezar para ele.
Entretanto, ela tinha uma estranha vontade de rezar; talvez, para ouvir a sua voz, talvez, para dialogar consigo mesma ou, talvez, para não se esquecer do rosto e das brincadeiras que teve com Marcelo. Ele era um menino muito tímido, morava ao lado de sua casa, não era um rapazinho bonito, mas dava uma sensação estranha, nunca entendeu o motivo que fez ficar atraída por ele, mas ficou e não teve controle, viveu isso com tanta intensidade e entrega que até imaginaria viver sem ele, no entanto, não gostaria de vê-lo com outras pessoas. Manuela cresceu com Marcelo como uma reminiscência da vida adulta que era trazida por um fragmento estranho, os próprios homens que se envolvia relembravam a relação que tinha com Marcelo na infância; e, principalmente, comer amoras era um truque do passado que surgia de repente no presente e lhe trazia saudades. Ao menos, sentia que era algo que jamais viveria novamente e era uma experiência irrepetível, nunca lhe passou na cabeça a possibilidade da morte corporal do seu antigo amigo de infância. Imaginar a morte dele antes de completar vinte e quatro anos, por conta de um acidente de carro, era algo que, para ela, era inimaginável. Marcelo não existia mais.
- Pai nosso – reza baixinho, mas raciocinava se eram essas, de fato, as palavras que gostaria de ouvir, - pai nosso? Por quê? Morrer pessoas assim que, de certa maneira, sei lá, foram importantes, não devia ser lícito. O que estou falando? O que estou falando? Devia estar rezando o pai nosso. Mas, não gostava dele, amava ele, queria ele para mim, do mesmo jeito que não suportava a ideia de ver ele novamente, de encarar ele, de dizer as coisas que eu pensava, de saber que a gente não era mais crianças. Mas, mas, ele não está aqui. Ele não está aqui, estou eu e essa parede. Estou nua, pensando novamente em um cara que, provavelmente, não sentiu um terço do que eu senti por ele, mas também não sei até que ponto eu senti essas coisas. Devia rezar o pai nosso, devia rezar o pai nosso.
Ao trocar de roupa, Manuela procurou uma fotografia do rosto de Marcelo, lembrou-se que não tinha fotografias dele em casa, todas as fotos estavam na casa de sua mãe. Ouviu o grito de sua mãe chamando para comer bolo de chocolate, parecia uma cena quando era menininha, quando a sua mãe chamava por ela para comer e descia correndo as escadas para contemplar os chamados que ouvia da Dona Rosa. Um silêncio trepidante climatizou o ambiente, elas ficaram horas sem pronunciar uma palavra sequer. Manuela ficou com vontade de perguntar se a outra mulher tinha uma fotografia do Marcelo, mas perdeu a coragem de perguntar quando percebeu, de repente, que olhar as fotografias era, talvez, o pior tipo de morte.
-filha, - dizendo muito sem graça, - posso fazer uma oração para você?
- pode mãe – meio sem graça, quase dizendo não, aceitou ouvir. A mãe pegou a sua mão direita e pediu que ela fechasse os olhos, ela aceitou e obedeceu.
- Filha, espero que um dia você acredite em Deus, te desejo que você escute a música das constelações, espero que um dia você tenha uma imaginação menos confusa, que um dia aprenda a orar e que sonhe sem perder a noção de realidade. Eu te desejo que namore com anjos e com demônios e que vive tudo aquilo que não vivi e um dia invejei em vida, eu te desejo o amor em todas as formas para que você não perca a vontade de continuar acreditando na vida, te desejo uma felicidade que poucos vão invejar, te desejo olhos de tigres e inteligência de raposa para tomar atitudes, te desejo orelhas com sonhos, pés com fome, te desejo curiosidade em tudo que um dia vai viver e desejos. Te desejo uma luz muito grande que você sequer vai sentir e Deus vai te dar.

Manuela não respondeu, a imaginação da sua mãe era suficientemente generosa para as duas e, por um momento, esqueceu que era forte e caiu em um mar de lágrimas. Ela ficou abraçada por tanto tempo com a sua mãe e decidiu não brigar, pelo menos hoje, para provar que a imaginação cristã da mamãe era perigosa, pois poderia facilmente cair em discursos políticos intolerantes. Manuela se esqueceu dos discursos políticos e vivenciou, pela primeira vez, uma espécie de fé criada através da imaginação de sua mãe. Agradeceu apenas, esquecendo-se completamente do rosto de Marcelo e tendo consciência que as suas mãos eram firmes e finas. 

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Uma brincadeira de gosto

I
As duas mãos, pequeninas, agarrando com fúria aquelas frutinhas pretas, Catarina come e saboreia cada pedaço de gosto.
- Catarina! Catarina!
- que é mãe?
- vem lavar louça!
Alimentando-se com pressa e devagar descobre o gosto que a vida parece ter. A vida é uma delicadeza insuportável como descobrir o gosto da jabuticaba. Um gosto que até então era um mistério, antes de colocar na boca e sentir, ela só tinha a sensação da fruta nas mãos, mas o sentimento de jabuticaba dentro dela era só uma falta. A fruta era o seu espaço vazio no corpo.
- Catarina! Catarina!
Ela colocava cinco, seis e sete jabuticabas de uma vez na boca. Estava com preguiça e, nesse momento, não queria lavar louça nenhuma, Catarina queria todas essas frutinhas pretas, estava gulosa pela sensação do gosto na boca.  Estava com fome e comia, comia e comia. Às vezes, comia tanto que esquecia a sensação do primeiro gosto. Esquecia, de repente, dois minutos atrás, a sensação da última jabuticaba que engolia inteira. Cada frutinha que se colocava na boca, sumia para sempre. Ela se esquecia de tudo e continuava comendo.

II
As jabuticabas não acabavam, Catarina roubava todas na árvore do vizinho, ela tinha a sensação de eternidade e perdia o medo da mãe que, aos poucos, se aproximava da árvore e gritava umas ou três palavras de ordem para menina descer e lavar louça. Catarina, mesmo alta e acima da cabeça da mãe, desceu na árvore com a boca suja, parecendo um animal que precisa ser adestrado.
- vai limpar essa boca menina! Está toda suja! Vai pentear esse cabelo! Vai lavar louça! Vai tomar banho!
Catarina olhando de baixo para cima, olhinhos curvos e miúdos, olhando o gigante materno diante da sua frente. Limpou a boca com braço esquerdo, sem pudor de passar a sujeira da jabuticaba na pele, na roupa e na calça, balançou a cabeça e fugiu de outro grito. Depois, fugiu de uma chinelada. Depois, passou a ouvir grunhidos e palavras de ordem da mãe. Ela foi tomar banho, antes de lavar louça.
E tomando banho, apenas. Sentiu o sentimento da jabuticaba como efêmero e que só poderia fazer isso se desobedecesse novamente sua mãe e o vizinho. Mas, sentiu a jabuticaba como um silêncio, algo que a memória faria para sempre um truque de alegria. Catarina sonhava com a sensação da boca e sentia a água atravessando os poros, nunca mais seria uma menina, seria um animal quando pensasse novamente no prazer de comer a vida com as mãos.


segunda-feira, 17 de junho de 2013

Estudantes, Protesto e Brasil

Introdução

No Jornal “El País”, o colunista Juan Arias termina com uma pergunta bastante relevante depois de um levantamento sistemático sobre questões do momento que o país Brasil atravessa: “Alguém pode negar a um jovem o direito de sonhar?”. Reinaldo de Azevedo e Cia. dizem que essa manifestação tem o aparelhamento do PT e dos esquerdistas-marxistas riquinhos que aprenderam no colégio com um professor de história hipomarxista sobre a necessidade de reivindicar o direito pelo oprimido.
Na análise de Juan Arias, o autor coloca que temos hoje um país muito diferente de anos atrás. A mudança do quadro histórico começa com a possibilidade dos filhos de pobres que nunca pisaram numa faculdade estarem nas Universidades pela primeira vez; tiraram os pobres da miséria; aumentaram o poder de consumo das empresas e do povo. Por que, então, essa manifestação no Brasil agora que esse país está prestes a viver uma Copa do Mundo e fazer uma nova história a partir de agora? A resposta está aí: a possibilidade de fazer uma nova história gritando nos olhos dos jovens e dos cidadãos brasileiros.
No Movimento de 68, a juventude queria mudar o mundo, hoje, eles querem coisa diferente. Tomaram consciência do poder público. Não querem ser transportados como um burro de carga, atravessar São Paulo correndo riscos de serem avacalhados por todo o tipo de violência que estamos expostos; porém, a pior violência é aquela que a história desse povo esconde, é a voz dos braços repressores do Estado. Não é somente a Polícia Militar, que é a última e a mais eminente de todos nós, pois também são trabalhadores e devem sofrer uma espécie pior de vergonha, quando cumprem o seu dever.
Essa frase “cumprir dever” é perigosa, porque repetimos todos os dias. Repetimos quando encaramos a nossa rotina, quando estamos dentro do ônibus, quando nos acostumamos com a nossa aparente felicidade. Não é uma frase dita somente por policiais, é uma frase dita também por estudantes, professores, médicos e enfermeiros. É preciso cumprir os nossos deveres, seja lá o que isso significar, mesmo que seja corrompendo a liberdade alheia. É o que acontece, às vezes, dentro de manifestações políticas quando vemos manifestantes revelando o pior do humano que existe em todos nós.

Sobre direitos e privilégios

É muito difícil falar de educação, estamos contagiados ainda pela figura mítica do movimento estudantil de 68 e a luta contra Ditadura Militar, recebemos uma série de novidades sobre o que consideram o nosso país e um passado nostálgico que parece surgir no ouvido dos jovens como uma espécie de fantasma ou cobrança que nunca teremos noção, apenas podemos imaginar o passado. A difícil tarefar de um historiador está em trazer a experiência do passado para nós como uma experiência real e presente na vida.
É mais difícil falar de educação, quando a educação estadual permanece a mesma por vinte anos. Quando o Estado simplesmente abandona o professor e com isso instaura a guerra entre professor e aluno. Quando a escola parece formar as mesmas espécies de estudantes, analfabetos funcionais e aparentemente sem cultura. (Até hoje, não sei como alguém tem coragem de chegar ao outro e dizer que uma pessoa é sem cultura. Ninguém é sem cultura). Quando o sistema burocrático parece cada dia mais modernizar e emperrar todas as possibilidades simples; quando o sistema, cada dia mais, cria pessoas medíocres. Mas, afinal, estudar numa faculdade pública é privilégio, estar dentro de um ônibus lotado é normal, passar por humilhações para ver o seu filho preso é medida de segurança, dormir no ônibus por causa do trânsito que não anda é normal, não ter médicos nos hospitais públicos é normal e etc.
A lista de normalidade é longa. A Constituição Civil dá direito ao cidadão a possibilidade de estudar, ter saúde, estar seguro e ter direito de ir e vir. No entanto, os impostos são pagos todos os dias, a educação de qualidade ainda continua sendo privilégio, o direito de ir e vir é um tanto estranho a todos nós porque pagamos por isso e nem é seguro; trabalhar todos os dias, enquanto diminui a qualidade de vida.  O que é preciso lutar todos os dias, isso é absolutamente estranho que ainda precise ser lembrado, é o direito do cidadão reivindicar o seu espaço numa esfera pública, não é nada ilegítimo, por mais que a elite mediática e outros colocam a aparência ilegítima nas ações de qualquer manifestação política. O espaço público é de todos os cidadãos, não é de uma minoria, a democracia é do povo e não de um conjunto de gestores. Esse direito devia ser inquestionável.

Sobre Estudantes e Trabalhadores

O protesto foi feito por estudantes e jovens, mas não só. É muito engraçado que até hoje quando se escuta a palavra estudante, isso ganha uma dimensão quase perturbadora. Se for estudante de Universidades públicas, então, ganha o mesmo sentido depreciativo que as palavras “vagabundo” e “puta” estranhamente possuem. Isso é um fenômeno engraçado, ao mesmo tempo, que é um grande privilégio não pagar mensalidades numa faculdade. Um estudante que pertence a uma Instituição Pública não pode reclamar, afinal ele não paga, é tudo riquinho, não faz nada. Não é mesmo? Eles não têm direito de fazer isso, eles não são nada, são só estudantes, jovens que ainda não cresceram.
Esse discurso: “eles não são nada, são só estudantes, jovens que ainda não cresceram”. Isso é muito familiar com um discurso presente nas escolas públicas quando os professores se referem aos alunos da seguinte forma: “vocês não são nada, eles são muito ruins, tudo sem educação, sem cultura, tudo péssimo, para conversar com eles tem que ser cabeça aberta”. Dentro de manifestações é possível ver o pior do humano, mas observa direito, porque dentro da rotina escolar e dos setores públicos, é possível encontrar pessoas sem vontade e estúpidas do mesmo jeito, também é visível ver o pior do humano.
É óbvio que tudo é uma questão de perspectiva. A pessoa pode ficar quatro, cinco, seis ou nove anos numa graduação, passando por coisas e vivendo coisas que transforma um jovem em uma espécie de adulto maravilhoso, se o mundo abrisse espaço para isso. Se as academias e as escolas também melhorassem para os jovens. Mas, enfim, algumas coisas no mundo ainda não mudaram, as duas instituições mais antigas da humanidade ainda são Escola e Igreja.  
Um jovem que ganha um salário mínimo no Shopping Center ou trabalha como segurança, porque tem que sustentar filhos, sabe-se lá como, não pôde fazer faculdade por conta dos rumos da vida, é menos jovem por conta disso? Ou é mais adulto? Esse jovem que ganha um salário mínimo e não estuda, seria o trabalhador que a elite e outros escutariam? Não é meio absurdo o privilegiado estudante que possui o direito de viver a sua juventude sem pressa ser mais jovem e menos convincente para falar do mundo do que um adulto que precisa efetivamente trabalhar e deixar os estudos lá embaixo da cama? O que é um jovem, afinal de contas, uma pessoa entre 18 até 25 anos, ou uma pessoa sem grana que precisa efetivamente sacrificar muitas coisas para fazer uma graduação? Ou uma pessoa sem grana de 20 anos que precisa efetivamente sacrificar a vontade de cursar uma graduação porque não tem dinheiro, porque não quer, porque os rumos da vida foram outros? Afinal, um jovem estudante, por acaso, é o quê? Um parasita do governo. Parasita ruim, porque os auxílios de permanência de uma faculdade pública também não mudam, um estudante ganha sempre auxílio no valor de 400 reais ou 150 reais e não é todos,  esse auxílio que não cai no mês certo e ele precisa realmente “ir se virando” como dá. (Isso quando não acontece a evasão nas Universidades públicas, não tenho estofo para falar das diferenças da evasão em Federais e Estaduais).
Observemos bem isso. A educação é um problema, porque vivemos em um mundo desigual. Houve mudanças? Sim, muito curtas e pequenas. Mas, em qualquer esquina, eu ainda escuto: “tudo que é pago ainda é melhor. Tudo que é público, é muito ruim”. Em qualquer esquina, escuto pessoas que não conseguiram marcar sua consulta nos hospitais. Assim, o setor público não melhorou e querer que essas instituições públicas ofereçam um serviço que forneçam qualidade, não é nada do outro mundo. É, realmente, normal e legal.

Protestos

O protesto não é um movimento estudantil, mas poderia ser. Não é um movimento hippie, mas poderia ser. Não é um movimento mediado por um partido político (como diria Reinaldo Azevedo), não é aparelhado pelos petistas, mas é múltiplo partidário. O protesto acontece na rua, ela pertence à esfera pública, quem manda nela é o povo.
O protesto não pode possuir rótulos. Os manifestantes e o povo precisam sempre estar atentos para verdadeira mensagem de toda e qualquer manifestação política. A violência dos participantes do movimento não é a causa, a mensagem não deve ser essa, o debate não é esse, a Policia Militar agredindo manifestantes com expressões bélicas superiores a vinagres e latas de lixo, isso sim é motivo de debate, porque não garante segurança e instaura o caos. O motivo sempre precisa partir da causa que o movimento defende. A causa é o real motivo desse encontro, que é um encontro dos paulistanos.

Conclusão

Alguém pode tirar de um cidadão paulistano e brasileiro o direito de sonhar com um mundo diferente que ele conhece? Os paulistanos, os cariocas e o mundo estão provando que os sonhos podem ser expostos na rua e a luta por eles pode ser considerada algo normal na vida das pessoas. Fiquemos sempre atentos com as nossas contradições e tentemos, de certa maneira, colocá-las no debate. Entretanto, não deixemos os nossos sonhos ruírem novamente por conta de dois ou três parasitas aparentemente libertários ou intelectulóides da nossa mídia apavorada que não respeitam nenhuma rede de pesquisa realizada por nossos verdadeiros lutadores acadêmicos do nosso país.
Se houver engano e equívocos, aprenderemos com eles.

Bibliografia




terça-feira, 28 de maio de 2013

Sobre sampa

Sampa do meu cocozão, todas as minhas virtudes e defeitos são suas e detesto o seu ar fedido do rio de bosta que sempre te atravessa. Cidade feia, de arquiteturas encardidas, poluição que eu acostumei respirar. Meu centro velho que eu me perco e me acho como labirinto. Cidade arrogante, caminham paulistanos que não têm raízes, não sabem o que é São Paulo, porque tudo daqui é tradições remendadas dos migrantes nordestinos e imigrantes coreanos, bolivianos, negros e japoneses. São Paulo, cidade perdida, que se acostumou com o seu labirinto. Teu ar fede minha querida, os meus sonhos se perdem nos seus grafites e nos seus vagabundos que estão nos botecos mais podreiras. Sampinha do meu cocozão, garoa é toda de sangue.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Interrogação


Fico assustada também comigo e com a minha imagem. O mundo me assombra, diante disso, resta apenas um vácuo. Devo questionar esse vácuo? Será que esse desassossego com qual eu me assombro todos os dias tem alguma relação com o meu ser ou com a imagem do meu ser? Desse ângulo, o espanto é tão grande que, ocasionalmente, faz a pergunta mais imprecisa diante das coisas, me leva como um tropeço às questões: quem sou eu? Pra aonde vou? Onde estou?
Interrogar o vazio é o mesmo que pedir conselhos amorosos para parede. Nada acontece. E o nada é instigante e terrível, ele pode ser preenchido de futuro e aprisionado de passado; eu tenho que perguntar também até que ponto essas categorias “futuro” e “passado” respondem a pergunta vital: que horas são? Vinte minutos para viver mais ou para viver menos. Tudo é tão insólito, não agarro nada nas mãos, questiono também a pergunta. Olho a mim mesmo e não tenho certeza se essas perguntas são minhas, se eu as criei realmente ou se falaram para mim que eu deveria fazê-las.
Tenho, então, o sujeito que pode ser, facilmente, embriagado com conhaque ou com a sobriedade de um destino com valores burgueses, - um sonho de família como um comercial de margarida e café com leite pela manhã. Embriago-me com receitas de bolo ou com porres todas as sextas-feiras para esquecer a angústia? Mas que angústia é essa? Sou muito contaminada por sentimentos, não enxergo as coisas por que sinto demais, ao contrário, não enxergo as coisas porque evito sentir.
Sonho contaminado de competitividade e perfeição! Amor impregnado de exclusividade e puritanismo! Frases repetidas, pessoas iguais, discursos proferidos em bares e museus, tudo repetido. De que adianta responder perguntas mutáveis se o mundo me foge dos olhos e os acasos são tão iguais? Minha memória é o peso que carrego no cotidiano, a imaginação é maldita, não vejo solidez e concretude nas relações, as coisas desmancham e o ar fede. O mundo parece sem saída. Evito sentir a angústia, a fuga pelos meus sentidos, iniciando pelo corpo é a melhor saída, não sinto mais as coisas, suicido devagar, roubando de mim mesmo, primeiramente, a minha vontade de viver.
Dessa maneira, volto o pensamento a mim mesmo, não estabeleço mais relação com os outros, estou triste, cansada e morta demais para estabelecer vínculos e buscar uma saída. Não me aventuro criar novas coisas, reproduzo em mim um mito de felicidade e, para respirar, paro de interrogar e de indignar diante das coisas. O mundo não tem saída.
No fundo disso, sozinha no quarto, não olho mais nada, as coisas tendem a ser o que eu olho para elas, fecho os olhos. Fujo, mas, lá dentro, questiono-me: quem disse que os mortos não andam e respiram entre os vivos? De olhos fechados, paro de fazer perguntas, não corro riscos de enlouquecer parando de interrogar, ficarei sã, ficarei sã, ficarei sã... De olhos fechados ainda, repito essas frases como um mantra, sinto sono, caminho até cama, abro os olhos, a cama é exatamente uma cama. Durmo, não tenho sonhos durante a noite, mas acordo diante de uma realidade que mais parece ficção, devo viver um pesadelo.  

domingo, 21 de abril de 2013

O Edifício feio no meio da visão do céu



“ Um chá pra curar essa azia
Um bom chá pra curar essa azia
Todas as ciências de baixa tecnologia
Todas as cores escondidas nas nuvens da rotina
Pra gente ver por entre os prédios e nós
Pra gente ver o que sobrou do céu”
(O Rappa – canção “O que sobrou do céu”)


I
A nuvem do céu nem brilha, perdida no sono da madrugada, observa de cima o caos intempestivo da cidade. Um estrondo no meio da madrugada, respiração ofegante. Estão lá várias pessoas mortas que ninguém mais vai conhecer.
(Porque sim, esse narrador sabe que a pessoa só é considerada indivíduo para sociedade se tiver um conjunto de números que recebe o nome carinhoso de RG. Torna-se também uma pessoa física quando também possui outro conjunto de números chamado de CPF. No final das contas, esse narrador não é uma pessoa de duas pernas, ele é um conjunto de números).
E como um conjunto de números, não consigo falar de um ser invisível, porque a menina negra com a boneca da mão, correndo descalça pelas ruas, que acabou de morrer agora. Ela não é nem um indivíduo, a garotinha não é ninguém, é só o resto de toda a barbárie. A menina que morreu baleada, sequer vai ter uma notícia na televisão. Mortes de mulheres negras são banalidades que não dão notícia. Afinal, além de criança, ela não tem RG, nem CPF, a menina negra não é um individuo para o Estado. Essa criança não é ninguém. Como eu, o narrador,  posso achar que tenho esse direito de onisciência sobre os outros? Como posso contar a história dessa menininha?
Acho que só é possível se eu contar uma outra história em paralelo. Tinha um garoto de onze anos que sempre roubava a boneca dessa menininha e lhe provocava com muita crueldade. Certa vez, ambos correram longe, fugindo dos olhos dos adultos.
Lá, de longe, a menina enxergava um edifício. Uma arquitetura exuberante e gigantesca que enxergava os dois com arrogância. O cheiro que atravessava o ar vinha do rio Pinheiros, sentia de longe uma feiura que submergia no ar da cidade, pairava nas conversas e poluía os diálogos. A menina disse ao garoto: “isso é o prédio mais feio que já vi na minha vida”. O menino respondeu: “meu pai trabalha aí como faxineiro”. Os dois trocaram olhares, ele perguntou: “e o seu? Ele trabalha?”. Os olhos do menino mudaram para uma expressão de maldade: “ah é, teu pai não trabalha, você nem tem pai, você é uma menina feia e estranha”
Distante da brincadeira perversa, estava a mãe do garoto. Ela estava desesperada procurando esse menino pelas ruas. Finalmente, achou-o e gritou por ele: “Pedro! Pedro! Vem cá, agora!”. A menina que estava chupando o polegar, enxergou os dois de longe, deu um sinal de despedida ao menino. Pedro não respondeu, a mãe dele tinha cochichado ao ouvido que ele não deveria brincar com esse tipo de criatura.
A menina olhava agora as nuvens e o prédio, sondava o seu íntimo e disse: “nunca vi algo tão grande e tão feio ao mesmo tempo”.

II
Um desempregado andava no meio da estrada. Ele tinha o mesmo sobrenome que o seu filho Pedro, se chamava Pereira. Esperava o ônibus para voltar em casa, sem perspectivas para um futuro e sem noção de como faria para resolver as coisas hoje. Pedro escutou os passos do pai entrando em casa, sentou no colo dele e percebeu um olhar diferente. No rosto, uma expressão de angústia, o homem olhou para mulher e disse: “eu estou com medo”.
A porta fechou na cara da criança. Pedro só escutou os gritos, não entendeu nada, chorou miudinho, sentiu saudades da menina que brincava hoje de manhã. Aquela garota que a mamãe tinha chamado de criatura suja e porca, dizendo que não tinha a nossa cor. A mesma menina que ele também foi malvado, mas era brincadeira de criança, não era nada. Ela nem vai sentir. Olhou para lua, percebeu que o negro fazia parte do céu escuro, o ar fedia; porém, também dava para sentir melhor a brisa de vento nas bochechas. Pedro viu o prédio, lembrou-se da voz da garotinha e repetiu: “que prédio mais horroroso!”.
No dia seguinte, Pedro assistia a uma notícia de televisão. Havia uma dúvida colocada no jornal da manhã, o pai dele chegou e disse:
- mas tem que colocar. Tem que resolver isso no tiro, a violência só resolve assim. Colocando esses marmanjos pelados com frio e com fome em frente ao muro e metralhando todos eles. Aí, quero ver, se esses vão ter coragem de matar, estuprar e roubar trabalhador como a gente.

III
A menina no começo. Aquela que o narrador disse que não saberia contar a história dela, pois ela não existe. Eu reitero algumas informações: a garota não tem RG, nem CPF, nem mãe e nem pai, nem conta no banco, só uma boneca que achou na rua e um corpo para andar. A menina corre descalça pelas ruas, com alguns regalos de roupas protegendo o corpo dos restos de nudez, que não tem ainda vestígios de mulher. Essa menina olha o mesmo prédio, enquanto passa um homem, passa dois, um carro bem gigante passa rápido, atropelando todo mundo que está na frente. A rua é estreita, a menina quase cai no chão e se machuca.
A menina sente vontade de chorar, mas esquece do choro olhando o céu, o sol ilumina seus olhos. O prédio mascara o azul do céu, impedindo a visão ampla das nuvens que observam a menina andar. Ela não sabe o que vai acontecer daqui alguns minutos, senta então na beirada da calçada e continua olhando o prédio. Repete a frase: “nunca vi um prédio tão feio”.
De longe, o homem que vende cachorro quente, conversando no boteco e tomando cafezinho com seu Irineu, vê uns homens fardados. Esse homem é trabalhador, vende cachorro-quente na rua, tem RG e CPF, mas possui uma outra coisa, possui malandragem. De longe, ele pressente e pensa na cabeça: “esses coxinha aqui, vai dá merda!”.
Os policiais se aproximam de uma molecada, a menina negra olhava esses moleques brincando na rua. Mas, naquele momento, ela estava distraída com a visão arrogante do prédio feio que tanto se exibia. A menina estava tão deslumbrada com a arquitetura horrorosa dessa cidade que não percebeu o primeiro tiro, sentiu apenas uma mão pegando o seu braço esquerdo e falando alto: “corre! Corre!”. Essa mão era do homem trabalhador que eu contei, aquele que tinha um RG, ele era chamado Antônio, mas tinha o apelido de “Tingo”, esse narrador não sabe dizer por que desse apelido, apenas sabe dizer que era assim o nome que as pessoas do boteco conheciam na vizinhança. A menina conseguiu fugir alguns metros da confusão, Tingo morreu protegendo a menina sem nome, mas, logo em seguida, uma bala matou a criança pelas costas. Uma bala assassinou um corpo. Esse tiro foi dado por outro homem, chamado Henrique, menino branco de vinte e dois anos, que tinha uma conta bancária e era o orgulho da família, porque tinha passado no Concurso Público, seria um investigador policial e mudaria de cidade.  Foi o Henrique que deu o tiro. Ele era um indivíduo para sociedade, porque tinha um RG e um CPF, o tiro foi dado por um homem adulto, que era também um conjunto de números como esse narrador. Matou um corpo. A bala matou ninguém.

IV
No dia seguinte, Pedro olhava o Edifício, enquanto tomava o seu café da manhã e ouvia as brigas dos seus pais. O noticiário dizia de uma ação que tinha acontecido próximo das redondezas do Edifício. Henrique segurava a boneca daquela menina que tinha brincado na rua. A mãe se aproximava do garoto Pedro e lhe oferecia café com leite. O pai assistia ao noticiário na sala de casa.
- olha só, é assim que resolve as coisas, matando bandido. Agora sim, agora sim
- viu, amor, com que tipo de gente você tava brincando
- para de falar essas coisas, esse menino não é nem gente ainda, quando ele crescer e virar gente, ele vai entender tudinho que a gente faz. A gente só faz pra proteger ele.
Pedro olhava o Edifício, lambia os beiços e não conseguia perceber as nuvens do céu. Esse narrador sabe que esse menino vai crescer e se tornar gente, vai possuir um RG, um CPF, uma Conta Bancária, melhorar a situação financeira da família e se responsabilizar pelo indivíduo que se tornou. Quando esse menino crescer vai ser um conjunto de números.



terça-feira, 16 de abril de 2013

Sobre o tempo que materializa na gente


Caros amigos,
Isso aqui é uma autobiografia, e como toda (auto) biografia, ela pretende-se ser mentirosa. Por isso, peço para que não acreditem em mim, duvide tudo. Inclusive, duvide isso que eu falei agora, porque cada palavra minha é falsa. Somente essa frase que acabei de inventar é verdadeira, a anterior é uma mentira da verdade que inventei. Porque, meus queridos amigos, o tempo muda tanto, só disso eu tenho certeza, o verbo ser é o único irregular.
Vocês estão me entendendo? Eu não tenho certeza de nada. Sinto saudades apenas, não sei nem explicar de que. Só sinto que houve um momento na minha vida que eu acreditava que estava tudo bem, mas esse momento também é uma mentira bonita que a minha memória inventou para continuar a labuta do meu cotidiano (veja só!), mais feliz ou menos angustiada.
Sabe como o tempo se materializa? Ele se materializa em corpo. Certa vez, andando por São Paulo, revi uma amiga minha de escola, uma dessas que costumava almoçar na minha casa, trocamos olhares, não sei nem se ela me viu. Eu a vi; olhei-a profundamente e como doeu a consciência de que nunca mais a veria novamente. Nunca mais estabeleceríamos contato de novo. O caminho dela sem querer tropeçou com o meu, isso foi um acaso. Irrepetível.  Ela estava diferente, não conversamos, não vamos conversar jamais, ela não é mais a minha amiga. Eu não a conheço. Nesse momento, tive a certeza clara dos meus dias e do meu corpo, o tempo mudara brutalmente.
Me deu uma tristeza nostálgica, fervorosa no olhar. Afinal, ainda não aprendi dizer adeus. Não à minha amiga, aquela que encontrei no metrô e no caminho de volta pra casa, que trocamos apenas olhares e que, jamais, conversaremos outra vez. Dela, eu não sinto falta, sou egoísta demais para sentir falta do outro. Eu sinto falta de mim. Rever um amigo, que outrora foi íntimo seu no passado, é a certeza exata de que o tempo é selvagem suficiente para mudar com o seu cotidiano, tirar os seus amigos, afastar de vez a sua inocência e virgindade com algumas coisas da vida. O tempo é brutal, não porque é dinheiro, mas porque é selvagem. O meu corpo é outro, meu modo de ver as coisas se transformou por conta do desencontro que aconteceu. Por outro lado, me deu uma alegria plena, pois descobri que era impossível o retorno do cotidiano de ontem, era possível agora criar uma pessoa nova, um olhar novo e um ser humano melhor em mim. Aquela amiga que se perdeu no meu caminho, ensinou-me a me encontrar como caminhante diante do desencontro que nos encontrou casualmente. Passei a olhar a vida com novos olhos, meu olhar hoje é tão efêmero.
Rever um amigo íntimo do passado é a forma mais perfeita de materialização do tempo. Certa vez, reencontrei outra amiga, essa eu tive uma briga. Queria nunca mais vê-la de novo. Pensava que ela imaginava as coisas mais terríveis sobre minha pessoa, mas nos reencontramos, desabafamos todos os excessos de adolescência que ainda possuíamos nos nossos corações uma para outra. Distante de mundos, aquela amizade que jurava ser eterna, passava não ser, não a conhecia. Ela não me conheceria de novo. Éramos duas desconhecidas íntimas que um dia visitaram a casa uma da outra, contaram segredos e sonharam juntas. Saudades apenas. Não havia nada para fazer, eu só podia sentir impotência diante do tempo, o único Deus infinito que, cada dia mais, me dava certeza da finitude da vida, mas não por causa da morte, ao contrário, por conta da vida. A vida é entranhada de acasos, desencontros e encontros, curiosamente, a falta de originalidade do meu cotidiano era reafirmada com vários acasos. Todos os dias são iguais e não são.
Seis anos depois, reencontrei outra amiga. Seis anos não são seis dias. Tive um orgulho tão grande e uma alegria tão intensa de revê-la, havia uma mudança brutal nos olhos, no corpo e na voz. Era outra pessoa, tinha se transformado em mulher, desembestou na vida, ela era outra pessoa. Me deu vontade de contar toda a minha vida do início ao fim, mas o presente me ensinara que as histórias são sempre contadas através de fragmentos, a totalidade é sempre impossível. Não era mais a mesma pessoa, tanto que eu me perguntei se era possível continuar estabelecendo relações com esse novo ser humano diante dos meus olhos. Eu estava impossível, não era mais a amiga dela, também era outra. Éramos outras sendo as mesmas.
Caros amigos, o tempo é violento. Revi também outros amigos, fiquei me perguntando seriamente: será que eles sentem tanta falta de mim como eu sinto deles? Ou será que é deles que sentem falta do mesmo jeito que eu sinto falta de mim? Soube da morte de um menino de vinte anos, que tinha nascido em 1992, fiquei com medo de morrer repentinamente. Me deu vontade de ligar para todos os meus amigos, só para ouvir a voz deles. Não aprendi nada com o Drummond, não aprendi nada com nada, não posso esperar nada deles. Não posso esperar nada de ninguém. Só posso amar aqueles que são estranhos a mim, por isso eu amo esses desconhecidos íntimos que um dia eu chamei de amigos. 
Fiquei com tanto medo de morrer, senti uma vontade de ser protegida por todos que um dia me ensinaram a diferença entre um livro e o outro, me empurram pro primeiro beijo, brigariam comigo se eu me envolvesse com os canalhas que me envolvi, me apresentaram Moulin Rouge, falaram que um dia tudo daria certo, me mostraram Bergman, me deram um livro da Clarice Lispector e disseram para mim que o mundo só valia a pena se as relações fossem feitas com generosidade e amor. Eu sinto medo de morrer, por isso senti o impulso de pegar o telefone e falar com todos os meus amigos sobre bobagens e coisas bonitas. Depois, me arrependi. Não liguei para todos os meus amigos, percebi que na minha lista de telefones eu não tinha o número de muitos, não tinha fotografias, não tinha sequer a lembrança do rosto de alguns, me bastava alguns pequenos fragmentos que eu guardei na minha memória sobre cada um dos meus amigos.
Por isso, fiz uma lista, sabendo que a escrita é o pior recurso para guardar a lembrança das coisas que aconteceram. Tentei escrever algo sobre todos eles. Isso aqui é uma autobiografia que pretende ser autêntica, diante de minha solidão, eu não vou poder mais daqui em diante dividir mais nada com vocês. Eu vou deixar os meus rastros na memória de vocês, espero que alguns de vocês lembrem o quanto eu fui verdadeira quando abraçava, quando eu disse uma mentira para alegrar, quando eu contava trechos de textos que eu gostava, ria alegremente ou mesmo quando eu ficava em silêncio ouvindo a história de vocês. De vocês, eu só tenho sobras de mim; o mesmo vale o contrário. Só guardará de mim, aquilo que a subjetividade de vocês, meus caros, gostar de recordar.


De resto é só isso;
É preciso viver a vida no apesar de.
(Clarice Lispector)
Ass: B.L.